Terreno surpresa, volante improvisado e mais um Dakar na conta

Ao lado de Gustavo Gugelmin, Reinaldo Varela completou o quinto Dakar dele. Embora a vitória geral tenha ficado mais distante dessa vez, a dupla venceu duas especiais e se provou novamente uma força nos UTVs - agora em outra parte do mundo

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

O Rali Dakar 2020 apresentou um marco para os pilotos: após o fim da era América do Sul, que substituiu os antigos trechos que deram nome ao rali e que exigiam que os competidores singrassem o continente africano. Após mais de uma década entre Argentina, Chile, Peru e Bolívia, o Dakar partiu para os desertos da Arábia Saudita na edição deste janeiro. O número de sul-americanos, que enchiam as edições caseiras da competição off-road mais famosa do mundo, minguou. Pudera, os custos são bem mais representativos. Não acabou, portanto. Campeões dos UTVs em 2018, Reinaldo Varela e Gustavo Gugelmin lá estiveram e reforçaram o lugar como um dos conjuntos mais tradicionais de seu campo de atuação.

Embora não tenha ficado com o título, a dupla terminou mais um rali e conseguiu vencer especiais. Problemas logo no início dificultaram o caminho e afastaram as possibilidades para a segunda vitória geral, o que evidentemente não era o esperado. Sem lamentações, entretanto, terminar foi a vitória da vez.

Com duas vitórias em especiais neste ano, Varela e Gugelmin chegaram a dez triunfos nos últimos três anos pela equipe Monster Energy Can-Am: ninguém tem mais entre os UTVs. Ao GRANDE PREMIUM, Reinaldo Varela cedeu uma entrevista para contar um pouco mais de perto como foi a participação de 2020.

Gugelmin e Varela após o título mundial de Rali Cross Country
Divulgação

COMEÇO INGRATO

É natural que os problemas vão se acumulando num rali, especialmente no Dakar e mais esperado ainda numa ocasião em que o terreno era surpresa para tanta gente. Ainda assim, foi ingrato quando uma quebra no sistema de direção do #402 desconectou a coluna do volante no quilômetro 166 dos 319 da especial do domingo, 5 de janeiro, primeira etapa do ano. A solução para não deixar abandonar tão cedo? Improvisar duas chaves de fenda como coluna de direção e volante. Terminaram o dia com uma desvantagem de 2h22min, mas pudera: foram 153 km de dunas com chaves de fenda utilizadas para guiar o carro.

Após o fim do dia, Varela havia dito que "talvez uma dupla menos experiente e com menos paixão pelo que fazemos desistisse. Mas nós não pensamos nisso um segundo sequer" e que ficava "espantado com a "agilidade do Gustavo de propor soluções". Gugelmin retribuíra o elogio: "Já respeitava muito o Reinaldo como piloto, mas hoje a minha admiração cresceu muito. Tivemos um dia dos mais difíceis, mas é um dia para lembrar para o resto da vida".

Ao GP*, destacou que a solução à primeira vista fora da caixa é algo que aprenderam na formação de pilotagem que engloba conhecer todas as facetas de um carro.

"São coisas de perfil. Tem muita gente que só pilota, senta lá e quer pilotar. O Gustavo e eu sabemos muito de mecânica, a gente é raiz, vem lá de trás. Lá atrás você fazia tudo no carro, eu é que montava os meus carros de corrida. Nós sabemos mexer. Hoje em dia, não mexemos mais, mas sabemos fazer de tudo. Essa hora é a hora em que a experiência e o sangue frio falam alto. Tem que ter o sangue frio de pensar o que fazer. Tivemos essa ideia na hora. Para um jipeiro, uma coisa dessas é mais ou menos o normal do dia a dia deles. É o cotidiano, tem que sair lá do meio, tem que se virar", afirmou.

