Irmãos de pele

Cristina Lopes Afonso conta como sofreu tentativa de feminicídio e teve 85% do corpo queimado pelo ex-namorado e como Niki Lauda a ajudou na recuperação

Fernando Silva, de Sumaré &
Gabriel Curty, de São Paulo

Curitiba, 6 de fevereiro de 1986. Cristina Lopes Afonso era namorada de Uilson Isao Miyashiro. Naquele dia, o oftamologista não aceitou o término do relacionamento e, após uma discussão, Uilson jogou álcool e ateou fogo ao corpo da estudante. Cristina sobreviveu, mas teve 85% do corpo queimado.

As marcas da tentativa de feminicídio são bem visíveis no corpo da hoje vereadora — em segundo mandato na Câmara de Goiânia pelo PSDB — e fisioterapeuta. Cristina tem atualmente 54 anos.

O agressor se apresentou à polícia, confessou o crime, mas escapou do flagrante e seguiu a vida por muito tempo em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

A condenação definitiva a Uilson só foi anunciada NESTE ANO, em 28 de fevereiro — três meses atrás, 33 anos após a tentativa de feminicídio, portanto. O médico foi condenado em Curitiba a uma pena-base de 21 anos, atenuada para 13 anos e 10 meses em regime fechado.

O caso de Cristina ganhou repercussão e recebeu uma ajuda inesperada. Niki Lauda, já consagrado como tricampeão mundial de Fórmula 1, que teve estampada na  pele as marcas das queimaduras sofridas em razão do acidente no GP da Alemanha de 1976, no circuito de Nürburgring-Nordschleife,  tomou conhecimento das agressões sofridas pela brasileira por meio de amigos em comum, e se comoveu com o drama da estudante.

Nesta quarta-feira (29) em que acontece o funeral de Lauda, na mesma Viena onde se recomeçou a vida, Cristina relembra a si e a Niki.

por CRISTINA LOPES AFONSO 
 

Eu cursava Educação Física na Universidade Federal do Paraná na década de 80. No fim do curso, tinha um namorado e fiquei com ele por, mais ou menos, um ano e meio. Ele já era médico, formado. Tivemos um desentendimento de fim de relacionamento e eu resolvi que iria sair do Brasil. Inconformado com o fim do namoro, ele me fazia uma violência psicológica: dizia que ia se matar e que a vida para ele não tinha sentido. Eu realmente achava que ele ia fazer isso e que eu era a responsável por ele. Eu tinha de ajudá-lo de alguma forma. Até o dia que ele usou álcool e fogo.

Ele tentou me matar.

O crime aconteceu em 6 de fevereiro de 1986 e fui transferida de Curitiba para Goiás no dia 10 daquele mês. A gente viveu esse processo da recuperação, o processo de salvar e resguardar a vida em Goiânia, distante do Paraná. O agressor foi denunciado pela minha família, foi à polícia, fez uma confissão, disse que estava sob forte depressão e tentou matar a namorada. Vivi todo esse processo aqui em Goiânia. Quando voltei a Curitiba, entendi que não seria fácil a condenação do agressor. Ele teve a prisão preventiva decretada, mas fugiu.

Cristina Lopes Afonso viu de perto a generosidade de Niki Lauda em 1987
Reprodução/TV Globo

A escolha por Goiânia se deu, na verdade, por uma dificuldade enfrentada por minha família e por mim. Poucos profissionais tinham a capacidade de atender vítimas de queimaduras. Àquela época, raríssimas eram as pessoas que sobreviviam a um trauma como eu sobrevivi. Depois daquilo, tive muita dificuldade em morar em Curitiba. Ter saído de lá me ajudou muito porque você acaba se distanciando de lá, sai um pouco da memória de dor, de trauma, de conflito. Goiânia foi tudo de bom.

No ano seguinte, uma amiga que também tinha feito Educação Física, a Elcie Helena Rodrigues, e seu irmão, o Túlio, me ligaram de Viena. Eles me disseram que seria muito importante falar com Niki Lauda, que morava lá. Ele tinha ido ao Baile da Ópera de Viena, conheceu o piloto, falou sobre minha história e detalhou o que havia acontecido. Lauda ficou muito comovido e me convidou para ir à Áustria.

Viajei pela companhia dele, a Lauda Air, em 1987. Fiquei cerca de 40 dias lá. Tive uma consulta com um dermatologista especializado em queimaduras – na Áustria, o tratamento de queimaduras é subordinado à dermatologia, enquanto no Brasil faz parte da especialidade de cirurgia plástica. Lauda foi muito receptivo e gentil. Ele me estendeu a mão no sentido de mobilizar a opinião pública. Fiz uma matéria muito grande para uma televisão austríaca e para uma emissora norte-americana a partir da proximidade com ele, que era tricampeão mundial e vivenciou as queimaduras de maneira cruel por conta de seu acidente grave. As queimaduras marcaram muito a vida dele. Ele ainda vivia uma fase de tratamento, com sequelas para a vida toda, pulmonares, renais e físicas. Niki não fechava a pálpebra e fez uma cirurgia plástica aqui no Brasil com o Ivo Pitanguy no Rio de Janeiro.

