Júbilo e decepção

Nunca três brasileiros venceram uma mesma edição das 24 Horas de Le Mans. Antes de 2019. A história mudou neste junho, ainda que La Sarthe tenha mostrado em detalhados exemplos que entrega prazeres e agruras

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro &
Fernando Silva, de Sumaré

As 24 Horas de Le Mans são, por si só, uma instituição do esporte internacional. É maior que campeonatos e que o automobilismo em caminhos avulsos. Está fora dos limites de uma única modalidade e é um um objetivo dentro de si mesmo, uma história para contar. A ligação brasileira com a corrida — mais importante do mundo, desnecessário dizer, em termos de provas de longa duração — vai longe. Fácil lembrar do segundo lugar de José Carlos Pace, em 1973, e da incursão transloucada e bem-sucedida de Paulão Gomes, Marinho Amaral e Alfredo Guaraná Menezes, em 1978. O interesse e o sucesso de pilotos da terra brasilis não começam sozinhos, mas com um histórico costurado em tempos muito menos amistosos. Mas foi desenhado, assim mesmo, e chegou até 2019.

Entre todos os inscritos, sete pilotos brasileiros e diferentes históricos, classes e carreiras. Dentre esses, dois veteranos e um novato iriam assumir os holofotes quando as 10h (de Brasília) foram apontadas no relógio do domingo, 16 de julho: Daniel Serra, André Negrão e Felipe Fraga.

 

Negrão na LMP2, Serra pela GTE Pro e Fraga, um estreante, na GTE Am. Ganhadores, todos. O pódio foi dos três, certamente em meio a um ambiente muito mais delicioso que aquele dos vencedores da LMP1, o trio formado por Fernando Alonso, Sébastien Buemi e Kazuki Nakajima. Na Toyota que os três defendem já pairava um enorme fantasma do erro que causou não apenas a vitória deles, mas a derrota de uma vida para o outro trio da fábrica - formado por José María López, Kamui Kobayashi e Mike Conway. Para os brasileiros, nada disso.

André venceu ao lado dos franceses Nicolas Lapierre e Pierre Thiriet pela Signatech Alpine Matmut a bordo de um Alpine A470; Serra defendia a Ferrari e sua AF Corse junto a James Calado e Alessandro Pier Guidi; Fraga, estreante, foi colocado de piloto prata na classe Am e tinha Jeroen Bleekemolen e Ben Keating, o dono da equipe Keating por quem eles guiavam um Ford GT.

Enquanto Negrão partiu para as férias em Capri, no Golfo de Nápoles, como campeão mundial da LMP2 e Serra voltou ao Brasil satisfeito em seguir andado corridas específicas na Europa e pronto para se preparar para a sequência da Stock Car - ambos duas vezes vencedores de Le Mans -, a vida de Fraga foi outra.

A vida de vencedor do piloto paraense durou mais que a prova. Na segunda-feira de manhã, Fraga provavelmente se ajustava à vida de vencedor em Le Mans. Ficha que caía, imprensa que procurava, sonho de vida que era realizado depois do mundo vê-lo em ação. Chegou a hora de voltar ao Brasil e encarar o mundo que o novo currículo trazia. Até que, no avião, a notícia: uma punição por conta de limite de combustível abaixo do exigido naquele último stint. A vitória não existia mais.

Há o júbilo e há o desespero de quem fez tudo que poderia e deveria, mas acabou abatido mesmo assim. Le Mans, como dizem, escolhe seus vencedores. Às vezes até por linhas tortas.

 

 

Capítulo 1:  Na bandeirada, campeão mundial e aniversariante

 

Aos 27 anos de idade, André Negrão encontrou o caminho da carreira. Piloto que começou a valer nos monopostos já longe do Brasil no começo da década passada, seguiu uma série de tentativas em diferentes de campeonatos em busca do sonho da F1. Quando andou na F3 Brasil já tinha um histórico lá fora. Foi duas vezes vice-campeão nos anos em que correu, 2010 e 2012. Ficasse no país, com resultados interessantes e com um nome de família importante que tem, filho de Guto Negrão, teria espaço. Mas seguiu tentando a Europa e teve dificuldades na World Series e na GP2. Tentou a Indy Lights, nos Estados Unidos, mas se encontrou ao ser convidado pela Alpine em 2017 para guiar o protótipo francês no WEC.

