Stock Car(ne)

O ex-piloto que infartou no carro e virou vendedor de espetinhos... No Stock Carne (!)

Felipe Noronha, de São Paulo

O autor deste texto é a favor dos trocadilhos, apesar dele ser criticado por muitos e chamado, por vezes, de "primo pobre do humor". 

Mas como não achar graça em algo chamado Stock Carne, se você acompanha e é fã de automobilismo?

Na semana em que a Stock Car, maior categoria do esporte a motor no Brasil, inicia seu 40º ano de história, o GRANDE PREMIUM foi atrás de alguma história curiosa sobre a categoria. Mas não necessariamente dentro dela - e, sim, que ela tenha inspirado.

E encontrou uma daquelas saborosas - quase que, com o perdão do erro de português que é usar tal palavra, literalmente. Afinal, um churrasco é sempre agradável e gostoso.

Amilton Faravelli com seu Espetinhos Stock Carne
Arquivo Pessoal

O estabelecimento é dos mais simples: um carro, uma churrasqueira, três tendas, banquinhos e mesas de plástico e alumínio - uma típica barraca de feira. Isso ao primeiro olhar. A partir de uma observação mais minuciosa, é que chegam os detalhes que tornam a história bacana de ser contada e lida.

Primeiramente, o nome: o trocadilho faz todo o sentido. Carnes que vêm do carro... Pera, carro?

Sim, carro. A churrasqueira, tal como as geladeiras para conservação e as bebidas, vê de dentro de um carro, pintado de verde, com bandeira quadriculada amarela e o #01 em suas laterais.

Acima do vidro da frente, o nome em caixa alta: FARAVELLI. Ou Amilton Faravelli, ex-dono do carro, hoje vendido a um amigo. O criador do trocadilho. E ex-piloto.

 

Tal como piloto, o sobrenome de Faravelli merece destaque no carro
Arquivo Pessoal

Faravelli disputava a etapa final de um campeonato chamado Força Livre, em 1999. O palco? Interlagos. Faltavam três voltas. Ele seria campeão com sua posição de momento. Mas o destino não quis assim.

"Corri o campeonato de 1995 a 1999. Parei em 1999 porque infartei dentro do carro", conta o ex-piloto.

"Faltavam três voltas para ser campeão. Fiquei internado, mas fiquei bem, sem sequelas. Porém, parei de correr", explicou ele.

Faravelli ainda tentou um retorno às pistas, mas sentiu que seria impossível, por respeito à própria saúde.

"Coloquei um carro na pista em um ano (do infarto) e fui treinar, mas senti o coração acelarar e não teve mais jeito."

A churrasqueira do Stock Carne fica no motor
Arquivo Pessoal

Entre as glórias nas pistas, consta até um troféu das Mil Milhas de Interlagos: "Foi dentro de um Escort, terceiro lugar, e isso correndo contra Nelson Piquet, de BMW, contra estrangeiros, com Porsche que veio da Alemanha."

"Eu era um bom piloto, sem me gabar. A Petrosul me patrocinava, uma distribuidora de combustível. Eu tinha toda a regalia: pneu novo, mecânicos disponíveis a semana inteira... Era coisa boa", conta Faravelli.

Quando precisou parar de pilotar os carros, teve a ideia de pilotar outra coisa: a churrasqueira. Mas ainda em Interlagos, ele diz, para não se distanciar muito deste mundo da velocidade.

"Uns 10 anos depois abri (a loja). Fiz o carro de espetinho para vender em Interlagos. Ia vender só lá, arrumar autorização para vender em dia de corrida", afirma.

Mas o trocadilho genial é que o fez mudar de ideia: "Fiquei pensando no nome do carro, lembrei da Stock Car e falei: 'Vou mudar só uma letra o final'. E aí abri uma firma."

Nascia, ali, a Stock Carne.

O #01 de Amilton Faravelli
Arquivo Pessoal

O carro verde e amarelo, um Gol quatro portas, ainda fica toda terça, quarta e sexta-feira no bairro de São Mateus, em uma das avenidas principais da região, localizada na Zona Leste de São Paulo, capital.

Não mais com Favarelli, que vendeu por necessidades familiares, mas com um amigo, que mantém o, digamos, legado: "São três barracas, tendas de 4m², cadeirinha, mesinha, o pessoal fica sentadinho embaixo, para não ficar de pé."

Diz ele, o lucro era bom: "Vendi porque agora tenho caminhão, mas olha, com o Stock Carne eu ganhava muito mais que no caminhão."

"Vendi porque a turma pensa que é fácil, mas eu comprava (a carne) de frigorífico, tem que ser carne boa, porque se for porcaria o cliente come uma vez e não volta mais.  Tem que buscar cerveja, lavar carro, quando a gordura da churrasqueira derrete cai na suspensão, se não lava fica fedor de gordura velha... Tem que cuidar do carro, é muito trabalho. Limpar grelha, churrasqueira no motor..."

Sim, a churrasqueira fica no motor. Como? "Abre o capô e fica ali. A churrasqueira é toda de inox, ela fica em cima do motor."

E dentro do carro? "Em vez de bancos vão dois freezers grandões, para a carne, no porta mala fica a chapa para 10 hambúrgueres."

Só que, com o pouco pessoal que tinha para trabalhar, e com o trabalho da filha exigindo ajuda, a despedida foi forçada a ocorrer: "Eu e minha esposa estávamos trabalhando demais, era cansativo, tem que cuidar das netinhas. Minha filha é gerente da Sul América, trabalha de casa no computador da firma, então as netinhas não podem atrapalhar e a gente cuida. Não tinha mais como acompanhar, sozinho era muito corrido, não deu mais."

Mas o legado de Amilton Faravelli ficou: no São Mateus, a Stock Car tem sua "versão espetinho" tão viva quanto a competição de carros, 40 anos depois.