Rivais do asfalto e da terra

No ano em que a Stock Car completa 40 anos, a Mitsubishi reuniu dois dos mais lendários pilotos da categoria para a etapa de Indaiatuba da Mitsubishi: Ingo Hoffmann e Paulo Gomes

Juliana Tesser, de São Paulo

 

A Mitsubishi Cup promoveu um encontro de peso em Indaiatuba. No ano em que a Stock Car completa 40 anos e o rali cross-country de velocidade celebra duas décadas, Ingo Hoffmann e Paulo Gomes foram convidados para disputar a terceira etapa da temporada 2019.

Por conta do aniversário da Mitsubishi Cup, a marca dos três diamantes tem promovido uma série de encontros ao longo do ano e, desta vez, os escolhidos foram dois dos principais nomes do automobilismo nacional.

“Este ano estamos fazendo um programa, em função da comemoração dos 20 anos, de convidar dois “rivais” do automobilismo”, conta Guilherme Spinelli, diretor da Spinelli Racing, ao GRANDE PREMIUM. “Na primeira etapa, foram o Gerson Campos e o Cassio Cortes, do programa Acelerados; na segunda, Mauricio Neves e Ulysses Bertholdo, dois grandes rivais da história do rali nacional; e na terceira, resolvermos chamar dois pilotos da velha guarda da Stock Car que foram rivais na sua carreira”, continua. 

“O conceito é convidar para conhecerem e participarem da Mitsubishi Cup dois expoentes do automobilismo, além do programa de homenagem, que o convite para o protagonista da história dos 20 anos da Mitsubishi Cup”, completa Guiga.

Maior campeão da história da Stock Car, com 12 títulos, Ingo já tinha experiência prévia com rali, não só nas categorias da Mitsubishi, mas também no Rali dos Sertões e com o bicampeonato no Brasileiro de Cross-Country.

Na volta à Cup, Hoffmann fechou a participação na categoria ASX RS Master com a sexta colocação. Correndo ao lado do navegador Fabio Pedroso, Ingo não ficou plenamente satisfeito com a participação em Indaiatuba.

“Foram sensações mistas. Eu fiquei contente, fiquei feliz pelo ritmo que eu andei, pois eu já não guiava este tipo de carro há mais de 8 para 9 anos, ou talvez mais até, não sei, faz muito tempo”, diz Hoffmann ao GRANDE PREMIUM. “Eu andei num ritmo legal, fiquei satisfeito com o ritmo, mas fiquei muito puto por causa dos erros que eu fiz, também pela falta do hábito. Foram uns erros meio bestas. No geral, foi bom, foi legal”, segue.

Paulo Gomes, por sua vez, dividiu o carro com o experiente Du Sacks, mas não disputou a última das três provas. Ao contrário de Ingo, o tetracampeão da Stock Car tem pouca experiência no off-road.

“Eu já tinha feito um, também a convite da Mitsubishi, há muitos anos , em Ribeirão Preto. Acho que foi em 2001 ou 2003, não lembro direito. Mas também foi só um”, conta ao GP*. “Foi bem diferente, porque aquela outra tinha muitos saltos, muros. Eu ganhei a primeira especial e peguei uma árvore na segunda. E na terceira eu fui para o hospital. Fiz tudo que tinha direito”, recorda. 

“Agora, eu fui mais ou menos na primeira, na segunda eu dei uma virada lá, fiquei atolado num canavial lá e na terceira eu já não quis ir mais, porque estava cansado”, detalha. “Cansa demais. Eram três parciais de 35 km. E cada trecho tinha um piso diferente. Uma hora era areia, outra hora era terra. É complicado. E eu já estou com 71, né”, frisa.

 

Ingo Hoffmann já tinha experiência no rali
(Foto: Cadu Rolim)

 

Dono de uma ligação próxima com a Mitsubishi, Ingo demorou a aceitar o convite para voltar à Cup. Competitivo que é, o veterano não queria chegar despreparado. 

Questionado se a participação nesta terceira etapa da temporada 2019 deixou a vontade de voltar ao rali, Ingo respondeu: “Sim e não. Sim, desde que eu tenha condições de treinar legal, de ter um programa bacana. E não, porque ― tanto é que esse convite que o Guiga me fez, já vem desde o começo do ano. Nós somos muito amigos. O Guiga já vem, no bom sentido, me enchendo o saco há um tempão e eu demorei para aceitar. Mas, falando honestamente do porquê não, porque eu sou um cara absurdamente competitivo. Eu não gosto de chegar lá para ser mais um no meio”. 

“Eu quero estar brigando entre os três primeiros. E é difícil isso na categoria, porque, pô, a garotada que está andando lá, o pessoal anda muito, então no rali, sem parar, há muitos anos, então é difícil andar no ritmo deles”, reconhece. “Então eu tinha vontade, sim, de voltar, porque é extremamente prazeroso, é um desafio, e não pelo medo de lavar pau. Medo não. Medo de não poder fazer o programa direito”, aponta. 

