Vontade de fazer história

Correr as 24 Horas de Le Mans é o sonho de muitos pilotos, entretanto, Charlie Martin quer ser a primeira pilota transgênero a disputar a famosa prova

Nathalia De Vivo, de São Paulo

Ambição, uma palavra simples e curta, mas com grande significado. E que pode descrever perfeitamente Charlie Martin, sua história – não só no esporte a motor, como também de vida, e tudo o que ainda almeja alcançar nos próximos anos de sua carreira.

Nascida em Leicester, no Reino Unido, a pilota de 38 anos não parece muito diferente de tantas companheiras que vão para a pista. Cheia de sonhos e objetivos, espera conseguir um dia poder disputar a icônica 24 Horas de Le Mans, principal corrida de Endurance do mundo.

Mas Charlie carrega em si a vontade de fazer história. Nascida como homem, nunca se identificou com seu sexo biológico e realizou a transição de gênero, hoje vive como verdadeiramente se enxerga e lutando para alcançar tudo o que almeja.

Para entender mais de suas batalhas, suas conquistas, medos e ambições, o GRANDE PREMIUM a entrevistou e encontrou uma personalidade inspiradora e empoderada.

Charlie ao lado de seu carro na Michelin Le Mans Cup
Divulgação

CONHECENDO CHARLIE

Apesar de a influência familiar ser marcante para o ingresso de crianças e jovens no esporte a motor, com Charlie foi diferente. Sem estímulos dos pais, Martin só pensou em entrar em um carro de corrida. “Não pensava até ser adolescente, talvez meus 19 anos. Um dos meus melhores amigos [Hamish] tinha um pai que corria, e estávamos acostumados a ir com ele para a pista nos finais de semana, eu amava. Hamish começou a correr quando tinha 19 anos e então pensei: ‘talvez possa fazer isso também’”, conta.

Mas uma vez apaixonada, decidiu que seria daquilo que viveria. Chegou a se formar na faculdade, mas o amor pelo barulho do motor e cheiro de gasolina falou mais alto. Foi quando comprou um carro em 2004 e o adaptou para participar das suas primeiras competições de ‘hillclimb’ [subida de montanha]. “Decidi que queria começar a competir no ano em que terminei minha faculdade [design gráfico]. Como todos os graduandos eu não tinha dinheiro”, fala.

“Tive um emprego de verão e poupei £ 1,500 (cerca de R$ 8.400 atualmente) com uma pequena ajuda de minha mãe, Greg [pai de Hamish] sabia de um cara que estava vendendo um Peugeot 205 que era perfeito, mas precisava de um pouco de trabalho. Comprei o carro e passei um ano aprendendo como reconstruí-lo para correr em 2004”, continua.

Depois disso, Martin já passou por diversas categorias. Em 2019, correu algumas provas da Michelin Le Mans Cup, mas a falta de patrocínios acabou obrigando-a a deixar a competição. Entretanto, a motivação segue em alta. Ainda, já disputou certames como Ginetta GT5 Challenge e no GT Inglês, além de ser a Embaixadora de Esportes da Sportswall, uma instituição de caridade britânica voltada para a comunidade LGBTQ+.

 

E toda a inspiração em sua carreira vem de onde? “De todos os lugares, sempre fui muito prática, então, apesar de não ter ideia de como construir um carro, estava determinada e sabia que poderia descobrir com um pouco de ajuda. Cresci querendo ser piloto de caça - Top Gun era meu filme favorito, e amava velocidade e aventura, mas desisti desse sonho já que era terrível em matemática e física. Eu me apaixonei pelo automobilismo e carros de corrida, para mim há algo muito incrível em estar em uma pista de corrida – o barulho e a sensação é diferente de qualquer outra, é um vício”, sublinha.

Mas Charlie enfrentou muitas batalhas sozinha, já que perdeu tanto seu pai quanto sua mãe ainda bastante jovem – aos 11 e aos 23 anos, respectivamente. “[Perder meus pais] Foi horrível, o que posso dizer?  Meu pai morreu quando tinha 11 anos, o que foi ruim o suficiente, mas minha mãe se tornou minha rocha, e quando ela também morreu de câncer isso me destruiu”, lamenta.

“Tinha apenas 23 anos e acho que nunca vai se tornar ok, você apenas aprende a viver como se sente e segue adiante. Às vezes olho para trás e me pergunto por que aconteceu isso comigo, mas então percebo que muitas pessoas têm de lidar com coisas muito piores, nasceram em zonas de guerra ou nunca tiveram a oportunidade de conhecer seus pais”, emenda.

 

Me sinto sortuda que tive muito apoio de amigos e família, mas mesmo assim foi a coisa mais apavorante que poderia imaginar
Charlie Martin

ASSUMINDO SEU VERDADEIRO EU

Transgênero, de acordo com o dicionário Aurélio, tem a definição de ‘indivíduo que não se identifica mentalmente com seu sexo de nascença: os transgêneros geralmente afirmam terem nascido no corpo errado’. Portanto, um homem ou mulher que se enxerga com outro gênero.

