‘The Bullet’

Brad Baker ganhou o noticiário esportivo mundial em 2013 ao desafiar ― e vencer ― Marc Márquez em um evento de flat-track. Quase seis anos depois, o norte-americano enfrenta sua mais dura batalha: a recuperação depois de uma lesão na medula espinhal

Juliana Tesser, de São Paulo

Ele tem 26 anos e conquistou o topo de sua modalidade com a marca da precocidade. Nascido em Dryad, em Washington, nos Estados Unidos, Brad Baker ganhou as páginas do noticiário esportivo mundial em 2013, quando surgiu como desafiante de Marc Márquez em um evento de flat-track. 

Na época, antes mesmo de conquistar seu primeiro título no Mundial, Márquez convenceu uma promotora esportiva a recriar o Superprestigio, um evento de flat-track, modalidade tipicamente norte-americana, para ocupá-lo durante o período de férias do Mundial. Inicialmente, a ideia era separar os pilotos em grupos, com os ‘dirt-trackers’ participando apenas de um programa de apoio. 

O #93, então, convenceu os organizadores a realizarem uma Super Final, onde os melhores entre os competidores das duas modalidades se enfrentariam. A promotora, então, convidou pilotos europeus de dirt-track, mas o jornalista Mark Gardiner conseguiu a atenção de Marc ao questionar se os pilotos da MotoGP estavam com medo de enfrentar os ‘nativos’ do flat-track no evento em Palau Sant Jordi, em Barcelona. 

Gardiner desafiou Márquez a chamar Baker, então recém-coroado campeão nacional da modalidade. E o piloto da Honda, claro, não fugiu do desafio. 

Na pista oval de argila compactada, onde os pilotos podiam usar motos 4 tempos de 250cc de enduro, motocross ou supermotard, os competidores foram, então, divididos em três categorias: Superprestigio, que reunia pilotos de motovelocidade; Open, com pilotos de dirt-track; e Junior, com pilotos de até 18 anos.

Depois de etapas eliminatórias curtas e da fase de repescagem, os oito melhores foram levados à final. No caso da Superprestigio, o vencedor foi Márquez, que fechou a bateria à frente de Tito Rabat, Kenny Noyes, Aleix Espargaró e Lorenzo Baldassarri. Na Open, ‘The Bullet’ reinou absoluto, vencendo todas as baterias. O campeão norte-americano completou a disputa à frente de José Pedro Gomez, Merle Scherb, Dani Ribalta e Tom Neave.

A última prova do dia foi a Superfinal, que reuniu os quatro melhores da Superprestigio e da Open. Márquez bem que tentou, mas foi Baker quem deixou Palau Sant Jordi vitorioso.

Os dois voltaram a se enfrentar outras três vezes, com mais uma vitória de Baker e duas de Márquez. Além de encarar o espanhol de Cervera, Brad também teve a chance, em 2016, de ir para a pista ao lado de Valentino Rossi, já que foi chamado ao Rancho VR46.

No ano passado, no entanto, a vida mudou radicalmente para Baker. Em 22 de julho, o norte-americano sofreu uma queda durante um treino classificatório para a etapa de Minneapolis dos X-Games. O então piloto da Indian sofreu fraturas nas vértebras T6, T7 e T8 e ficou paralisado. Brad ainda não sabe se voltará a andar, mas segue em tratamento para melhorar sua qualidade de vida e tentar recuperar a mobilidade.

Baker ganhou o noticiário mundial ao enfrentar Marc Márquez
(Foto: Xavi Bonilla)

Nesta nova fase, Baker conversou com o GRANDE PREMIUM, relembrou a carreira e o contato com os astros da MotoGP e relatou os desafios para se adaptar à vida em uma cadeira de rodas.

“Foi meu pai que me envolveu com as corridas de moto”, conta Baker. “Ele comprou a minha primeira moto, uma PW50, quando eu tinha cinco anos. Passei os primeiros meses pilotando pela casa no estado de Washington até que ele me levou para a minha primeira corrida, que foi uma corrida de flat-track”, segue.

“Como amador, eu corri de supermoto e em circuito, mas eu sempre soube que flat-track é o que eu queria para a minha carreira”, relata.

Antes mesmo de Márquez e Rossi, um outro astro da MotoGP cruzou o caminho do #6. E teve papel decisivo em sua carreira.

