Do fracasso ao renascimento

Com exclusividade ao GRANDE PREMIUM, o gerente geral Masashi Yamamoto faz uma reflexão sobre o sucesso com a Red Bull, lembra a aliança que deu errado com Fernando Alonso e a McLaren e as condições da Honda para seguir na F1 depois de 2020

Fernando Silva, de Interlagos &
Felipe Noronha, de Interlagos

Dentre tantas grandes histórias escritas pela F1 ao longo de 2019, talvez a mais emblemática e marcante de todas foi a maneira como a Honda casou bem com a Red Bull, voltou a vencer no Mundial e renasceu depois de três anos com a McLaren traduzidos por calvário, críticas, descrédito e fracasso.

Desta última palavra surge um dos mantras que marcaram a carreira do fundador da montadora japonesa, Soichiro Honda. “Muitas pessoas sonham com o sucesso. Para mim, o sucesso somente pode ser atingido através de repetidos fracassos e da introspecção. De fato, o sucesso representa aquele 1% de seu trabalho que resulta exclusivamente dos 99% que são chamados de fracassos”.

Muito se questionou, desde que Christian Horner e Helmut Marko anunciaram o acordo com a Honda — depois de um 2018 que serviu de laboratório do fornecimento dos motores japoneses à Toro Rosso —, a eficácia da nova união. Afinal, a montadora de Sakura ainda carregava toda a desconfiança em razão dos anos desastrosos ao lado da McLaren, enquanto os taurinos encerravam um casamento vitorioso e tetracampeão, mas também cheio de cizânia com a Renault.

Com investimento pesado desde que voltou à F1 como fornecedora de motores, em 2015, a Honda viu na Red Bull sua última chance de vencer novamente no esporte na era híbrida das unidades de potência e transformar os 99% de fracassos dos tempos de McLaren nesta década no 1% de sucesso mencionado pelo seu fundador.

A segunda parceria entre McLaren e Honda foi um completo fracasso
(Foto: McLaren)

E se desde o início a segunda aliança entre Honda e McLaren deu errado, com um casamento que se desgastou e culminou em um divórcio inevitável, a união entre os japoneses e a Red Bull começou muito feliz, em clima de lua-de-mel. Logo na abertura da temporada 2019, na Austrália, veio o primeiro pódio na esteira do terceiro lugar de Max Verstappen. É verdade que a Mercedes, sobretudo com Lewis Hamilton, seguiu nadando de braçada, mas aos poucos a união anglo-nipônica se mostrou vencedora.

Veio então a primeira vitória, novamente com Verstappen, no GP da Áustria, na casa da Red Bull. O holandês dedicou o triunfo à Honda, que voltava a saborear uma vitória depois de 13 anos. O feito foi repetido no caótico GP da Alemanha, e com direito a dois pilotos impulsionados pela marca japonesa no pódio de Hockenheim: Verstappen no topo e Daniil Kvyat, da Toro Rosso, em terceiro — marcando o então melhor resultado da equipe de Faenza desde a vitória de Sebastian Vettel em 2008.

Mas o melhor estava por vir. Com uma atuação impecável no insano GP do Brasil, Verstappen garantiu a pole-position e venceu de forma incontestável em Interlagos. E depois das dez voltas finais mais loucas do ano, Pierre Gasly coroou uma corrida incrível para vencer o duelo com Hamilton e terminar na segunda colocação com a Toro Rosso, faturando seu primeiro pódio na F1. Assim, a Honda garantia sua primeira dobradinha desde o histórico GP do Japão de 1991.

Foi justamente no fim de semana do GP do Brasil que o GRANDE PREMIUM entrevistou com exclusividade Masashi Yamamoto, gerente geral de esportes a motor da Honda.

No sábado que antecedeu a dobradinha no pódio em Interlagos, Yamamoto-san fez uma análise do 2019 que marcou definitivamente o renascimento da Honda na F1, as diferenças na relação com a McLaren — Fernando Alonso também foi assunto — e Red Bull, a chance de colocar um piloto japonês no grid e um tema que vem sendo muito discutido recentemente: o futuro da montadora no esporte depois de 2020.


Ciente de que a Honda está apenas no início do seu processo de renascimento, Yamamoto-san se mostra contido. “Tem sido uma boa temporada”, responde o dirigente, que recordou a ousada meta traçada pelo consultor da Red Bull, no começo do campeonato.

“Sendo honesto, não estou surpreso. Marko disse que pensava que a Red Bull poderia vencer cinco corridas, eu nem tanto, mas algumas, sim. Então não são resultados tão surpreendentes”, avisa.

Mas afinal, o que faz da bem-sucedida Honda de 2019 ser tão diferente da Honda que fracassou com a McLaren entre 2015 e 2017? As lições aprendidas pela fábrica no seu regresso à F1 foram fundamentais para que o momento atual seja muito mais favorável.

