Rota alternativa

Bruno Carneiro é mais um piloto em busca do sucesso – mas faz isso na Ásia. Campeão da F4 Chinesa e hoje na F3 Japonesa, o brasileiro que começou vendendo cupom com desconto de restaurante sonha com a estabilidade em um esporte exigente e caro

Vitor Fazio, de Porto Alegre

A história tradicional de pilotos nascidos no Brasil já é conhecida. Automobilismo de base no país natal, amadurecimento até a adolescência e o provável destino passa a ser Europa ou Estados Unidos. Foi assim que os grandes nomes brasileiros fizeram fama – mas talvez não seja rota única. Do outro lado do mundo, um brasileiro-americano inova: Bruno Carneiro, hoje piloto de F3, quebra a tradicional linha de formação de talentos ao apostar no automobilismo japonês.

A história toda de Carneiro foge à regra. Nascido em São Paulo, Bruno se mudou ainda muito novo para os Estados Unidos, no estado de Utah. Pela identificação pelo país onde cresceu, corre defendendo a bandeira americana, assim como a brasileira. De lá, partiu para uma jornada no extremo oriente, fazendo nome na China e no Japão. Até o começo da carreira veio de um jeito diferente – brincando no restaurante em que o pai trabalhava, o piloto de 18 anos chamou atenção daquele que seria o primeiro padrinho nas pistas.

“Sempre fui fascinado por carros, especificamente F1. Pensava em como funcionava o motor, os pneus... Até o ponto em que comecei a carreira brincando com sal e pimenta”, conta Carneiro, entrevistado com exclusividade pelo GRANDE PRÊMIO. “No restaurante Rodízio Grill em que meu pai trabalhava, eu ia na mesa e pegava o sal, a pimenta, uns canudos e ia fazendo umas curvas. Fazia tudo envolvendo corrida, e é assim que eu comecei. O Ivan Utrera, dono do rodízio grego, viu que eu tinha uma paixão e comprou meu primeiro kart, e isso cresceu a partir daí”, recorda. Mesmo anos depois do apoio de Utrera, Carneiro ainda vendeu cupons com descontos para o restaurante, uma forma de arrecadar dinheiro e seguir pilotando.

Bruno Carneiro aposta suas fichas no automobilismo asiático
Reprodução/Twitter

A sorte de Bruno começou a virar quando apareceu a chance de ir para a China. Por acaso, o piloto estava no lugar certo e na hora certa para receber um convite irrecusável.

“Na pista [em Utah] tinha um evento e eu fui em uma das garagens e encontrei um grupo chinês que estava comprando a pista. Fui lá, expliquei quem eu era, que tinha vencido o campeonato de Fórmula estadual, e esse grupo chinês me disse que eu podia correr na China”, diz. “Eu não acreditei, foi tão rápido. Estava lá e eles gostaram de mim. Aí me deram uma entrada [na China], tinha um carro pronto para mim, e graças a Deus pude competir. Fui terceiro na minha primeira etapa, meus tempos sempre estavam perto dos mais rápidos, uma experiência muito legal. Aí chegou março [de 2016] e recebi uma mensagem: ‘Bruno, a gente te quer de novo aqui, agora para a temporada inteira porque achamos que você pode ganhar o campeonato’. Eu cresci muito, mas isso só foi possível porque eu estava lá, vendendo cupom, no lugar certo e na hora certa”, fala.

Na F4 Chinesa, tudo deu certo. Mesmo que o campeonato seja desconhecido, a verdade é que Carneiro fez um belo trabalho. Foram 14 pódios em 15 corridas na temporada 2016, oito deles como vencedor. A missão estava cumprida na China e já era hora de pensar em outro rumo. Ali perto, o Japão reservava outro desafio – agora bem mais sério. Estreando na F3 Japonesa em 2017, o brasileiro passou por dificuldades. Ao fim do ano, o piloto ficou em 11º com um ponto somado – em um sistema de pontos que premia apenas os seis primeiros.

“Foi muito difícil, foi muito competitivo. Tem piloto muito bom aqui [no Japão]. Esperava ir um pouco melhor, mas todo mundo aqui falou para esperar terminar as corridas em oitavo no máximo. A gente conseguiu sexto, sétimo, o que é melhor do que a equipe estava esperando, e isso foi uma conquista. Mas é óbvio que terminar em 11º não foi bom. Teve corridas que não terminei ou que o carro deu problema”, lamenta. “Mas foi o primeiro ano do time, a gente não tinha os acertos para todas as pistas. A com a B-Max vai ser uma equipe com muita experiência no Japão. Combinando com a experiência que eu ganhei acho que dá para mandar bem”, opina, citando a nova equipe para a temporada 2018 no Japão.

Junto do primeiro ano, caiu o mito de que piloto japonês não é bom. “Eles são muito fortes, até na cabeça, e isso pode fazer diferença na pista se você não está 100% focado. A competição é muito alta. Quando tem o GP de Macau, que é quando todos os pilotos de F3 se encontram, os japoneses estão lá. Não na ponta, mas no meio, em quinto ou sexto”, comenta.

A realidade de adversários japoneses é nova, mas pode ser duradoura. Por mais esforçado que Carneiro seja, a falta de apoio financeiro segue sendo um fator. Em dias de pilotos de famílias milionárias buscando o automobilismo, Bruno vive o oposto ao lidar com orçamentos apertados. Desse jeito, construir uma vida no Japão, mais sustentável, vira uma ideia convidativa. Mas talvez ainda seja cedo para descartar a Europa.

“Eu vejo a Europa como muito importante, mas já vi que aqui na Ásia você consegue fazer seu nome crescer muito fácil. Tem marcas como Honda e Nissan que podem fazer sua carreira, você vira um piloto deles. E isso pode acontecer, não é raro. Fazer uma carreira aqui é um sonho, quero que pilotar seja meu trabalho. Dá para ir até a Super Formula e depois disso tem gente que vai para categorias ainda maiores. Você vê o Vandoorne e o Gasly, que competiram na Super Formula e agora tão na F1”, considera.

Avancei no sentido de lidar com o ‘não’, que é algo que acontece muito nesse esporte. Não de patrocinador, não de diretor de prova... Você tem que ter uma cabeça certa
Bruno Carneiro
O automobilismo japonês pode abrir portas na Europa para Carneiro
Hachiya Hiromi/Reprodução

Mesmo sabendo que o futuro pode ser brilhante, Carneiro também se preparou de olho nas dificuldades. O piloto que precisa pensar no prejuízo de um acidente buscou o amadurecimento. Talvez essa seja a receita para crescer em um esporte tão exigente.

“É difícil, sabe? Tenho que lutar muito pelo dinheiro, que nesse esporte é tudo. Tem que pensar em emergenciais, como quanto vai custar se eu bater. Mas agora que estou em um ponto da carreira que é ou não é eu tento não pensar nisso e focar nas corridas. Eu tento ser agressivo, mas não de um jeito estúpido. Eu enfio o nariz e tento ganhar posição, não dá pra ficar pensando em dinheiro”, fala.

“É muito difícil, obviamente, mas eu acredito que avancei bastante no sentido de lidar com o ‘não’, que é algo que acontece muito nesse esporte. Não de patrocinador, não de diretor de prova... Você tem que ter uma cabeça certa, e eu já ouvi tanta gente falando não para mim que já me acostumei. Faz parte da minha carreira e é algo que me fez Bruno”, encerra.