DeLorean: o engenheiro e o monstro

No que seriam os 95 anos de John DeLorean, Hollywood tenta trazer um pouco de luz para uma figura polêmica - que chegou a envolver ninguém menos que Colin Chapman em suas negociatas ilegais

Renan Martins Frade, de São Paulo

Poucas histórias são tão fascinantes quanto a de John Zachary DeLorean. Nascido em 6 de janeiro de 1925 - ou seja, ele teria completado 95 anos agora no começo do mês -, o norte-americano marcou uma era na GM, nas marcas Pontiac e Chevrolet, mas teria cravado o seu nome na história por criar a fabricante que levava seu sobrenome, desenvolvendo e lançando o carro DeLorean DMC-12. Teria. 

Na prática, ele entrou para a história mesmo por ter sido pego em uma enorme emboscada do FBI e como o protagonista de um dos maiores escândalos financeiros da indústria automobilística. Escândalo esse que envolveu até Colin Chapman, o fundador da equipe Lotus da Fórmula 1.

Com tanta coisa para contar, Hollywood sempre teve fascínio pela figura do nativo de Detroit, que foi, no passado, a capital internacional do automóvel. Em certo momento, chegou-se perto de uma dezena de projetos cinematográficos abordando a vida de John DeLorean, pelos mais diversos pontos de vista - como thriller, drama ou até mesmo brincando com o fato do carro idealizado pelo engenheiro ter ficado marcado no cinema pela presença na franquia ‘De Volta Para o Futuro’. Porém, todos esses projetos naufragaram e nenhum deles saiu do papel. Até 2019.

Curiosamente, os dois primeiros filmes sobre o engenheiro estão sendo lançados no Brasil ao mesmo tempo, nesta sexta-feira, dia 31 de janeiro - e ambos diretamente para o streaming, na plataforma iTunes/Apple TV. Trata-se do documentário ‘John DeLorean: Visionário ou Vigarista?’ e do drama ficcional ‘DeLorean: Do Motor ao Crime’ (‘Driven’, no original). 

Dos dois, claramente o mais interessante é o relato documental. O título original, ‘Framing John DeLorean’, é um trocadilho com o duplo sentido - podendo significar “enquadrar”, no sentido cinematográfico do termo, ou, na gíria, incriminar falsamente uma pessoa.

O filme parte justamente desse história de projetos naufragados em Hollywood para criar um produto final que vai além do formato tradicional do documentário. Em alguns momentos, ouvimos os produtores dos longas que nunca viram a luz do dia; em outro, imagens e relatos reais da vida do ex-executivo da GM; já certas partes trazem reencenações dos acontecimentos, criados a partir das declarações dos envolvidos; por fim, temos depoimentos dos próprios atores envolvidos nessas reencenações. 

Nas cenas de, digamos assim, ficção, DeLorean é interpretado por Alec Baldwin, enquanto a esposa do engenheiro é vivida pela brasileira Morena Baccarin.

“O tempo todo eu olhava para o DeLorean e pensava no que havia atrás das cortinas, e o que ele escondia sobre quem realmente era”, conta Baldwin logo na abertura do documentário. “Mas, quando você interpreta essa pessoa, você diz para si mesmo: ‘esquece isso de olhar no DeLorean em um programa de TV e pensar o que tem por trás da cortina’. Quando você começa a interpretá-lo, você pensa ‘não, não, não, ele não é culpado de nada. Ele não fez nada.’ Na verdade, é o oposto. Na mente dele, ele é um herói. Ele é um herói. E você tem que interpretar assim. Quem ele pensa que é. Você apresenta quem ele pensa que é para o mundo e deixa o público concluir por si só”. 

