Começo de sucesso

A W Series fez sua grande estreia em 2019. Com cinco etapas disputadas, Catherine Bond Muir, diretora-executiva, faz o balanço da temporada inaugural e fala dos planos para o futuro da categoria

Nathalia De Vivo

Imagine criar uma categoria do zero. Pensar no conceito, nas etapas, nas corridas, no formato. Pensar quais carros adotar, quantos pilotos no grid ter, o início e final do campeonato, patrocínios, apoios, premiações, tudo. Bem, foi o que Catherine Bond Muir, diretora-executiva, fez com a W Series.

O certame surgiu com um novo viés: ser totalmente voltado para as pilotas femininas. Assim que sua criação foi anunciada em outubro do último ano, uma chuva de críticas recaiu sobre os organizadores, todos com o argumento de que só serviria para segregar ainda mais as mulheres dentro de um cenário tão masculino que é o do automobilismo.

Mas isso não foi capaz de parar a ex-advogada esportiva, que estava determinada em tirar sua ideia do papel e colocar, enfim, em prática nas pistas. Aos poucos, as coisas foram tomando forma e grandes parceiros foram anunciados, como o ex-F1 David Coulthard.

O processo seletivo, que teve mais de 100 nomes interessados após três semanas de abertura de inscrições, foi bastante exigente e, por fim, selecionou 18 nomes finais de 13 diferentes países para compor o primeiro grid da história – além de duas pilotas reservas.

Agora, com 5/6 da temporada concluída e apenas a decisão do calendário restando para acontecer – Brands Hatch vai ser o palco da briga final pelo título, já é possível fazer o balanço da estreia e ver o que Catherine espera para o futuro.

 

BALANÇO INICIAL

A W Series surgiu como um sonho de Bond Muir, que viu a oportunidade de dar mais espaço para as mulheres dentro do universo do esporte a motor. Estudando e batalhando pela realização desse desejo por três anos, enfim conseguiu concretizar tudo.

Para a temporada inicial, foram selecionadas as seis praças que passariam – Hockenheim, Zolder, Misano, Norisring, Assen e Brands Hatch, todas como evento preliminar do DTM -, além do carro que seria utilizado pelas pilotas, um Fórmula 3 igual para todas, com o Halo já acoplado.

Ainda, detalhes importantes podem ser apontados como grandes pontos chave do certame e que certamente fizeram a diferença, como a ajuda de Coulthard e Alex Würz, além da transmissão pelo Canal 4, importante canal de televisão britânica. Ainda, o diretor de comunicação é Matt Bishop, que já trabalhou na Fórmula 1 pela McLaren, além do diretor de prova Dave Ryan, e o coordenador de corridas David Lowe, ambos com envolvimento na F1.

A somatória de grandes nomes fortemente envolvidos no mundo do automobilismo, fizeram a W Series ganhar notoriedade e espaço, mesmo que seu surgimento tenha acontecido de forma tumultuada por conta das diversas críticas sofridas – tanto de pilotas como Pippa Mann, quanto de pessoas da mídia.

 

Mas tudo ficou para trás quando a primeira corrida da temporada 2019 aconteceu. Nos dias 3 e 4 de maio, desembarcaram na Alemanha para o pontapé inicial da categoria, que teve Jamie Chadwick a primeira vencedora da história.

“[O começo da temporada] Foi incrivelmente animador. Estamos trabalhando no conceito da W Series já há alguns anos, e ver que finalmente se tornou um evento esportivo de verdade, com ótimos carros, ótimos pilotos e uma equipe brilhante foi gigantemente recompensador”, conta Bond Muir ao GRANDE PREMIUM.

“Sempre acreditamos que o conceito da W Series – pilotas brilhantes todas competindo contra elas em carros idênticos da Fórmula 3 – seria capaz de produzir corridas fantásticas, mas você nunca sabe o que vai acontecer até que a corrida realmente comece”, segue.

“Então é ótimo ver essa fórmula realmente produzindo corridas excitantes e muito próximas, com muitas ultrapassagens e muito emocionantes. Isso é muito importante para conseguirmos estabelecer a W Series com fãs, mídia, parceiros e por aí vai”, continua.

Catherine Bond Muir
W Series

 

A TEMPORADA

Com cinco etapas realizadas, já houve quatro vencedoras diferentes ao longo do campeonato, sendo elas Chadwick, Beitske Visser, Marta Garcia e Emma Kimilainen – Jamie foi a única que triunfou duas vezes, em Hockenheim e Misano.

No final, a categoria vai distribuir um prêmio total avaliado em torno de $ 1.5 mi [cerca de R$ 5.9 mi]. A campeã leva $ 500 mil [R$ 1.8 mi], com a segunda levando $ 250 mil [R$ 990 mil], e a terceira ganhando $ 125 mil [R$ 495 mil]. A quarta ganha $ 100 mil [R$ 395 mil], e então, a partir da quinta colocada até a 11ª, o valor vai caindo em $ 10 mil; entre a 12ª e a 14ª, cai em $ 5 mil; e então, da 15ª a 18º, ganham $ 7500 [R$ 30 mil]. Ou seja, todas são premiadas.

E atualmente o caneco está sendo disputado diretamente por Chadwick, líder da temporada com 98 pontos e que apareceu no pódio em todas as etapas, contra Visser, com 13 de desvantagem e que tem dois quarto lugares como piores resultados.

