X de Diogo

Aos 9 anos de idade, em 1992, Diogo Zucarelli já sabia que tinha talento e começava a ter resultados no kart, mas a torneira secou. Foi quando ele, numa tentativa desesperada tutelada por uma professora, buscou em Xuxa alguém que ajudasse sua carreira. O que torna essa história especial é que foi exatamente isso o que aconteceu

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

Imagine um piloto em seus primeiros passos no automobilismo e que não conta com grande suporte financeiro da família. Uma criança ainda, uma dezena de anos de idade e que vê o maior prazer da vida escapando por entre as mãos. As coisas vão mal até que uma estrela – estrela, não, Rainha – aparece para salvar o dia. É claro que a descrição é um pouco romantizada, mas em geral foi exatamente o que aconteceu com Diogo Zucarelli. Hoje ex-piloto profissional, Diogo teve uma ajuda mais que ilustre nos primórdios da carreira: a de Xuxa. Em entrevista ao GRANDE PREMIUM, Diogo conta a história que marcou época no esporte a motor brasileiro nos anos 1990.

Outras figuras próximas tiveram papel até mais preponderante na carreira de Diogo, que ainda hoje vive do kart, na Paraíba. Mas é natural que a participação da então inequívoca Rainha dos Baixinhos em sua carreira é um ponto fora da curva e peculiar ao extremo. Foi ela quem decidiu apoiá-lo e fez isso durante um período fundamental. Por isso, o jovem passou a ser chamado e conhecido como Xuxinha - claro que os cabelos loiros não atrapalharam no apelido. Décadas depois, a história se tornou um cult do automobilismo brasileiro.

Aos 9 anos de idade, o jovem de Registro, então morando em São Paulo, estava aprendendo. Quem o via, notava futuro. "Eu comecei andando a cavalo, por incrível que pareça. Era um moleque arteiro, metido a corajoso, mas tomei um tombo e minha mãe proibiu os cavalos", contou. "Como eu já tinha visto meu pai andar de kart, pedi para ganhar um daqueles e fui para a escola [de pilotagem] do [Mário] Keko Pati”, recordou.

“Quando eu terminei o curso, o Keko falou que eu era atrevido, tinha futuro e que se me dessem corda eu podia começar a brincar. Na semana seguinte, me colocaram para andar o Campeonato Paulista. Cheguei lá sem saber fazer tomada de tempo, largar, todo nervoso. E foi assim que eu comecei", contou ao GP*

O começo da carreira era promissor. Diogo fazia parte de um grupo que o futuro tratou de mostrar o quão talentoso era. Felipe Massa, João Paulo de Oliveira, Thiago Medeiros e Rafa Mattos eram alguns dos que dividiam a pista na mesma ideia. Um ano mais velhos, Antonio Pizzonia e Júlio Campos.

"Comecei a andar na classe Cadete. O Júlio Campos, que era mais velho, já ganhava corridas. O Bruno Valente também estava nessa, muito gente boa. Era difícil, porque eles já estavam em outro nível. Eu fui gradativamente pegando a mão, acelerando e começando a competir. Melhorei e comecei a ganhar corrida mesmo quando me mudei para a [classe] Júnior Menor, que peguei um 125cc, kart de verdade. Mas minha geração era muito difícil, só fera.”

“Comecei a ganhar corridas e me destacar, vi que levava jeito e tal. Mas era difícil, tinha outro formato de corrida: sexta-feira tinha o último treino livre, no sábado um warm-up e depois uma tomada de tempo, que era sorteada. Uma volta de aquecimento e uma volta lançada... Se chovesse no seu momento ou antes, atrapalhava. Era uma loteria. Até por isso cobrava profissionalismo, o formato era profissional, até parecido ao da F1.”