Na atual temporada 2018/19, já com verniz de piloto experiente no cockpit que defende e na categoria onde encontrou uma casa, Negrão teve bom rendimento. Venceu as 24 Horas de Le Mans em 2018, segunda etapa da supertemporada, mas não venceu mais. Nas provas de seis horas, a equipe Jackie Chan DC Racing mandava no calendário. Levou quatro das seis provas de 6 Horas do calendário, três com o trio formado por Ho-Pin Tung, Gabriel Aubry e Stéphanie Richelmi.

O trio de Negrão só vencera uma vez no campeonato antes da segunda edição de Le Mans dentro deste calendário, mas tinha ido ao pódio em todas as etapas. Tinha chance e aproveitou. Venceu de novo, mais uma vez em Le Mans, e ficou com o título.

“Foi uma grande vitória para mim”, conta André em entrevista ao GRANDE PREMIUM. “Eu nem esperava que isso fosse acontecer neste ano, até porque outras equipes foram tão fortes quanto a nossa. Se você for ver, nas outras corridas de 6 Horas a gente nunca ganhou. Estávamos sempre no pódio, em segundo ou terceiro, mas ganhar a gente não conseguiu, pelo fato de ter um pequeno déficit. Mas a gente estava sempre ali nos pontos. E no ano passado a gente ganhou Le Mans, a primeira Le Mans, e isso deu um upgrade muito bom no campeonato”.

“Nas outras corridas conseguimos manter uma diferença muito próxima ao #38, da Jackie Chan, que foi nosso principal adversário. Na corrida de Sebring, tivemos uma grande vantagem porque eles tiveram problemas com o câmbio e terminaram em sétimo, enquanto a gente completou em segundo a poucos décimos do #37, que venceu. E em Spa, finalmente conseguimos passar o #38 no campeonato, com a gente em segundo e eles em terceiro. A G-Drive ganhou lá, mas ela não conta para o campeonato, então chegamos em segundo, em termos de pontos, e eles em segundo, e aí passamos o #38 na penúltima corrida do campeonato e chegamos a Le Mans com 6 pontos à frente. Isso foi crucial para sermos campeões mundiais”, comenta.

 

De fato, não parecia que o #36 da Signatech Alpine venceria. O trio #26, da equipe russa G-Drive, oriunda da European Le Mans Series e que não participou de toda a temporada, mas estava pronta para essa prova, dominava. Jean-Éric Vergne, Roman Rusinov e Job van Uitert caminhavam para a vitória após 18 horas, só que Le Mans é Le Mans. Uma falha no sistema de partida do protótipo fez perder muito tempo, o que mudou o panorama.

“No começo, na semana de Le Mans, nossa missão era terminar à frente deles de qualquer jeito. Nem estávamos esperando ganhar em Le Mans, já que tinha a G-Drive, que vinha forte do Europeu, queria vencer em Le Mans. Conseguimos manter um ritmo muito bom de corrida, logo atrás deles. Até que, no meio da corrida, a G-Drive parou no mesmo instante que a gente, e a gente fez troca de pilotos. Nesse tempo em que estávamos dentro do pit-lane, o safety-car entrou. Bem neste momento, eles conseguiram sair dos boxes 5 ou 10s antes de entrar o safety-car, só que a gente ficou travado nos boxes, que fecham com a entrada do SC. Quando isso aconteceu, eles ficaram 1min50s à nossa frente. Pensei: ‘A vitória em Le Mans já era, infelizmente, e agora só se acontecer algo muito grave com eles’.”

“A gente não desistiu de ganhar, mas sabia que [para o campeonato] era importante chegar em segundo e bola para frente para ser campeão mundial. Só que na parte final da corrida, faltando cinco ou seis horas para o fim, a G-Drive teve um problema no ‘starter’ do carro, eles não conseguiam fazer o carro pegar. Foi aí que o jogo virou totalmente e conseguimos vencer em Le Mans mais uma vez. Ganhou, ganhou mesmo e, ao mesmo tempo, a gente juntou a vitória em Le Mans com o título mundial na LMP2. Foi animal, foi surpreendente, a gente não acreditava”, recorda.

Quer mais? Um dia depois, na segunda-feira, André comemorou mais um ano de vida. “Acabo que, desde a minha primeira vez em Le Mans, em 2017, sempre faço aniversário lá. Claro que dá um gás a mais para mim por ter três coisas muito importantes, como neste ano: ganhar Le Mans pela segunda vez, ser campeão mundial e ainda ter o aniversário no dia seguinte. Não houve presente melhor para mim naquele momento”.

