Pirataria: cortando o cabo da Fórmula 1

Fim do contrato com emissora do Catar, que representa 7% do orçamento de TV da categoria, revela a fragilidade da F1 (e dos eventos esportivos de forma geral) em relação às infrações de direitos autorais

Renan Martins Frade, de São Paulo

A beIN Sports, do Catar e que detinha os direitos de transmissão da Fórmula 1 no Oriente Médio e norte da África, informou ao Liberty Media, dono da categoria, que não renovará o contrato com a empresa, que durou cinco temporadas e se encerrou ao final de 2018.  O baque não é pequeno: a consultoria Ampere Analysis avalia que o acordo estava entre US$ 30 e 40 milhões, algo entre R$ 111,5 e R$ 149 milhões. Sozinho, o contrato do canal (que é uma espécie de ESPN do Mundo Árabe) equivalia a 7% de todo o orçamento de TV da F1.

De acordo com a emissora, o principal responsável pelo fim do acordo tem nome: a pirataria.

As transmissões não-oficiais que chegam ao público da região vêm da beoutQ, da Arábia Saudita, que também transmite (sem ter os direitos) grandes eventos do futebol, tênis e outros esportes, tudo pirateado da “concorrente”. O motivo não é simples, envolvendo uma disputa entre política e financeira entre Arábia Saudita e o Catar, que, de acordo com países vizinhos, apoiaria organizações terroristas. Os executivos da beIN ainda afirmam que o Libery Media pouco fez para evitar as transmissões piratas, resultando diretamente no fim do acordo. De qualquer forma, de acordo com a Reuters, um novo contrato com outra emissora da região estaria encaminhado.

O GP* entrou em contato com a categoria, questionando sobre as acusações da beIN Sports e sobre o futuro da F1 no Oriente Médio, mas não obteve uma resposta até o fechamento desta matéria.

Ainda assim, o caso expõe a fragilidade dos acordos esportivos frente à infração de direitos autorais.  

Publicidade do beoutQ, canal que transmite vários eventos esportivos - incluindo a F1 - sem ter os direitos para isso
reprodução

No Brasil e em outros países, claro, a situação é um pouco diferente, mas nem tanto. Não há, por exemplo, um grupo de mídia que se aventure a desafiar o contrato do Grupo Globo de peito aberto dessa forma, mas existem inúmeras alternativas às transmissões oficiais, e não é só com a F1. Links de sites com vídeos ao vivo circulam por grupos, enquanto “lives” acontecem em redes sociais e até no YouTube. Há, também, a venda de “set top boxes” que dão acesso a canais pagos, um modelo, inclusive, parecido com o qual a beoutQ é comercializada lá no Oriente Médio.

Uma pesquisa da Digital TV-Research, uma consultoria de Londres, indica que a pirataria de transmissões de televisão e de filmes fez com que a indústria do entretenimento perdesse US$ 6,7 bilhões em 2010, número que pulou para US$ 31,8 bilhões em 2017 e que chegará a US$ 51,8 bilhões em 2022. Ou seja, daqui três anos serão quase R$ 200 bilhões em receitas perdidas, ou o equivalente 333 vezes o orçamento de TV da Fórmula 1.

Ainda de acordo com os pesquisadores, os cinco maiores “mercados” da pirataria são Estados Unidos, China, Brasil, Reino Unido e Coreia do Sul.

Tudo isso é resultado, claro, de um avanço da tecnologia e da conectividade. Há 20, 25 anos, realizar uma transmissão esportiva não era uma tarefa simples. A própria Globo, no Brasil, primeiro investiu milhões no cabeamento das grandes cidades brasileiras e em satélite para, em um primeiro momento, ter o sinal do SporTV e de outros canais acessíveis aos assinantes em potencial. A empreitada levou a organização carioca a contrair uma grande dívida, que chegou US$ 1,7 bilhão em 2001, sendo R$ 157,8 milhões apenas com o BNDES. A iniciativa acabou sendo vendida a um grupo estrangeiro, após a família Marinho fazer lobby para que uma mudança na lei tornasse a jogada possível.