Diogo começou a perceber alguns incômodos em casa. O kart, afinal, era um esporte caro e requeria certa atenção financeira especial dos pais do jovem piloto, que também tinha irmãos com outros desejos e sonhos. A situação financeira era insustentável para começar um segundo campeonato.  “Eu senti neles que aquilo estava passando da conta e virando um empecilho financeiro.”

Eis que surgiu uma ideia: a figura mais famosa da televisão brasileira talvez pudesse ajudar o jovem.

Diogo Zucarelli no kart #15
Arquivo

“Tive a ideia, junto com uma professora minha, de mandar uma carta [para a Xuxa] dizendo que eu já subia no pódio e ganhava corridas, porém pesava demais para meu pai, o esporte estava muito caro e eu não tinha condições de continuar, mas que era meu sonho e tal”, relatou. A intenção era descolar uma ajuda. Um sonho, claro, mas um sonho no correio e pronto para cruzar a Via Dutra em busca de um pequeno milagre.

Alguns dias depois, o milagre voltou galopando.

“Recebemos uma ligação. Na verdade meu pai e minha mãe receberam, no escritório. Era uma mulher chamada Vivian Perl, roteirista e editora do programa da Xuxa. A Vivian falou que tinha visto a carta entre as correspondências e queria conversar comigo. Como eu não tinha contado para ninguém além da minha professora [sobre a tentativa], ela achou estranho”, disse.

“Voltei do colégio na hora do almoço, e minha mãe falou que ia ligar uma pessoa assim e assado. Perguntou se eu tinha mandado uma carta para a Xuxa. Aí eu gelei, o coração foi a mil. Não pode ser”.

Mas era.

“A Vivian me ligou e disse que tinha gostado muito da carta. A Marlene [Mattos, diretora do programa] também gostou, e elas queriam levar para a Xuxa ler”, contou. Antes, porém, algumas perguntas para a confirmação de que não se tratava de um plano fora da curva traçado por adultos com uma criança de laranja.

“Você que escreveu?”, perguntou Perl.

“Sim, eu que escrevi.”

“Ideia sua?”, voltou a questionar.

“Sim, ideia minha.”

O próximo passo ainda não era Xuxa, mas alguém ainda mais próxima a ela.

“Ela ligou para os meus pais novamente. Falou que a Xuxa e a Marlene me queriam conhecer. No dia seguinte, fui com meu pai ao escritório da Marlene. Ela começou a conversar, ouviu minha história e me disse uma coisa que eu nunca mais esqueci. Tinha admirado minha iniciativa por ter escrito a carta. A Marlene costuma dizer que na vida, quando você abre os braços para o alto, seu espaço termina onde começa o do próximo. Mas quem aponta para frente não tem limite para sonhar ou alcançar o que quer. Se eu tinha esse objetivo a alcançar e sonhava em ser um piloto de verdade, um atleta, então só por esse motivo eu tinha conquistado a confiança dela”, contou.

“Toda criança gostava da Xuxa. Era uma época em que a Xuxa reinava, não tinha nem concorrência”, relembra sobre um período entre os anos de 1992 e 1993. “Toda criança assistia o programa da Xuxa por ela e por causa dos desenhos”.

A hora de conhecer Xuxa, agora, sim, havia chegado.

“Era um conto de fadas. Pela tarde já tinha gente nos acompanhando, fomos ao estúdio e fui apresentado à Xuxa – o programa dela estava de mudança para o Projac na época. Assinei contrato, tirei foto, já fui chamado para assistir ao programa”, recuperou.

“Eu não tinha nem 10 anos, estava comendo pipoca e assistindo ao programa, deslumbrado. Não tinha tempo sequer de me beliscar. Quando deu 23h eu estava dormindo no carro encostado no ombro da minha mãe. Foram uns quatro ou cinco dias assim”, falou.

Após cinco dias no Rio de Janeiro com os pais, Diogo voltou para casa com a sequência da carreira assegurada. “Quando voltei, já estava tudo certo. Um ano de contrato, metas, os prêmios que eu ganhava. No primeiro ano eu já fui campeão.”

