Transformação que sai com água

Palco recente de Fórmula E e Rali Dakar, a Arábia Saudita usa o esporte para tentar passar para o mundo uma imagem de país em transformação. Até aqui, porém, a mudança não passa de uma maquiagem com baixa fixação

Juliana Tesser, de São Paulo

A Arábia Saudita foi protagonista no esporte a motor entre a reta final de 2019 e os primeiros dias de 2020. Palco de Fórmula E e Rali Dakar, o maior país árabe do mundo aproveitou as duas categorias para exibir suas belas paisagens e poderio financeiro.

Mas não é só isso. Segunda maior reserva de petróleo do mundo, a Arábia Saudita tem os olhos postos na Fórmula 1 e ainda tenta cavar um espaço no calendário da principal categoria do automobilismo. 

O esporte a motor, porém, não é o único alvo da monarquia absolutista islâmica do rei Salman bin Abdul Aziz Al-Saud. Também na primeira metade de janeiro, a Arábia Saudita recebeu a Supercopa da Espanha, que terminou com a vitória do Atlético de Madrid em cima do Real Madrid.

Tudo isso faz parte do chamado ‘Visão 2030’, um plano apresentado em 2016 pelo príncipe Mohammed Bin Salman que tem como meta reduzir a dependência da Arábia Saudita do petróleo, diversificar a economia e desenvolver setores como saúde, educação, infraestrutura, recreação e turismo. 

Para isso, porém, a Arábia Saudita precisa mudar a imagem que tem no mundo. Um panorama que, por sinal, piorou em 2018, após a morte do jornalista Jamal Khashoggi ― torturado, assassinado e desmembrado em outubro do ano passado no consulado saudita em Istambul, na Turquia.

Num cenário como esse, o esporte serve como uma alternativa para mostrar uma outra Arábia Saudita. O Rali Dakar, por exemplo, transmitiu ao mundo imagens das belezas naturais do país. A Supercopa, por sua vez, mostrou homens e mulheres dentro de um mesmo estádio de futebol, algo bastante incomum na realidade saudita.

O problema, porém, é que essa transformação não parece ser assim tão efetiva. A Arábia Saudita ainda é uma ditadura, um dos países mais fechados do mundo e um lugar onde os direitos humanos e das mulheres são constantemente violados.

Fórmula E também realiza etapas na Arábia Saudita
(Foto: Fórmula E)

Raio-x da Arábia Saudita

 

O que diferencia a Arábia Saudita de outros países islâmicos está na interpretação do islamismo. Os sauditas seguem o wahabismo ― de fato, a origem desta vertente está atrelada à formação da própria Arábia Saudita ―, a forma mais rígida e conservadora do Islã. 

Conhecido popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas, o wahabismo é, também, o ‘pai ideológico’ do Estado Islâmico. A Arábia Saudita, inclusive, é acusada de ajudar voluntariamente a conseguir recrutas para o grupo terrorista.

Mestre em Ciência pela USP (Universidade de São Paulo) e doutorando em Geografia pela Unicamp (Universidade de Campinas), Edilson Adão Cândido da Silva explicou ao GRANDE PREMIUM que a “corrente wahabista diferencia bastante” a Arábia Saudita dos demais países islâmicos.

“A Arábia Saudita é uma ditadura monárquica teocrática, com forte peso do wahabismo. É o maior representante dessa vertente islâmica, que se pauta por forte conservadorismo dos valores do Islã e é a religião oficial do país”, aponta Edilson. “Realiza uma leitura literal dos tempos de Maomé, tenta aplicá-la aos dias atuais e persegue quem a contraria. Os xiitas, por exemplo, são duramente perseguidos, quando não, executados”, explica o pesquisador. 

“A origem dessa corrente reside no século XIX, quando do encontro de duas famílias importantes (Wahab e Saud). Ali nasceu uma aliança indissociável entre os patriarcas dos dois clãs tribais. O ápice se deu nos anos 20 do século passado com a fundação da Arábia dos Saud, ou Arábia Saudita, pelo patriarca, Abdul Aziz ibn Saud, pai do rei atual. O salafismo wahabita dita a conduta comportamental da sociedade por lá”, detalha. 

Autor de ‘Oriente Médio: a gênese das fronteiras’ e coautor de ‘Geografia em Rede’, Silva acredita que a Arábia Saudita vai manter sua importância ainda por um longo período de tempo.