A grande diferença entre as vitórias está em outro campo: o da confirmação. Oficialmente, Negrão foi declarado vencedor com chancela da FIA apenas três meses depois da bandeira quadriculada de 2018. Os rivais do #26 haviam conseguido batê-los, mas irregularidades no sistema de reabastecimento mudou a classificação final. Como a G-Drive recorreu para tentar a vitória, o processo durou. Agora, não. A comemoração começou imediatamente.

“Lembro que a vitória de Le Mans no ano passado foi confirmada lá em Fuji, inclusive o WEC fez uma grande festa para a gente, levaram os troféus para nós... Foi bem legal, mas não é o sentimento que a gente teve neste ano de subir ao pódio de Le Mans, com todo aquele pessoal lá, no ambiente da corrida. Quando a gente voltou lá em novembro, a gente fez o pódio, mas estava um puta frio, chovendo, não tinha ninguém no autódromo, só tinha a gente. Não é a mesma coisa, mas independente disso a gente venceu lá duas vezes e mais o campeonato. E tá valendo”, brinca.

O sucesso, que terminou com as vitórias e o título, são frutos de uma parceria que ornou com os pilotos da França e numa equipe da França. “Tudo tem de casar. No automobilismo tem que dar tudo certo, seja a junção com a equipe, a amizade com os pilotos... até porque dividimos o mesmo carro, então não pode ter três caras que se odeiam. Foi realmente um casamento, a gente se deu bem desde o começo, em 2017. Quando foi em 2018 e a equipe ficou só com um carro, com o Nicolas Lapierre e o Pierre Thiriet, aí, sim, foi um casamento perfeito em termos de resultados bons e pódios”.

O trio vai mudar um pouco, mas André vai seguir lá na jornada 2019/20 para buscar o bi. “Já está tudo definido [para a próxima temporada], e sigo na equipe. O Nicolas saiu, o Pierre acredito que vá continuar, ainda mais que venceu em Le Mans pela segunda vez e foi campeão mundial, então não creio que ele queira sair. Quem entrou no lugar do Nicolas Lapierre foi o Thomas Laurent, piloto da Rebellion e reserva da Toyota, para pilotar nosso carro para 2019/20. Vai ser uma equipe bem forte de novo”.

 

Diferente dos outros dois personagens dessa história, Negrão não corre há muito tempo no Brasil, desde 2012. Com o retorno das 6 Horas de São Paulo ao calendário, porém, ele vai voltar. Em fevereiro de 2020, campeão mundial. Bem diferente do jovem que tentava encontrar o espaço no esporte enquanto guiava pela Hitech na F3.

“Vai ser bem emocionante. Nunca tive essa oportunidade de correr no Brasil, seja por uma equipe francesa e seja por um campeonato mundial. Então é uma carga muito maior nas costas. Na F3, ali, era um campeonato regional nosso, que era só Interlagos, com três ou quatro corridas... Vai ser muito legal voltar ao Brasil, com esse retorno que todo mundo está esperando", fala.

"E na verdade, preciso fazer um pouco de simulador porque conheço muito mais as pistas da Europa do que os circuitos no Brasil. Mesmo em Interlagos, andei pouco. Conheço mais da época em que meu pai corria na Stock Car, também da escola de pilotagem lá, com carro de rua... também andei de F3, mas preciso voltar a andar no simulador em Interlagos porque não é uma pista fácil e não é um circuito em que conheço 110%, não é uma pista em que andei muito na vida. Vou precisar andar um pouco antes das 6 Horas de São Paulo”, finaliza.

 

O #36 recebe quadriculada do júbilo
José Mário Dias

Capítulo 2: O medo é mais forte quando as coisas dão certo

 

Daniel Serra também é bem mais veterano que Negrão. Aos 35 anos, já não é mais um menino e o fato de seguir sendo chamado de Serrinha virou um mero detalhe. No mundo do automobilismo, Daniel se afirmou como um piloto de altíssimo nível e ser filho de Chico Serra é, hoje, rodapé. Importante, claro, afinal pais são pais. Mas um detalhe em meio a uma carreira que explodiu depois dos 30 anos. Nos últimos três anos, Serra rodou o mundo e teve tempo de vencer a Stock Car duas vezes - e luta pelo título da temporada atual. Le Mans? Triunfos com Aston Martin, em 2017, e agora de Ferrari. É muito provavelmente o melhor piloto brasileiro da atualidade.

