Em busca do segundo sonho europeu

Com apenas 21 anos, Vitor Baptista já tem uma carreira marcada por títulos nos monopostos e também no turismo correndo pela Porsche Cup 3.8. Neste ano, caminha para buscar a taça da 4.0 enquanto sonha com a chance de integrar o programa mundial de jovens da marca alemã ao mesmo tempo em que faz parte da Academia Shell Racing

Fernando Silva, de Sumaré

Mesmo com notórias dificuldades no seu quase inexistente automobilismo de base, o Brasil segue a revelar grandes talentos para as pistas daqui e de todo o mundo. Com apenas 21 anos, Vitor Baptista é um dos melhores pilotos desta nova geração e, ainda que seja tão jovem, já carrega experiência e títulos por aqui e na Europa, e também no turismo. Membro da Academia Shell Racing, o paulista é o atual campeão da Porsche Carrera Cup 3.8, conquistada no seu ano de estreia depois de ter vencido a primeira edição do Junior Program — programa seletivo da categoria para jovens pilotos do Brasil — e, agora, luta pelo título da principal classe da competição, a 4.0, que conta com pilotos mais experientes e ‘cascudos’.

A Porsche Carrera Cup, é preciso dizer, vem evoluindo muito ao longo dos últimos anos e atualmente está longe de ser uma categoria destinada aos gentlemen-drivers, mas reúne pilotos de grande nível e é capaz de atrair jovens talentos, como Vitor.

Mas além da taça, Vitor persegue outro sonho: o de voltar à Europa como um dos escolhidos do Junior Program Shootout, da Porsche, em novembro. Trata-se de um processo seletivo mundial intenso promovido pela marca alemã em uma pista do Velho Mundo ao longo de quatro dias. Lá, os pilotos oriundos da Porsche Cup de vários países são submetidos a uma série de testes de todos os tipos.

O vencedor do Shootout tem a chance de ser piloto oficial da Porsche e ganha uma vaga para disputar a Porsche Supercup, que forma um dos eventos-suporte da F1 nas corridas pela Europa. Pilotos que já triunfaram no Shootout, como Patrick Pilet e Michael Christensen, hoje têm a chance de representar a marca em corridas de GT e Endurance, como as tradicionais 24 Horas de Le Mans e também as 24 Horas de Daytona.

O representante brasileiro no Shootout mundial da Porsche vai ser o piloto que estiver com mais pontos no campeonato depois da etapa deste fim de semana, em Interlagos, desde que esteja dentro do critério de idade exigido pelo regulamento, variando entre 16 e 24 anos. Na ordem da classificação do campeonato, dois jovens estão elegíveis para participar da disputa global: Vitor Baptista e Marcel Coletta.

Às vésperas da etapa de Interlagos, Vitor falou com exclusividade ao GRANDE PREMIUM sobre a expectativa para manter a liderança do campeonato e dar um passo fundamental para mais um título na carreira, mas também convive com a possibilidade de participar do Shootout e trilhar uma nova carreira na Europa a partir do ano que vem.


“Sobre as metas para 2020, tudo passa pelo próximo fim de semana, que é decisivo para que eu possa participar do Shootout na Europa. Se for escolhido, tenho em mente que já venho treinando para isso desde o fim do ano passado, começo desse ano, trabalhando parte física, mental, pista, simuladores, para estar o mais apto possível para competir com os pilotos na Europa”, comenta o piloto.

“A gente sabe que é um nível muito forte, e inclusive presenciei isso, então estamos trabalhando para nos preparar para isso. A partir daí, a gente participa do programa, com quatro dias de teste e, se Deus quiser e se a experiência contar, se a habilidade contar, se o dom contar, a gente é escolhido para participar no ano que vem da categoria da Porsche mundial, que é a Porsche Mobil Supercup, que antecede às corridas da F1. Calendário na Europa, pilotos do mundo inteiro. E é meu sonho atual, participar da Porsche Cup lá na Europa”, diz Vitor.

Além do sonho de voltar a correr na Europa, Baptista almeja ser mais um piloto a acelerar com as cores da Academia Shell Racing no exterior. “Quero representar a Porsche, o que faço hoje no Brasil e, consequentemente, representar a Academia Shell Racing. Nós temos hoje o Gianluca Petecof, que corre na F4, e a gente vê todo o esforço dele, a dedicação dele na Europa, é um dos pilotos principais da Academia Shell e um dos pilotos mais jovens e promissores, que inclusive representa a Ferrari. E meu sonho é estar com ele ali na Europa e participar disso e representar tanto a Porsche como a Shell lá na Europa”.
 

