Cartas na mesa

Pietro Fittipaldi voltou a explorar rumos diferentes em 2019. O brasileiro completou uma temporada no DTM e virou reserva da Haas na F1. Por mais que a categoria de monopostos siga sendo o grande sonho, o futuro de Pietro segue em aberto

Vitor Fazio, de Berlim

Já são dois anos completos sem brasileiros no grid da Fórmula 1. A aposentadoria de Felipe Massa ao fim de 2017 já deixava desenhado um panorama de vacas magras. Havia uma geração nova chegando, mas que precisaria de mais tempo para vingar. Um dos destaques desse grupo sempre foi Pietro Fittipaldi, que ao fim do ano passado assinou como reserva da Haas. Só que aí pintou no horizonte a Audi no DTM, onde o neto de Emerson Fittipaldi fez temporada de estreia em 2019. Como 2020 menos de dois meses distante, o jovem tem uma abordagem clara: manter portas abertas para consolidar a carreira.

É que a Fórmula 1, por mais que ainda cumpra o papel de grande sonho da carreira, ainda não está em vias de se abrir para Pietro. Questões burocráticas, como a falta de pontos para alcançar a superlicença, minimizam o impacto positivo que a reserva na Haas teve. Fittipaldi conseguiu testes com o VF-19 e teve tempo valioso no simulador, só que não pôde capitalizar em cima de um ano em que a dupla titular – Romain Grosjean Kevin Magnussen – ficou permanentemente no alvo de críticos. Desse jeito, correr de turismo na Alemanha virou um bom negócio, apesar das novidades.

Pietro Fittipaldi viveu uma temporada dividida em dois fronts
DTM

“O maior desafio para mim no DTM foi o peso do carro. É um carro muito mais pesado do que qualquer monoposto que eu já tenha pilotado. O peso faz muita diferença no jeito que você precisa pilotar”, diz Pietro, comparando com carros de Fórmula, em entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM.

A passagem pelo DTM em 2019 rendeu a Pietro um 15º lugar na classificação final. Foram seis de 18 corridas na zona de pontos, sendo que a melhor delas rendeu um quinto lugar ao piloto da Audi. Olhar os resultados apenas, entretanto, não conta a história completa de um ano que foi dos mais desafiadores.

“É difícil dar uma nota para esse meu primeiro ano no DTM”, comenta. “Teve várias corridas em que a gente se classificou na frente. Teve várias corridas que a gente se classificou na frente, entre os cinco primeiros, terminamos entre os cinco primeiros [corrida 2 em Misano]. A temporada, do começo até a metade, foi muito boa. A gente esteve muito competitivo, muito rápido. A gente melhorou em classificação na segunda metade, mas sempre teve algum problema nas corridas, algo que não ajudava a conseguir o resultado final, que é o mais importante, marcar ponto. Essa não foi a melhor coisa que poderia acontecer, mas o mais importante é que a gente sempre esteve competitivo. Sempre muito rápido, principalmente nas classificações”, destaca.

“Claro, o DTM é um campeonato bom porque você pode fazer uma carreira lá. São muitas montadoras grandes. Claro que posso fazer uma carreira no DTM, mas minha meta ainda é chegar na Fórmula 1”, continua.

O DTM foi uma experiência tão valiosa quanto dura para Fittipaldi
DTM
[Em 2020] eu gostaria de continuar na Haas. Não tem nada confirmado, mas gostaria muito de continuar na equipe
Pietro Fittipaldi

Enquanto Pietro ajudava a Audi a somar pontos no DTM, a missão na Fórmula 1 era diferente. Guenther Steiner, chefe da Haas, percebeu que precisava de um simulador melhor desenvolvido para crescer na F1. A equipe deixou de usar o simulador da Ferrari, contando agora com o da Dallara, uma das parceiras dos americanos. Acontece que, para ser tão preciso quanto possível, o equipamento da fábrica italiana precisava ser ‘calibrado’. É aí que entrou o piloto brasileiro.

Fittipaldi acumulou quilometragem em Barcelona, na pré-temporada, justamente para ter um referencial melhor a respeito de o que precisava mudar no simulador. O trabalho é árduo, mas já rende frutos aos olhos do piloto de 23 anos.

“Meu trabalho esse ano foi ajudar a Haas a desenvolver o simulador deles. A gente fez isso e o simulador, comparando como era no começo do ano com como está agora, melhorou muito. Tô feliz por poder ajudar a equipe. Também tive oportunidades de testar o carro, que foi algo muito importante para mim, para mostrar para a equipe o que eu posso fazer na pista também. Eu aprendi muito esse ano com esse trabalho com a Haas”, comenta.

Por mais importante que seja o posto na Haas, é inegável que a falta de uma superlicença é um fardo a ser carregado. O brasileiro soma 26 pontos de superlicença, precisando apenas de mais quatro para chegar aos 30 necessários. Isso poderia ser conquistado através de testes e aparições em treinos livres com a equipe americana. Completando ao menos 10 km em um TL1, por exemplo, já se ganha um pontinho.

Isso mostra que, no papel, está fácil para Fittipaldi conseguir a superlicença. Acontece que a Haas não pôde se comprometer com novas atividades de pista – afinal, todo o tempo é aproveitado por Grosjean e Magnussen, com a dura missão de entender e resolver os pontos fracos do VF-19. O panorama faz o piloto brasileiro arquitetar um novo jeito de ter a licença especial, necessária para ser titular da F1.

“A gente está trabalhando num plano para conseguir a superlicença. Claro, isso é muito importante para conseguir correr na Fórmula 1, então estamos trabalhando em um plano. A respeito de 2020, claro que eu gostaria de continuar com a Haas. Não tem nada confirmado ainda, mas gostaria muito de continuar com a equipe”, destaca.

2019, assim, encaminha-se para um fim incerto para Fittipaldi. A jornada no DTM não tem garantia de sequência, assim como o sonho da F1 não ter certeza de realização. O que se sabe é que as cartas estão postas à mesa, com Pietro podendo tomar vários rumos distintos – vide aparições no WEC, na Indy e na Super Formula em 2018. Resta saber qual delas será a escolhida.  

 

A tradição de família

 

Falar sobre a história dos Fittipaldi no automobilismo é chover no molhado. A longa trajetória em campeonatos internacionais começou com Emerson no fim da década de 1960 e reverbera até hoje.

Emerson competiu na Fórmula 1 entre 1970 e 1980, conquistando dois títulos no período. O irmão Wilson, ainda que com sucesso diminuto, também se fez presente entre 1972 e 1975. Christian, sobrinho do bicampeão, seria o responsável pelo retorno da família ao principal campeonato do mundo entre 1992 e 1994.

Ou seja, são ao todo três parentes com passagem pela F1. Apenas duas outras famílias podem se orgulhar de tal feito: a Brabham, com Jack, Gary e David; e a Villeneuve, com Gilles, Jacques Sr. e Jacques.

Isso significa que uma possível chegada de Pietro ao alto escalão do automobilismo serviria como desempate. O sobrenome Fittipaldi, sempre tão associado a pioneirismo, voltaria a tomar a dianteira como único a se fazer presente na Fórmula 1 através de quatro pilotos diferentes.

Pietro, entretanto, não é o único que tem chances de seguir representando os Fittipaldi em alto nível. Enzo, irmão do reserva da Haas, foi campeão da F4 Italiana em 2018 e vice da Fórmula Regional Europeia. Só que talvez o grande trunfo seja o posto de piloto da Academia da Ferrari. Entretanto, o brasileiro ainda tem 18 anos e dá primeiros passos nos monopostos – ou seja, o sonho da F1 segue bem distante.