“Das 12 provas que tinha o Paulista, ganhei nove seguidas. No kart, assim como na F1, se você tem um bom equipamento para desenvolver e fazer tempo, então os resultados começam a surgir. Já sabiam que eu acelerava, então botavam karts bons na minha mão”, relatou.

O sucesso nas pistas impulsionado pela parceria com Xuxa fechava 1993 como um ano especial na vida de Diogo. A hora era de mudar de categoria e aumentar o nível de dificuldade para a temporada seguinte. Apesar da complexidade aparente daquele campeonato, tudo caminhava melhor que a encomenda.

“1994 começou de vento em popa. Mudamos de categoria: eu, Massa e o Dirani éramos mais novos, então só íamos para a categoria em que estavam Pizzonia, Fábio Carbone e esse pessoal, quando subíamos. Fomos para a Júnior, eles estavam no segundo ano. Era pauleira, porque o motor era mais forte, o equipamento andava mais, e tudo isso com uma molecada mais velha e que já tinha um ano de experiência nessa categoria”, comentou.

“Mas minha geração era tão boa que não fazia tanta diferença. Logo na primeira corrida o Pizzonia foi pole e eu larguei em segundo. Era muito talento, os mecânicos puxavam muito a gente. Aquela era a época de ouro do kartismo, só tinha gente boa. Nós íamos para o muro assistir a Graduados com Ricardo Maurício, Enrique Bernoldi, Felipe Giaffone, Marco Campos, Bruno Junqueira, Giuliano Losacco... Era realmente de admirar.”

“Não era como hoje, que a molecada, apesar de talentosa, tem tanta coisa bacana para fazer no tempo livre que não querem saber do kart depois o tempo todo fora da pista. Tem celular, videogames, tem outras coisas. Naquela época a gente não tinha nada disso, então almoçava pneu. O nosso suco era óleo do motor”, brincou.

O ano de bonança terminou cedo. Aterrorizado com a morte de Ayrton Senna, o mundo também fechou os olhos para Diogo Zucarelli.

“Como todo mundo ficou chocado, eles me chamaram e disseram que não tinha como dar continuidade no patrocínio, porque ficaram assustados. Não queriam a imagem aliada a um esporte que representava um risco daqueles para a saúde. Eu hoje entendo, mas, claro, como criança ainda não entendia bem”, recordou.

“Nós tínhamos uma reunião marcada com o Ayrton na semana seguinte do acidente. A marca da Xuxa tinha uma relação ótima com a do Ayrton, e a Marlene queria uma opinião para saber como dar continuidade à minha carreira, que estava despontando. De repente Europa... Ela queria saber. O Ayrton seria uma espécie de consultor naquilo.”

Não aconteceu. O desastre de 1º de maio, em Ímola, mudou o curso da história da F1 e também de Diogo. Sem o valioso patrocínio de Xuxa, teve de voltar ao ponto em que se vira antes: com talento a oferecer e sem dinheiro. Mas dessa vez era um pouco diferente: havia também resultados para mostrar. Apareceu mais alguém para estender a mão.

AS MEMÓRIAS DE DIOGO COMO UM BAIXINHO DE XUXA

"Depois criamos um relacionamento muito bacana. Todas as vezes que eu ganhava corrida podia escolher algum prêmio, tipo um passeio na Disney, coisas que toda a criança gostaria. Eu sempre escolhia ir lá [no programa].

Eu tinha o telefone do quarto dela. Uma vez eu fui ao Rio e, quando encontrei com ela, falei 'você me diz para manter contato, mas eu não consigo falar com você. 500 pessoas atendem na frente'. Ela pegou uma caneta e um papel, eu lembro até hoje, ela tem uma caligrafia bem gordinha, bem bonita. Escreveu o número e falou 'não dê para ninguém'. Quando você sentir saudades, liga nesse telefone aqui'. Eu nunca liguei, mas guardo com carinho. Tenho o papel até hoje."

