O rei do Mundial de Superbike

Jonathan Rea foi, por muitos anos, o nome a ser batido no Mundial de Superbike. Começando cedo no mundo das motos, vê os resultados como fruto de muita dedicação e agora só espera voltar ao degrau mais alto do pódio

Nathalia De Vivo, de São Paulo

 

Jonathan Rea. Se você é uma pessoa que gosta de acompanhar campeonatos de motociclismo, especialmente o Mundial de Superbike, certamente já ouviu esse nome uma vez na vida. Também pudera, afinal, foi o grande piloto a ser batido na categoria nos últimos quatro anos, colecionando vitórias e títulos.

O inglês, nascido em Ballynure, na Irlanda do Norte, tem 32 anos completados e no currículo números que impressionam a qualquer um. Afinal, não é tarefa fácil ter subido 145 vezes no pódio – sendo 71 delas com o triunfo, em uma só categoria. O domínio visto entre os anos de 2015 e 2018 foi digno de deixar qualquer um de queixo caído.

A vida em cima das motos começou com o piloto ainda bastante novo. Inclusive, contou com a importante ajuda, apoio e influência de seu pai Johnny, que já estava ativamente envolvido no meio. “Comecei a pilotar motos pouco antes do meu aniversário de três anos – eu ganhei uma Italjet 50cc de presente de Natal”, conta ao GRANDE PREMIUM.

“Meu pai era piloto, então teve muita influência. Basicamente cresci entre motos. Na verdade, todos os meus feriados naquela idade eram em um circuito para assistir as corridas de meu pai. Ele era meu herói – sempre me baseei nele, eu via o efeito que correr tinha nele, a alegria e o sentimento de vitória. Apenas me infectou. Desde então, quis começar a competir e em 1994 comecei, no Campeonato Irlandês de Motocross 50cc”, completa.

Antes de chegar ao Superbike, o inglês correu em campeonatos como o Supersport Britânico, o Superbike Britânico e o Mundial de Supersport. Mas tudo isso era apenas a preparação e o começo daquela escada que o levaria para o topo do motociclismo mundial.

 

A passagem pelo Mundial de Superbike

Rea desembarcou no Mundial de Superbike na temporada de 2008. Entretanto, naquele ano, só disputou a última etapa da temporada, em Portimão. Só que ali, correndo pela Honda, já mostrava ter um futuro brilhante na sua frente, pois terminou uma das corridas na quarta colocação – na outra foi 15º, encerrando a temporada com 14 pontos.

Foi no campeonato seguinte, portanto, que a estreia definitiva aconteceu. Já em seu ano de debutante conseguiu oito pódios e duas surpreendentes vitórias. Desde então, a porteira foi aberta e em todas as temporadas até o momento subiu ao menos uma vez no degrau mais alto do pódio, feito que o piloto vê com grande orgulho e classifica como dedicação.

“Fui sortudo o suficiente para vencer em minha temporada de estreia em 2009, e então em todas as temporadas depois. Isso mostra comprometimento e mesmo durante lesões fiquei no topo da Superbike. Fui capaz de brigar com grandes estrelas como [Noriyuki] Haga, [Ben] Spies, [Troy] Corser, [Max] Biaggi, e então na nova era com [Chaz] Davies e [Michael] Van der Mark. Tenho pilotado com eles e vencido corridas com eles competindo, o que me deixa muito orgulhoso”, explica.

A passagem pela Honda durou seis temporadas completas. E apesar de a parceria com a marca japonesa ter sido bastante positiva, conseguindo 15 vitórias, 42 pódios e um terceiro lugar na classificação de 2014, o domínio no Mundial de Superbike chegou mesmo quando mudou para a Kawsaki, em 2015.

Jonathan Rea na Honda
Reprodução

 

Logo na primeira corrida na nova casa já conseguiu um triunfo, terminando a segunda corrida da rodada dupla em segundo. Desde então, só ficou fora do top-3 em apenas 12 vezes – duas por provas que não aconteceram e outras seis por abandonos da disputa.

Questionado se esperava tamanho domínio com a marca nipônica, Jonathan ressalta o grande comprometimento da equipe, mas que não poderia esperar resultados tão bons. “No passado, defendi equipes que competiam contra a Kawasaki, então entendia o nível da moto e também que o comprometimento da fábrica no Japão era muito alto. No paddock sempre houve muita gente técnica da Kawasaki”, diz.