Perguntado sobre a maior lição aprendida nos últimos anos, Yamamoto-san não tem dúvidas. “O principal feedback do período com a McLaren é que cada parte respeite muito a outra, então não podemos dizer muito sobre eles agora. Mas a comunicação aqui com Red Bull e Toro Rosso é muito boa. A comunicação aqui é bem melhor”, aponta.

A Honda teve de se reestruturar também no seu comando técnico para deixar para trás os tempos ruins na F1. Yasuhisa Arai liderou o início do projeto da montadora ao lado da McLaren. Mas, pressionado por conta das inúmeras quebras e queixas de Alonso e, o principal, sem conseguir mostrar uma perspectiva de evolução, foi substituído por Yusuke Hasegawa. Mas o engenheiro também ficou por pouco tempo no projeto da F1. Foi quando Yamamoto chamou Toyoharu Tanabe, que estava na Indy.
 

Tanabe-san foi nomeado como novo diretor-técnico e voltou à F1 para liderar a união entre Honda e Toro Rosso, preparando o terreno para a aliança com a Red Bull neste ano. Engenheiro de Gerhard Berger nos tempos de McLaren no início da década de 1990, Tanabe também desempenhou a função com Jenson Button quando a Honda alcançou sua última vitória no Mundial: o GP da Hungria de 2006.

E foi justamente Tanabe quem subiu ao pódio quando Verstappen venceu o GP da Áustria na esteira de grande atuação. Para Yamamoto-san, o triunfo no Red Bull Ring foi fundamental para o resgate da Honda como marca vitoriosa na F1.

“Nossa última vitória havia sido em 2006, mas foi uma só em oito anos, na verdade”, lembrou o gerente, fazendo menção aos anos em que a Honda atuou como equipe e fornecedora de motores nos anos 2000. “E aqui já vencemos algumas vezes desde que o projeto começou em 2015. E vencer corridas é muito importante para nós, para nosso DNA como empresa”, explica.

Yusuke Hasegawa e Fernando Alonso
(Foto: Honda Racing)

Calando Alonso?
 

A cada conquista alcançada por Red Bull, Toro Rosso e a Honda em 2019, o nome de Fernando Alonso inevitavelmente é citado. Mesmo sendo responsável por bancar boa parte do salário do espanhol nos tempos de McLaren, estimado em € 35 milhões (ou R$ 163 milhões na cotação atual), a montadora não foi poupada das fortes críticas do bicampeão do mundo por conta da falta de potência e confiabilidade.

O marcante episódio do ‘motor de GP2’, bradado em alto e bom som por Alonso no rádio em pleno GP do Japão de 2015, na casa da Honda, e exibido a milhões de pessoas por meio da transmissão da F1, humilhou a montadora e escancarou uma crise que durou até o fim de 2017, quando a McLaren e a fornecedora encerraram a parceria.

Ainda está na retina também a corrida de abertura da temporada 2018, o GP da Austrália, quando Alonso, já com a McLaren impulsionada pelo motor Renault, resistiu à pressão de Verstappen — quando a Red Bull também usava os propulsores franceses —, terminou a prova em quinto e bradou: “Agora podemos lutar”, dando aquela alfinetada na Honda.

O tempo passou, Alonso não conseguiu lutar, se desiludiu com a F1 e encerrou seu ciclo no ano passado. A Honda foi para os braços da Red Bull e estabeleceu uma união vitoriosa. E mesmo a McLaren, sem o bicampeão, passou a ter muito mais motivos para comemorar.

Para Yamamoto-san, as polêmicas com Alonso são parte do passado e irrelevantes. O que importa é, acima de tudo, olhar para a frente. “Nós ligamos para o que ele disse sobre nós. Nós apenas fazemos o que nossa equipe acredita que nos trará vitórias, não com o que ele disse”.

Masashi Yamamoto deixa claro: só fica na F1 se for para vencer
(Foto: Honda Racing)

Olhos voltados para o futuro
 

Recentemente, a F1 anunciou vários projetos distintos para o futuro em curto, médio e longo prazo. A esperada revolução para 2021, que compreende o teto orçamentário, traz a perspectiva de um esporte menos desigual e com mais possibilidades de sucesso para equipes hoje restritas ao meio do pelotão.

Dias depois, o Liberty Media revelou o projeto de desenvolvimento de uma F1 mais sustentável, elevando o uso de combustíveis renováveis, eliminar o consumo de plásticos e, até 2030, zerar a emissão de carbono.

A F1 verde é um sonho antigo da Honda, que ficou marcada na década passada por layouts dos seus carros que promoviam a imagem de um mundo mais sustentável. Impossível não lembrar do famoso ‘carro planeta’, o RA107, da temporada 2007.

Em Interlagos, Yamamoto-san falou sobre quais fatores ajudariam a Honda a seguir no esporte. 