Hoje nada disso seria necessário. Com as transmissões via internet, o cabeamento e a transmissão viraram comodities – no que o mercado chama de “over-the-top”, ou OTT, que são as transmissões de vídeo que não seguem o caminho tradicional de difusão. É possível com pouco investimento criar um canal de sucesso no YouTube, e até mesmo “roubar” um sinal oficial e retransmiti-lo sem autorização, exatamente como os saudistas estão fazendo.

Espécie de ESPN do Oriente Médio, a beIN Sports tem os direitos de transmissão de grandes eventos esportivos e também pode ser assistida via internet
reprodução

Demanda

A oferta da pirataria seria inócua se não fosse a existência da demanda, que tem origem pelos mais diversos motivos.

O primeiro deles, obviamente, é o custo. Ainda que não seja um fenômeno de países em desenvolvimento, como podemos ver pela presença de EUA, Reino Unido e Coreia do Sul no top 5 do ranking global, ele tem um peso importante – principalmente no Brasil.

Por aqui, as transmissões na TV aberta estão cada vez menos comuns, com a ausência das classificações na grade da Globo ou com GPs inteiros indo para o canal pago SporTV. Um plano de TV básico que traz o canal esportivo não sai por menos de R$ 100 por mês. Não há a possibilidade de uma assinatura separada, via internet.

Outro ponto seria a qualidade das transmissões frente ao trabalho feito lá na Europa. “Morei na Inglaterra e por acaso vi uma matéria na transmissão de lá, que me fez pirar e voltar a acompanhar a F1. Voltei para o Brasil e fiquei muito frustrado com as transmissões, assistia ocasionalmente. Até que um dia vi alguém que comentando que estava assistindo a um stream inglês. Segui o link, vi como funciona e comecei a assistir assim”, relata Gabriel Oliveira, que é fã da categoria e retornou ao nosso país em 2008. “No Brasil, a qualidade das transmissões deixa de fora várias camadas de informação, principalmente a parte técnica e disputas no meio ou fundo do pelotão, além da personalidade dos pilotos, etc.”.

O GRANDE PREMIUM entrou em contato com a Globo, questionando sobre as críticas às transmissões e as perdas causadas pela pirataria, mas a empresa não retornou os nossos contatos.

A Sky Sports é elogiada pela qualidade da transmissão no Reino Unido
divulgação

Oferta

Com tudo isso, a oferta da pirataria se solidifica. Parte das opções é fornecida por um canal que lucra, sim, com conteúdos de terceiros. Um dos caminhos utilizados para isso é o Google AdSense, sistema de publicidade da gigante de tecnologia. Após se inscrever no programa utilizando um site de conteúdo legítimo, a publicidade então é aplicada para monetizar os acessos em páginas com pirataria – que, ao atrair um forte tráfego com conteúdo de terceiros, dão lucro aos seus donos.

O Google diz que se empenha no combate a tais iniciativas. Em um documento de 64 páginas, a empresa do Vale do Silício detalhou suas iniciativas na área, informando que, desde 2012, já cancelou 13 mil contas de AdSense, retirando mais de 100 mil sites do programa por conta das violações de copyright. Porém, a iniciativa da denúncia precisa partir do próprio dono do conteúdo.

Outro caminho que permitia a monetização da pirataria é o YouTube, que possui 1,9 bilhão de usuários em todo o globo e também pertencente ao Google. Porém, recentemente, a empresa restringiu mais os critérios para a monetização de vídeos, o que teoricamente diminuiria a iniciativa com vídeos de terceiros.

Grandes donos de conteúdo – incluindo o próprio Liberty Media – possuem uma ferramenta chamada Content ID (“registro de conteúdo”, em tradução livre), que permite detectar de forma quase que instantânea quando um vídeo com copyright é enviado para a plataforma, barrando-o ou direcionando os ganhos financeiros para o caminho correto. Porém, se faz necessário que o dono desse conteúdo envie os vídeos originais para que o YouTube possa fazer a análise. Na prática, a iniciativa não consegue coibir transmissões esportivas ao vivo – que estão sendo geradas naquele exato instante –, ou ainda trechos de corridas mais antigas, dos quase mil GPs da Fórmula 1.

Na prática, uma parte substancial das receitas obtidos com conteúdos piratas monetizados com AdSense ou disponíveis no YouTube, mas que não foram reclamados, vai para a conta bancária do próprio Google.