Charlie teve de encarar a situação desde nova. Mas na busca por sua felicidade e sua verdadeira identidade, decidiu enfrentar a jornada de transição de gênero, iniciada em 2012. Inclusive, chegou a pausar sua carreira para caminhar pela experiência. Dois anos mais tarde e até mesmo uma reconstrução fácil, nascia seu novo eu.

Apesar de bastante satisfeita em conseguir hoje viver como realmente se vê, todo o processo foi bastante complicado de encarar. “Foi difícil, me sinto sortuda que tive muito apoio de amigos e família, mas mesmo assim foi a coisa mais apavorante que poderia imaginar. Passei a maior parte da minha vida pensando sobre como seria, me preocupando, sonhando…”, conta.

“Foram tantas coisas também, animador e divertido, mas também muito difícil mentalmente. Isso me forçou a assumir riscos e regularmente me colocar em situações fora da minha zona de conforto, apenas para ser capaz de viver minha vida cotidiana”, continua.

Algo que ajuda a pilota a enfrentar todo o tipo de situação é cuidar muito bem de sua saúde mental, assunto cada vez ganhando mais relevância e importância no meio do esporte. “A vida me ensinou a ser emocionalmente forte acho, mas mesmo assim pode ser difícil. Coloco meu coração e minha alma em tudo o que faço e sempre tento ser o meu melhor e alcançar meus objetivos”, comenta.

“Então tenho a tendência de ser dura comigo mesma e esperar demais. Tento ser consciente, pratico meditação e tento aceitar e deixar ir as coisas que não posso mudar, ou que estão além do meu controle. 2019 foi um ano difícil e não tive um descanso desde o natal, então é importante tirar um tempo para relaxar e reconstruir minha força para as próximas semanas”, completa.

Ser uma pilota transgênero não é tão diferente quanto qualquer piloto cis. O medo chegou a assustá-la de primeira, mas logo viu que as pessoas a aceitavam do jeito que era. “Em muitos aspectos não é diferentes de ser um piloto cis, apenas faço o que amo da melhor maneira possível e não quero ou espero tratamento especial. Correr é um dos poucos esportes mistos, gosto do fato que todos competimos juntos e não há separação baseada no gênero”, pontua.

“De primeira fiquei preocupada sobre como as pessoas iriam reagir, foi assustador, mas agora sinto que a maior parte das pessoas sabe e não é uma grande questão. O ponto que quero que as pessoas entendam é que sentia que havia uma grande barreira que tinha que ultrapassar para estar no meu esporte, então é importante que use meu perfil para encorajar outras pessoas e mostrar que podemos viver autenticamente e sem medo”, destaca.

Mas, é claro, comentários negativos faz parte da vida de todos, especialmente sendo um esportista que está exposto para o mundo. Mas Martin diz saber lidar bem com aqueles mais maldosos. “Sou bastante durona, então não me impacta realmente, tento não ler os comentários ruins. As pessoas que os escrevem raramente se atrevem a dizer essas coisas na sua cara, mas online qualquer um pode ser abusivo, pois são anônimos e não há um troco sério”, sublinha.

“O fato é que muitas pessoas não são resilientes, a comunidade trans sofre uma quantidade inacreditável de abuso, tanto online quanto na vida real, causa danos enormes e apenas não deve ser tolerado”, emenda.

Charlie Martin
DSK Photograhy

O SONHO DAS 24 HORAS DE LE MANS

Correr em Le Mans não foi exatamente o sonho de infância de Charlie. Na verdade, ela mal conhecia a corrida antes de ir assistir in loco, há 19 anos. Depois disso, foi mais duas vezes ao conhecido circuito francês e decidiu ali que gostaria de fazer parte daquela corrida e ser a primeira transgênero a participar. “Fiquei sabendo da corrida perto do fim da adolescência e fui assistir a prova em 2001, 2002 e 2003 com meu irmão mais velho Alistair”, diz.

“Não sabia exatamente o que esperar da primeira vez, era uma corrida com muita chuva e perdi a conta de quantas vezes fiquei completamente molhada. Apenas me surpreendeu, nunca vi nada como aquilo, 250 mil pessoas em uma corrida que começa na quarta-feira e termina no domingo. Lembro que a cada corrida tinha talvez apenas uma mulher correndo [Vanina Ickx ou Milka Duno] e apenas sabia que queria correr lá, mas parecia com dizer que queria andar na lua, uma ideia maluca”, continua.

Como treinamento, o foco é não sair da pista. “É o caso de correr o máximo que posso a cada ano em níveis cada vez maiores, me provando e conseguindo bons resultados – no endurance você precisa ser confiável, rápido e consistente em todas as condições para ser um bom piloto. A parte física sempre foi uma parte importante de meu estilo de vida, amo correr, surfar e esquiar, e ir para a academia regularmente aliado a uma boa alimentação e preparação mental”, afirma.