A competitividade, aliás, fica evidente em um balanço mais detalhado da passagem por Indaiatuba.

“Mesmo com os erros que eu cometi nas voltas lá, eu teria sido terceiro se eu não tivesse recebido um penal. Eu recebi um penal na primeira prova, de radar. Mudou a regra e ninguém me falou”, explica Ingo. “No rali, tem algumas zonas de radar. Você chega no radar e, quando eu corria, eu corri uns quatro, cinco anos ― fui Campeão Brasileiro, então eu manjava bem ―, você tem um radar de 50 km/h. Você tem a placa de inicio de zona de radar e você tinha, depois da placa, 100 metros para estabilizar a velocidade. Agora, de uns anos para cá, o regulamento mudou. Você tem de chegar na placa já a 50 km/h”, explica. 

“Quando eu cheguei no primeiro radar, o cara me cantou o radar, eu vi que tinha a placa, passei, freei, meti o pé no freio, fui de atravessado e aí ele falou: ‘pô, fomos penalizados’. ‘Como assim penalizados?’. ‘Tinha de ter parado antes’. Porra, mas ninguém me falou. Quando eu corria, a regra era outra”, sublinha. “Se não tivesse recebido esse penal do radar, eu teria sido terceiro na geral. Então foi excelente em termos de performance. Então é isso, vontade de correr, sim, mas tem de ter condições de treinar legal”, sublinhou.

Responsável pela Mitsubishi Cup, Spinelli também fez uma avaliação positiva da participação de Hoffmann e Gomes.

“Foi muito bacana ver os dois juntos. Logicamente que o Ingo, por ter corrido no rali muitos anos e estar mais na ativa, conseguiu performar muito bem. O Paulão não treinou antes, mesmo assim fez duas provas bem bacanas, conseguiu andar bem e curtir o assunto”, opina Guiga ao GRANDE PREMIUM. “Mas, acima de tudo, a participação deles foi fantástica para o evento e para os competidores que compartilharam o grid com eles. Ficaram muito felizes em vê-los ali entre eles, dois expoentes do automobilismo”, ressalta.

Questionado se a Mitsubishi Cup vai preparar outros encontros no restante da competição, Spinelli garantiu: “Sim. Terão outros encontros até o fim da temporada”.

Assim como o ex-rival dos tempos da Stock Car, Paulão também deixou as portas abertas para um eventual retorno.

 

Paulo Gomes contou com a navegação do experiente Du Sachs
(Foto: Tom Papp)

 

“De repente, né. Vamos ver mais para frente”, fala ao GP*. “Eu gostei muito. Parece que agora, depois que o Guilherme Spinelli assumiu, o evento está crescendo muito. Eu gostei muito da organização, gostei muito. Achei super bacana. O pessoal todo que participa, são muitos empresários, um pessoal não tão profissional. Tem os profissionais, mas tem muitos que vão lá mesmo para curtir, para se divertir. Eu gostei muito de tudo”, insiste.

Perguntado, então, o bichinho da competitividade não deu as caras em Indaiatuba, Paulão respondeu: “Teve sim, tanto é que eu quase capotei. Fiz umas estripulias lá, mas, também, chegou lá na terceira [etapa], eu já não aguentava mais. Eu estou muito sem preparo físico”, reconhece.

Apesar da disputa direta nos primeiros anos da principal categoria do automobilismo nacional, Ingo não viu o confronto na Mitsubishi Cup como uma reedição da rivalidade de dois dos maiores nomes da Stock Car.

“Essa rivalidade, tem muita fantasia por trás disso. De fato, houve algumas temporadas em que a gente teve uma rivalidade bastante grande, mas essa rivalidade era ali nas corridas. Acabava o campeonato, estava tudo legal de novo”, garante Hoffmann. “Ele é um cara muito brincalhão. Inclusive, quem chamou ele fui eu. Ele topou na hora e aí ficou brincando: ‘Ah, vou dar um pau em você’. E eu falei: ‘Tá bom, vai’. Eu costumo não retrucar”, continua. 

Gomes, por sua vez, também se mostrou feliz pelo reencontro, embora tenha empurrado a pressão pelo resultado para as mãos de Ingo.

“Foi super bacana. A gente ficou junto lá, deu risada. O Ingo é um cara muito gente fina. Só que ele é ‘profissa’ mesmo”, comenta. “Ele já fez muito rali, eu nunca fiz. Mas ele foi lá na pista da Mitsubishi, treinou na quarta-feira. Ele sempre foi muito mais profissional do que eu. Mas eu falei para ele: ‘Ó, você é feliz assim, eu sou feliz do meu jeito. Tô curtindo aqui com os amigos. Você vai lá e ganha esse troço aí, que é a sua obrigação!’”, relata rindo.

Ingo, aliás, sabia de antemão que o preparo físico de Paulão seria um fator de dificuldade, já que o rali é uma modalidade bastante exigente.