A primeira pergunta do GRANDE PREMIUM a Serra foi um tanto quanto simples: como foi seu dia? A resposta dá uma ideia de como é desgastante sobreviver a La Sarthe. “São muito mais que 24 horas. Já no sábado eu acordei às 7h45 (locais, 2h45 de Brasília) para fazer o warm up. Depois disso fazemos as últimas reuniões de estratégia para repassar o que já tínhamos estudado. Em seguida vamos para a cerimônia de largada, que é um pouco longa, o boxe abre às 13h para largar às 15h. Você só para depois que a corrida acaba - tenta dormir entre um stint e outro, mas nunca tem muito tempo, são no máximo duas horas de sono. São quatro horas entre stints, mas tem que chegar no box 40 minutos, você demora mais ou menos uma hora para desligar depois de sai do carro. Então é muito mais longo que 24 horas, bem cansativo”.

A GTE Pro foi a classe que teve disputa mais franca nas 24 Horas de Le Mans de 2019. Diferentes parcerias tiveram momentos reais de controle das ações e aparentavam ritmo para vencer a corrida ou ao menos incomodar até o final. A Ferrari #51 de Serra, Alessandro Pier Guidi e James Calado foi uma delas, mas os Porsche e um Corvette apareciam poderosos. Entre os Porsche, o #92 virou a metade da corrida com vigor, mas teve problemas depois. O Corvette #63 viveu situação parecida. Chegando nas horas derradeiras, a liderança era do Porsche #91 de Richard Lietz, Gianmaria Bruni e Frédéric Makowiecki. Demorou até a porta para assumir a dianteira se abrir e mais ainda até Daniel acreditar que venceria.

"Estávamos na disputa bem no começo, vimos que tínhamos o ritmo para brigar com o pessoal. Muda muito durante a corrida: tem horas em que a pista está melhor para você, outras vezes está pior. É muito difícil um carro que funcione perfeitamente 24 horas com temperaturas e níveis diferentes de borracha na pista, depende muito da estratégia de pneus também: às vezes você faz stint duplo, troca os pneus só de um lado. É importante saber não só o que você está fazendo, mas os outros também, para chegar forte ao fim no caso de uma disputa direta", compartilha.

 

"Com o fim da corrida muito próximo, faltando umas quatro horas, estávamos na briga com um Porsche e um Corvette, mas o Corvette teve um acidente. O safety-car entrou e conseguimos uma vantagem boa para o Porsche, de pouco mais de 1min, porque ficamos atrás de um safety-car e eles, de outro. Ganhamos esse gap e tivemos que administrar até o final sem arriscar muito para não ter nenhum problema. Mas acreditar que vai ganhar, você só acredita quando recebe a bandeirada. Se fura um pneu no meio da volta, a volta é tão longa que você perde muito tempo. Acreditar que vai ganhar, só quando a bandeirada aparece na sua frente”, garante.

"Estava toda a equipe muito focada no que a gente podia executar para chegar até o final da corrida. Falando mais de mim, o momento mais tenso foi quando nós abrimos a vantagem de 1min [nas horas finais]. Na hora em que está tudo tranquilo, as coisas só podem dar errado, não tem mais o que acontecer para dar certo. Naquele momento nós tínhamos um gap de 1min faltando poucas horas para terminar, não tem como ficar melhor que isso. Já é uma vantagem muito difícil de ter. Dá um certo nervosismo porque não pode ter erro nenhum, você só pode perder para você mesmo, se tiver um problema, furo de pneu, quebra mecânica... Na hora de voltar para o carro é preciso tomar ainda mais cuidado que antes com o trânsito, os protótipos, zebras... Essa hora da vantagem e perto de terminar é quando a gente fica mais tenso. Você para de pensar 'vamos ganhar, vamos ganhar, vamos ganhar' e começa a pensar que não pode dar nada errado", diz sobre os sentimentos que corriam nos boxes durante a prova.

A segunda vitória de Serra foi pela segunda vez numa disputa apertada. Dois anos atrás, pela Aston Martin, havia sido dureza. Não tem moleza. "Em 2017 a gente ganhou a corrida na última volta, então nas duas nós fomos até o final. Nós passamos para a liderança abrindo a última volta. Acho que nas minhas duas vitórias a categoria foi a mais disputada".

 

Diferença maior foi a equipe. Comemorar com o vermelho da Ferrari é especial, embora o piloto se preocupe em destacar que não melhor, apenas diferente, especialmente pelas circunstâncias.