 

Lauda ficou muito impressionado com meu caso e com minha recuperação. Fiz alguns tratamentos dermatológicos e já estava numa fase em que tinha minha própria rotina de exercícios físicos, de massagens, de uso da malha compressiva. Havia criado uma disciplina em relação ao tratamento. O Brasil é muito avançado no tratamento das queimaduras e é uma referência. Na verdade, o tratamento não foi o ponto principal da nossa relação, mas, sim, a sensibilização em relação às queimaduras, a forma como ela aconteceu, o crime em si e a mobilização da opinião pública.

Toda essa história mexe muito. Niki foi muito solidário e me ofereceu ajuda.

A coragem que Lauda teve de enfrentar as pistas de novo é um estímulo para qualquer pessoa que tenha vivido o processo. Você fica com medo de álcool, fica com medo de chama, carrega um trauma na sua vida. Ter voltado às pistas e ter sido campeão novamente é de uma coragem e determinação exemplar para o mundo inteiro. A história de outra pessoa assim mexe muito.

Isso me estimulou a voltar a estudar. Eu acabei me formando em Fisioterapia para ter a missão de trabalhar com queimados. Participei da fundação do primeiro curso de formação universitária em Fisioterapia no Centro-Oeste brasileiro, fiz parte do Núcleo de Proteção aos Queimados e tive um protagonismo nesta causa e na causa de proteção à mulher. Isso foi se naturalizando com a chegada à política. Foi quando decidi ser candidata à vereadora. Eu me elegi pela primeira vez em 2012.
 

Entendi melhor que a apelação no Brasil, a pena, é muito branda. Naquela época, para o que era estipulado de pena no Brasil, aquele criminoso pegou uma punição exemplar, mas as regras e o ordenamento jurídico no Brasil são muito complicados. A condenação não é direta, de inocente ou culpado: são sete pessoas sorteadas que vão ouvir a defesa, a acusação, o réu, a vítima, e a partir daí tomam uma decisão. Só que é uma decisão tomada por quesitos. E são esses quesitos que, somados, definem a pena.

Ele pegou 21 anos e 9 meses, mas com a atenuação da pena, que já acontece no cálculo, caiu para 13 anos e 10 meses. Para a lei brasileira, foi uma pena extraordinária. Para a vítima, é revoltante. Ele nunca deveria ter saído da cadeia. Mas para o ordenamento jurídico, foi importante. O caso virou jurisprudência. Muitos advogados de condenação de agressores usam meu caso para condenar outros agressores. Para mim, já é uma conquista enorme.

Hoje as mulheres têm mais coragem de denunciar. Antes havia mais vergonha, mais preocupação com o que os outros iriam pensar, também dependência econômica. Existiam vários fatores que impediam a mulher de denunciar. O rompimento desses elos facilita a denúncia. Hoje você tem órgãos apropriados como as delegacias da mulher, conselhos da mulher, políticas públicas voltadas para as mulheres. É um avanço que vem ajudando muito.

A nossa sociedade é tão arcaica e é tão machista que ela não conversa com os homens. Um exemplo simples é a gravidez na adolescência. Todo mundo conversa com a menina: a mãe, o pai, o conselho tutelar, a professora conversa... mas com o menino, ninguém conversa. É como se o filho nascesse só da parte da mulher. Em Salvador, por exemplo, há uma iniciativa pioneira chamada Papo de Homem, que são núcleos que debatem o tema com os homens. Hoje trabalho com um grupo reflexivo de homens agressores. Muitos me falam que podiam bater, mas não podiam demonstrar fraqueza; é aquela coisa do homem provedor e vencedor. Isso é imposto ao homem e ele, dentro da sua fragilidade, se defende agredindo, batendo, usando a arma que ele tem, que é a força física. O homem acaba ganhando a discussão ganhando no grito.

Dra. Cristina hoje é vereadora em Goiânia e atua em defesa das mulheres e das minorias
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A gente vive um momento muito difícil e perigoso hoje no Brasil. Você tem uma ministra que diz que a mulher tem de ser subserviente ao homem, que o homem é o mandatário da casa e que a mulher deve obediência a ele. Isso significa que, se o homem der um murro, a mulher tem de aceitar e ficar quieta. Uma ministra de estado... Estamos vivendo um momento em que as forças conservadoras querem conservar o poder através de dogmas e temor para implantar o medo. Nós temos de ser proativas e trabalhar com processos culturais e reflexões para mudar essa realidade.

Esse decreto do armamento é um erro. As pessoas estão sendo autorizadas a praticar a violência. A eleição teve como símbolo uma arma e a pessoa com a mão no gatilho. No subconsciente das pessoas, está autorizada a violência, está autorizada a dar um tiro na outra. Vejo tudo isso com muita preocupação. Mas, ao mesmo tempo, tenho muita disposição para trabalhar. Porque precisamos trabalhar.

E foi no trabalho que recebi a notícia da morte de Lauda. Estava em uma reunião e fiquei muito consternada e triste. O mundo perde um grande homem e um grande atleta, que marcou a fase de profissionalização do automobilismo. Encarei sua morte com um grande pesar.

Sigo em frente. Estou buscando dominar o conhecimento para poder fazer o melhor. É um exercício de cidadania. E a política é quem toma as decisões que afetam ou que privilegiam nossa população. Precisamos, muito, trabalhar.