“Foi em 2002 que eu soube que queria ser um piloto profissional. Todo ano, nós viajamos para o campeonato nacional amador do AMA em Springfield, Illinois. Foi a primeira vez que eu assisti a corrida do Campeonato Nacional, onde vi Nicky Hayden vencer. Soube naquela noite que ser um piloto profissional era o que eu queria”, recorda.

Muito embora seja hoje uma categoria mais popular, especialmente por ser utilizada por pilotos da MotoGP como forma de treino, o flat-track tem um DNA tipicamente norte-americano.

“Flat-track é, definitivamente, o mais popular nos Estados Unidos. Acho que o que o torna tão americano é o fato de ter nascido das duas maiores fábricas de motocicletas dos Estados Unidos, a Indian Motorcycle e a Harley Davidson no início dos anos 1990. Flat-track é uma herança nos Estados Unidos”, resume Baker ao GP*.

O contato com eventos internacionais, no entanto, criou não só algumas amizades, mas também ajudou na popularização do esporte.

“Eu tive sorte de competir em alguns eventos internacionais, como o Superperstigio, em Barcelona, na Espanha, onde competi com alguns atletas top de outras modalidades, como o campeão da MotoGP Marc Márquez. Foi uma experiência que eu jamais vou esquecer!”, conta Baker. “Poder dizer que eu bati uma lenda como Márquez é uma conquista especial”, ressalta. 

“Entretanto, o que é mais importante para mim é que eu pude fazer muitas amizades incríveis que vão durar a vida toda e que eu ajudei tremendamente o crescimento do flat-track”, considera.

O contato com Rossi foi igualmente impactante, especialmente por se tratar de um piloto que Baker vê como um “herói”.

“Em 2016, eu visitei e pilotei no Rancho VR46. Foi mais uma experiência incrível que eu jamais vou esquecer”, conta. “Na semana antes de eu ir pilotar no circuito, Nicky Hayden me deu alguns conselhos de como rodar no circuito suave e rápido. Isso por si só já é uma coisa muito especial para mim!”, lembra. 

“Valentino Rossi é um dos meus heróis, então poder pilotar com ele e com o resto da equipe da VR46 foi incrível”, declara. “Eu fiz o quarto melhor tempo no circuito maior, não muito longe dos tempos de Luca Marini, Franco Morbidelli e Valentino, que ficaram na minha frente. Depois, teve a corrida ‘Americana’, que tinha um circuito em um layout mais familiar ao que usamos aqui nos Estados Unidos. Tive ótimas batalhas com Vale nas corridas classificatórias e na superfinal. Consegui passá-lo e vencê-lo na semifinal, mas cometi alguns erros na superfinal e terminei em segundo, bem perto atrás dele. Valentino e toda a equipe da VR46 ficaram muito impressionados com a minha pilotagem, então, com certeza, foi um momento de muito orgulho”.

Tal qual Márquez, Baker teve a carreira marcada pela precocidade
(Foto: Reprodução)

O contato entre esses dois mundos acabou impactando ambas as modalidades, criando um intercâmbio ainda maior. 

“Acho que o Superprestigio e Rancho VR46 tiveram um impacto enorme na popularidade do esporte ao redor do mundo. Agora existem campeonatos de flat-track em muitos países da Europa com pilotos e equipes com alto nível de profissionalismo”, avalia Brad. “Nos Estados Unidos, ajudou a trazer mais patrocínio corporativo ao esporte e mais atletas de ponta de outras disciplinas, como o supercross, estão usando o flat-track como treino, como fazem Márquez e Rossi. E isso, por outro lado, trouxe uma base de fãs maior para o esporte”, aponta.

Apesar do crescimento, o esporte segue reservando suas diferenças nos diferentes continentes.

“Depois de ir aos eventos na Europa, existe, definitivamente, uma grande diferença em relação ao esporte aqui nos Estados Unidos”, compara ‘The Bullet’. “As corridas da Europa são feitas em um ritmo mais rápido, então tem menos tempo de inatividade entre as corridas, o que é muito melhor para os fãs. Os fãs europeus parecem ter mais entusiasmo pelo esporte, então a atmosfera é mais elétrica e energética do que na América”, continua.

Tal qual Márquez, Baker teve a carreira no flat-track marcada pela precocidade, já que foi campeão nacional aos 20 anos.

