O personal trainer mais rápido do mundo

Após viver o sonho de trabalhar ao lado do ídolo de uma vida, Michael Schumacher, Sam Bird se viu fora da Mercedes e sem oportunidades. A carreira quase chegou ao fim, com a educação física como opção, mas o inglês viu na Fórmula E a salvação

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

Aos 32 anos de idade, Sam Bird pode se dizer dono de uma carreira de sucesso. Mas a história dele no esporte a motor se aproximou do fim entre 2013 e 2014. As chances ficaram escassas, as portas do sistema solar da Fórmula 1 deixaram de existir e Sam não sabia como iria contornar os problemas. Após encontrar as soluções, ele agora é campeão mundial de endurance e um dos dois pilotos a vencer corridas em todas as temporadas da Fórmula E - uma categoria jovem da qual participou de 100% das provas. Realmente não dá para reclamar.

No caminho para chegar a ser um nome reconhecido no mundo do esporte a motor, Bird sequer reclama das portas que se fecharam. A demissão da Mercedes e o afastamento dos cantos da F1 trouxeram decepção, sim, mas também a oportunidade de trabalhar ao lado daquele que diz ser seu herói: Michael Schumacher.

Para alguns pilotos a Fórmula E foi a porta para o sucesso e um novo patamar na carreira, mas para Bird a situação foi outra: a Virgin, com a categoria como plataforma, deu a oportunidade para que o inglês salvasse uma carreira que parecia mergulhar no vazio. Em entrevista ao GRANDE PREMIUM, Bird falou sobre a história e os anos recentes.

E Sam não faz qualquer questão de diminuir a importância da equipe e da categoria em sua história pessoal.

Sam Bird
Fórmula E

“A Fórmula E foi um ponto de inflexão na minha carreira. Eu tinha chegado a uma parede metafórica e estava muito perto de abandonar completamente a carreira no esporte a motor. A Fórmula E e a Virgin chegaram no momento perfeito para mim. Tem sido incrível competir em todas as corridas da história do campeonato”, disse.

A reportagem do GP* reforçou ao questionar, então, se ele acredita que a equipe salvou sua carreira.

"Eu acho! Estava pronto para fechar a conta, voltar para casa e estudar para ser personal trainer e mudar de carreira completamente. A Fórmula E, a Virgin particularmente, salvou - não apenas isso, mas me deram suporte por cinco temporadas de sucesso e, no fim das contas, ajudaram a me formar o piloto que sou hoje", confirmou.

Dentro dessa realidade, de que os atuais empregadores chegaram quase que como cavaleiros em cavalos brancos para lhe manter em atividade e permitir que mudasse de patamar, Bird falou da relação dele com a equipe. Um time particular, fechado e de amigos que vivem juntos mesmo longe das pistas.

“A Virgin é uma ótima equipe para fazer parte, sendo relativamente pequena, independente e que opera como uma família. Somos todos muito próximos – algo que você tem que ser quando viaja o mundo todo junto – e gostamos de trabalhar juntos e passar tempo social juntos”, revelou.

O piloto faz questão de lembrar a virada na quinta temporada – que terminou no último mês de julho. Após se tornar equipe oficial da DS Citroën ainda no começo da Fórmula E, a Virgin passou a operar de forma realmente independente apenas no último ano. Com motores Audi, o ano começou bem para eles: Bird venceu em Santiago e cruzou a bandeira quadriculada em Hong Kong, mas foi punido por causar confusão e caiu horas depois do fim da prova.

O que parecia ser um desafio ao título, virou má fase. A equipe caiu de rendimento e demorou a reagir. O companheiro, Robin Frijns, venceu em Paris numa casualidade, mas o time ficou uma sequência de corridas sem pontuar com os dois carros: após Hong Kong, apenas na última corrida de Nova York – com vitória de Frijns e quarto lugar de Bird. Poder de recuperação, ele acredita.

“Todos os membros da equipe são muito dedicados, e isso foi mostrado com nosso desempenho na quinta temporada. Tivemos algumas corridas difíceis, com incidentes infelizes, mas sempre voltamos mais preparados para batalhar de novo nas pistas”, explicou.

Sam Bird com o Gen2 da Virgin
Virgin

Apenas Bird e Lucas Di Grassi venceram corrida em todas as cinco temporadas da Fórmula E. A questão ao inglês foi o que ele pensar que esse dado mostra. Segundo Sam, continuidade e experiência no que é um campeonato de grid fortíssimo e onde não dá para sair do nada e obter sucesso.

