A vez das elétricas

Antenada no desenvolvimento da tecnologia, a Dorna decidiu se aventurar em novas áreas e vai lançar em 2019 a Copa do Mundo de MotoE. Equipada pela italiana Energica, a série elétrica contará com equipes tradicionais da MotoGP, Moto2 e Moto3

Juliana Tesser, de São Paulo &
André Avelar, de São Paulo

O Mundial de Motovelocidade vai ganhar mais uma categoria em 2019. Antenada na evolução tecnológica, a Dorna, promotora do certame, em parceria com a FIM (Federação Internacional de Motociclismo), vai colocar na pista a Copa do Mundo de MotoE.

A nova classe vai se incorporar à estrutura existente, com treinos encaixados na programação atual e a corrida acontecendo logo após o warm-up da MotoGP, na manhã de domingo. A série elétrica terá duas sessões de treinos de 30 minutos, separadas por cerca de quatro horas, com a classificação marcada para o sábado.

Categoria monomarca, a Copa do Mundo de MotoE será equipada pela italiana Energica, que vai colocar na pista a Ego Corsa, uma moto que atinge os 250 km/h, tem 147 hp de potência e bateria de lítio. 

A Copa do Mundo de MotoE fará sua primeira temporada em 2019
(Foto: Energica)

Em entrevista ao GRANDE PREMIUM, Nicolas Goubert, diretor-executivo da MotoE, avaliou que a tecnologia de motos elétricas está pronta para entrar na pista e dar sequência ao seu desenvolvimento.

“A Dorna, apoiada pela FIM, decidiu lançar a MotoE, pois, como podemos ver no mercado motos elétricas sendo vendidas ― e não apenas scooters elétricas ―, nós percebemos que a tecnologia estava pronta e que nós podíamos desempenhar o papel que o esporte a motor fez ao longo dos anos, promovendo novas tecnologias e sendo também um lugar para melhor desenvolvê-las”, explica Goubert.

A evolução motos elétricas, porém, ainda não está no mesmo nível da indústria automotiva, pioneira no desenvolvimento desta tecnologia limpa.

“Enquanto a maioria das montadoras de automóveis tem uma ou mais opções de veículos elétricos, os grandes fabricantes de motos estão iniciando agora, mas ainda com protótipos”, diz Saleh Khalil, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade de Brasília ao GP*.

O professor não acredita, porém, que este ‘atraso’ seja um reflexo dos custos. Questionado se o desenvolvimento desta tecnologia demanda um investimento maior do que com os propulsores mais comuns, Khalil respondeu: “A grande maioria de fabricantes de motos elétricas é chinesa e sempre, em sua grande maioria, de motos pequenas ― urbanas ―, portanto creio que não”.

No fim do ano passado, durante o fim de semana do GP da Comunidade Valenciana, os chefes dos times de fábrica da MotoGP apoiaram a iniciativa de criar uma série de motos elétricas, mas sublinharam esse pioneirismo da indústria automotiva.

“Eles têm razão ao dizer isso, é um fato”, reconhece Goubert. “Se você olhar para o que está acontecendo agora na indústria de motocicletas, é muito similar ao que aconteceu anos atrás na indústria automobilística: você vê novatos como a Energica Motor Company produzindo e vendendo motocicletas esportivas de ponta, assim como a Tesla começou a fazer há alguns anos com os carros”, compara. 

“Você também deve ter ouvido a declaração das mais famosas marcas de motocicletas, que dizem que vão investir maciçamente em tecnologia elétrica, como Harley Davidson, Honda, Yamaha, Ducati, isso sem mencionar a KTM, que já tem algumas ofertas elétricas”, aponta.

MotoE terá equipes de MotoGP, Moto2 e Moto3
(Foto: Energica)

Diretora-executiva da Energica Motor, Livia Cevolini destacou o avanço rápido da tecnologia elétrica e espera ver um ritmo ainda mais acelerado com a presença nas pistas.

“Os veículos elétricos estão avançando rapidamente na nossa sociedade nos quatro cantos do mundo”, comenta Cevolini ao GRANDE PREMIUM. “Os esportes a motor sempre foram um laboratório perfeito para o desenvolvimento de tecnologias que posteriormente serão incorporadas no nosso cotidiano”, exalta. 

