A profissão piloto no Brasil

Com categorias nacionais sólidas, como Stock Car e Porsche Cup, os pilotos brasileiros já deixam o sonho da F1 de lado para buscar a profissionalização dentro do país

Nathalia De Vivo, de São Paulo

Quando nasce piloto, quase sempre nasce junto o sonho de chegar à F1. Com isso, somam-se horas de dedicação, trabalho, estudo, treinos incontáveis e investimento para tentar avançar em um caminho cada vez mais tortuoso de se seguir. Tudo em nome da maior das categorias do esporte. 

Entretanto, altos custos das séries de base e, muitas vezes, com o dinheiro pesando mais que o talento, a incerteza sobre o futuro torna-se cada vez maior. Portanto, o chamado 'plano B' quase sempre se torna o 'plano A'. E o Brasil vem mostrando que é possível. Daí um momento cada vez mais crescente de pilotos que conseguem se profissionalizar e viver do esporte de forma competitiva. 

Com fortes categorias estabelecidas no país, o nível técnico e de talento de seus grids tem atraído cada vez mais jovens recém-saídos do kart. Com uma visão distinta da profissão, o turismo tem se transformado no sonho da nova geração, espelhada no sucesso de gente como Augusto Farfus, Cacá Bueno, Felipe Fraga e Sergio Jimenez. 

 

 

Brasil: uma opção para se viver o sonho

Com grandes categorias nacionais, como Stock Car, Porsche Cup e Copa Truck, por exemplo, os pilotos têm encontrado cada vez mais opções para a profissionalização sem deixar o país.

Quem vê essa tendência cada vez mais crescente é Carlos Col. Profundamente envolvido com o esporte a motor do país, hoje está no comando da Copa Truck e também assumiu o Conselho da Stock Car para a temporada 2019. Questionado pelo GRANDE PREMIUM se acredita que há realmente uma tendência entre os pilotos de seguir a carreira por aqui, e a resposta foi clara.

“Sim. Nós temos tido boas opções de categorias profissionais aqui no Brasil. As carreiras, a F1, estão cada vez mais estreitas, está cada vez mais difícil, menos provável de chegar na F1. O custo dessa direção é altíssimo, o que acaba inviabilizando isso. Diferente da época de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, naquele tempo não era tudo tão custoso, o caminho era mais aberto, o talento do piloto tinha mais peso. Hoje, o dinheiro tem muito mais peso”, aponta.

Quem concorda com o dirigente é Bruno Baptista. O piloto chegou a correr fora do país, mas encontrou na Stock Car a verdadeira felicidade. Atualmente, defende a equipe Hero na categoria, da qual fala com grande empolgação e entusiasmo. “O Brasil sempre foi uma potência com a Stock Car. Faz tempo que a categoria está recebendo grandes pilotos. Se você olhar nos últimos seis, sete anos, só está melhorando o nível de pilotos dentro dela”, explica.

 

 

“Vejo como uma porta de entrada ou como uma possibilidade para os pilotos que estão saindo do kart e não estão mais indo para fora, continuando com a carreira aqui. A Stock Car é sim uma porta de entrada. A categoria só está aumentando o nível de pilotos, de patrocínio, estão falando que em 2020 vai ter novo carro, talvez vai trazer outras montadoras, então o potencial da Stock Car é muito grande”, continia.

Sergio Jimenez também vê essa tendência. O piloto diz acreditar que a cabeça dos jovens kartistas está cada vez mais aberta, enxergando a possibilidade de se profissionalizar dentro do país, sem precisar seguir uma busca desenfreada na Europa. “Abriu a cabeça de todo mundo. Dos 12 finalistas do Junior Program, eu falei com eles e dez queriam correr de Stock Car e Porsche, só uns dois falando em Europa ainda, então mudou a mentalidade. Na minha época, todos queriam ir para a F1”, frisa.

“Todo mundo viu que é possível ficar aqui, se profissionalizar. Basta pegar os jovens exemplos, como o próprio Fraga, está tendo grande sucesso, supertalentoso, novo, conseguiu se encaixar bem, se profissionalizou, hoje é um cara contratado, superprocurado, é um exemplo para a molecada. Com certeza a molecada já sai do kart com essa cabeça bem aberta, sabendo que se não tem um suporte grande e/ou um patrocinador grande para poder ir na Europa e os EUA, já pensa em turismo e já tenta fazer alguma coisa aqui. A molecada está muito mais com mente aberta pensando em turismo. Acho que o grande objetivo se você quer ser um piloto, é você se profissionalizar, que significa fazer aquilo que você é bom sendo contratado e recebendo por isso. Não é tão fácil quanto parece, e se você conseguir ir galgando outros passos até conseguir isso, pode-se considerar um vitorioso”, segue.