“Trabalhei duro para estar na posição em que estou. A Fórmula E é, de longe, a competição mais difícil em que eu já competi. Não dá apenas para chegar e esperar ser rápido: requer grande quantidade de experiência e conhecimento de como melhor utilizar cada elemento destes carros. Consegui aprender os sistemas complexos da Fórmula E e ser um dos pilotos mais experientes da categoria – tendo competido em todas as corridas até agora – ajuda muito nisso”, contou.

Com tantos resultados positivos e números favoráveis – são oito vitórias, 17 pódios e cinco poles em 58 corridas -, Bird é aquele piloto que qualquer um que acompanha a Fórmula E que vai dizer que, entre os não-campeões, mais dá pinta de ser o próximo da fila. Após provar ser competitivo, ele quer provar que consegue dar o passo seguinte.

“Acredito que tive algumas temporadas com azares, mas a equipe trabalha tão duro para nos colocar em posições vencedoras e alcançaram isso em todas as temporadas até agora. Provamos ser competitivos na nova era da Fórmula E, com os novos Gen2, e acredito que posso ser campeão. Estou trabalhando duro neste verão para garantir que eu esteja na melhor posição possível para fazer isso acontecer", declarou.

Em outro momento, Bird chegou a falar que foi uma discussão entre seus antigos empresários e o diretor-executivo da Mercedes, Toto Wolff, que acabou fazendo com que fosse escanteado inicialmente e deixasse de receber oportunidades da fábrica alemã. E, no fim das contas, terminou em fim de relacionamento.

Mas Bird jura que deixou isso para trás. Mesmo após o momento complexo da carreira e da vida, avalia como normal o conceito de jovens pilotos de teste da F1 que acabam sem espaço e sem ter o que fazer.

"Não culpo a Mercedes, ou qualquer um, por essa decisão. No fim das contas, pilotos de testes vêm e vão - metade do paddock da Fórmula E já testou carros de F1. E, sim, foi bem difícil não fazer mais parte [daquilo], mas eu realmente acredito que a Fórmula E veio no momento certo para mim, e estou vencendo corridas desde então", pôs.

E também não quer que alguém chame aquele período de Mercedes de tempo perdido. Trabalhar com Schumacher foi um prêmio e, num panorama geral, a F1 era a única opção naquele momento. Era o que dava.

"Não acredito que tenha sido perdido, nem um pouco! Trabalhei minha subida desde o kart e passando pelas categorias de base para a F1, naquele momento aquela era a rota para todos os pilotos que queriam ser bem-sucedidos”, explicou.

“Quando eu estava me formando, a Fórmula E nem era um conceito, a F1 era a meta de todo mundo. Eu tive uma carreira incrível e fui sortudo o bastante para guiar junto do meu herói, Michael Schumacher. Não acho que desperdicei meu tempo tentando chegar na F1", colocou.

Sam Bird e Michael Schumacher num salto de paraquedas
Acervo Pessoal

Após aquele drama da Mercedes e o fim das chances de F1, Bird foi recuperando o valor, para si mesmo, aos poucos. A FE foi um caso de amor repentino, sim, mas foi no WEC que Sam despejou o sucesso. Mais especificamente em 2015, quando, então pela G-Drive, faturou o título da classe LMP2.

Após pensar em abandonar as corridas pelos supinos, era campeão mundial.

"Foi incrível vencer o título do LMP2! Claro que todos os pilotos querem vencer e conquistar um título mundial e que é um sentimento incrível. Mas eu senti que tinha provado meu valor, provado o que eu valia e o motivo de estar aqui, correndo no mais alto nível”, recordou.

“Isso não parou minha paixão pelo esporte a motor: talhei esse sentimento vencedor e continuo me esforçando para atingir o status de campeão mundial da Fórmula E", garantiu.

Depois disso, veio a possibilidade de seguir no WEC, mas com a Ferrari. É verdade que Bird deixou a equipe na atual temporada, ainda que apenas por conta do imbróglio do calendário, mas a entrevista foi realizada antes disso. Ao GP*, confessou que guiar pela mesma marca icônica por onde seu herói fez história foi algo especial.

"Como eu mencionei antes, Michael Schumacher é meu ídolo no esporte. Guiar pela mesma equipe que ele, ainda que por uma categoria diferente, é incrível. A marca Ferrari e os torcedores são incríveis e me dá um enorme senso de prazer por ter guiado para eles."

Um nome de peso pouco tempo após quase sair de cena, Bird é daqueles pilotos que carrega consigo a simpatia do paddock. Conseguir se tornar campeão da FE e, assim, passar a ser campeão mundial de duas categorias vai confirmar ainda mais um pouco que a educação física perdeu um excelente piloto.