“Vencer o Campeonato Americano de Flat-track em 2013 foi a maior conquista da minha carreira. Eu sabia que tinha o talento e a determinação para vencer o campeonato com pouca idade, mas não esperava que fosse assim cedo”, admite. “Eu conquistei quase tudo que tem para conquistar no flat-track muito jovem. Tive muita sorte de poder fazer isso”, reconhece o norte-americano, que tem a pista de Indianápolis como a favorita.

“Com certeza tem algumas milhas famosas, e a Milha de Springfield é a mais famosa delas. A minha favorita no Campeonato Nacional é a Milha de Indy, a mesma pista onde Kenny Roberts venceu com a insana TZ 750”, aponta. “É muito divertida de pilotar, pois tem uma superfície ampla que cria várias linhas. A minha vitória lá em 2015 é a favorita da minha carreira”, relata.

Além do campeonato nacional, Baker também se aventurou nos X-Games, uma competição de características diferentes, especialmente por conta da transmissão televisiva.

“Eu competi quarto vezes nos X-Games, incluindo a corrida do ano passado, onde me machuquei. É bem diferente do campeonato nacional, especialmente porque tudo acontece dentro de uma linha do tempo, já que é em TV ao vivo. Portanto, às vezes você não tem muito ou qualquer tempo para fazer ajustes na sua moto antes de voltar para a pista”, explica. “Exceto por algumas dificuldades com o cronograma do evento e a preparação, é muito legal poder mostrar o flat-track ao lado de outros esportes extremos”, considera.

Questionado pelo GRANDE PREMIUM sobre o que se lembra do acidente que o colocou em uma cadeira de rodas, o jovem de 26 anos faz um relato claro.

“Infelizmente eu sofri um acidente no ano passado que encerrou a minha carreira e mudou a minha vida. Eu me lembro de tudo sobre aquele dia e sobre o acidente como se fosse ontem”, afirma. “Eu estava saindo da curva 2 na última sessão de classificação quando a roda traseira patinou e saiu muito rápido. Quando isso aconteceu, o pneu traseiro pegou um sulco/uma ondulação na pista, o que fez a moto pegar tração e fazer um wheelie de forma muito abrupta. Não tive escolha a não ser acionar o freio traseiro para baixar a frente e evitar atingir o piloto que estava na minha frente. Isso irritou bastante a moto, o que fez com que ela me arremessasse por cima do guidão”, detalha. 

“Não foi uma queda muito forte, eu só caí na posição errada e a minha espinha não aguentou a força. Foi a coisa mais assustadora que eu já passei na minha vida acordar depois de apagar na queda e não poder sentir nada do peito para baixo”, desabafa. 

Por se tratar de uma lesão na medula espinhal, a recuperação ainda é incerta e depende também dos avanços da medicina.

“O prognóstico de longo prazo é desconhecido. Isso que é tão ruim em lesões da medula espinhal. Cada lesão é diferente e não sabem o que vai acontecer com você, se é que vai, e quando isso vai acontecer”, diz Baker. “Felizmente, nós vivemos em uma era onde as novas tecnologias e a medicina avançam muito rapidamente. Não é uma questão de se os médicos e cientistas vão encontrar uma cura para lesão de medula espinhal, mas de quando”, sublinha.

Baker entende que correr na Europa ajudou na popularização do esporte
(Foto: Reprodução)

Perguntado pelo GP* sobre o processo de recuperação, Baker conta que teve de aprender a ser paciente.

“Minha recuperação está indo bem. Ainda estou fazendo progressos, mas é muito lento. Uma lesão como esta realmente te ensina paciência, algo que a maioria dos pilotos não tem quando se trata da recuperação de uma lesão”, reconhece. “Tenho sorte, pois não rompi minha coluna espinhal, então ainda sinto cerca de 25% e tenho alguma ação muscular abaixo da minha lesão, mas é muito fraco e inconsistente. Meus médicos e terapeutas estão otimistas de que um dia eu voltarei a andar, mas não existe uma resposta para quando esse dia vai chegar”.

Em um esporte arriscado como são todos os motorizados, não foi difícil encontrar alguém para compartilhar a experiência.

“Infelizmente existem muitos outros atletas do esporte a motor que sofreram lesões similares à minha ao longo dos anos. O primeiro a entrar em contato comigo foi meu amigo e campeão das 500cc, Wayne Rainey”, revela. “Na verdade, Wayne ficou paralisado no ano em que eu nasci, então ele sabe tudo sobre viver com uma lesão na medula espinhal. O que Wayne fez desde que ficou paralisado é incrível! Ele me mostrou que a vida ainda pode ser ótima e que eu ainda posso ser bem sucedido mesmo que você esteja confinado a uma cadeira de todas para o resto da vida”, explica.

