As novas caras do Brasil na F3

Amigos e rivais do automobilismo de base, Enzo Fittipaldi e Igor Fraga terão suas distintas trajetórias contadas na classe Internacional da categoria. Os dois brasileiros já mostraram que vão além do ‘sobrenome famoso’ e do ‘piloto de videogame’, mas querem mais

André Avelar, São Paulo

De um lado, um sobrenome famoso das pistas pelo mundo. De outro, alguém de saída das telas dos simuladores rumo às corridas reais. Como o esporte tão bem sabe contar, as histórias desses pilotos brasileiros de trajetórias tão diferentes estão novamente entremeadas. Agora em uma categoria superior, como mais pura prova do progresso da carreira de ambos. Enzo Fittipaldi e Igor Fraga, já amigos e rivais do automobilismo de base, vão dividir o grid na Fórmula 3 Internacional.

Enzo e Fraga competiram juntos na classe Regional da mesma F3 no ano passado — a grosso e, no mínimo simplista modo, o penúltimo degrau antes da sempre cobiçada F1. Ao final de 24 rodadas em circuitos europeus, Enzo terminou em segundo (336 pontos) na colocação geral, com Fraga em terceiro (300). Agora, eles estarão pelas equipes HWA e Charouz respectivamente, com a companhia do campeão Frederik Vesti (467), o dinamarquês que sobrou diante dos brasileiros e fechou com a Prema para a categoria seguinte.

“Corri com o Igor na F3 Regional no ano passado. Tivemos algumas boas lutas na pista e sempre com muito respeito entre um e outro. Tenho muito respeito por ele. Ele tem muito talento e, fora das pistas, nós nos damos bem. Estou muito feliz por correr contra ele de novo”, diz Enzo ao GRANDE PREMIUM.

“Desde a época da Regional, o Enzo e eu tivemos uma relação muito boa. Tivemos também uma disputa boa na pista. No final das contas, acredito que estamos seguindo os nossos passos e trabalhando pelos nossos objetivos. Entendo que as nossas carreiras sejam diferentes, sim. Também sei que não tive o caminho mais convencional no automobilismo por conta do eSports”, completa Fraga, que em sua primeira vitória na categoria, na corrida 3 do GP da Áustria, dividiu a bandeira brasileira com o segundo colocado Enzo.

Para quem ainda pode estar pouco familiarizado, os dois já eliminaram os apressados rótulos de ‘sobrenome famoso’ e ‘piloto de videogame’ que, aos olhos mais provincianos, talvez pudessem o acompanhar. Aos 18 e 21 anos, os dois, abdicaram, cada um ao seu modo, da recém-saída adolescência para tentar um sonho que não cabe em um cockpit. Em comum nas diferenças, os dois nasceram fora do Brasil por questões familiares. O primeiro nasceu em Miami, nos Estados Unidos; e o segundo, em Kanazawa, no Japão. Por opção deles, e com cidadania brasileira, utilizam a bandeira verde-amarela, sedenta por uma renovação, ao lado do nome nas corridas.

Quase um mês antes das suas estreias na categoria, o ‘paulistano’ e o ‘mineiro de Ipatinga’ já estavam junto das suas equipes para acertos do carro e reuniões técnicas. Enzo aprimorava a parte física em Maranello, na Itália, enquanto Fraga estava com a equipe em Praga, na República Checa. A F3 corre nos mesmos finais de semana, e circuitos, da F1. O que poderia ser um fator intimidador, só faz aumentar a vontade deles de crescer e estar pronto para a abertura no GP do Bahrein, em 21 de março.

Neto de Emerson, bicampeão mundial de F1 e bicampeão das 500 Milhas de Indianápolis, Enzo tem a história da família misturada a do automobilismo. Não só pelos tempos do avô mas, em um salto no calendário, pelas conquistas do irmão Pietro, que em 2019 foi piloto de testes da Haas na F1. Ele mesmo então tratou de se desvencilhar do trato de “neto” ou “irmão” e passou a ter as suas próprias conquistas. Em novembro de 2016, entrou para a Academia de Pilotos da Ferrari. Dois anos depois, foi campeão da F4 Italiana.

Sob o guarda-chuva da escuderia italiana, Enzo tem as regalias e cobranças de tanto. Charles Leclerc, talvez o piloto número 1 da Ferrari, é o exemplo máximo do sucesso do programa de pilotos. Os treinos físicos e mentais, além das atividades de simulador e do acompanhamento nas pistas são os mesmos aos quais o monegasco foi submetido até bem pouco tempo atrás. Daí uma provável receita a ser seguida pelos donos do programa mas, sobretudo, pelos pilotos.

“A Academia da Ferrari não olha só os resultados, mas também a atitude, a determinação, o trabalho que o piloto coloca nas pistas. Toda a preparação antes do fim de semana da corrida. Isso que traz resultados. Isso que aprendi logo no meu primeiro ano. Por isso tive bons resultados na minha carreira. Meu plano é continuar assim, continuar melhorando como piloto e como pessoa”, conta Enzo.

Com o real em depreciação em comparação a moedas internacionais, a vida de qualquer esportista brasileiro em grandes mercados tem sido muito mais complicada do que o dinheiro pode contar. Bem por isso, no caso dos pilotos, os programas de jovens talentos das equipes passaram a ser tão cobiçados no automobilismo mundial. Fora desta pequena bolha, depois de esgotados os recursos, Fraga se apegou ao eSports como forma de continuar a fazer simplesmente o que gosta: pilotar. Ele foi o primeiro a conquistar o Mundial do game Gran Turismo, organizado pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e pela plataforma PlayStation 4, em 2018.

A partir daí, as portas virtuais e reais começaram a se abrir mais para o piloto. Enquanto acumulava vitórias nas telas, Fraga também traçava uma interessante carreira nas categorias de acesso da Indy. Com um capacete verde-amarelo, o piloto foi vice-campeão na F4 Nacam e quarto colocado na USF2000, com três pódios. Tudo isso, permitiu uma temporada na F3 Regional. Mais recentemente, ele ainda ganhou o Toyota Racing Series, com direito a transmissão ao vivo para os participantes de um campeonato de Gran Turismo. Junto do título do tradicional campeonato, veio o direito de disputar a F3 Internacional.

“Até hoje, nunca estive em uma equipe que pudesse mesmo brigar pelo título. Quero estar apto para provar mais um pouco o meu valor dentro do automobilismo. Isso pode me ajudar bastante e tenho sei que tenho que trabalhar duro para conseguir”, diz Fraga, que tem o ex-piloto Roberto Pupo Moreno como coach, e terá o filho de Ralf Schumacher, sobrinho de Michael, David, como companheiro de equipe. “Será um pouco complicado [continuar correndo no virtual] já que meu nível de dedicação tem que ser maior. Espero que ainda possa participar de um campeonato ou outro.”

Se levado mesmo em conta uma nem sempre estabelecida escada para a F1, os pilotos de testes Sergio Sette Câmara (McLaren) e Pietro Fittipaldi (Haas) já estariam nesse último degrau ainda que não em vagas titulares. Um lugar abaixo, estariam então, na F2, Guilherme Samaia (Campos), Pedro Piquet (Charouz) e Felipe Drugovich (MP), todos estreantes na categoria. Assim como a F3, a temporada de F2 começa também com o final de semana do GP do Bahrein, a segunda etapa da F1.

 

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