O melhor Pato da história

Do México para os Estados Unidos, depois para a Europa e de volta. A carreira de Pato O’Ward tem muitos momentos de idas e vindas, uma promessa real e, entre desejos, o de ser o maior. O GRANDE PRÊMIO falou com ele

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

Patricio O'Ward é um jovem. Em duas semanas, quando estiver no começo dos trabalhos para as 500 Milhas de Indianápolis, vai completar 20 anos de idade. Menos de duas décadas de vida que são pouco para quem já viveu em tantos lugares e correu com diferentes carros e objetivos. Pato chega na Indy em 2019 como um dos nomes mais promissores de uma geração em que a Lights voltou a revelar talentos arrebatadores. Pato não tem o sobrenome de Colton Herta e, até por isso, não se sente preso à Indy. É onde está hoje, mas sem promessas para os longos anos de carreira que terá adiante. O que ele quer, e isso já sabe com absoluta certeza, é ser o melhor piloto mexicano de todos os tempos.

O piloto começou ainda criança, com menos de dez anos, a guiar karts. Em 2012, quando O’Ward tinha 11 anos e começava a mostrar que era um prodígio ao volante, a família tomou uma decisão complicada: deixar Monterrey, no México, e partir para o norte. Assim, numa decisão que envolvia também a busca por uma segurança – segundo pesquisa realizada em 2018 pelo Instituto Nacional de Estadística y Geografía, do México, 79,7% dos habitantes de Monterrey se sentem inseguros -, os O’Ward foram para a região de San Antonio, no Texas.

A carreira estava começando para valer e longe de casa, mas sem tirar o México do coração. Pelo contrário, Pato se orgulha dos feitos que consegue em relação ao automobilismo mexicano. O que condiz com a marca que quer deixar. “Eu quero terminar [a carreira] como o melhor piloto mexicano que já viveu”, falou ao GRANDE PREMIUM.

Pato comemora vitória em Mid-Ohio
Indy Lights

 

A resposta veio após a pergunta sobre quem, dentre os principais pilotos mexicanos da história, ele carrega com maior admiração. Verdadeiramente tidos como ídolos nacionais nos anos 1960, os irmãos Pedro e Ricardo Rodríguez foram desbravadores na Fórmula 1; Sergio Pérez é o responsável por colocar o país novamente no mapa dos pilotos na Europa; Adrián Fernández e Michel Jourdain Jr fizeram sucesso nos EUA; Benito Guerra é um nome importante do rali internacional. O México tem suas figuras importantes.  “Na verdade, eu estou sempre mudado a minha opinião, porque nunca tive um. Tenho muito respeito por vários deles, mas nunca realmente idolatrei qualquer um deles. Sempre quis criar meu próprio caminho. Recordes são feitos para serem quebrados”, profetizou.

Nos últimos anos, a Indy trata sobre uma expansão internacional para voltar a ocupar um espaço de presença mundial que abandonou nos anos 2000. O México é visto como um desejo antigo e central, mas o acordo nunca sai e, ao que parece, fica longe. Segundo Pato, o que dá para ele fazer é pressão: e vem fazendo, assim como outros pilotos.

“Com certeza é algo que eu quero muito mesmo, mas não há tanto que eu possa fazer para ajudar. A única coisa que posso fazer é apressá-los e dizer que eu quero muito ir, assim como a maioria dos pilotos sabe que seria um dos melhores eventos no calendário. Estamos com certeza pressionando a Indy, então torço para que aconteça em breve”, apontou.

 

 

Na temporada 2013, O'Ward entrou nos carros pela primeira vez: a Pacific Formula F2000 e, ainda no mesmo ano, a oportunidade de partir para a Europa: a F-Renault 1.6 NEC, categoria mais inferior da hoje já finada World Series. Ficou para disputar a temporada da F4 Francesa no ano seguinte. Mesmo sem correr as primeiras seis das 21 etapas, terminou o campeonato na sétima colocação e chegou a vencer uma prova. “Aprendi muito lá, especialmente sobre simuladores e disputar uma categoria tão competitiva como a F4 Francesa. Para mim, como piloto jovem, foi importante.”