"Outra vez eu tinha uma correntinha com meu nome, e ela gostou, porque a corrente tinha uma logo cravada a laser no inox. Era bem pequininho com as iniciais do meu nome, acho que completo. Ela falou que a correntinha era legal, e eu perguntei se ela queria. Ela, como sempre muito gentil, falou que se eu quisesse dar, então ela queria. 'Mas você vai usar?', eu perguntei. 'Vou gravar o programa com ela'.

Coloquei no pescoço dela. E ela realmente gravou o programa com a minha corrente, com meu nome no pescoço.

Os karts dos anos 1990
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RESILIÊNCIA, PAUSA E RETOMADA

“Fui aos trancos e barrancos fazendo algumas outras corridas, até que chegou ao ponto do meu pai procurar a fábrica de kart, que era a Mini, na época. Foi falar que estava caro, não tinha ajuda e não tinha como seguir. A gente não tinha essas condições financeiras”, comentou.

“E aí apareceu aquele a quem eu devo minha carreira. Se eu sou piloto de kart, 50% é porque meu pai bancou a ideia como 'paitrocinador' e incentivador, mas o restante é porque Seu Mário de Carvalho, nesse mesmo dia em que meu pai disse que não tinha condições, falou que ele podia me levar lá, que eu acelerava e faria parte de um projeto dele. Era a equipe dos motores PCR”, lembrou.

Em um novo contexto, passou a ter uma atribuição diferente ao de apenas ganhar corridas. Passou a tocar um projeto. “Eu usava antes os motores da Parilla, que já dominavam o mercado. E aí eu aprendi o que era ser piloto de verdade, que não era só acelerar. Porque todos aceleravam, isso é o mais fácil. Eu desenvolvi o motor, ele [Mário de Carvalho] me ensinava muita coisa. Eu ia para a oficina, aprendia, testava, conquistava resultados. Foi atiçando um grau de sensibilidade meu como piloto. Foi completando um outro lado, talvez o mais importante, porque é um diferencial.”

A carreira do jovem que ficou conhecido como Xuxinha seguiu por mais alguns anos, mais precisamente até 2000. Diogo, então, foi tocar a vida. Cursou turismo e hotelaria na universidade, se formou e foi morar nos Estados Unidos. Foram 11 anos longe da pista. É bem verdade que, enquanto nos EUA, reencontrou o kartismo e trabalhou como durante algum tempo como mecânico e coach. “Eram os brasileiros que foram para lá, o kart estava começando lá”. Piloto por lá, no entanto, não foi.

Apenas em 2011, a convite de um conterrâneo de Registro, voltou ao país. “Quando eu resolvi voltar para o Brasil, já não estava mais no kart. Voltei porque um cara, que tinha uma usina de asfalto e gostava de kart, queria fazer uma pista lá e me chamou para ajudar.”

“Comecei a fazer uma consultoria, ajudei e sugeri ao Lucas Di Grassi, num almoço de aniversário dele, que fizéssemos uma corrida beneficente”, pontuou. “No começo, a ideia era fazer igual jogador de futebol faz, sabe? Falamos com o Bruno Senna, pensamos em fazer Amigos do Senna contra Amigos do Di Grassi, mas acabou que não rolou com o Bruno, apesar dele querer. Fizemos a festa em outro formato, deu mais de 3.000 pessoas lá dentro e doamos mais de duas toneladas de alimento e ainda mais coisa em material de higiene para as ONGs da região. Foi um grande sucesso.”

“Então, como eu chamei todo mundo da minha vivência, gente das antigas, encontrei muito mecânico que eu conhecia e aquilo atiçou minha vontade de voltar. O Ruben Carrapatoso, outro que era da minha época, me emprestou um kart e eu fui para Interlagos junto do Jamil Daniel, mecânico amigo nosso e que tinha trabalhado comigo na época de criança”, contou.