“Para mim, o endurance é o maior teste porque precisa estar bem em todos os níveis. Precisa ser capaz de pilotar em condições diversas como de noite na chuva com carros que estão em diferentes velocidades com tráfego enquanto está alerta e focada. Também precisa trabalhar como equipe durante toda a corrida, todos exercem uma parte importante da estratégia de troca de pilotos, reabastecimento, trabalho no carro, etc.”

Se minha história puder inspirar outras pessoas a viver livremente e sem medo, então isso me faz feliz
Charlie Martin

O ESPORTE A MOTOR MAIS INCLUSIVO

Sendo uma pilota transgênero, Martin explica que faz muito pela comunidade LGBTQ, mostrando apoio e tentando usar sua voz para conseguir mudar a sociedade. “Uso minha plataforma para educar as pessoas, a exposição que crio me permite alcançar pessoas que talvez nunca tenha conhecido uma pessoa transgênero”, fala.

“Então é uma enorme oportunidade para fazer o bem e ajudar a aumentar a empatia, que é o que comanda as mudanças positivas na sociedade. Também comecei com muito pouco para estar onde estou, principalmente com o trabalho duro e acreditando em mim, então quero ajudar a encorajar outras pessoas a serem corajosas e viverem como realmente são”, continua.

A britânica de 38 anos ainda crê poder ser uma fonte de inspiração para trans e pilotas mundo afora. “Há muitos esportistas durante a história que inspiraram ponderosas mudanças na sociedade por se manifestarem e expressarem o que acreditam, às vezes encaram a adversidade – Muhammad Ali, Billy Jean King, Martina Navratilova, Colin Kaepernick e muitos, muitos mais”, sublinha.

“O esporte a motor é um dos esportes mais dominados por homens que existe, e sair como meu verdadeiro eu têm sido desafiador algumas vezes para dizer o mínimo, até desisti completamente em certo momento. Se minha história puder inspirar outras pessoas a viver livremente e sem medo, então isso me faz feliz, apenas quero ajudar as pessoas o máximo possível”, diz.

Charlie com os cadarços com as cores da bandeira LGBTQ+
Reprodução

Porém, estar na posição em que está acaba acarretando episódios de intolerância e preconceito, termos tão comuns no mundo em que vivemos, mesmo com tantas batalhas para acabar com casos dessas naturezas. “Sofri discriminação como resultado em seguir fiel a quem sou, alguns anos atrás não fui selecionada para o time nacional mesmo que tinha mais experiência específica do que qualquer outro piloto”, lamenta.

“Também fui alvo de abuso online, como comentários em artigos sobre mim, é apenas triste que algumas pessoas se sintam fortes para criticar como alguém vive sua vida, mesmo quando não os afeta… mas afasto isso, sou bastante forte emocionalmente e olho para o lado bom da imagem”, fala.

Para Martin, entretanto, o esporte pode caminhar para ser mais inclusivo com as pessoas da comunidade LGBTQ. “Acho que sendo ativamente mais acolhedor com a comunidade LGBTQ, fazendo coisas ousadas, visibilidade e mandando uma mensagem clara de que qualquer um é bem-vindo no esporte. Adoraria trabalhar com o esporte a motor inglês ou a FIA para ajudar a alcançar isso, acho que é uma grande oportunidade de fazer o bem, já que todos os esportes estão dando passos para fazer isso – então por que o esporte a motor tem que ser diferente?”, aponta.

 

SEGUINDO O SONHO

Olhando para trás, é possível ver os sucessos que a britânica já teve em sua vida. Em 2017, conseguiu um pódio em sua primeira corrida de resistência correndo no Circuito Bugatti, localizado dentro do complexo de La Sarthe, em Le Mans. No ano seguinte, no Ginetta GT5 Challenge, conseguiu três top-3 nas três primeiras etapas da temporada.

“É difícil dizer [qual o maior sucesso até o momento], houve alguns momentos incríveis nos últimos sete anos e que sou muito grata. Certamente a vez em que fui ao pódio em Le Mans em 2017 foi um dos de maior orgulho da minha vida, foi a primeira vez que corri de endurance e no Circuito Bugatti como oposição ao circuito complete usado na corrida das 24 horas, mas com certeza foi um ponto de virada para mim”, pontua.

“Penso da primeira vez que visitei Le Mans com 19 anos em 2001, debaixo da chuva e apenas começando a pensar que gostaria de correr um dia. Ainda estava firmemente no armário e muito assustada para confrontar meus sentimentos sobre gênero. Então pode imaginar que estar lá no pódio como a verdadeira eu foi uma das experiências mais incríveis da minha vida”, segue.

“Nunca pensei que chegaria tão longe e sabia que deveria tentar correr as 24 Horas de Le Mans um dia. Se consigo chegar tão longe, então qualquer coisa é possível – se acredita em você mesmo, já é metade da batalha vencida”, sublinhar.

Mas seus sonhos não se limitam apenas ao esporte a motor. “Um dos meus sonhos é voar em um avião de caça, é minha fantasia de infância. Talvez surfar uma onda muito grande um dia, ou um tubo, assisto muitos vídeos de surfe no Intagram e sempre tento imaginar como deve ser”, encerra. E alguém duvida que seja capaz?