Cacá Bueno é um grande exemplo de sucesso dentro do Brasil. Pentacampeão da Stock Car, segue competitivo e se colocando como um dos principais nomes da categoria. Aos seus olhos, o automobilismo no Brasil está crescendo novamente, especialmente gerando tanto conteúdo para mídia e transmissões. “O automobilismo brasileiro está retomando o crescimento. Ele encolheu de 2014 a 2017, e agora começou a retomar um crescimento. Muito impulsionado pelo entendimento de que realmente existem milhares de apaixonados por automobilismo e não só apaixonados pelo automobilismo, como também existe dinheiro no automobilismo, essa é a verdade. Por mais que seja caro fazer um carro, você olha categorias hoje e elas têm 30 carros correndo. Temos diversas categorias, todas elas crescendo. Tem um trabalho fantástico do Dener, um trabalho de longa data de Vicar. Nenhum outro esporte no Brasil gera tanto conteúdo, gera tantas horas de transmissão. O automobilismo encolheu muito de 2014 até 2017, e ele está começando a retomar o seu espaço”, opina.

 

A experiência lá fora

Mas o cenário brasileiro não é visto apenas como uma porta de entrada para os jovens pilotos. O país também tem acolhido aqueles que tentaram a sorte lá fora, mas por falta de espaço ou até mesmo por questões financeiras, se viram obrigados a voltar para as terras tupiniquins.

Bia Figueiredo é um desses exemplos. Depois de sair do kart e arriscar algumas categorias de fórmula no Brasil, decidiu ir tentar a sorte nos Estados Unidos. Entrou pela porta principal, fazendo bonito na Indy Lights em 2008. No ano seguinte, chegou a conquistar uma vitória na categoria de acesso à Indy.

Nas temporadas seguintes, correu na principal categoria do automobilismo norte-americano de monopostos e chegou a participar das épicas 500 Milhas de Indianápolis. Entretanto, acabou retornando ao país em 2014, quando decidou correr na Stock Car, onde disputa até hoje. “Acho que é uma categoria que evoluiu muito”, diz.

“Quando eu estava na Indy, há dez anos, a Stock Car ainda não era o que é hoje. Ela vem evoluindo em termos de pilotos e equipes, e também encareceu bastante por causa disso, mas tem um caminho para tentar evoluir ainda mais. Foi uma maneira que eu encontrei de ser profissional. Hoje não tem muito que fazer, você vai onde o seu patrocinador quer, onde a oportunidade está, e foi onde a oportunidade apareceu para mim”, continua.

A época da Bia na Indy
Reprodução

O jovem Matheus Iorio também viveu um pouco disso na pele. Depois de boas temporadas na F3 Brasil, onde chegou a ser campeão em 2016, rumou para a Europa para tentar alcançar a elite do automobilismo. A categoria escolhida foi a Euroformula Open, onde correu por dois anos.

Mas acabou sem espaço e decidiu participar da segunda edição do Junior Program. Sendo um dos vencedores, reencontrou a oportunidade de seguir guiando e vivendo o sonho. “Estava em uma sinuca de bico depois desse meu segundo ano na Europa. Esperava ficar um pouco mais lá, acho que foi curto o processo até agora, dois anos na Europa, em qualquer categoria é um período curto de tempo”, lamenta.

“Mas essa oportunidade surgiu, caiu do céu fazer esse programa, estava muito grato de poder voltar ao Brasil e ter um programa para fazer, ter oportunidade, ter aquilo na cabeça de terminar meu ano de 2018 já sabendo o que vou correr em 2019, isso nunca aconteceu. Já está tudo certo para correr na categoria ano que vem e já estou totalmente focado em dar o meu melhor”, segue.

 

A formação dos pilotos

Agora, para aqueles que ainda estão no início da jornada e já pretendem seguir no turismo brasileiro, encontram atualmente no país categorias de base que além de servirem como apoio, ajudam no desenvolvimento.

Uma das opções disponíveis é a Stock Light. Nascida como Stock Car Light e depois renomeada como Brasileiro de Turismo, mudou de nome novamente esse ano e já abriga grandes talentos que almejam chegar na Stock Car no futuro.

No passado, a categoria foi responsável por revelar grandes nomes do automobilismo nacional como Felipe Fraga, Nonô Figueiredo, Cacá Bueno, Marcos Gomes, entre tantos outros.