"É muito, muito bom. Correr pela Ferrari oficialmente, de vermelho, uma marca histórica e que estava comemorando os 70 anos da primeira vitória em Le Mans, então era um fim de semana muito especial para a marca. É difícil comparar a primeira vez que eu ganhei com a segunda. É muito diferente. A primeira vez foi muito especial e tinha aquela vontade, mas era minha estreia na corrida, então não acreditava que ia chegar logo de cara numa corrida tão grande e vencer. Não dá para comparar, foram ambas muito especiais", assegura.

Os sucessos internacionais, porém, não fazem Serra imaginar deixar de vez a Stock Car e o automobilismo nacional. Pelo contrário, aliás.

"O que eu tenho feito nos últimos anos é muito bom, correndo aqui na Stock Car e fazendo as principais provas lá fora. Nos últimos anos eu fiz Daytona, Sebring, Le Mans, Spa - que eu vou fazer agora, no fim de julho -, Petit Le Mans - que eu ganhei ano passado -, então tem sido um programa que me agrada muito. Gosto muito de correr na Stock Car, é muito prazerosa, a disputa, lutar por décimos, todo mundo anda muito próximo. Tem coisa muito legal na Stock, assim como lá fora, em pistas incríveis, regulamentos mais abertos em que você desenvolve mais a parte técnica, os pneus, são carros sensacionais" diz.

"Os dois campeonatos têm lados positivos e somam muito como piloto. Tenho feito força para que os calendários não batam, isso é importante para mim. O calendário não batendo eu posso conciliar os programas e, por enquanto, é o ideal para mim", afirma.

No meio de uma realidade tão lotada, com diferentes categorias, carros e equipes, o trabalho para tirar o melhor de cada mundo só tem um caminho: desdobrar o tempo e a organização.

"É bem corrido. Não só dentro da GT, porque são campeonatos diferentes, a agenda é muito corrida. Eu saí de Londrina [da etapa da Stock] correndo para chegar a Le Mans em tempo, as equipes trabalham e os campeonatos demandam coisas diferentes e nós sempre queremos ser competitivos, dar o melhor. O fim de semana de corrida não acontece só durante o fim de semana, tem toda a preparação durante a semana. Quando a gente começa a correr em diferentes lugares do mundo, fora do Brasil, tem que ir lá testar, voltar para correr aqui. Então a agenda é corrida, tem que se organizar bem e ter as pessoas certas trabalhando comigo é essencial", declara.

No fim das contas, Serra avalia, as atribuições acabam se ajudando. "Acho que sim. São duas categorias com suas particularidades. Na Stock Car nós estamos brigando por milésimos, tem que encaixar todas as voltas direitinho, é necessário sempre estar trabalhando no ajuste fino, enquanto lá fora temos que desenvolver, então na parte técnica, de conhecimento, eu cresço bastante. Isso é um pouco limitado na Stock, porque o carro e o pneus são os mesmos. Então, assim, um acaba ajudando o outro".

Sem acordo permanente com a Ferrari, Serra ainda não sabe que etapas vai disputar na próxima temporada do WEC — nem sequer as 6 Horas de São Paulo. Sabe é que não vai correr o campeonato inteiro, fruto dos conflitos de data com a Stock Car, onde tem acordo prioritário com a Eurofarma. Mas quer, isso está claro.

"Ainda não sei se eu vou fazer as 6 Horas, estou tendo conversas lá fora para saber meu futuro. Deve acontecer alguma coisa legal, não sei exatamente onde - nem posso falar ainda -, mas não consigo fazer o campeonato inteiro. Começa ainda nesse ano e tem quatro etapas já em 2019. Duas batem com o calendário da Stock - com o qual eu já estou comprometido. Mas estamos trabalhando para ver se fazemos mais algumas etapas", completa.

Calado, Serra e Pier Guidi
José Mário Dias

 

 

Capítulo 3 - O pior voo da vida

 

A história de Felipe Fraga vai de encontro às outras duas. Primeiro porque, aos quase 24 anos, Fraga é o caçula. A carreira internacional não é tão longa, pelo contrário, e tratava-se somente do debute em Le Mans. Mais jovem, menos experiente e sem um sobrenome famoso, Fraga é tratado há muitos anos como joia. Campeão mais jovem da Stock Car, da qual venceu a primeira corrida aos 18 anos de idade, é difícil encontrar alguém que não preveja um futuro além-mar de sucesso - que, é bom que se diga, está começando a construir no IMSA e no Blancpain GT Series - Estados Unidos e Europa.