Professor da UNB, Khalil também considera este ‘teste de fogo’ das pistas para a tecnologia um passo importante. 

“As competições de um modo geral sempre contribuem para o desenvolvimento dos veículos, onde são testados em condições extremas de durabilidade eficiência”, friss. “Antes de lançar no mercado, seria muito importante esta iniciativa”, opina.

Com a categoria ainda em fase de desenvolvimento, a organização tem expectativas altas, tanto dentro da Energica quanto da Dorna, especialmente pela igualdade do equipamento.

“Os fãs podem esperar um grande campeonato com todos os pilotos muito competitivos e com motos em iguais condições: a Ego Corsa”, avisa a dirigente da fábrica italiana. “O fato das motos serem as mesmas para todos deixará a competição mais próxima com muitos potenciais vencedores em cada corrida. Será divertido”, garante.

Essa previsão de competitividade, aliás, também é vista como um trunfo da organização para que a MotoE conquiste não só o público habituado com o Mundial de Motovelocidade, mas também uma nova geração de fãs.

“Tem um interesse tremendo em torno da Copa do Mundo de MotoE, que vai além da nossa expectativa”, admite Goubert. “A MotoE será uma adição às categorias já existentes de Moto3, Moto2 e MotoGP. Nós estamos bem confiantes de que a MotoE vai encontrar seu lugar e sua audiência também”, revela. 

“Por um lado, mais e mais pessoas expressam sua preocupação com o meio ambiente e ficarão satisfeitas em ver nascer uma categoria que usa apenas energia verde ― aliás, a Enel vai fornecer e disponibilizar energia verde para a MotoE. Por outro lado, nosso objetivo é tornar as corridas interessantes, com lutas apertadas. Fazendo isso, os fãs vão gostar”, assegura.

A italiana Energica vai fornecer a Ego Corsa para a Copa do Mundo de MotoE
(Foto: Energica)

Os opositores aos propulsores elétricos sempre citam a falta de ruído como um fator de desinteresse, e Goubert não espera que isso seja diferente com a MotoE. Ao menos no início.

“As pessoas não gostam de grandes mudanças”, cita Nicolas. “Quando passamos de motores 2-tempos para 4-tempos há cerca de 15 anos, muitas pessoas eram relutantes em fazer isso. Então, sim, alguns serão relutantes. No começo...”, segue.

“Motores elétricos são usados há muitos anos em múltiplas aplicações. O primeiro carro a atingir 100 km/h há mais de um século era um carro elétrico e os vejo sendo mais e mais usados em paralelo com motores à combustão”, recorda. “Motores elétricos têm muitas vantagens: são leves, simples, confiáveis, oferecem boas performances de alta eficiência, emitem um baixo nível de ruído e são bons para o meio ambiente”, lista.

Nesta fase de desenvolvimento da tecnologia, a durabilidade das baterias é também um entrave. Na Fórmula E, por exemplo, os pilotos ainda trocam de carros por conta da durabilidade das fontes de energia, algo que só será modificado na próxima temporada da competição.

“No uso urbano está situação é contornável, pois os percursos são curtos”, indica o professor Saleh. “Na competição da Fórmula E, os carros estão sempre sendo usados em sua máxima potência”, exemplifica.

No início de junho, a organização do certame divulgou uma lista atualizada das equipes participantes, confirmando a presença de todos os times satélites da MotoGP ― Tech3, LCR, Marc VDS, Pramac, Ángel Nieto, Avintia e Gresini ―, além de algumas equipes de Moto2 e Moto3 ― Pons, IntactGP, Ajo e SIC58 Squadra Corse.

“Essas equipes são muito profissionais e as conhecemos muito bem. São as mais qualificadas para fazer o trabalho”, sublinha Goubert.

A Energica também vê com bons essa aliança com equipes já estabelecidas ao invés de abrir espaço para estreantes.

“A parceria com muitas equipes da Moto2 e Moto3 é extremamente importante para nós, porque estamos trabalhando com alguns dos mais bem estabelecidos times que tem estão no paddock há muitos anos e que sabem exatamente como correr e como vencer corridas”, disse Cevolini.