“[É] uma potência regional aliada dos Estados Unidos e peça imprescindível no tabuleiro de xadrez geopolítico do Oriente Médio”, fala. “As riquezas petrolíferas do país (atualmente a segunda maior reserva, mas com qualidade do óleo bem superior às venezuelanas, que detém o primeiro lugar) comporão, ainda, por muitas décadas a importância energética mundial, já que o petróleo terá vida longa”, segue. 

“É um país rico e a pobreza não é um grande dilema, mas, sim, a falta de liberdade e dos direitos civis”, ressalta.

A relação com os Estados Unidos, aliás, vem de longa data.

“A Arábia Saudita é um país muito rico por conta dos petrodólares. Não podemos nos esquecer também que é o principal aliado muçulmano do ocidente e uma plataforma anti-Irã na região ― o país persa é aliado da Rússia. Aliada dos Estados Unidos desde os anos 1930, posteriormente, por meio do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo), a Arábia Saudita tornou-se o país mais pró-Washington do Golfo Pérsico”, relata Edilson. “Também é grande compradora da indústria bélica norte-americana”, indica. 

Num cenário como este, não é surpresa que a Arábia Saudita se interesse por esportes que movimentam grandes somas.

“A aproximação por meio desses esportes, que movimentam bilhões de dólares, está indissociavelmente ligada ao espectro geopolítico regional”, opina. “E há uma forte divisão na família saudita composta por mais de sete mil príncipes. O atual príncipe herdeiro tenta vender ao mundo uma questionável ideia de modernidade do regime para se fortalecer perante aos rivais internos”, detalha.

Questionado pelo GP* sobre a situação dos direitos humanos e da opressão às mulheres, o doutorando da Unicamp responde: “As críticas [são] para lá de pertinentes e eu diria menos até do que deveria se compararmos às atrocidades que o país prática”. 

“Durantes anos, vimos a mídia ocidental demonizando o Irã ― que também tem seus problemas ― e tecendo críticas bem mais suaves em relação à monarquia petrolífera”, recorda. “As leis em relação às mulheres são as mais retrógradas possíveis, excluindo-as de muitas atividades, como a participação política. Bem diferente do que ocorre no Irã ou entre os palestinos, onde as mulheres têm forte participação”, compara. 

“O cotidiano da mulher no país é marcado pela submissão aos homens, a quem devem pedir permissão para uma série de iniciativas, como viajar ao exterior, por exemplo. Só recentemente foram autorizadas a dirigir. As reformas para amenizar esse quadro têm sido bem tímidas”, opina. “Quanto aos direitos humanos, é um dos países que mais os desrespeitam e os ativistas são duramente reprimidos, além de ser um dos países que mais pratica a pena de morte. Quando não, simplesmente o reino pratica a execução sumária, como foi o caso do jornalista saudita Jamal Khashoggi, executado na embaixada saudita da Turquia”, cita. 

“Não precisa ir longe: o Estado Islâmico, provavelmente o grupo mais repugnante e truculento que surgiu nos últimos anos, não obteria sucesso não fosse o apoio velado da Arábia Saudita de suas ações na Síria, regime de quem é inimiga”, sublinha.

Ainda, o pesquisador vê uma “mínima” mudança cultural na Arábia Saudita com as reformas recentes. 

“A Arábia Saudita está atrasada em quase um século quanto a essas questões”, insiste.

Mostrar a beleza natural da Arábia Saudita é uma maneira de ofuscar a realidade local
(Foto: ASO/DPPI)

Esporte como máquina de lavar

 

A presença dos esportes ocidentais no território saudita gerou muitas criticas por conta da tentativa do reino de usar essas competições como uma espécie de máquina de lavar. Há uma tentativa de mostrar uma imagem diferente daquela de país que mata opositores e estrangula direitos.

Às vésperas do início do Rali Dakar, a Repórteres Sem Fronteiras, uma ONG que defende a liberdade de expressão e de informação, emitiu uma nota pedindo que os envolvidos na disputa não servissem de propaganda e tampouco ajudassem a esconder a realidade saudita “menos atrativa”.

“A Repórteres Sem Fronteiras (RSF) pede que jornalistas, organizadores e participantes do Rali Dakar 2020, que começará na cidade saudita de Jedá no domingo (5 de janeiro), não sirvam de atores na operação de propaganda do regime saudita e, assim, desviem a atenção da outra realidade menos atraente da Arábia Saudita”, diz a nota. “A decisão de realizar o prestigioso Rali Dakar na Arábia Saudita pela primeira vez deu aos governantes do país uma oportunidade sem precedentes de recuperar sua imagem e fazer o mundo esquecer suas violações dos direitos humanos, incluindo a supressão sistemática da liberdade de imprensa”, segue.