Baldwin, aliás, não esconde a empolgação em viver tal personagem durante todo o documentário. Afinal, trata-se de uma figura ímpar, o homem que ajudou a criar o Pontiac GTO por um lado, mas que também se deixava levar por uma vaidade a ponto de de fazer algumas cirurgias plásticas no rosto, a mais marcante para criar um novo queixo, quadrado como o dos astros de cinema. Namorou a famosa atriz Ursula Andress, a primeira Bond Girl. Casou quatro vezes, sendo uma delas (e a mais famosa) com a supermodelo Cristina Ferrare. Seu comportamento o fez sair GM pela porta dos fundos, onde chegou a ter tudo para ser o próximo presidente.. E lá foi ele colocar seu próprio nome na porta de uma nova fábrica e nos carros que sairiam de lá.

“Ser uma pequena parte de algum comitê não tinha muito apelo para mim. Claro, eu era bem recompensado financeiramente e seria fácil sentar e ficar mais 17 anos recebendo, sabe, meio milhão ou mais por ano, mas isso não me interessava muito”, disse o executivo em uma entrevista recuperada pelo documentário, na qual ele curtia o sol da Califórnia enquanto se dirigia para as câmeras.

Alec Baldwin, Morena Baccarin e Josh Charles em uma foto de divulgação de 'John DeLorean: Visionário ou Vigarista?'
Divulgação

A DeLorean Motor Company foi criada no começo dos anos 1970. A intenção de John era desenvolver um carro seguro, com design do famoso italiano Giorgetto Giugiaro, e que fosse todo de aço inoxidável. A fábrica, erguida na Irlanda do Norte, contaria com muitos incentivos do governo, enquanto o motor escolhido foi o PRV V6, desenvolvido em conjunto por Peugeot, Renault e Volvo. 

No final das contas, o projeto era ter um carro com algo de Ferrari, de modelo exclusivo, mas que ainda assim coubesse no bolso de um público mais amplo, com uma produção de algumas dezenas de milhares de unidades por ano. O preço para o consumidor final seria de US$ 25 mil, US$ 70 mil valores atuais - ou cerca de R$ 300 mil. É mais ou menos o que a própria GM cobra hoje nos EUA pelo Corvette Grand Sport. 

A escolha pela Irlanda do Norte foi bastante controversa, diga-se. O país vivia uma convulsão social por conta do movimento separatista do resto do Reino Unido, que seduziu DeLorean com grandes incentivos justamente em busca de gerar empregos onde o desemprego era alto e, quem sabe, acalmar a população. Por outro lado, eram operários diferentes daqueles de Detroit: eles nunca tinham construído um carro.

É aí que entra Colin Chapman e a inglesa Lotus Cars.

Colin Chapman ao lado de John DeLorean em uma das fotos resgatadas pelo documentário
Reprodução

“Provavelmente o melhor engenheiro automobilístico que eu já conheci na vida”, elogia o próprio John DeLorean enquanto apresenta o novo parceiro, em imagens de arquivo no documentário. A função de Chapman era fazer com que o DMC-12, até então um protótipo feito a mão, se transformasse em um carro viável para produção em massa. 

“A ideia de trabalhar com a Lotus parecia muito boa”, diz Bill Collins, então chefe de desenvolvimento de produto da DeLorean Motor Company. “Nos unimos e criamos uma organização em conjunto, e fomos terminar o projeto de produção”. Na prática, Collins acabou de lado dentro do projeto, substituído por Chapman - que não queria ter ninguém ao seu lado. “Eu senti que fui cortado pelo John”, resumiu o engenheiro, que pediu demissão. 

Apesar dos pesares, parecia tudo lindo, perfeito. Só que, entre a criação da empresa e os primeiros carros ficarem prontos para serem vendidos, passaram-se quase dez anos. Já era 1981, e uma Crise do Petróleo havia mudado muita coisa na indústria automobilística. 

Para piorar, os primeiros carros que chegaram aos Estados Unidos tinham uma série de problemas. Eram lentos, as portas não abriam direito, os vidros rangiam - e aquele estava longe de ser um carro popular para ter tantos problemas. 