“Como o regulamento foi anunciado há poucas semanas, estamos avaliando. Queremos ficar aqui para vencer. Então vamos ver se vale a pena continuar em termos financeiros, se for sustentável para nós, ficamos”. Dias depois, veio a confirmação do fico.

Nesta quarta-feira, às vésperas do GP de Abu Dhabi, como anunciado por Helmut Marko, a Honda confirmou a permanência no esporte tanto com a Red Bull como também com a ainda Toro Rosso, futura AlphaTauri, para 2021

O dirigente já faz uma projeção de elevar a qualidade do motor desenvolvido nas fábricas de Sakura, no Japão, e Milton Keynes, na Inglaterra, para 2020.

“Nossa fábrica e nossos engenheiros estão planejando o motor do ano que vem, e talvez na primeira parte da temporada já nos aproximemos muito dos principais”, diz Yamamoto.


Feliz com o momento atual na F1, mas querendo ir além na sequência deste ciclo, a Honda deixa claro que não pretende voltar ao grid como equipe, preferindo se dedicar ao espectro que fez dela uma das marcas mais vitoriosas do esporte.

Mas a marca não descarta, para os próximos anos, ajudar a levar de novo um piloto japonês à F1, como aconteceu com Satoru Nakajima e Takuma Sato, por exemplo. Recentemente, Naoki Yamamoto participou do primeiro treino livre do GP do Japão como prêmio pela conquista do título da Super Formula em 2018. O piloto de 31 anos não comprometeu na sessão e foi elogiado pela cúpula da Red Bull, mas ao mesmo tempo descartado por não fazer parte do programa de jovens da marca dos energéticos.

Yamamoto-san acredita que em breve a F1 vai ter novamente um japonês no grid. “Nós temos nosso próprio programa e acreditamos que podemos em alguns anos ter um piloto que consiga a superlicença e, a partir disso, conseguir um lugar para ele no grid”, comenta. Atualmente, o jovem nipônico mais perto da F1 é Nobuharu Matsushita, pupilo da Honda que disputa a F2.
 

1% de sucesso
 

A temporada 2019 se encerra para a Honda com um sabor bem diferente em relação aos últimos anos. O gosto amargo do fracasso e da desconfiança dão lugar ao saboroso champanhe bebido em dez visitas ao pódio, com destaque para as três vitórias.

Antes do GP do Brasil, Yamamoto-san chegou a listar os melhores momentos da Honda ao longo desta temporada. “É muito difícil escolher um só momento. Podemos, então, comentar três. O primeiro foi na Austrália, o segundo talvez na Áustria e, claro, o pódio duplo na Alemanha. Eles são diferentes, mas foram os melhores. Esses momentos são os que dão expectativa de melhora a todos na Honda”, conta ao GP*.

Até que veio o GP do Brasil para marcar de vez a redenção da Honda, uma das grandes histórias contadas pela F1 em 2019. Tanabe-san destaca o feito histórico da montadora, que festejou sua primeira dobradinha após 28 anos.

“Esta é nossa primeira vitória no Brasil desde a épica vitória de Ayrton Senna em 1991. A vitória de hoje foi na esteira de uma corrida inteligente e agressiva de Max e de uma estratégia bem-executada pela equipe. Alcançar a terceira vitória nesta temporada é um grande resultado para todos da Honda e da Red Bull. Parabéns também a Pierre Gasly pela sua pilotagem fantástica na qual ele tirou tudo do carro para marcar seu primeiro pódio na F1 e também o segundo top-3 da Toro Rosso no ano”, lembra.  

A dobradinha no Brasil foi a primeira da Honda desde o fim de 1991
(Foto: Honda Racing)

A forma como alcançou a vitória com Verstappen e a maneira como sacramentou a dobradinha com o surpreendente Gasly dão à Honda uma perspectiva ainda mais otimista para 2020. “O pacote de carro e unidade de potência funcionou muito bem para as duas equipes e este é um bom sinal para a última corrida do ano e para o que nós olhamos a respeito do ano que vem”.

Por fim, Tanabe faz questão de homenagear o fundador da Honda, que nasceu justamente num dia 17 de novembro, assim como o GP do Brasil deste ano. “Gostaríamos de dedicar esta vitória ao nosso fundador, Soichiro Honda, que estaria fazendo aniversário hoje”.

Morto em 5 de agosto de 1991, aos 84 anos, Soichiro Honda deixou um legado que vem sendo seguido à risca pela sua criação. “Há qualidades que te levam ao sucesso. Coragem, capacidade de sonhar e perseverar”, dizia o empresário, que até hoje inspira a marca a trilhar, depois dos 99% de fracasso, o 1% do sucesso que a leva novamente à gloria na F1.

Soichiro Honda segue inspirando ideais e objetivos na marca que criou
(Foto: Honda Racing)