“Os participantes e organizadores do Rali Dakar 2020, e os jornalistas que o cobrem, ficarão, inevitavelmente, deslumbrados com a beleza do deserto e as maravilhas arquitetônicas do reino. Mas a RSF pede que eles não permitam que o regime saudita explore sua presença em sua operação de propaganda. Eles não devem esquecer e nem ajudar os outros a esquecerem a natureza terrível de um regime baseado em repressão política, social e cultural, controle da imprensa, prisão de jornalistas e muitos outros abusos”, listou.

“Apesar do discurso sobre reforma e apesar da introdução de algumas reformas reais, Mohammad Bin Salman intensificou a repressão desde sua nomeação como príncipe herdeiro em 2017. Opositores políticos de todos os tipos e em todas as esferas estão sendo monitorados e perseguidos com uma intensidade sem precedentes”, denuncia. “O número de jornalistas e jornalistas-cidadãos detidos triplicou nos últimos dois anos. A maioria está sendo realizada arbitrariamente. Jornalistas podem ser demitidos ou detidos sob as disposições do código criminal ou sob as leis do terrorismo ou crime cibernético sob a acusação de blasfêmia, insulto à religião, incitação ao caos, comprometimento da unidade nacional ou ‘dano à imagem e reputação do rei e do Estado’”, indica o texto.

“Poucas pessoas vão esquecer o destino de Jamal Khashoggi, o conhecido jornalista que foi assassinado dentro do Consulado em Istambul, na Turquia, em outubro de 2018, e cujo corpo foi desmembrado para facilitar sua remoção”, lembra. “A Arábia Saudita está classificada na 172ª posição entre 180 países no ranking de 2019 da RSF no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa”.

Secretário-geral da RSF, Christophe Deloire completou: “As câmeras vão mostrar a inegável beleza do deserto saudita, mas não devem desviar a atenção das terríveis realidades do país. Este rali dará aos jornalistas uma oportunidade única de atravessar esse vasto país, que geralmente é difícil de acessar. Mas pedimos a eles que cubram a corrida sem esquecer que também é uma operação de relações públicas”, frisou. 

A Anistia Internacional também denuncia sistematicamente as violações da Arábia Saudita. E, em contato com o GRANDE PREMIUM, a pesquisadora Dana Ahmed também alerta para o aumento da repressão ao mesmo tempo em que os sauditas usam o esporte como ferramenta de propaganda.

“A Arábia Saudita intensificou seus esforços para usar o esporte como forma de melhorar a péssima reputação do país por causa das sérias violações dos direitos humanos de que é responsável ao receber grandes eventos esportivos. A Arábia Saudita tem um histórico terrível com direitos humanos, o que só deteriora mês após mês”, diz Ahmed. “Enquanto a organização de um evento de alto nível como o Rali Dakar está sendo manchete internacional, as autoridades aumentaram a repressão às liberdades de expressão, associação e reunião e continua a perseguir defensores dos direitos humanos por seu trabalho pacifico de exigir direitos humanos e promover reformas no país”, conta.

O fato de as mulheres terem sido recentemente autorizadas a dirigir foi comemorado por muitos, mas essa é uma ‘liberdade’ que também chega entre aspas.

“As reformas anunciadas no que diz respeito à redução de grandes restrições às mulheres são um passo significativo, embora muito atrasado, no direito das mulheres. Essas mudanças são um claro testemunho da campanha incansável de ativistas de diretos das mulheres que lutam contra a discriminação desenfreada na Arábia Saudita há décadas”, declara Ahmed. “Muitas dessas ativistas estão atualmente presas, em julgamento ou enfrentando proibições de viagens por seu ativismo pacifico. Várias ativistas dos direitos das mulheres detidas durante uma onda de prisões no ano passado sofreram tortura, abuso sexual e outras formas de maus-tratos durante os primeiros três meses de detenção. Elas foram presas incomunicáveis, sem acesso às suas famílias ou advogados”, conta.