E entre os três brasileiros vencedores de Le Mans - ou qualquer dos trios vencedores de 2019, Toyota inclusa -, ninguém foi tão dominante. O trio de Fraga, que contava com o holandês Jeroen Bleekemolen e o norte-americano Ben Keating, dono da equipe, assumiu a dianteira com 5 horas de prova e sumiu. Chegou a ter vantagens de 4min. A vitória era uma certeza para o mundo inteiro ver.

Demorou cerca de 30 horas até que a fatídica informação chegasse: 100 ml a menos que o limite mínimo de combustível exigido no fim da prova. A vitória caiu por terra num estalar de dedos.

"É difícil, cara. Sem dúvida, foram os dias mais difíceis da minha carreira, mas estou tentando ser como sempre fui e pensar positivo, além de uma coisa que aprendi muito com minha família: Deus não dá uma cruz que você não dá conta de carregar. Estou tentando encarar isso como uma coisa me preparando para algo bem maior", fala, otimista, ao GRANDE PREMIUM. 

 

"Meu trabalho foi feito, estou muito orgulhoso da minha performance na corrida. Muita gente veio me apoiar, mesmo depois do que aconteceu. Quem estava lá viu quem ganhou a corrida, não foram 100 ml que nos deram a vitória. E acho que isso é o mais importante. No meu coração, sei quem ganhou a corrida, e acho que a gente tem de perder para a gente, não para os outros. Mas é uma pena, né? Estava errado, estava errado... Agora é bola para frente, e espero que tenha oportunidade de voltar lá um dia para poder ganhar”, deseja.

Em meio a tudo, havia mais um problema. Felipe precisava voltar para casa.

“Recebi a notícia quando estava embarcando para o Brasil. Foi o pior voo da minha vida, fiquei o voo inteiro acordado. Fiquei triste, mas sem entender. Até hoje. Não chorei, também não fiquei mal, mas não fiquei bem, foi uma coisa estranha. Não consigo expressar. Acho que foi muito difícil para a equipe. A equipe sofreu muito, o pessoal ficou bem triste, muito chateado. Foi um trabalho muito grande, com muito dinheiro envolvido também, muita coisa rolando", lembra.

"Mas nessa semana o dono da equipe fez uma ligação com todos os funcionários, pilotos, e falou exatamente o mesmo que eu, de lembrar do dia da corrida, ter orgulho do trabalho que a gente fez, que se voltássemos para lá faríamos do mesmo jeito. Para guardarmos no coração que nós ganhamos a corrida. Acho que 99% do mundo concorda com isso. Beleza que o nome não vai ficar lá na história, mas é viver mais para a gente, não para os outros. Lógico que fica aquele gostinho amargo, mas de verdade, estou feliz. É aquela coisa, talvez seja algo me preparando para uma coisa maior, para me manter mais motivado ainda”, reforça.

Fraga leva da corrida o sucesso que teve durante boa parte daquelas 24 horas. Mesmo quando os comissários pegavam no pé. "Foi bom, foi bom, uma corrida perfeita, a gente não errou em nenhum momento. Eles estavam pegando no pé... Acho que o fato de a Ford estar saindo do campeonato, um monte de coisa, política, coisas que a gente nunca vai entender o motivo", aventou. A Ford se despediu do WEC numa decisão previamente tomada. 

 

“Não adianta reclamar, a equipe deu uma brecha para ser punida. Mas é bola para frente, o pior já foi. Estou feliz, fazendo o caminho que tem de ser feito, estou focado, continuo dedicado e animado. Tem muita corrida ainda no ano, acho que ainda tem muita coisa pra rolar”, comenta.

O dedo de decepção não afasta Fraga do paraíso do endurance. Quer voltar logo.

“Com certeza, com certeza. Mas ainda não tem nada. É continuar fazendo meu trabalho, tem mais umas 24 Horas, em Spa-Francorchamps, com a Mercedes. Estou liderando no Blancpain e no IMSA, na Stock Car ainda tem muito chão pela frente, então acho que estou num ano bom, nunca me senti tão bem guiando os carros, estou bem fisicamente, está tudo bem. Não tem como prever o futuro e nem ter certeza do que vai acontecer, mas é isso, seguir fazendo meu trabalho do melhor jeito possível e rezar para as coisas encaixarem e ter novas oportunidades em bons lugares, bons carros, boas equipes, e é isso”, encerra.

Pela primeira vez na história três brasileiros venceram as 24 Horas de Le Mans no mesmo ano. Essa é a história das conquistas, entre dores e delícias, agruras e prazeres.

 

*Fotos de autoria de José Mário Dias