Aos olhos de Col, a passagem por esses programas de desenvolvimento é essencial para a jornada de qualquer piloto. “Hoje digo que é fundamental, necessário, passar pela Stock Light. Ali, o piloto vai conviver com equipes profissionais, vai desenvolver a parte técnica, entendimento da engenharia, a se comunicar com o engenheiro, a ajustar o carro, é fundamental para a carreira”, afirma.

 

 

Outra importante inciativa existente no Brasil é o Junior Program. A seletiva, que chegou no início deste ano ao país e realizou agora em novembro a segunda edição, tem o objetivo de avaliar os pilotos e premiá-los com parte da temporada da Porsche Carrera Cup 3.8 custeada.

Dener Pires, organizador da categoria e do projeto, ressalta a grande importância do programa, já que os pilotos não precisam mais buscar alternativas caras fora do país. “O objetivo do Junior Program é desenvolver pilotos aqui. Sabemos que, no Brasil, para desenvolverem seus talentos, os pilotos precisavam ir embora do país para fazer campeonato fora, como F3 ou até algum campeonato de turismo. O nosso propósito é fazer com que esses pilotos possam se desenvolver aqui no Brasil por meio desse programa, que é uma versão para o desenvolvimento dos jovens”, pontua.

“O objetivo do Junior Program é fazer com que os pilotos se desenvolvam aqui no Brasil mesmo, que não precisem ir para fora, onde os custos são elevados, não tem a família perto, onde tem uma série de situações. Espero que tenhamos muitos frutos, na verdade, já estamos tendo os primeiros resultados após a primeira edição. Acredito que as categorias precisam investir em novos talentos porque se não daqui a pouco o Brasil vai ficar muito deficiente de pilotos”, completa.

“No programa chegam vários talentos e eles são comparados de forma idêntica, com equipamento idêntico. Isso é muito importante, pois sabemos que, no automobilismo, o equipamento pode fazer muita diferença. Essa situação é totalmente neutralizada, e é bom para os garotos que têm esse talento e que então é valorizado, e é bom para aqueles que ainda não se desenvolverem nesse nível entenderem o que está faltando”, segue.

Até mesmo Jimenez apontou a grande importância para o automobilismo nacional a formação dos jovens talentos. “A formação de novos pilotos só fortalece essas categorias e vai deixando cada vez mais competitivo. A reciclagem ainda é um pouco lenta, mas mesmo assim já está acontecendo. O Junior Program é um negócio superlegal, dá chance para os moleques. Isso só fortalece, por isso acho que o automobilismo no Brasil só tende a crescer mesmo, nem porque falei da Truck que está em uma renovação boa”, emenda.

 

Mas e o fórmula?

De toda a história acima, existe apenas um porém: aqueles que decidem ficar no Brasil tem a opção de unicamente seguir na carreira de turismo. Afinal, hoje o país não conta com qualquer categoria de formação voltada para os carros de fórmula.

Em um passado recente, ainda existiam as F3 Brasil e F3 Sulamericana, categorias que chegaram a ter grandes pilotos campeões, como Christian Fittipaldi, Ricardo Zonta, Vitor Meira, Nelsinho Piquet, Pedro Piquet, entre tantos outros.

Entretanto, em 2018, a categoria de base não encontrou interessados suficientes para formar uma “classe”, ficando em estado de espera nas terras brasileiras. O fato, inclusive, é visto com pesar por Col, que acredita que uma categoria assim faz falta.

“Infelizmente, também falta interesse dos próprios garotos que estão saindo do kart em correr. Correr aqui numa F3 seria com o objetivo para se preparar para ir para a Europa, correr em uma F3 Europeia, GP3, todo o caminho da F1 e, como disse no início, é um caminho muito caro. O funil está cada vez mais estreito, tem poucas esperanças de conseguir chegar à F1”, aponta.

Bia também lamenta o fato de que os pilotos parecem cada vez menos interessados em guiar monopostos, procurando cada vez mais uma chance nas carreiras de turismo. “Acho que é uma pena. Quando eu comecei a correr, queria ser piloto de F1, de Indy. Hoje isso mudou, eu pergunto para a criançada e eles querem ser pilotos de Stock Car, eles vêm como uma oportunidade viável”, diz.

“Mas eu sempre instigo, pois a Stock Car sempre vai estar aqui, vai ser sempre uma categoria muito grande. Acho que é bacana para esses pilotos tentarem alguma coisa lá fora, mesmo que seja difícil, não seja ideal, é uma experiência de vida muito legal. Você definitivamente volta mais forte para o Brasil, acho que é importante essa tentativa. Se não der certo, volta para o Brasil, corre de Stock Car, mas acho importante a tentativa”, encerra.

Hoje, o Brasil não conta com uma categoria como a F3 Brasil
Duda Bairros