“Várias ativistas enfrentam acusações relacionadas ao seu trabalho com direitos humanos, incluindo ‘promoção dos direitos da mulher’ e ‘apelo pelo fim do sistema de guarda masculina’. Três delas, Loujain al-Hathloul, Samar Badawi e Nassima al-Sada, seguem atrás das grades, enquanto outras foram soltas temporariamente, mas seguem sendo julgadas”, detalha. “A Anistia Internacional apela à libertação imediata e incondicional de todas as ativistas dos direitos das mulheres e defensores dos direitos humanos, detidos apenas por seu trabalho pacífico pelos direitos humanos. Também pedimos às autoridades que retirem todas as acusações contra ativistas dos direitos das mulheres”, completa.

Direito das mulheres é um dos temas sensíveis na Arábia Saudita
(Foto: DPPI/ASO)

O caso da Supercopa

 

Além do esporte a motor, o futebol também tem sido usado como plataforma para propagar essa imagem de uma nova Arábia Saudita. No início do ano, o país recebeu a disputa da Supercopa da Espanha e imagens de homens e mulheres num mesmo estádio de futebol correram o mundo. 

No entanto, a situação não é bem assim. Apenas três dias após o fim da Supercopa, as mulheres voltaram a ser segregadas dentro da arena.

Jornalista da emissora espanhola TVE, Raquel González esteve na Arábia Saudita para cobrir a competição e acabou experimentando em primeira mão essa misoginia na piscina do hotel. 

“Tínhamos ouvido falar que era um espaço reservado para os homens e quisemos comprovar em primeira pessoa”, conta Raquel ao GP*. “Nos aproximamos, perguntamos se eu podia nadar e me disseram, com um certo pudor, que não, que só os homens podiam. E isso porque não tinha ninguém, a piscina estava completamente vazia”, completa.

Questionada sobre as diferenças entre Arábia Saudita e Espanha, González respondeu: “A mais evidente é a vestimenta das mulheres. Há uma imensa maioria coberta com o niqab ou com véu e abaya (uma espécie de túnica que as cobre, apesar de estarem com jeans e camiseta por baixo). Além disso, quase todas as mulheres estão acompanhadas por um homem ou em grupo. É raro vê-las sozinhas”.

Ainda assim, Raquel não encontrou nenhuma restrição na hora de realizar seu trabalho na cobertura do evento futebolístico. 

“Trabalhei igual a muitos outros lugares lá. E não só no que diz respeito a Supercopa (coletivas de imprensa, treinamentos e partidas). Tampouco tive problemas para sair na rua, filmar e fazer perguntas”, explica.

Antes do Dakar, os envolvidos na competição receberam uma espécie de guia de boas maneiras, uma série de orientações para os dias em território sauditas. Entre as informações, estava o fato de que alguns restaurantes separam homens e mulheres. Os profissionais da Supercopa, porém, não tiveram orientação semelhante.

“Trabalhamos muitas horas e só comi em salas de imprensa e no restaurante do hotel, onde isso não acontece”, relata Raquel. “Em relação a falar com os homens, conversei com muitos nesses dias sem problemas. Encontrei gente muito amável e disposta a nos contar coisas”, diz.

Perguntada pelo GRANDE PREMIUM se se sentia segura em um país com um histórico tão grande de violações aos diretos humanos, a espanhola respondeu: “Não é exatamente uma sensação de insegurança, mas é certo que fui a todos os lugares acompanhada da minha equipe, dos meus companheiros. Em qualquer outro lugar, é provável que eu tivesse dado um passeio sozinha”.

É, no entanto, incompreensível ― salvo pelo aspecto financeiro ― as motivações de levar uma competição de clubes espanhóis ao Oriente Médio. 

“O debate está na mesa e têm argumentos em todos os sentidos. Só o tempo vai dizer exatamente para que serviu essa Supercopa aqui na Arábia”, conclui Raquel.

A Supercopa da Espanha aconteceu na Arábia Saudita em 2020
(Foto: Real Madrid/Facebook)

Espiando pela fresta

 

Embora polêmica, a presença da Fórmula E permitiu que jornalistas tivessem uma chance única de conhecer a Arábia Saudita. E um grupo de brasileiros não deixou passar essa oportunidade em 2018. 

Ao lado de Felipe UFO, Michel Coeli e Rodrigo Cebrian, André Fran aproveitou a ‘abertura extra’ por causa da série elétrica para gravar um episódio da série ‘Que Mundo É Esse?’, exibida na GloboNews.

Em entrevista ao GRANDE PREMIUM, André falou da primeira experiência na Arábia Saudita e dos 20 dias que passou entre a capital Riad e Jedá.

