A outra América

O GRANDE PREMIUM foi atrás de três nomes promissores do automobilismo americano, mas que surgiram de centros pouco convencionais: quem são e o que esperam da carreira Calvin Ming, Ian Rodríguez e Zane Maloney?

Gabriel Curty, de São Paulo

O automobilismo americano é, historicamente, o mais forte depois do europeu. São inúmeros os talentos surgidos por aqui e desde sempre, seja na F1, na Indy, no rali, no endurance, na Fórmula E. Por mais que, na média, não se tenha o investimento que se tem em centros como Alemanha, França ou Reino Unido, estamos falando de um celeiro de ótimos nomes.

Para a F1, por exemplo, saíram daqui nomes importantes como Juan Manuel Fangio, Carlos Reutemann, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Emerson Fittipaldi, Rubens Barrichello, Felipe Massa, Gilles e Jacques Villeneuve, Juan Pablo Montoya, Mario Andretti, Sergio Pérez e até Pastor Maldonado. Na Indy, então, nem se fala, com AJ Foyt, Rick Mears, Al Unser, Gil de Ferran, Tony Kanaan, Helio Castroneves, Gonzalo Rodríguez, Carlos Muñoz, Adrian Fernández, James Hinchcliffe, Greg Moore, Eliseo Salazar e por aí vai. 

A lista de pilotos americanos de sucesso nas principais categorias do mundo passa da centena, é incontável, sempre estaremos esquecendo de alguém. No entanto, por mais que não seja algo exclusivo de americanos, canadenses, brasileiros e argentinos, dá para dizer que o número de nações representadas por aqui não é dos mais significativos. E é por isso que ver nomes tão promissores surgindo de centros alternativos fez o GRANDE PREMIUM se interessar por suas histórias e ir atrás deles.

Calvin Ming, de 23 anos, Ian Rodríguez, de 19, e Zane Maloney, de apenas 16, podem chegar longe, mas, desde já, representam de forma bastante significativa seus países, respectivamente, Guiana, Guatemala e Barbados, todos de pouquíssima tradição no esporte a motor mundial.

Ao GP*, Rodríguez contou que a inspiração para mergulhar no mundo ao automobilismo veio de casa, influenciado por seu pai, que também corria. O guatemalteco fez a transição para os monopostos em 2017 e foi correr de F4 na Itália, somando quatro pódios em duas temporadas.
 
“Meu pai corria quando eu era mais novo, aquilo me influenciou, fez com que eu decidisse já naquela época que eu queria correr. Minha época de kart foi muito boa, aprendi muitas coisas. Quando fiz a transição para a F4, o começo foi bem complicado, a velocidade era muito maior, mas, ao mesmo tempo, eu gostei muito”, diz.
 
Mas é inegável que a afirmação de Rodríguez como um nome verdadeiramente promissor veio em 2019. Está certo que a falta de orçamento atrapalhou e evitou que fizesse a temporada completa, mas o que demonstrou nas oito corridas que fez de Pro 2000 foi mais do que suficiente para chamar a atenção.

O piloto conseguiu cinco top-5, foi ao pódio em duas oportunidades e brigou verdadeiramente pela vitória na corrida 1 de Road America. A falta de grana foi uma pena, mas o desempenho foi suficiente para mostrar que merece mais uma chance em 2020, desta vez com condições iguais as dos rivais.

“A experiência na Pro 2000 foi muito boa para mim, o carro é extremamente veloz. Gostei bastante de ter disputado o campeonato deste ano. Infelizmente, tive problemas financeiros e não consegui completar a temporada, mas, se Deus quiser, quero voltar ano que vem e vencer a Pro 2000”, segue.

O ano de Rodríguez só não foi mais impressionante que o de Maloney, o caçula da turma. O barbadiano, que já se destacava no kartismo, fez a transição para os monopostos e teve resultados impressionantemente bons como calouro na F4 Britânica. 

O cenário é o seguinte: resta apenas a rodada tripla em Brands Hatch e Maloney, além de já ser campeão entre os novatos, ainda lidera a disputa geral, com ótimas chances de título. Mesmo assim, demonstra um perfeccionismo impressionante ao falar do próprio desempenho.
 
"Acho que minha temporada tem sido nota 6. Tive uns azares, definitivamente, não é uma temporada perfeita, mas estou aproveitando muito. Agora é acelerar para terminar em alta. Espero vencer o título, é minha meta. Quero mais umas vitórias que nos levem ao campeonato", conta.
 
E tudo na vida de Zane aconteceu realmente cedo. Além do destaque precoce na F4, o início no kart também foi bem rápido, sendo picado pelo mosquitinho da velocidade logo aos três anos de idade, mais um que acabou influenciado por uma família de pilotos.
"Tinha apenas três anos quando decidi que queria correr. Minha família toda está envolvida com automobilismo, eu sempre estive nas pistas acompanhando, então, sim, eu resolvi ser piloto e comecei a correr bem novinho", explica.
 
Curiosamente, Maloney teve impressões completamente diferentes das de Rodríguez em relação ao kart e aos monopostos. Para o piloto de Barbados, não há muita diferença entre as duas coisas.
 
"O período no kart foi difícil, no começo. Foram várias variáveis, muito mais do que encontrei nos carros. É onde todo mundo aprende quase todas as coisas, talvez, a fase mais divertida da minha carreira até agora. Não senti muita dificuldade na hora da transição para os carros, foi rápido o processo de me adaptar aos chassis maiores, marchas, à técnica de pilotagem. Achei surpreendentemente parecido com o kart em diversas formas", diz.
Mais experiente, Ming teve ano discreto, já que precisou pensar nos estudos, na reta final da graduação. No entanto, por mais que tenha tirado um ano para isso e pensado mais no kart, o guianês ainda deve reaparecer nos monopostos, tendo tido uma bela passagem pela USF2000 nos últimos dois anos, com top-5 em ambos.
 
