A oportunidade de ouro

Vitor Baptista tinha o foco de chegar à F1. Contudo, sem espaço nos monopostos, viu sua carreira mudar drasticamente. Ao seguir para as categorias de turismo, encontrou a oportunidade perfeita de seguir seu sonho de correr na Europa

Nathalia De Vivo, de São Paulo

No automobilismo, algumas vezes além de talento, é essencial estar no lugar certo e na hora certa. Sabendo aproveitar as oportunidades, o piloto vai crescendo de pouco em pouco até atingir o patamar de profissional que se sustenta de sua paixão. E Vitor Baptista bem sabe disso.

O jovem competidor de 19 anos pode ter pouca idade, mas seu currículo já é recheado de grandes números, passagens por categorias internacionais e até mesmo títulos. No entanto, nem sempre teve a vida fácil no esporte a motor, e o desânimo chegou a bater algumas vezes na porta. 

“Três vezes pensei que a carreira tinha acabado. As oportunidades aparecem nas 'piores horas', quando se está com a cabeça confusa, se questionando, e aparecem as oportunidades nessas horas para reerguer a cabeça e acreditar que ainda há um sonho, que posso viver disso”, disse ao GRANDE PREMIUM.

Com início no kart, Vitor logo foi acumulando resultados que o lançaram para o brilhantismo no esporte a motor. Em 2014 ingressou na F3 Brasil Light, categoria que ele apontou como uma das essenciais em seu crescimento como piloto. “Não só a F3 Brasil me ajudou, mas como todos os carros que eu andei desde o kart. Mas a F3 foi, com certeza, a principal, por ter sido o primeiro contato com um carro de corrida de verdade”, afirmou.

 

Vitor Baptista na época da F3 Brasil Light
Reprodução

 

Naquele ano, foi campeão na categoria brasileira, mas aquele era apenas o começo. Em 2015 foi direto para a Europa para disputar a Euroformula Open, defendendo o time italiano RP Motorsport. A experiência é lembrada com muito carinho pelo competidor, que ressaltou a importância de ter corrido fora do Brasil. “Correr na Euroformula Open foi muito importante para mim e para o meu aprendizado, principalmente. Foi minha primeira vez na Europa em uma temporada toda”, contou.

“É um pouco diferente do Brasil. Lá se usa o chassi Dallara, um modelo bem mais novo. A principal diferença foi a adaptação das pistas e do mundo europeu, é um nível bem mais alto que o brasil. O fato de estar em uma equipe italiana me proporcionou aprender o italiano, mais uma língua. Têm vários pontos que consegui aprender nesse meu contato com a F3 na Europa”, seguiu.

No campeonato seguinte, Baptista seguiria competindo na Europa, só que na World Series. No entanto, em uma temporada sem grandes resultados e terminando apenas em 12º na classificação, Vitor viu sua vida mudar totalmente.

O piloto acabou voltando para o Brasil em 2017. Chegou a fazer uma única prova da F3 Brasil, mas seu destino lhe reservava algo muito diferente, inesperado e que se tornaria uma das grandes chances de sua vida.

 

Ao acompanhar o teste de novatos do Brasileiro de Turismo em Londrina daquele ano, Vitor teve a oportunidade de pilotar o carro da categoria de acesso à Stock Car por dez giros. Foi o suficiente para que, no primeiro contato, já se apaixonasse.

Mas antes acostumado com o fórmula, guiar um carro tão diferente não causou estranhamento? Baptista chegou a admitir que, apesar de carros tão particulares, sua adaptação foi tranquila e até fácil. “Minha transição do fórmula para o turismo foi relativamente rápida. Claro, todo piloto que sai dos monopostos, um carro com rodas aparentes, muito no chão, demanda um pouco de tempo para se adaptar. Mas para mim foi uma adaptação muito rápida pelo fato deu já ter tido várias experiências com carros distintos de fórmula e ter tido experiência na Europa com os melhores pilotos, com engenheiros muito bem capacitados, que me ensinaram muitas coisas sobre carros”, falou.

“A partir do ponto que você tem essa experiência de conhecer o carro, de saber as reações, independente da categoria que você entra, você estará apto para poder se adaptar rápido ao carro e poder fazer a leitura dele. Tem aquele um pouquinho de medo e estranhamento no começo, mas eu fiquei muito feliz”, seguiu.

“Essa oportunidade que apareceu no turismo foi quando eu caí na realidade que o dinheiro era essencial para estar na F1, não só talento. No ano passado, em 2017, eu comecei uma nova vida de estar no turismo, então tracei um objetivo. Tive que readaptar o sonho, mas é uma coisa muito louca, esse sonho a gente tem sempre, mas vamos nos readaptando e vendo que existem outras coisas”.