“Antes da Fórmula E, a gente ainda não tinha tido a oportunidade. Justamente, a gente usou essa brecha da Fórmula E para entrar lá e filmar, pois eles estavam emitindo vistos especiais para quem quisesse assistir à corrida”, explica André. “Então, como a proposta do programa é essa, a gente preencheu, comprou os ingressos para a Fórmula E, e aí você ganhava um visto de 20 ou 30 dias, se não me engano. E a gente aproveitou os outros dias para viajar pelo país”, conta.

Acostumado a rodar o mundo na busca de pautas desconhecidas e grandes temas atuais, Fran aponta é a leitura radical que a Arábia Saudita faz do islamismo que a diferencia de outros países muçulmanos.

“A diferença da Arábia Saudita para outros países muçulmanos é, basicamente, que eles seguem a vertente mais radical do islamismo, que é o Wahabismo, que é a mesma dos grupos terroristas como Al Qaeda, o próprio Estado Islâmico. Então é uma ditadura bem mais sanguinária, tanto que o MBS [a sigla para Mohammed Bin Salman], o príncipe, foi acusado de assassinar o jornalista Jamal Khashoggi, tem pena de morte para homossexuais, execuções por decapitação na praça pública, além do tratamento das mulheres”, segue. “Foi o último país do mundo a permitir que as mulheres dirigissem carros, que elas viajem sozinhas, então é bem mais radical do que outros”, ressalta. 

“Não que tenham outros países muçulmanos que não sejam radicais, mas a Arábia Saudita, realmente, é um ponto fora da curva”, comenta. “Mas tem países islâmicos que são abertos também, que você tem uma certa dose de liberdade para circular, para as mulheres e tudo mais. Então é difícil categorizar todos como uma coisa só, mas, em relação a Arábia Saudita, sim, eles são os mais radicais enquanto um reino oficial, um governo oficial aplicando as leis da sharia”, continua.

Ainda, André conta que o conservadorismo da população também foi um obstáculo durante os dias de trabalho na Arábia. 

“A nossa maior dificuldade para fazer o nosso trabalho era que não só o governo, um governo bastante opressor, mas isso a gente já viu em outras situações, quando a gente tinha que filmar mais escondido, não podia revelar exatamente o que a gente estava fazendo e ter maior cuidado para entrevistar as pessoas na população para não expô-las a algum risco, mas, no caso, a dificuldade maior é que a própria sociedade é muito ultraconservadora, wahabista, na Arábia Saudita, então eles concordam muito com a forma com que o governo aplica as leis, então eles mesmos não querem expor muito, ou criticar, ou fazer maiores avaliações do país deles para o mundo exterior”, explica.

Com a chance de ver a Arábia Saudita em primeira pessoa, André identifica claramente esse empenho do reino para transmitir uma imagem diferente ao mundo. 

“Eu percebi bastante esse esforço do governo saudita de tentar passar esse verniz de normalidade com interesses econômicos. Faz parte dessa ‘Vision 2030’ deles de tentar ser menos dependente do petróleo e, assim, se abrir para outros mercados, fazendo vários eventos, como a corrida de Fórmula E”, fala. “E você via por lá cinemas sendo reabertos, a questão das mulheres podendo ir ao show, mas você vê que é só mesmo uma camada para mostrar para o mundo exterior, enquanto nas atitudes mais, da realidade mesmo, do dia-a-dia do país, eles continuam sendo um governo extremamente autoritário religioso”, sublinha.

A questão da mulher é dos pontos mais criticados na Arábia Saudita. E, sendo assim, foi também um choque para os brasileiros, acostumados com uma cultura diferente. 

“Foi bem impactante ver a forma como a mulher é tratada na Arábia Saudita, primeiro por elas ― pelos menos as que a gente teve acesso ―, mas é muito essa impressão de que elas concordam com esse tipo de tratamento”, fala André ao GP. “É uma coisa mais da sociedade, da família, de não querer envergonhar o pai, então é meio que passado como cultural mesmo. E até por essa questão de você estar em um país rico, por mais que não tenha grandes heranças históricas, mas a gente frequentou shopping center como qualquer um do mundo ocidental, e hotéis e avenidas e praças, e essas mulheres andando cobertas de preto da cabeça até os pés, só o olho de fora. Ou seja, é diferente quando você vê num cenário mais de Oriente Médio, que você tem no seu imaginário, mas é diferente quando você vê num cenário em que você está acostumado a ver mulheres andando livres e vestindo e agindo como elas querem e você vê o mesmo cenário com mulheres vivendo dentro das normas de uma sociedade religiosa ultraconservadora islâmica”, compara.