Em vez de diminuir a produção, John a dobrou. Acreditava que, aumentando o número de empregos, ia colocar em prática uma cláusula do acordo com o governo, que seria obrigado a injetar mais dinheiro na companhia. Não seu certo - e esse foi o erro capital que levou à derrocada. Tudo porque a nova primeira ministra da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, não abriu mais a torneira do investimento.

Em pouco tempo, virou um jogo sobre conseguir manter a DeLorean Motor Company ao menos funcionando.

Cristina Ferrare e John DeLorean em uma das inúmeras fotos de divulgação que o ego do empresário exigia
Divulgação

É aí que a história fica bem estranha. Desesperado por dinheiro, DeLorean conheceu James Hoffman, que prometeu uma forma rápida do executivo conseguir dinheiro: se envolver com o tráfico de drogas. O que John não sabia é que Hoffman era informante do FBI, entregando o novo amigo desde o começo para agentes sedentos a mostrar serviço para o governo Ronald Reagan e a sua nova guerra às drogas. Ou seja: quem envolveu DeLorean com o crime foi o próprio informante, com encontros gravados por câmeras e muitas vezes protagonizados pelos próprios agentes infiltrados. 

“Pra mim, é sempre uma faca de dois gumes. A evidência é que eles armaram tudo, mas o senso comum e a realidade me dizem que ele não era a porra de um idiota. Que ele devia saber que ia dar merda em algum momento”, afirma o filho do engenheiro, Zachary DeLorean, em entrevista ao documentário. Hoje, o herdeiro vive em um apartamento muito simples e extremamente mal-cuidado. 

John DeLorean foi julgado inocente das acusações, mas a sua reputação e, o mais importante, a sua fábrica tinham acabado. A DMC foi à falência, deixando muitas dívidas.

A essa altura, Colin Chapman já havia morrido, vítima de um infarto fulminante. Se estivesse vivo, é provável que o azar de John DeLorean tivesse respingado no mítico fundador da Lotus. Não no caso das drogas, mas sim nas finanças da DMC. Como parte do processo de falência, uma série de más práticas financeiras e administrativas vieram à tona, muitas com dinheiro público. 

A peça central era um acordo, firmado na suíça e envolvendo Chapman, com uma misteriosa companhia chamada GPD Services. US$ 17,65 milhões sumiram em uma empresa que deveria entregar serviços de engenharia, mas que não tinham engenheiros. Na prática, o dinheiro passava por uma empresa de fachada e retornava para as contas privadas dos próprios John e Colin.

Dinheiro esse que fez falta no momento mais difícil da DMC, quando o engenheiro topava de tudo para manter o sonho vivo. Até ouvir as ideias de um informante do FBI.

Nesse segundo julgamento, por fraude e evasão fiscal, DeLorean acabou sendo considerado culpado. 

'De Volta Para o Futuro' transformou o DMC-12 em ícone da cultura pop
Divulgação / Universal Pictures

No mesmo ano, em 1985, o DMC-12 renasceu. Não como carro de produção em massa, mas como ícone da cultura pop. Uma publicidade que, se a companhia ainda estivesse viva, poderia ser a salvação.

“Quando Bob Zemeckis e eu começamos a trabalhar com ‘De Volta para o Futuro’, a máquina do tempo era uma geladeira”, diz Bob Gale, co-roteirista e produtor do filme. “E Bob Zemeckis, o diretor, disse: ‘não seria mais simples para o Doc construir a máquina do tempo em um carro? E se esse carro fosse um DeLorean?’”. O resto, como dizem, é história. Ou melhor: uma trilogia de filmes adorada até hoje.

“Obrigado por continuar com meu sonho de uma forma tão positiva”, disse o próprio John DeLorean para a equipe do longa, em uma carta enviada poucas semanas após a estreia nos cinemas. 

Falido, John DeLorean morreu em 2005, quando levava uma vida simples e religiosa em um pequeno apartamento de um quarto em Morristown, Nova Jersey - e tentava ainda construir um novo carro. Ele tinha 80 anos.