Vitor Baptista
Divulgação

 

E um ponto importante e que teve papel fundamental em sua trilha no mundo do esporte a motor foi o programa da Academia Shell Racing. Após ter feito a primeira etapa do Brasileiro de Turismo e ter conseguido um quarto e um segundo lugares na prova inaugural de 2017, Baptista se viu sem patrocínio para seguir no campeonato.

Com isso, acabou prestando vestibular e sendo aprovado em engenharia na FEI. Já estava pronto para ingressar totalmente na vida acadêmica quando a marca de combustíveis o chamou para fazer parte do seleto grupo de pilotos apoiados pelo programa.

Com resultados expressivos durante o restante da temporada e mesmo perdendo duas etapas, em Santa Cruz do Sul e Cascavel, terminou o ano com uma vitória e somando 114 pontos, encerrando a classificação em oitavo de 28 competidores na tabela.

“A Shell, no ano passado, me proporcionou realizar parte da temporada do Brasileiro de Turismo, hoje conhecido como Stock Light. Eu entrei a partir da quarta etapa no campeonato e com certeza foi um momento muito importante da minha vida, pois foi a entrada nesse mundo do automobilismo voltado para o carro de turismo e não nos monopostos como estava acostumado”, falou.

 

“Com certeza sou muito grato à Academia Shell por ter me dado essa oportunidade e poder ter mostrado meu talento. Apesar de ter feito metade do campeonato, consegui mostrar uma adaptação muito grande com os carros e isso me deu a oportunidade de hoje ter testado e correr com a Porsche. Então, acho que foi um momento muito importante”, completou.

E a vida ainda lhe reservava algo ainda maior. Em conversas com algumas equipes para seguir na que hoje é chamada de Stock Light, no final de 2017 recebeu a notícia de que a Porsche Cup traria para o Brasil pela primeira vez o Junior Program, programa de incentivo para jovens competidores.

Inspirado por seus bons resultados na pista e bastante adaptado aos carros de turismo, Baptista se inscreveu. Após ser um dos 12 selecionados a passar pelo processo que durou quatro dias, Vitor acabou sendo o primeiro vencedor da seleção e como prêmio teve 70% de sua temporada na Porsche Carrera Cup 3.8 custeada.

O piloto explicou, então, todo o procedimento e os passos que teve de enfrentar até ser o grande campeão. “No fim do ano recebemos a notícia de que o Junior Program estava vindo para o Brasil, esse programa que já tem alguns anos na Europa. Tivemos um prazo para mandar o currículo tudo mais e dentre todos os pilotos do Brasil foram selecionados 12 finalistas”, contou.

“E desses todos, foram quatro dias de testes, dentre eles físicos, cognitivos, dois dias de pista, teve simulação de corrida, de tomada de tempos, mostrar o quão rápido você é, quão consistente é. E nesses quatro dias tivemos uma bancada de jurados que contava com pilotos da Stock Car, ex-pilotos, o próprio Dener Pires, alguns jornalistas. Eles nos avaliaram nesses quatro dias e dos 12 pilotos, três foram finalistas e eu fui o primeiro. Funcionou assim”, completou.

Baptista ponteando o pelotão na Porsche Carrera Cup 3.8
Luca Bassani

 

Baptista falou ainda como foi a adaptação ao Porsche, como foi o processo de conhecimento do carro e sobre seu sonho que hoje é viver de automobilismo e ser competitivo competindo em categorias da marca. “A adaptação no Porsche foi rápida. Por ter muita experiência em diversos carros faz com que eu tenha uma cabeça muito boa para me adaptar aos carros”, disse.

“Antes de chegar para querer acelerar os carros, dar volta rápida, eu quero muito conhecer o carro, saber o que dá para mexer, o que faz cada acerto. Então, acho que essa leitura antes de chegar na pista é muito importante para um piloto que visa andar bem. Isso conta bastante, e o fato de eu ter um pouco de adaptação rápida aos carros”, continuou.

“Ano passado eu tinha o sonho de ir para a Stock Car pelo fato de correr no Brasileiro de Turismo. Porém, no meio do caminho surgiram novas oportunidades e hoje, se você me pergunta qual é meu sonho eu digo que ir para a Europa ano que vem, fazer o Junior Program, ser um piloto que é apoiado pela Porsche, fazer o campeonato que se chama Mobil Supercup. E a partir daí, virar um piloto profissional Porsche”, completou.

E no certame monomarca o paulista realmente se encontrou. Hoje, após quatro etapas da temporada, é o único piloto que subiu em todas as oito corridas no pódio. Somando 133 pontos, é o líder absoluto da classificação desde a primeira rodada dupla do ano. E esse é só o primeiro passo de uma longa e vitoriosa jornada que vem pela frente.