Durante a viagem, o grupo brasileiro teve a chance de jantar com uma mulher saudita, um contato incomum, mas que serviu para dar uma ideia melhor da situação no país. 

“A oportunidade que a gente teve de jantar com essa nossa amiga, virou nossa amiga, era amiga de uma amiga minha, foi interessante para a gente ver, por um lado, confirmar como elas acham natural ou cultural essa forma de tratamento dentro da interpretação do wahabismo islâmico da Arábia Saudita e, ao mesmo tempo, ela ainda mantinha muitas dessas crenças, achava que aquilo lá era normal, não era nada de mais, e, ao mesmo tempo, era um pouco mais contestadora, por ter morado fora, por ser mais liberal, pelo próprio fato de ter topado ir jantar com estrangeiros sozinha”, relata. “Ela, mesmo sendo mais progressista, você via que ela ainda tinha dentro dela muito normalizado esse tipo de tratamento. O próprio fato dela não dirigir ou da mulher não poder dirigir, ela achava que não era nada demais, que elas tinham condição de ter motorista, então esse tipo de coisa ilustra bastante”, exemplifica.

Apesar do histórico de violações aos direitos humanos, o grupo brasileiro não chegou a se sentir ameaçado. 

“A gente não chegou a ter pela nossa segurança exatamente, até por conta de saber que eles estão querendo passar uma imagem mais aberta, entre muitas aspas, para o mundo exterior”, conta André. “Então o máximo que aconteceria seria uma deportação. Mas, sim, é um lugar que é extremamente fechado, que a gente o tempo todo sabia que estava registrando no limite do que era possível”, continua.

Além do esporte, André avalia que o reino saudita também se vale das redes sociais para tentar mostrar uma imagem mais positiva ao mundo. 

“Eu acho que o reino do Bin Salman está usando bastante os esportes e também a internet. Você vê muitos influencers viajando agora a convite para a Arábia Saudita, tirando fotos de lugares bonitos, mas sem contextualizar, sem colocar questões de respeito aos direitos humanos, ao direito das mulheres e tudo mais em questão”, recorda. “Ou seja, é realmente um perigo de passar, de ir mudando essa imagem pouco a pouco. E hoje em dia, o pouco a pouco é rápido pela velocidade da internet, da superficialidade da comunicação nas redes sociais, então é uma estratégia inteligente. Cabe a nós denunciarmos também o quanto ela tem de interesse por trás e como é a realidade dentro do reino”, alerta.

Perguntado se a visita mudou a imagem que tinha da Arábia Saudita, André respondeu: “Não acho que tenha mudado muito, não. É claro que é sempre diferente você ver estando no lugar, vivenciando, mas não mudou muito a minha opinião, não, porque até são coisas que são inegociáveis, né, como desrespeito aos direitos humanos, como eu falei. Talvez tenha me impressionado bastante essa questão de perceber que não há mesmo nenhuma voz dissonante, movimentos de contestar esse tipo de regime, que são aquelas notícias que a gente vê de meninas que fogem para outros países. Elas estão fugindo, às vezes, da família, da sociedade que compra aquela ideia como um todo, daquele conservadorismo, então isso talvez tenha me chocado mais, de ver que a sociedade também abraça esse tipo de regime. Com raras exceções, claro”.

Por fim, ao ser questionado sobre como resumiria o reino saudita, o jornalista retrucou: “Eu tenho um certo receio em resumir países, mas, no caso da Arábia Saudita, não é tão difícil, porque, realmente, era um povo no deserto, então, enquanto, por exemplo, no Irã, que é ali do lado e o maior antagonista deles por disputa por áreas de influência na região e no mundo, estava passando por diversos impérios ― persas, o primeiro, o segundo ― e várias invenções e inovações, eles eram um povo vagando no deserto. E aí vem a questão do wahabismo, uma referência de Meca e da religião islâmica, um centro dessa grande religião, eles adotam esse extremismo religioso, e, depois, o surgimento do petróleo, trazendo toda aquela riqueza e dando a eles essa voz mais ativa e essa posição de lidar com aliados e parceiros internacionais, mas sem ser muito contestado, então acho que é o extremismo religioso aliado à riqueza do petróleo. Talvez seja um bom resumo para a Arábia Saudita”.

Fórmula E serviu de porta para entrada de jornalistas brasileiros na Arábia Saudita
(Foto: Fórmula E)