“O preparo físico para esses carros de rali tem de ser muito bom, muito afiado. Você trabalha com o volante absurdamente mais do que num Stock Car, por exemplo. O Stock Car, em termos de pilotagem, é infinitamente mais fácil do que do com um carro de rali. Não dá para comparar. É muito, muito mais fácil”, avalia. “No caso do carro de rali, você tem de ter um bom preparo físico. Eu ainda estou em atividade física, não igual antigamente, mas também não estou parado. O Paulão ficou parado esse tempo todo. Eu tinha certeza que ele não ia aguentar, tanto que ele não conseguiu fazer a terceira volta. Mas é uma questão de treino. E é uma brincadeira. Em momento algum eu encarei aquilo como a volta da rivalidade. De forma nenhuma. Isso é mais marketing, jogar para a torcida”, garante.

 

Competitivo, Ingo Hoffmann admitiu voltar ao rali. Mas só com preparo certo
(Foto: Cadu Rolim)

 

Perguntado sobre as diferenças entre o rali e a pista, Hoffmann avaliou que o off-road força o piloto a lidar com o imprevisto.

“A única semelhança que tem entre os carros é o volante e as quatro rodas. Aí dá para ter uma ideia. Muda tudo, radicalmente”, fala. “Em termos de pilotagem, a mudança é absurdamente grande. É uma pilotagem que me dá, desde quando eu andei pela primeira vez em 2002, na etapa da Cup também, eu me apaixonei, porque é uma pilotagem que, na minha opinião, no sentido puro da palavra, porque você está sujeito a um susto em cada curva, terrenos diferentes toda hora, você tem de ter uma habilidade muito grande para sair do apuro, você volta e meia está com o carro totalmente, não vou dizer descontrolado, mas na eminência de descontrolar. Isso é uma coisa extremamente prazerosa para mim, de você ter de estar dominando o carro o tempo todo”, aponta. 

“Outra dificuldade que eu tive no início, e voltei a ter nessa etapa agora, é entender o navegador. Nessa prova, eu tive menos dificuldade do que quando eu estreei, lá em 2002, 2003, mas, pelo fato de ter ficado nove anos sem estar correndo de rali, sem andar com um navegador do lado, eu estava meio com dificuldade de entender”, admite. “Para você ter uma ideia, uma hora ele cantou uma curva para a direita e eu virei para a esquerda. ‘Meu Deus do céu, onde é que eu estou com a cabeça?’. Você tem de entrar no ritmo de novo, canal auditivo 100% aberto e acreditar no que o cara está falando”, considera.

Por fim, os dois fizeram um balanço do atual momento da Stock Car e falaram de forma bastante positiva sobre a categoria quarentona.

“A Stock Car, não especificamente deste, deste momento, mas nos últimos anos a categoria está absurdamente bem”, elogia Ingo. “Ela é uma categoria extremamente profissional, extremamente competitiva, o pessoal está brigando ali por milésimos de segundo, o que é uma coisa incrível de se ver, mas isso se deve a permanência do regulamento técnico já há muitos anos que não é mexido, não é alterado”, lembra. 

“E fico muito satisfeito, porque lá nos anos 90, quando a categoria Stock Car praticamente morreu, nós fizemos um trabalho, o Paulão, eu, o Chico Serra e o Carlos Col, que hoje voltou a estar à frente da Stock Car, nós fizemos esse trabalho e, naquela ocasião, nós tínhamos uma preocupação ― e eu falava isso naquela época com muita ênfase ― de que o ideal seria termos no Brasil uma categoria forte o suficiente para que os brasileiros pudessem viver profissionalmente do automobilismo. E isso está acontecendo hoje na Stock Car graças ao trabalho lá de trás”, pondera. “Você pega a turma que está correndo lá, mas tem muita gente profissional ali no meio graças ao trabalho que nós, pilotos da velha guarda, fizemos lá atrás. E isso é extremamente gratificante, saber que o trabalho que nos fizemos lá atrás está surtindo efeito até hoje. É muito legal”, sublinha.

Questionado se vê o grid atual como um dos mais fortes da história da categoria, também pelo desempenho de Daniel Serra e Felipe Fraga nas 24 Horas de Le Mans, Gomes respondeu: “Sem dúvida. Você vê aí o Marcos, meu filho, foi correr as 24 Horas de Daytona, fez a pole-position, fez a melhor volta, na categoria onde tinham mais carros, com a Ferrari 488. Ele foi convidado também agora para correr no Japão, só que não conseguiu visto. Não vai conseguir correr. E estão sondando ele para disputar Le Mans ano que vem. Você pega, por exemplo, o Fraga, o Marcos, o Daniel Serra, esses meninos são super competitivos. Qualquer lugar que eles forem, eles serão competitivos”.

A Mitsubishi Cup volta à ativa em 3 de agosto, em Jaguariúna. A Stock Car, por sua vez, realiza a quinta etapa da temporada em 21 de julho, em Santa Cruz do Sul.

Paulo Gomes exaltou o clima divertido da Mitsubishi Cup
(Foto: Tom Papp)

 

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