Mas foi a última participação dele no automobilismo europeu. “A oferta real para ter uma boa chance na Europa simplesmente nunca esteve lá”, contou. Não quer dizer, entretanto, que a história de Pato no automobilismo europeu esteja enterrada. Caso a oportunidade de fazer a mudança para a F1 ou alguma categoria de ponta se apresente, O’Ward vai estudar bem. Como dito anteriormente, não há promessas para a Indy.  

“Obviamente, se alguma coisa acontecer na Fórmula 1 ou se for bom em geral para mim, vou avaliar. Não fecharia as portas para a Europa: faria o que fosse melhor para a minha carreira [caso surgisse a chance]”, afirmou. 

Já que o piloto citou a Fórmula 1 sem que o Mundial fosse citado, a pergunta seguinte foi para saber se era com a categoria tida com a maior do mundo que o piloto sonhava e se imaginava participando quando criança.

“Honestamente, se eu conseguisse alcançar a F1 ou a Indy, ficaria muito feliz. São as categorias do topo, e eu ficaria muito feliz em correr numa ou noutra porque ambas contam com prós e contras, corridas especiais no calendário e, para mim, são as duas principais categorias no mundo hoje”, exaltou.

 

A ladeira da Indy

 

Sem as opções à disposição, Pato voltou para a casa. “Eu acho que foi uma transição bem tranquila”, analisou quando questionado sobre o regresso aos Estados Unidos na sequência do que já era uma formação europeia.

A temporada 2015 foi na segunda das três categorias do Road to Indy, a Pro Mazda. Permaneceu após o ano de aclimatação e conseguiu o vice-campeonato em 2016, pela Pelfrey. A derrota foi para um companheiro de equipe, é verdade, mas Aaron Telitz é quase oito anos mais velho que Pato. Faz toda diferença aos 16 anos.

A subida para a Indy Lights, ainda com a Pelfrey, foi imediata. E, com 17 anos, estava na categoria exatamente abaixo da principal dos monopostos dos Estados Unidos. O que seria uma temporada de sonho virou rapidamente um pesadelo, porque o dinheiro acabou. Após quatro provas, a Pelfrey, que não era uma força na Lights como na Pro Mazda, capitulou. Mesmo após bom desempenho e resultados consistentes, inclusive com pódio, Patricio se viu fora do grid e sem ter o que fazer para o resto do ano.

“Definitivamente [tive dúvidas quanto a se tinha futuro]. Eu não sabia bem o que faria depois daquilo”, admitiu. E, então, apegou-se a uma chance que aparecera de surpresa no começo do ano e virou o trabalho sólido para o resto de 2017: experimentar um novo tipo de carros, os protótipos de endurance. 

“Quando surgiu a oportunidade de correr uma parte da temporada no IMSA SportsCar, era a única coisa a fazer. Era isso ou ficar no banco de reservas”, recordou. “Fiz isso e consegui algumas das vitórias das quais tenho mais orgulho na minha carreira: as 24 Horas de Daytona, as 12 Horas de Sebring e as 6 Horas de Watkins Glen. E fui campeão, isso foi legal demais”, animou.

Pato correra – e vencera – em Daytona e Sebring. Quando a Lights sumiu do calendário pessoal dele, a Performance Tech Motorsports convidou para disputar a temporada completa ao lado de James French e, em provas específicas, Kyle Masson, no Oreca FLM09 #38 da classe Prototype Challenge. Foi um absoluto domínio. Das provas de duração mais longa, venceu Daytona, Sebring e as 6 horas de Watkins Glen e ficou na terceira colocação em Petit Le Mans. Nas outras corridas, completou a cartela. Apenas vitórias em Long Beach, Austin, Detroit, Ontario, Lakeville, Elkhart Lake, Virginia e Laguna Seca. Além das vitórias e do título, o aprendizado diferente ao que estava acostumado nos monopostos.

“A melhor forma de dizer é que você aprende a ser muito rápido, mas também tomar conta do carro. É uma das maiores coisas que eu aprendi”, explicou.