“Eu comprei os pneus do meu bolso, gastei uns R$ 1.400 só nisso. Pensei comigo que só tinha um jeito das pessoas me conhecerem - eu tinha ficado tanto tempo fora que os fabricantes atuais já não sabiam que eu era. Sentei no kart, andei e ganhei o SKB. E a Techspeed me chamou para guiar. Cheguei como azarão na quinta-feira à tarde, saí campeão no domingo. Foi minha reafirmação no mercado”, recordou.

“O kart também já tinha mudado muito - hoje se ganha para andar de kart. São poucos os que ganham, mas os profissionais ganham e vivem disso. Eu voltei a andar e foi muito bacana. Nesses últimos anos, com a queda na economia e os valores envolvidos, os grids caíram muito, até pela procura dos brasileiros pela Europa. Nessas condições, os caras andam lá pelo mesmo preço que aqui e têm muito mais visibilidade e profissionalismo”, falou.

NA PISTA, MAS FORA DELA

Depois de mais de uma década fora, Zucarelli retornou ao circuito e por ele ficou mais alguns anos. Até que chegou a hora de um novo projeto, envolvido com as pistas de kart, claro, mas fora delas.

“Bolei um projeto junto ao pessoal de onde estou, do [Circuito de Kart] Paladino [em Conde, na Paraíba]. Originalmente seria só para crianças, mas acabou sendo para os adultos também. Deu muito certo, até porque a vertente do kart amador, o indoor, é muito mais profissional que o nosso hoje. As corridas são mais organizadas, tem transmissão bacana, tem patrocínio, tudo. Os preços são acessíveis, então o grid não cai. Usei como inspiração alguns projetos que vi em São Paulo e achei esse nicho muito interessante. Estou aqui há quatro, cinco meses, me convidaram para vir morar aqui de vez, porque eles vão sediar o Mundial de Kart. Então estou aqui. Dou aulas, dou cursos, mas não piloto mais. Às vezes me chamam pra correr, mas é só para dar uma incentivada na galera”, contou.

Se é hoje um ex-piloto profissional, Diogo continua vivendo do kart.

Algo que Diogo faz questão de ressaltar é o quanto a sua geração era forte. Aqueles nomes, não importa o quão distintos tenham sido seus destinos, ainda se dão bem quando se reúnem hoje, quase 30 anos depois. Ver Felipe Massa, por exemplo, como autoridade do kartismo internacional é uma vitória também para Diogo e toda a ‘geração de ouro’.

"É muito bacana, porque todos esses pilotos da nossa época, por mais que tenham ido para a Europa, o Japão, quando a gente se vê é igual quando éramos criança. A mesma farra, a mesma bagunça. E acho que o mais legal do know-how de se tornar piloto naquela época é que, quando você mostra que correu na fazenda do Senna, por exemplo - coisa que fizemos eu, Danilo Dirani, Thiago Medeiros, Julinho Campos, vários - e que eu fui campeão com eles, perdi muito e ganhei muito deles. Quando você mostra isso, tem um embasamento impagável”, destacou.

“Quando eu vejo o Massa nessa posição, fico feliz. É como se o mundo desse uma volta e parasse no mesmo lugar. É um esporte que é muito difícil, nós que não fomos para a F1 passamos dificuldades, mas são vários lados bons e compensação”, opinou Zucarelli.

“O Brasil é um país de futebol, então a gente tem que brigar todo dia pela cultura do automobilismo. É regar uma plantinha por dia para que cresça um piloto, uma geração de crianças que se inspirem em você. E ser esportista é o mais gratificante. Eu sou piloto de kart, tenho orgulho disso. Vivo do kart, do que eu gosto, graças a Deus”, agradeceu.