Esse é o Googleplex, a sede do Google, na Califórnia - o lema da empresa é "não seja mal"
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A empresa não respondeu aos questionamentos do GP* sobre o assunto. Em seu documento antipirataria, o Google informa que o YouTube já pagou mais de US$ 3 milhões a donos de conteúdo por receitas obtidas com publicidade, além de ter investido cerca de US$ 100 milhões com o desenvolvimento do Content ID. A gigante da tecnologia também afirma que o total de usuários engajados com a pirataria vem caindo, sem esclarecer tal queda em números absolutos ou relativos.

O Facebook, maior rede social do mundo, com mais de 2,2 bilhões de usuários, também se viu obrigada a desenvolver uma ferramenta parecida com o Content ID, chamada Rights Manager (“gerenciador de direitos”, em tradução literal. Questionada pelo GRANDE PREMIUM sobre os esforços para combate à pirataria, a empresa criada por Mark Zuckerberg apenas nos enviou uma URL com mais detalhes sobre a iniciativa. Como faz o YouTube, o Facebook trabalha com a correspondência entre o vídeo oficial e os uploads piratas, o que se torna ineficaz em “lives” de eventos ao vivo ou com conteúdos que não tenham sido enviados oficialmente para a rede social.

Vale lembrar que o Facebook disponibiliza publicidade em vários formatos dentro da rede social, estando presentes em conteúdos que infringem ou não copyrights de terceiros – e a divisão de lucros com os chamados “creators” só acontece dentro do Watch, a nova plataforma de vídeos da empresa, e isso apenas em 30 países. A renda líquida da companhia (ou seja, as receitas menos os custos operacionais) em 2018 foi de US$ 22 bilhões, ou mais de R$ 80 bilhões, no que Zuckerberg classificou como um “ano difícil”.

Como você pode ver, mesmo que o usuário prefira não pagar pelo acesso à F1, o dinheiro continua circulando. Porém, ele não vai parar nos cofres da categoria.

Os testes coletivos de 2019 estão sendo transmitidos ao vivo no F1 TV, o streaming oficial da categoria
Xavi Bonilla / Grande Prêmio

Alternativas

Além do combate às transmissões piratas, se faz necessária uma valorização da F1 enquanto produto, além da exploração de caminhos que facilitem o acesso.

Um dos primeiros passos veio justamente com a criação de uma plataforma de streaming da categoria, que custa entre US$ 2,99 (R$ 11) e US$ 6,99 (R$ 26) ao mês. A iniciativa, porém, esbarra em contratos pré-estabelecidos, que impedem transmissões ao vivo em diversos países, inclusive no Brasil.

Por isso, a categoria tem que contar, no caso do nosso país, que a Globo saia da prostração na qual se encontra. Oferecer a assinatura do SporTV independentemente de pacotes de TV por assinatura, seja de forma solitária ou em conjunto com outros produtos, é um caminho. O outro seria voltar a apostar nas transmissões no canal aberto, algo mais democrático por natureza e que se monetiza por meio da publicidade e não com assinaturas, mas tal iniciativa seria contrária ao retrospecto recente da própria F1 no resto do mundo, que vem se tornando um produto menos eficaz para a TV aberta.

Isso tudo acabaria com a pirataria de vez? Obviamente que não. Ela passa, também, pela educação do público. Ainda assim, evitaria perder o dinheiro daqueles que estão dispostos a pagar. Caso contrário, o que estamos vendo no Oriente Médio deixará de ser resultado de uma disputa política e se tornará cada vez mais comum.

O impacto esportivo, dentro desse cenário, seria grande. Em 2015, de acordo com informações obtidas pela ESPN, a Ferrari teve um orçamento de US$ 630 milhões na categoria, com pelo menos US$ 130 milhões vindo de premiações da própria F1, com outros US$ 62 milhões por conta de uma regra que beneficia apenas os italianos, por serem a equipe mais antiga no grid. Obviamente que parte desse dinheiro vem de acordos com os organizadores dos GPs e da publicidade, mas uma gorda fatia também vem da venda de direitos de TV.

Se essa receita cair, o futuro da maior categoria do automobilismo mundial poderia ficar em risco.