Ousando ser diferente

O Dare to be Different, liderado por Susie Wolff, busca inspirar as mulheres envolvidas no automobilismo e formar uma nova geração de pilotas

Renan Martins Frade, de São Paulo

27 anos, 2 meses e 28 dias - e contando. É esse o período em que a Fórmula 1 está sem uma mulher no posto de pilota titular de uma das equipes da categoria. A última foi Giovanna Amati, da Brabham, que tentou se classificar (sem sucesso) para os três primeiros GPs da temporada de 1992 - o último, antes de ser sacada do time, foi justamente no Brasil. De lá pra cá, tirando pilotas de testes ou desenvolvimento, mais nenhuma mulher correu na maior categoria do automobilismo mundial.

Quando consideramos uma mulher efetivamente largando em uma prova da F1, o jejum é ainda maior: 43 anos. A última foi Lella Lombardi, no GP da Áustria de 1976. 

Essa é apenas uma das faces de um esporte que, no geral, dá menos oportunidades para as mulheres na comparação com os homens, por mais que não existam categorias distintas para cada gênero no automobilismo - como acontece no futebol ou no vôlei, por exemplo. Há, no entanto, quem ouse querer romper com esse estigma: o Dare to be Different.

Susie Wolff: procurando inspirar as próximas gerações de mulheres no automobilismo
Divulgação / Dare to be Different

O D2BD, como também é conhecido, foi fundado em 2016 por Susie Wolff (ex-pilota de testes da Williams e que também correu pela DTM, além de ser atualmente a chefe de equipe da Venturi na Fórmula E) e Rob Jones (CEO da Motorsport UK, a federação de automobilismo do Reino Unido). O principal objetivo da organização é um só: aumentar a presença feminina no esporte a motor mundial. 

Susie, aliás, é a única mulher a ter participado de um fim de semana da F1 nos últimos 27 anos, ao dar algumas voltas no primeiro treino livre do GP da Inglaterra de 2014. O carro, vale ressaltar, era de Valtteri Bottas e a participação dela não conta para os registros oficiais da categoria. 

“Quando eu decidi pendurar o capacete, eu também decidi dar algo de volta”, explica a ex-pilota na apresentação do projeto. “O nosso esporte é baseado em performance, então gênero é irrelevante. As oportunidades estão aí e com Dare to be Different nós queremos inspirar e guiar talentos femininos para ter certeza que, no longo prazo, o esporte seja mais diverso.”

O trabalho do D2BD começa entre as meninas, com ações em escolas no Reino Unido e até com as filhas de funcionários das equipes da F1. A última ativação do tipo foi no ePrix de Berlin, da Formula E, no final de maio - em parceria com outro projeto de incentivo às mulheres no esporte, o Girls on Track, da própria FIA.

O D2DB busca não só formar pilotas, mas inspirar as meninas em carreiras como engenharia, design e jornalismo
Divulgação / Dare to be Different

A preocupação com a base e com a formação de talentos é pertinente - e faz sentido quando olhamos para o exemplo de Lewis Hamilton. Hoje pentacampeão, o inglês estreou como o primeiro negro da história da F1 em 2007. Após 12 anos, a façanha de Hamilton ainda está para ser repetida, por mais que o piloto represente um exemplo positivo para as gerações seguintes. 

“Quando eu comecei no kart eu era uma pequena garota, eu não tinha muitas modelos mulheres para me inspirar ou me identificar, e, enquanto eu progredia na minha carreira profissional, eu não tinha uma mentora mulher para me guiar e eu senti falta disso”, contou Susie durante o evento da FIA. “Eu criei o Dare to be Different para mudar a sorte dos talentos femininos no esporte a motor. Da base ao topo do esporte, eu não quero que nenhuma garota ou mulher se sinta sozinha ou sem estar ciente das oportunidades disponíveis para ela."

Hoje, em 2019, a situação não mudou muito: considerando as categorias de monoposto de nível mundial, temos apenas a Pippa Mann na IndyCar (ainda que participando, apenas, das 500 Milhas de Indianápolis) e Tatiana Calderón na F2 (acumulando a função de pilota de testes da Alfa Romeo na F1). Já na temporada 2018-2019 do Mundial de Protótipos, a japonesa Keiko Ihara competiu na LMP2. E é isso.

As meninas também são incentivadas a correr de kart
Divulgação / Dare to be Different

Tatiana, aliás, é uma das embaixadoras da D2DB, ao lado de Claire Williams (chefe de equipe adjunta do time que leva seu sobrenome) e de outras mulheres envolvidas com o automobilismo, como a chefe de estratégia da Alfa Romeo, Ruth Buscombe. “Temos a sorte de ter um grupo incrível de embaixadoras de tão diferentes aspectos do esporte - não apenas pilotas, mas também engenheiras, designers, jornalistas e apresentadoras - todas prontas para dar apoio, conselho e inspirar a atual e futuras gerações de talentos femininos",  explica a chefe da Venturi.

Outra embaixadora é Alice Powell. Com 26 anos, a pilota foi uma das selecionadas para a W Series, categoria equivalente à Fórmula 3 e disputada apenas por mulheres, que foi iniciada agora em 2019 como uma forma de desenvolver os talentos femininos para que, depois, possam buscar espaço em outras instâncias do esporte. Alice ocupa, após três etapas, a quarta posição no campeonato - a líder é Jamie Chadwick, de 21 anos. 

A categoria, no entanto, tem uma crítica: a própria Susie Wolff. Em maio passado, a ex-pilota deu uma entrevista ao tabloide The Sun e falou sobre a criação da W Series. “Quando se refere a talento, não é sobre ser a melhor mulher ou o melhor homem. E este esporte não é segregado, você não pode pegar um nível e segregá-lo e esperar que a vencedora possa voltar a trilhar seu caminho em um campeonato normal onde não há segregação.”

Como podemos ver,  esta é uma discussão polêmica e um caminho longo para a ampliação feminina do esporte. Que não falte ousadia, então.