 

“Foi a primeira vez que guiei protótipos. É bem diferente. Com protótipos você aprende a cuidar do carro e não vai atrás daquele desempenho extra a cada volta, porque é necessário cuidar do carro e dos pneus. Você tem que durar muito, então não pode desgastar tudo no primeiro turno. É um tipo de automobilismo muito diferente. Os carros são obviamente muito mais pesados, os pneus são totalmente distintos”, elaborou.

O que aprendeu por lá também fez concluir que a Indy é a categoria mais disputada que há no mundo do automobilismo. “É mais tranquilo [o endurance], a Indy é bem mais tensa, mais rápida e as corridas são definitivamente mais apertadas. As categorias são muito diferentes, mas é por isso que a Indy é, na minha opinião, o campeonato mais competitivo no mundo. É bem diferente de todas as outras categorias do mundo.”

O sucesso retumbante com os protótipos ajudou que ele voltasse àquilo que tinha desejo de fazer. “Permitiu que eu arrumasse ajuda para encontrar uma boa vaga, com uma equipe forte, na Indy Lights em 2017. Foi um empurrãozinho necessário para mostrar o que podia oferecer.”

 

Pato O'Ward campeão da Indy Lights
Indy Lights

O retorno à Indy Lights foi em condições totalmente diferentes. Para longe com as equipes pequenas e decadentes: agora Pato fechava com a Andretti, a mais tradicional esquadra do grid, para correr um campeonato em que realmente tinha chances. O novato do ano anterior era Colton Herta, exatamente, e que também corria sob o guarda-chuva da família Andretti.

Mas não houve qualquer chance. O mexicano venceu três das primeiras quatro etapas do ano e seis das últimas oito. Apesar de um período intermediário dominado por Herta, Patricio colocou 44 pontos de vantagem para o rival e faturou o título em sua estreia como ano completo - tanto que venceu o prêmio de Novato do Ano. O título serviu como o grande marco da carreira, segundo o piloto. Além, claro, do orgulho que sentiu por levar o México a um título que jamais conquistara.

“Vencer a Indy Lights foi muito especial e a sensação foi da grande guinada da minha carreira, o feito mais importante, porque foi o que me impulsionou para uma categoria de ponta. E eu fui o primeiro mexicano a ganhar, então foi realmente especial para mim”, pontuou.

É o suficiente para que ele rasgue elogios ao Road to Indy. “Foi incrível para a minha carreira. Mais do que qualquer coisa é uma ladeira diferente de qualquer outra coisa que existe no mundo, então realmente dá esse último passo e a ajuda necessária para você molhar seu pé e passar para a próxima categoria. Por exemplo: no meu caso, dá a chance de mostrar as equipes o que você tem para oferecer à Indy. E tem a bolsa. Não fosse por ela, seria muito mais difícil entrar na categoria”, declarou.

Harding e a vaga que veio do céu

 

A bolsa em questão é de US$ 1 milhão e tem em vista ajudar o campeão da Indy Lights a concorrer por uma vaga na categoria principal. Quem chegou para conversar com Pato foi a Harding, que também levou Herta, o outro talento destacado da Lights. Herta, entretanto, havia guiado um carro na Lights que fora cuidado por George Michael Steinbrenner IV em parceria com a Andretti. O empresário norte-americano em questão, membro da família que comanda o tradicional time de beisebol New York Yankees, também é um dos donos da Harding. Além do mais, como filho de um ex-piloto e preparador de carros famoso da categoria, como Brian Herta, foi Colton quem teve a vantagem na equipe.

A Harding se encarregou de encontrar patrocínios para os dois carros e, assim, encher os bolsos e fazer a operação rodar. Só que a equipe falhou miseravelmente. Quando definiu que se apresentaria para os únicos testes oficiais de pré-temporada com apenas um carro montado, o de Herta, e apenas colocaria Pato para dar algumas voltas, foi o fim do acordo. O mexicano nem sequer sabia se teria o outro carro para a abertura da temporada, mas havia pessimismo na equipe. Pato e a Harding desfizeram o contrato.

Mas ficar sem equipe três semanas antes do começo da temporada frustrou muito os planos de Pato, mesmo que continuasse com a bolsa da Indy em mãos. O GP* questionou sobre a situação, mas um contrato permitiu que ele não pudesse ir muito longe.