Já que Zucarelli falou a fundo sobre, a reportagem do GRANDE PREMIUM questionou quem era o piloto que mais impressionava naqueles tempos? “O Danilo [Dirani] era ruim de pegar. Não errava, era muito concentrado. O Massa era muito agressivo. Era um cara que se você enroscasse nele, ele ia lá e descontava. Então dava problema, era melhor evitar arrumar briga”, rememorou. “Um que eu me espelhava, era fã mesmo de ver acelerando, era o Bernoldi. Era mais novo para a categoria dele. Com 14, 15 anos já andava com quem tinha 18.”

Dos nomes citados por Zucarelli, Massa, Pizzonia e Bernoldi chegaram à F1; João Paulo de Oliveira fez carreira no Japão; Thiago Medeiros e Rafa Mattos caminharam nos Estados Unidos, na Indy; e outros tantos passaram pela Europa e chegaram à Stock Car. Não fosse pela falta de dinheiro permanente para desembainhar na carreira de piloto, Diogo acredita que também teria dado voos maiores que o kart.

"Tenho certeza disso. Não só por mim, mas porque minha geração era muito competitiva. Todos que tiveram oportunidade fizeram por onde. Alguns tinham grana e influência, mas todos fizeram por onde. Não sei no que daria, mas certamente daria em algo maior. Mesmo sem grana, o kart deu certo. Em se tratando de um esporte como o automobilismo, que não é como a natação – onde é você e a água. No automobilismo você precisa de equipamento”, ressaltou.

“Se eu tivesse tido chance, teria vivido algo maior, sim. Não sei se carro de turismo ou monoposto, mas teria tido a chance. Acabei nunca tendo sequer conversas, nem testes. Só andei uma vez de F-Renault, me convidaram para notar o carro, mas nunca teve nada”, contou.

MEMÓRIAS COMO O MEMBRO DE UMA GERAÇÂO DOURADA

"Uma história que sempre aparece quando a gente se junta é a das nossas peladas no estacionamento do kartódromo. Quebrava vidro do carro do pai de fulano e beltrano, mas eles sabiam que nós éramos tão talentosos... Todos os pais ali, apesar de torcerem para o filho, gostavam de ver uma concorrência tamanha. Nós éramos tão talentosos que aquilo passava.

Saíamos do kart irritados querendo um matar ao outro, mas logo depois já tinha um futebol e todo mundo se juntava. Éramos parceiros de verdade."

O FRANGO

"Pizzonia e eu uma vez compramos um frango de padaria uma vez e comemos inteirinho antes da tomada de tempo. Foi difícil ir para a pista depois."

Hoje em dia, aos 35 anos de idade, Diogo não tem acompanhado a F1 “de dois carros” tão de perto. Assiste a Indy “pela competitividade” e a Stock Car, que “tem muito conhecido”. Mas depois de um dia de trabalho nas pistas, ele prefere mesmo é ligar um videogame num jogo de futebol, são-paulino fanático que é. “Os jogos de automobilismo não são tão parecidos à realidade.”

Perguntamos se após o fim do contrato de patrocínio, em 1994, Diogo voltou a falar com Xuxa alguma outra vez. “Nunca mais, mas eu morro de vontade. Sei que ela vai lembrar, seria muito legal se um dia acontecesse.”

E se o leitor chegou ao fim do texto lamentando que o patrocínio de Xuxa a Diogo Zucarelli terminou antes do tempo e que o Xuxinha foi um injustiçado por jamais ter tido as oportunidades de alcançar palcos que alguns de seus rivais próximos alcançaram, não fique com lamentações. Diogo viveu a vida adulta às voltas com o que mais gosta de fazer.

Às vezes me perguntam se eu não dei certo, e eu respondo que dei certo, sim. Eu vivo do que eu amo. Pode não sair no jornal, mas eu vivi disso. Eu dei certo. Somos uma geração que deu certo.”

Diogo deu certo, claro que deu.