“Não tinha muita certeza do que esperar, mas sabia que encontraria um pacote bastante refinado, mas nada poderia me preparar para minha primeira experiência com a ZX-10RR, em Aragão, em novembro de 2014. Tenho grandes lembranças de minhas primeiras voltas e de me sentir aliviado de que a decisão de ir para a Kawasaki foi a certa, além de me sentir muito feliz sobre o futuro”, segue.

“Apenas naquele primeiro encontro com a moto pude sentir como era fácil de pilotar e era muito rápida. Me deu confiança e me permitiu levar meu estilo de pilotagem para o próximo nível. A parceria entre eu, a moto e a equipe trouxe o melhor de todos e os resultados simplesmente apareceram”, emenda.

 

Entretanto, em 2019, Jonathan tem encontrando uma verdadeira pedreira nas pistas. Fazendo sua grande estreia no Mundial de Superbike, Álvaro Bautista chegou de forma meteórica na categoria, conquistando a vitória em todas as 11 corridas disputadas até o momento.

Apesar dos resultados conseguidos pelo adversário, o titular da Kawasaki evita fazer comparações. “Realmente não posso contrastar – não tive o começo de temporada que ele teve. Ele venceu algo como 11 corridas uma atrás da outra. Eu também consegui isso no final da temporada passada. Algo assim te deixa forte, te dá muita confiança”, afirma.

“Sei como ele vai se sentir e enquanto não estou feliz, posso admirar suas conquistas já que é bastante difícil conseguir isso. Somos sortudos o suficiente por ter tido esse tipo de domínio no passado e apesar de não podermos passar muito tempo refletindo na glória do passado, nossa intenção agora é reconquistar nosso caminho de vitórias”, continua.

Rea e Bautista
Reprodução

E ainda resta alguma coisa?

São quatro títulos no Mundial de Superbikes, 145 pódios, 71 vitórias e quatro anos de amplo domínio na categoria com as cores da Kawasaki. Mas a verdade é que a MotoGP não poderia ter sido deixada de lado e nem esquecida, sendo mencionada ao piloto se poderia ser vista como um ponto faltante em sua jornada nas pistas.

Quando ainda defendia a Honda, entre os anos de 2008 e 2014, Jonathan chegou a fazer duas corridas na classe rainha do Mundial de Motovelocidade. O objetivo foi apenas substituir um lesionado Casey Stoner, mas verdade seja dita, o piloto fez bonito – terminou na zona de ponto em ambas as disputas, em San Marino e Aragão. No final, ainda deixou o campeonato com um saldo de 17 tentos.

E será que não ter feito sua carreira na MotoGP deixou algum buraco em sua trilha? Jamais. “Não sinto ter perdido algo não correndo na MotoGP. Em um mundo ideal, teria ido para lá e tido uma carreira de sucesso, esse sempre foi um de meus sonhos. Meus heróis estavam lá tipo [Kevin] Schwantz, mas meu caminho foi na Superbike e estou imensamente orgulhoso do que conquistei”, fala ao GP*.

Rea quando correu na MotoGP
Reprodução

 

“Na verdade, tive sorte o suficiente de substituir Casey Stoner na equipe da Honda brevemente em 2012. Tanto ele quanto a equipe estiveram entre os mais bem-sucedidos do paddock da MotoGP, e pude pilotar uma verdadeira MotoGP. Terminei em sétimo e oitavo em minhas duas corridas como 'wildcard'. Então, mesmo que não tenha preenchido a lacuna da MotoGP em minha carreira, experimentei andar em alto nível e, para mim, foi o suficiente”, segue.

E encerrando a entrevista, Rea foi sincero ao analisar sua carreira. “Para mim, há pouco restante para conquistar – alcancei cada objetivo que projetei para mim. Na verdade, fiz isso quando consegui meu primeiro título mundial. Esse era meu sonho e também o dos meus pais, que me apoiaram desde os dias de motocross. Finalmente havia conseguido um título mundial”, reconhece.

“Isso parecia o suficiente... mas uma vez que você experimentou esse sucesso e vitórias – 70 até o momento, você se torna ainda mais obcecado com vitórias, e isso impulsiona a motivação para seguir o trabalho duro para voltar para mais. Você nunca está verdadeiramente satisfeito, então enquanto não tenho mais lacunas a preencher, estou altamente motivado. Enquanto esse fogo seguir queimando dento de mim, vou seguir competindo”, encerra.