Nessa fase de recuperação, sobrou pouco tempo para Baker passar com a namorada Kelcey.

“Durante a minha recuperação, meu cronograma ainda é tão cheio quanto antes. Durante os dias de semana, eu acordo e me apronto como todo mundo, mas leva mais tempo agora. Eu dirijo até a terapia de terça a quinta-feira, o que dura, pelo menos, três horas por sessão. Eu normalmente também faço uma hora de terapia em casa alguns dias da semana também”, aponta. “No resto do tempo, eu estou trabalhando como fazia antes, criando oportunidades para mim ou ajudando Kelcey na casa. Vou para todas as 18 corridas do Americano de Flat-track neste ano, então nos fins de semana de corrida a minha namorada Kelcey e eu viajamos na sexta, a corrida é no sábado e no domingo nós voltamos para casa. Não houve realmente muito tempo para Kelcey e eu desde a minha lesão”, segue.

Apesar dos muitos desafios desta nova fase, Brad reconhece que a falta da moto é a mais sentida. Assim, o piloto agora considera uma mudança para as quatro rodas.

“Claro, praticamente tudo é diferente na minha vida agora. Eu tive de aprender a me adaptar a coisas novas para viver de maneira independente”, declara. “A coisa mais difícil que ainda estou tentando superar é lidar com a perda da minha coisa favorita para fazer, que é correr de moto. Eu sinto falta de tudo”, desabafa. 

“Estou trabalhando para me envolver com corridas em quatro rodas para substituir as corridas de moto. Acho que ter competição e adrenalina de volta à minha vida vai ajudar tremendamente”, avalia.

Os desafios, no entanto, não estão apenas relacionados à adaptação, mas são também financeiros. Desde o acidente, Baker conta com doações para poder financiar seu tratamento. Uma dessas iniciativas, aliás, vem da Road 2 Recovery, uma ONG que tem como objetivo fornecer apoio financeiro para atletas lesionados.

“Tenho sorte de a comunidade das corridas ser uma grande família e muitas boas pessoas fizeram doações generosas para apoiar a minha recuperação. Até aqui, as despesas que resultaram do meu acidente foram cobertas pelo dinheiro de doações”, comemora. “Eu tenho uma conta bancária separada só para o dinheiro de doação para a recuperação que tem cerca de US$ 80 mil (cerca de R$ 318,5 mil). Pode parecer muito dinheiro, mas só a terapia ambulatorial custa cerca de US$ 60 mil (em torno de R$ 239 mil) e não é coberta pelo seguro. Existe um procedimento chamado Estimulação Epidural que já ajudou a restaurar movimentos voluntários e funções autonômicas para pessoas com lesões medulares crônicas, e que eu gostaria de fazer em alguns meses e custa cerca de US$ 50 mil (aproximadamente R$ 199 mil). Existem outros equipamentos que eu gostaria de ter que aumentam a qualidade de vida e o conforto também, mas custa dinheiro. Eu estou há apenas dez meses em uma longa recuperação. Os fundos não vão durar para sempre, então se alguém ainda quiser doar, prometo que vou investi-lo em uma boa causa”, garante.

Mesmo com os desafios que tem pela frente, Baker não se afastou do esporte totalmente. Hoje, Brad é contratado da Indian para atuar como treinados e consultor técnico, além de atuar como comentarista.

“A Indian Motorcycle me contratou para ser treinador dos novos pilotos Briar e Bronson Bauman e um conselheiro técnico para o time como um todo. Está indo muito bem até aqui”, avalia. “Os dois pilotos estão indo muito bem, Briar de fato esteve no pódio em todas as etapas e lidera a pontuação”, indica. 

“Eu também estou comentando o Americano de Flat-track para os fãs nas arquibancadas e também assistindo pelo streaming no www.fanschoice.tv. Isso tem sido muito divertido e uma coisa nova para mim”, comenta. “Tive um ótimo feedback das pessoas dizendo que elas estão curtindo os comentários. É realmente bom que todos vejam um valor no meu passado pilotando motos e ainda estou envolvido com o esporte de uma maneira positiva”, encerra.

Baker também teve a chance de correr ao lado de Valentino Rossi
(Foto: Reprodução)