 

“Não posso falar muito sobre o assunto, porque eu assinei um acordo de confidencialidade”, contou. “Basicamente nós nos separamos, o timing foi bem bosta, e eu dei sorte de entrar na Carlin. Uma grande oportunidade que surgiu”, avaliou.

Antes de avançar para a Carlin, apenas mais uma questão sobre a Harding. Após todos os problemas financeiros e operacionais da pré-temporada, ficou surpreso de ver a Harding vencer a segunda corrida do campeonato e, claro, com Herta?

“Não surpreende, porque é um carro Andretti completo. Então não é surpreendente que eles tenham um dos melhores carros do grid. Isso significa que eu tenho que trabalhar um pouco mais duro já que não estou numa das três principais da categoria. O que não quer dizer que não dê para ganhar deles, mas que precisamos trabalhar um pouco mais duro. É o que estamos fazendo”, garantiu o piloto.

Quem apareceu para salvar o ano de estreia de Patricio foi a Carlin. A tradicional equipe das categoria-satélite europeias foi para os Estados Unidos em 2015, por meio da Indy Lights, e mudou totalmente para a categoria principal em 2018. Neste ano vive apenas o segundo campeonato na Indy. 

“Outras equipes colocaram ofertas na mesa, mas nenhuma queria correr grandes riscos com um novato. A Carlin foi quem realmente mostrou um grande interesse em começar imediatamente. É um time que sabe ganhar, quer ganhar e é muito bem organizado e respeitado na Europa, muito profissional. Então acho que parei no lugar exato”, elogiou.

 

Pato O'Ward forma o grid da Indy em 2019
Indy

O’Ward não abriu a temporada em São Petersburgo e também vai ficar fora no oval do Texas, as 500 Milhas de Pocono e o encerramento da temporada, em Laguna Seca. Fruto de um acordo que já havia sido arranjado para Charlie Kimball disputar cinco provas – a outra é a Indy 500, mas essa conta com um terceiro carro, então mantém os titulares O’Ward e Max Chilton. Não cansa de exaltar a equipe que fez surgir uma chance.

“Recebi boas-vindas muito calorosas da equipe europeia e devo muito a Trevor [Carlin, chefe], que colocou muita fé em mim. Definitivamente vou continuar trabalhando o máximo que eu posso nas próximas corridas para dar a eles o resultado que merecem”, prometeu.

Grandes rivais na Indy Lights, onde dividiam informações por andarem numa equipe operada da mesma central, possíveis companheiros de equipe na Indy - que não foram porque houve a opção por um deles – e expoentes da nova geração, Pato e Colton poderiam ser nêmesis um do outro. São amigos, porém.

“É boa (a relação)! Nós somos amigos, trabalhamos juntos na Indy Lights e estávamos ansiosos para trabalhar juntos na Indy. Não tínhamos como controlar o desfecho de tudo que aconteceu, mas nós gostamos de trabalhar juntos, nos empurramos à frente e espero que possamos trabalhar juntos no futuro”, garantiu.

Mesmo assim, há uma rivalidade. E agora O’Ward, numa equipe menor e com menos know-how, crê que precisa trabalhar mais que Herta. “A rivalidade continua, só não no mesmo carro, então as coisas mudam um pouco. É claro que é uma grande diferença quando uma equipe tem 20 anos de experiência e outra tem dois anos. Não é o mesmo, então um de nós definitivamente tem que trabalhar mais pesado”, concluiu.

No caminho da primeira temporada, tem um oitavo lugar em três corridas e agora olha para os dois meses em que tudo que se pensa é Indianápolis. Os testes para as 500 Milhas começam em menos de duas semanas, a etapa do misto de Indianápolis vem na sequência e, por fim, foco completo na prova mais famosa dos Estados Unidos. Pato vê uma incógnita.

“Acho que vai ser uma grande curva de aprendizagem, o mês de maio. Ainda não guiei um carro da Indy no IMS ou qualquer oval, então vai ser tudo novo. Como muita gente fala, o Speedway escolhe quem vai ganhar a Indy 500, então eu espero que me escolha em breve”, brincou.