"A temporada tem sido boa. Deixei os monopostos um pouco de lado para me formar na universidade e obter meu diploma de bacharel em engenharia civil. Decidi competir na shifter 175cc na SKUSA para manter a forma, caso eu consiga voltar aos monopostos. Terminei em terceiro na geral e vou para o SuperNats", fala.
 
Assim como Ian e Zane, Calvin descobriu a vocação por influência dentro de casa. Seu pai era kartista e a relação dos dois era das mais curiosas. Não é só que Stanley influenciasse Calvin, ele ainda puxava totalmente o ritmo num esquema em que a carreira do filho só decolaria se conseguisse o superar nos mais diferentes estágios. 
"Cresci vendo meu pai correr de kart no circuito de casa, o South Dakota, em Timehri. Lembro quando o vi vencer pela primeira vez, aquilo me empolgou e me deixou feliz. Foi o que me acendeu a paixão. Eu e meu pai víamos muita corrida, todo final de semana, F1, MotoGP, Supercross. Foi a quantidade de tempo que passamos juntos que me fez adorar corridas", conta.
 
"Comecei com 6 anos e passei a competir aos 13. Fui campeão nacional duas vezes na Senior antes de ir para a Flórida. Meu período de kart foi ótimo, passei muito tempo guiando com meu pai na pista da cidade de Cosmos. E o meu pai tinha isso: não me deixava mudar de categoria até que eu batesse ele, foi assim que fui melhorando e virei campeão nacional. Andei de kart nos EUA por um ano, aí fui para os monopostos convidado pelo Jay Howard para conhecer a equipe dele de F1600. A transição não foi tão dura, a diferença não é tão grande. A maior delas é aprender a trabalhar mais com dados, além de entender os períodos de frenagem e aceleração".

Por mais que talvez ainda não seja em 2020 pela reta final dos estudos, Ming quer, sim, voltar ao Road to Indy. Só que agora é para dar um passinho adiante, no grid da Pro 2000, o segundo degrau rumo ao grid da Indy.

"Minha experiência na USF2000 foi das melhores. Tive uma curva de aprendizado muito grande na categoria, as corridas são incríveis, o nível dos pilotos é bem alto. Terminei no top-5 os dois anos na Pabst e vencemos o campeonato por equipes, tive vários pódios. Em 2020, gostaria de voltar ao Road to Indy, mas isso depende do apoio que tiver, dos patrocinadores. Tenho mais um semestre para terminar a faculdade, vai ser duro. Mas gostaria de ir para a Pro 2000", revela.

Além do talento e da influência direta de parentes no gosto pela coisa, os três se encontram também quando o assunto é consciência de que, no momento, são raridades em seus países. O que falta para que sejam potências no esporte a motor? Investimento em pistas e nos pilotos, por exemplo. 

“Não tenho patrocinador local, na verdade. Eles não ajudam, só ajudam o futebol, mas os guatemaltecos gostam do esporte, por mais que ainda não seja grande no país. E acho que é o que mais falta, ninguém investe no esporte ou nos pilotos”, opina Ian.

"Acho que deveria ter mais apoio ali nas categorias de base, no kart, que é onde o talento está. Espero que empresas locais possam ajudar para o esporte seguir crescendo. Estrutura, pistas, equipamentos, ainda é cedo, mas temos um grande potencial", comenta Zane, de um Barbados que recebeu a Corrida dos Campeões, de longe o maior evento que o país já teve.

"Acho que o maior problema é a falta de exposição para o automobilismo internacional. Todo mundo ali tem a paixão necessária para correr, mas nem todos estão dispostos a todo esforço necessário para chegarem a um nível internacional. Acho que uma categoria que envolvesse todos os países da América do Sul e do Caribe poderia fazer o nível dos pilotos subir", analisa Calvin.

Outro ponto em comum dos três jovens pilotos é o orgulho que sentem ao representar seus países. E, é claro, a torcida por um futuro com novos Ians, Zanes e Calvins.
 
"É incrível. É ótimo ter todo mundo te apoiando, quero fazer o melhor trabalho possível para retribuir todo apoio que eu tenho recebido do pessoal. O esporte a motor está crescendo por lá, bem rapidamente. Não é grande como em outros países, ainda, mas um grupo de pilotos orgulhosos tem trabalhado para isso ser enorme no futuro. E será", torce Maloney.
 
“Sou muito grato a Deus por ter a oportunidade e a honra de representar a Guatemala mundo afora. O esporte a motor ainda não é muito grande na Guatemala, mas estamos melhorando”, cita Rodríguez.
Ming ainda faz uma reflexão antes de dar seu parecer e citar o que poderia ser o caminho das pedras para a evolução do esporte a motor na Guiana.
 
"Não tenho certeza se sou o maior nome do esporte a motor na Guiana, mas eu curto muito o que faço e a adrenalina que vem disso. O esporte a motor na Guiana está melhorando. É mais como um hobby ainda, as pessoas fazem com os amigos, só temos três eventos de corrida durante o ano, mas o público e os pilotos gostam bastante. Contudo, acho que falta investimento em pistas e coisas que envolvem elas para que mais pilotos sejam atraídos", comenta.
 
Os três têm objetivos bem parecidos de carreira. Rodríguez e Maloney não escondem que querem a F1, enquanto Ming também sonha alto, mas foca mais na Indy ou mesmo em disputar as 24 Horas de Le Mans. Depois de tudo que já superaram para chegarem aonde estão, alguém duvida deles?