Em meio às dunas árabes
Marian Chytka

RESISTIR E AVANÇAR

Daí em diante, a realidade era diferente. Muito longe dos líderes, Maciej Domzala e Rafal Marton, e dos primeiros colocados, Varela e Gugelmin teriam que contar com percalços não apenas para um ou outro rival, mas para todos eles. A vitória não era impossível, mas estava longe. Como abordar a competição daí por diante? Com foco voltado a trabalhar em prol do sucesso da equipe, que também contava com as duplas Casey Curie/Sean Berriman, dos Estados Unidos, e Gerard Farres Guell/Armand Monleon, da Espanha.

"Quando a gente entra, entramos preparados e muita coisa acontece no Dakar. Das outras vezes, 2h eu estava no título ainda, tinha menos participantes e era normal todo mundo ter problema. Quando chegamos [após o problema], ainda estávamos confiantes, ainda estávamos no 'vamos que vai dar'. Depois, fomos vendo que estava difícil. A tecnologia vai melhorando, os carros vão ficando mais resistentes e só os problemas que nós tivemos...", recordou o piloto.

"A partir do momento em que você vai para o Dakar, a primeira coisa que tem que fazer é chegar, né? Terminar um Dakar é difícil. A primeira coisa é terminar; depois, ganhar etapas e buscar resultado. Nosso objetivo passou a ser chegar, trabalhar bem, fazer as coisas bem feitas e entregar para a equipe. No Dakar você trabalha com uma equipe, e a equipe precisa ajudar uns aos outros. Como eu não estava disputando a vitória, podia trabalhar mais para a equipe, que foi o que fizemos bastante", contou.

"Fizemos alguns bons tempos, ganhamos especiais [a nona e a 12ª] e, se eles precisassem de mais alguma coisa, meu carro tinha mais peças, que eu precisava para levar para os outros competidores. Isso, num rali, é muito normal. Você pode ter ajuda dos participantes, o que não pode é ajuda externa. Ano passado, tive problema e o companheiro que estava atrás veio de mochila, parou, deu a peça que eu precisava e nós fomos embora enquanto ele ficou lá se arrumando e conseguiu terminar. Com essa ajuda, fiquei em terceiro. Esse ano não tinha mochila. Se eu tivesse ido com mochila, nós tínhamos perdido 15 minutos [em vez de duas horas e meia numa especial em que lutava pela liderança]. Mas não é sempre que você tem uma estrutura por trás que te favorece tanto assim", explicou Varela.

Evidente que a falta da estrutura de outras edições foi causada pela mudança de local. Com o deslocamento e o mistério do que seria enfrentado, a equipe de Varela foi uma entre aquelas que dosou o investimento.

"Os custos ficaram elevados para levar mochila, como a gente chama. Não sabíamos bem como era, seria novidade para todo mundo, ninguém sabia ao certo qual a dificuldade do rali. Mas ano que vem nós já pensamos em levar mochila”, afirmou.

Visto que o investimento era menor, Varela sabia que a chance de um problema sério deixar o conjunto isolado por algum tempo era maior que o normal. O caminhão-mochila que lá estava era a garantia, mas uma garantia que podia chegar tarde demais.

"Nós, a equipe, tínhamos um caminhão-mochila. Então, assim, ficar preso lá no meio a gente não fica. Todas as equipes contam com esse caminhão-mochila. Só que o caminhão-mochila anda devagar, porque ele não pode quebrar. Se você quebra o carro no quilômetro 200, demora muito. Uma hora ele vai chegar, mas até chegar já passou duas ou três horas”, esclareceu.

“É o que demora se você der o azar de quebrar longe. Se você quebrar no começo, chega rápido. No final, resta chorar. Teve um dia lá com nosso companheiro de equipe que quebrou o carro, quebrou algumas coisas, na verdade, e teve que esperar. O caminhão chegou, tinha todas as peças dentro, deu para ele. Montou tudo e foi embora, chegou, mas só de madrugada”, disse.

O companheiro ao qual Varela se refere é Farres Guell, que acabou por terminar o rali na 11ª colocação geral, cerca de 57 min atrás do brasileiro. O outro conjunto da Monster Energy/Can-Am, Currie/Berriman, foi quem venceu: 5h44 de vantagem para os brasileiros.