E a inglesa chegou em alta na categoria. Campeã da MRF Challenge, mostrou que teria força contra as adversárias. E o esforço tem se pagado, pois foi anunciada pela Williams como pilota de desenvolvimento da Fórmula 1, além de ser finalista do prêmio Mulher Esportista do Ano ao lado de nomes como Simone Biles, medalhista de ouro das Olimpíadas, e Megan Rapinoe, campeã com os Estados Unidos na Copa do Mundo Feminino de 2019.

 

 

“Temos 20 pilotas com ótimos talentos e ambição, e temos acordos com TV que garantem que 350 milhões de casas ao redor do mundo tenham a oportunidade de assistir as corridas da W Series. Claro, podemos fazer mais, mas é um ótimo lugar para se começar, e vamos construir isso na próxima temporada e nas depois dela”, continua.

A medida que a temporada 2019 ia se desenrolando, mais elogios e mais atenção a W Series vinha recebendo, mostrando um cenário bastante diferente do visto no início de toda a divulgação.  “Estamos felizes muitas pessoas ao redor do mundo obviamente gostam de assistir a W Series.”

“Mas é claro que sempre estamos tentando melhorar. Já fizemos algumas mudanças nos chassis dos carros, então é mais fácil de identificar as pilotas durante as corridas, e estamos abertos a fazer mais mudanças com o passar do tempo. Estamos sempre ouvindo nossos fãs [e nossos críticos] para ajudar a moldar a W Series nas futuras corridas e futuras temporadas”, ressalta.

E qual o feedback das pilotas? “Você provavelmente precisa perguntar para elas”, brinca. “Nosso feedback claramente mostra que elas amam o formato, e acredito que o prêmio em dinheiro que nós oferecemos é vital no progresso de suas carreiras no automobilismo no futuro. Se podemos ajudar pilotas mulheres a entrar na elite do esporte a motor, então estaremos muito felizes também”, completa.

 

Isso mostra o alto nível de competitividade do grid. “Ficamos surpresos em como existem excelentes pilotas mulheres ao redor do mundo. Temos 15 diferentes nacionalidades representadas em nossas 20 pilotas, e esperamos descobrir muitas mais nas próximas temporadas”, diz Catherine.

“Jamie Chadwick, que atualmente está liderando o campeonato, foi selecionada pela Williams como pilota de desenvolvimento, então isso te dá uma boa indicação do nível técnico de nossas pilotas”, completa.

Ainda, ao longo da temporada, por ser o ano inaugural, mudanças, adaptações e experimentos foram feitos pela organização. Um bom exemplo foi quando se queixaram de que os carros eram muito iguais e, assim, era difícil identificar as pilotas. Portanto, na etapa de Zolder, já fizeram os chassis com os números, nomes e bandeiras mais visíveis.

Então, no final de semana em Assen, mais uma novidade: o certame iria testar uma rodada dupla em que, na segunda prova, o grid de largada seria invertido com o resultado da primeira disputa. O formato se mostrou certeiro, pois com uma corrida bastante emocionante, Megan Gilkes venceu Alice Powell por uma diferença de apenas 0s003 – a etapa foi extracampeonato e não contou para a classificação.

“[A categoria] Com certeza cumpriu nossa maior e mais importante expectativa. Ao fazer parceria com o DTM para a primeira temporada, garantimos o melhor apoio profissional em termos de acesso para os melhores circuitos, organização, fãs e tudo mais”, comenta.

Jamie Chadwick
W Series

O FUTURO

Depois de fazer a grande estreia em 2019 e mostrar para fãs, pilotos e mundo a que veio, a W Series tem uma tarefa ainda mais difícil e árdua para os próximos campeonatos: seguir com o mesmo nível e seguir crescendo e buscando pontos para crescer e estabelecer cada vez mais como grande categoria.

E já existem alguns detalhes que Catherine está de olho. “Bem, nós já sabemos que queremos mais corridas na próxima temporada. Provavelmente temos corridas suficientes no calendário europeu, então nosso objetivo seria adicionar disputas em outras regiões. Talvez não seja possível em 2020, mas adoraríamos mostrar a W Series aos fãs ao redor do mundo”, aponta.

E algumas coisas já começam a se desenhar para o próximo ano. Por exemplo, as 12 primeiras colocadas da classificação final de 2019 já vão ter vaga garantida, além de que as restantes são convidadas a participar mais uma vez do processo seletivo.

 

Isso ajuda a promover não apenas as pilotas que ficam constantemente na ponta, mas também bota um holofote no pelotão intermediário do grid. Além disso, promove uma renovação saudável para a categoria, que mostrou não ter medo de mudar as coisas.

Mas talvez um dos principais pontos é que, a partir do ano que vem, a W Series vai contar pontos para a superlicença das pilotas. O sistema ainda vai ser definido pela FIA, mas é um imenso e importante passo para as competidoras que desejam chegar no topo do automobilismo, a Fórmula 1 – uma mulher não disputa a categoria desde Lella Lombardi há 43 anos.

E com a decisão do campeonato já batendo na porta, qual a expectativa da ‘chefona’? “Com o final da temporada já se aproximando, sabemos que o campeonato vai ser muito, muito apertado, com muitas das nossas pilotas de ponta brigando pelo prêmio geral de $500,000 [cerca de R$ 1,8 mi] para a grande campeã. Diversas de nossas pilotas são capazes de vencer essas últimas corridas, então vai ser extremamente emocionante”, encerra.