Copa do Mundo de MotoE será realizada em circuitos da Europa em 2019
(Foto: Energica)

Por enquanto, porém, a Copa ainda não têm seu elenco escalado. A organização, entretanto, espera ter um misto de experiência e juventude. As equipes oriundas da classe rainha terão dois pilotos cada, enquanto as outras contarão com um único competidor.

“Os times vão decidir os pilotos que terão e vai existir um comitê de seleção para ratificar as propostas deles”, conta o dirigente-executivo da MotoE ao GP*. “Nós acreditamos que teremos um misto de pilotos experientes, alguns com conquistas muito respeitáveis nas categorias já existentes, e de jovens promissores”, continua.

Por se tratar de uma categoria com veículos elétricos, é inevitável a comparação com a Fórmula E, mas organização do futuro certame não quer ver a MotoE em ‘carreira solo’.

“Ela vai ficar dentro da MotoGP”, frisa. “É um ótimo lugar para conseguir uma enorme cobertura, já que muitos canais de TV já estão lá”, pondera.

A série que tem Nelsinho Piquet e Lucas Di Grassi entre seus campeões, porém, pode servir de exemplo por conta de sua capacidade de atrair participantes de vários segmentos da indústria. Ainda que, pelo menos por enquanto, o plano seja seguir como classe monomarca.

“A Fórmula E começou há quarto anos e, naquele estágio, todos os times tinham exatamente o mesmo material”, cita. “Eles vão iniciar sua quinta temporada em outubro/novembro e é certo que eles estão fazendo um trabalho realmente bom atraindo a indústria automotiva para o jogo”, elogia.

“Do nosso lado, em curto prazo, nós temos um acordo de três anos com a Energica Motor para que eles nos forneçam a Energica Ego Corsa que vai evoluir ano após ano. É muito cedo para fazer qualquer plano além deste período, mas estamos confiantes de que existirão muitas oportunidades”, comenta. “2019 será o nosso primeiro ano e vamos ver como faremos a série evoluir no futuro”, segue.

Do lado da Energica, a prioridade é desenvolver o equipamento com base no feedback de pista.

“Nesse primeiro ano, sabemos que todos nós temos o objetivo de nos destacar e o feedback das equipes será muito importante para um desenvolvimento contínuo da Ego Corsa”, conta Cevolini.

As corridas da Copa do Mundo de MotoE terão de cinco a oito voltas
(Foto: Energica)

Enquanto 2019 não chega, a Dorna está usando a atual temporada para convocar nomes tradicionais do esporte para testar a Ego Corsa. Até aqui, Simon Crafar, Sebastian Porto, Colin Edwards, Nico Terol, Max Biaggi, Randy De Puniet, Alex Crivillé e Jurgen van der Goorberg.

“Nenhum deles sabia o que esperar e todos ficaram positivamente surpresos, especialmente com a potência e a entrega de potência que tornam a moto rápida e fácil de pilotar”, fala Goubert. “Max Biaggi testou no GP em Mugello e achou que o velocímetro estava quebrado, já que atingiu 240 km/h antes do início do pit-lane em Mugello e a moto ainda estava acelerando”, continua. 

“Não tinha nada errado com o velocímetro, mas o alto nível de torque disponível dá para a moto um alto nível de aceleração na saída de curva que o piloto não esperava”, completa.

O calendário da temporada de estreia da Copa do Mundo de MotoE ainda não está definido. A organização, no entanto, já anunciou que serão cinco etapas em 2019, todas elas em circuitos da Europa, com corridas de cinco a oito voltas. A primeira bateria oficial de testes acontece no fim de outubro, em Jerez de la Frontera.

Entre setembro e outubro, a Energica vai fornecer treinamento para os funcionários das equipes que vão trabalhar diretamente com a Ego Corsa.

“Somos pioneiros nesse novo cenário em cima das duas rodas e estamos estabelecendo as bases para um emocionante avanço no esporte a motor. Com a primeira temporada da MotoE se aproximando, diríamos que os veículos elétricos são o futuro do esporte a motor, mas um futuro muito mais próximo agora”, finaliza Cevolini.

Copa do Mundo de MotoE será incorporada à estrutura atual do Mundial de Motovelocidade
(Foto: Energica)