O trabalho em equipe no Dakar
Marian Chytka

O NOVO SOLO

Uma vez que distância e os custos da viagem para a Arábia Saudita eram problemáticos, a preparação foi distinta do habitual. Houve quem fosse ao Catar ou Emirados Árabes para andar e tentar entender as dunas. Para Varela, a preparação foi a Copa do Mundo de Rali Cross-Country. Foram campeões da competição, inclusive, em outubro passado. Mesmo com a experiência, algo se apresentou como enorme surpresa: as pedras.

"Eu corri o Mundial, nós fomos campeões, e as etapas foram Catar, Dubai, então imaginávamos mais ou menos o que poderia vir. Só não imaginávamos que teria tantas pedras como tinha, então teve muita quebra, muito furo de pneu, isso ninguém esperava. Foi fora do normal. Para o ano que vem, estamos preparados de uma maneira diferente para lidar com o rali. Não tem muita coisa para fazer diferente, porque pneu e pedra não conversam mesmo, não se dão bem. Vamos ver como preparar melhor para superar tudo isso”, confirmou.

Na comparação entre os terrenos sul-americanos e sauditas, enorme diferença. "É completamente diferente, os terrenos de lá são completamente diferentes do que temos aqui. São as dunas e muitas pedras, coisas que não temos aqui. Na América do Sul não temos muita pedra e nem duna. Junto de tudo isso, a dificuldade do Dakar, né? É sempre muito grande.

"Aqui do lado tudo é mais fácil, é bem mais tranquilo. Lá fora não é assim - e agora vai ser só lá. Mas, como vou fazer o Mundial de Baja, então vamos pegando cada vez mais experiência.

AVALIAÇÃO E STATUS

No fim das contas, a avaliação geral sobre a participação em 2020 foi positiva. Mesmo começando da pior forma possível, Varela e Gugelmin conseguiram escalar o pelotão e terminar na nona colocação geral entre quase 50 competidores – e com vitórias em especiais.

"Foi uma participação boa! Eu já terminei o Dakar cinco vezes, então já é uma boa coisa. Foi um belo resultado conseguir terminar, no fim das contas, e em nono ainda, porque tinha 47 participantes”, destacou.

Maiores vencedores dos UTVs, Varela e Gugelmin passaram a ser um daqueles conjuntos que entram em todo Dakar como favoritos automáticos. O piloto concorda que, hoje em dia, demanda mais respeito dos adversários de Dakar.

"Sim, sim. Sabemos nosso potencial, o potencial da equipe, e os competidores sabem disso também. Nós [nos UTVs], nos carros o [Stéphane] Peterhansel, o Nasser [Al-Attiyah], o Carlos Sainz, esses daí são os que precisam ser batidos. E nosso nome sempre está lá no meio”, reafirmou.

Um Dakar é um Dakar
Marian Chytka

A SEQUÊNCIA

Após o Dakar, não há descanso. Varela e Gugelmin param por uma semana e viajam já na semana que vem para a Rússia. Lá, em São Petersburgo, em meio a apenas neve, começam uma próxima etapa: o Mundial de Rali Baja. Se a etapa russa acontece entre os dias 6 e 9 de fevereiro, Emirados Árabes Unidos, Itália, Espanha, Hungria, Polônia, Jordânia e Portugal recebem as etapas seguintes até o fim de outubro.

"Daqui a uma semana nós estamos na Rússia. No dia 7/2 já estamos na neve, 100% neve. É bem diferente, já fui segundo lá de carro, nunca tinha andado. Agora vamos tentar fazer uma boa participação e começar o campeonato com pé direito", comentou.

O objetivo, claro, é lutar pelas primeiras posições. "Temos uma expectativa boa, porque somos uma dupla bem entrosada, Gustavo e eu, temos um bom carro e tudo para buscar um bom resultado", finalizou.