F1 para dentro das escolas

Alunas do Ensino Médio tiveram lições de engenharia, aerodinâmica, marketing e gestão para competir no tradicional F1 in Schools. Team Acinonyx precisa vencer etapa nacional para ir ao torneio mundial, durante o GP de Singapura

André Avelar, São Paulo

Português, matemática, física, química, biologia, história, geografia... F1. Isso mesmo. Além de todas as disciplinas regulares, a principal categoria do automobilismo compõe a grade extracurricular para pelo menos quatro alunas do Colégio Vértice, um dos mais tradicionais de São Paulo. Elas conciliam os estudos do Ensino Médio com todo o desenvolvimento de uma equipe de protótipo para competir no F1 in Schools.

O projeto educacional que leva a assinatura da própria F1 (assim como nos carros de verdade, também trocou o logo e passou por uma nova identidade visual com a Liberty Media) consiste em construir uma microempresa no ambiente dos carros de corrida. Não se trata apenas de um projeto de engenharia. Alunos de 7 a 19 anos de cerca de 40 países se esmeram em atividades que vão do planejamento estratégico e financeiro ao trabalho de marketing e gestão da equipe.

A competição nasceu na Inglaterra, em 2004, e tomou ares globais nos anos seguintes. Hoje, os campeões nacionais têm vaga garantida para a competição mundial, que acontece no fim de semana do GP de Singapura, em 16 de setembro. Se não há uma bolada em dinheiro para o campeão, há ao menos a chance de estar no grid e subir no pódio com os três melhores da corrida pelas ruas da Marina Bay, como confirmou o presidente e fundador Andrew Denford.

Alunas entre 15 e 16 anos trabalham para conseguir o carro ideal na F1 in Schools
Divulgação

Para conseguir a vaga direta na competição – o segundo colocado pode participar desde que custeie as passagens e hospedagens da equipe – o Team Acinonyx (nome do gênero do guepardo) precisa vencer a etapa nacional, que acontece neste sábado (19), em Jundiaí, na região metropolitana de Campinas. Ana Beatriz, Ana Inda, Beatriz Souza e Marina Borges, alunas do 1º e do 2º ano, entre 15 e 16 anos, demonstram confiança no projeto.

“Acho que realmente temos chances pelo andamento do nosso projeto. Nosso objetivo é ganhar a Nacional. Estamos nos esforçando muito, está dando resultado, conseguimos patrocinadores e temos condições de ir para a final do Mundial”, disse Ana Inda, líder da equipe e uma das responsáveis pela área de engenharia e design do carro.

 

Quando prontos, depois de passar inclusive por um software de túnel de vento, os carrinhos são impulsionados por um tubo de CO2 comprimido e percorrem uma pista de 20 metros. O recorde de tempo, 0s916, pertence a uma equipe australiana que competiu em 2016, mas não ficou com o título principal porque os critérios vão além de velocidade e avaliam toda a concepção do projeto da equipe. Diferentes requisitos têm variados valores e compõem a nota final.

O projeto é acompanhado de perto por professores de diferentes áreas que em geral contribuem nas áreas de tecnologia, aerodinâmica e marketing. Com a Acinonyx, existem outras quatro equipes na escola, o matemático Raphael Inocêncio celebra justamente a interdisciplinaridade fora das salas de aula.

“Eles levam a competição muito a sério. Eles têm que formar uma equipe de F1 do zero junto com todas as outras matérias do currículo”, ressaltou Inocêncio. “O Brasil não tem muita tradição para patrocínios, então eles ouvem alguns ‘não’... Eles ouvem muitos ‘não’. Mesmo assim, estão firmes e sequer apresentam uma queda drástica de rendimento.”

 

Esse é apenas o terceiro ano da F1 in Schools no Brasil. Na primeira edição, em 2014, o próprio Colégio Bandeirantes levou o título nacional, com os alunos da Força Canindé. No ano passado, foi a vez do Colégio Vértice, com o time Celer, conquistar a competição por aqui, tendo um orçamento de menos de R$ 50 mil. Nenhum deles esteve entre os primeiros colocados no Mundial, com equipes que costumam levantar até US$ 300 mil (quase R$ 1 milhão).

Apesar da proximidade maior com a engenharia, apenas uma das atuais integrantes pensa em seguir na área. As demais sonham com arquitetura e medicina, mas se apóiam na experiência e no aprendizado diferente do aprendido regularmente na escola.

“Achava que uma reunião de patrocínio era como um seminário, mas aprendi que não. Na prática, aprendi a vendar minha empresa para outra em troca de patrocínio”, disse Ana Paula.