A carreira de Vitor Baptista já tem alguns bons anos percorridos depois de uma trajetória vitoriosa no kartismo. Depois de brilhar na F3 Brasil Light e ser campeão em 2014 — inclusive chegando a bater o dominante Pedro Piquet em algumas corridas, mesmo com o filho do tricampeão de F1 usando um carro superior —, Baptista cruzou o Atlântico para disputar a Euroformula Open. Lá, correu em pistas como Monza, Barcelona, Paul Ricard, Silverstone e Red Bull Ring. Correu e brilhou com 6 vitórias e 12 pódios em 16 corridas e o título logrado com uma temporada de antecedência com a equipe RP Motorsport.

No ano seguinte, um grande passo nos monopostos ao sair da Euroformula para acelerar na World Series, subindo junto com a equipe para a categoria. Foi um 2016 de muito aprendizado e marcado por alguns bons momentos, como o quarto lugar na corrida 2 disputada em Spa-Francorchamps. Mas a equipe não conseguiu dar prosseguimento à sua jornada no grid da World Series e saiu de cena no fim do ano. Baptista, sem dinheiro para se manter na Europa, teve de voltar ao Brasil e se reinventar como piloto.

Vitor Baptista foi campeão da F3 Euroformula Open em 2015 com uma performance dominante
Euroformula Open

Caminhada de lutas e sucesso
 

“Tive uma trajetória bem legal nos monopostos antes dos carros de turismo. Comecei de Light na F3 Brasil junto com o Pedro Piquet, que corria na classe principal. Fui campeão da Light e, ele, da principal.  Mesmo com um carro inferior, ganhei corrida dele, que tinha um modelo superior aerodinamicamente. Tive um destaque legal aqui no Brasil”, recorda.

“Posteriormente, fui para a Euroformula Open em 2015, fui campeão no primeiro ano na Europa, no meu primeiro ano lá nos monopostos. Depois fui convidado pela mesma equipe para um projeto novo deles na World Series, então corri na 3.5 V8, um carro muito parecido com o F2. Tive a chance de correr com um carro super potente, super aerodinâmico, em algumas das principais pistas do mundo. Foi um ano de muita experiência, de muito aprendizado. Ainda era muito novo nos carros fórmula, foi um salto bem grande e a gente viu ali que era difícil o nível europeu. Posteriormente, a equipe não conseguiu fazer um outro ano, e tive de voltar ao Brasil”, conta.

Vitor Baptista é reconhecido no meio por ser um piloto de notável talento. Mas faltava o combustível financeiro para tocar a carreira no seu regresso ao país. Por meio da Academia Shell Racing, teve uma rara chance ao trocar os fórmula pelos brutos do Brasileiro de Turismo, hoje Stock Light. Mesmo sem ter disputado a temporada inteira, o paulista deixou sua marca ao vencer uma corrida, faturar um total de quatro pódios e finalizar o campeonato em sétimo.

“Fui convidado pela Academia Shell Racing, fiz metade do ano na Stock Light [nome atual do então Brasileiro de Turismo], ganhei corrida, tive muitos pódios, bons destaques. 2017 finalizou comigo ainda sem saber o que faria. No começo do ano seguinte participei da primeira edição do Junior Program da Porsche no Brasil”, lembra Baptista, que se mostra muito grato ao maior programa de desenvolvimento de pilotos do país, liderado por Vicente Sfeir.

Vitor Baptista é um dos jovens talentos da Academia Shell Racing
(Foto: José Mário Dias)

Pouco mais de um ano depois, Vitor está de volta e hoje tem como um dos companheiros de Academia Shell Racing na Porsche Cup ninguém menos que seu irmão, Felipe Baptista, que hoje é o vice-líder da classe 3.8 da competição, somente atrás de Enzo Elias.

“Tive a oportunidade de participar metade do ano, em 2017. Foi bem breve, entrei no meio do ano também, não foi desde o começo. Foi só um toque para ver como era. A partir daquele momento, me dei conta que era o programa em que queria estar, era a marca que gostaria de representar. E foi o que foi. Fiz o primeiro ano de Porsche, consegui resultados ótimos, fui campeão. Tive os resultados que qualquer marca e programa de jovens pilotos gostaria. Fui convidado, então, para ser piloto da Academia Shell Racing neste ano”, diz.

“E está sendo maravilhoso para mim, ainda mais por ser junto com meu irmão. Ele está lá desde o kart, hoje ele corre na 3.8 e eu na 4.0. Inclusive a primeira etapa a gente ganhou, cada um na sua respectiva categoria. Foi um momento especial ter dois pilotos irmãos na Academia Shell, os dois na Porsche e cada um ganhando sua corrida. Só tenho a agradecer à Academia Shell. Eles se preocupam com todo o resto, enquanto a gente se preocupa somente em sentar no carro e acelerar. E essa parte nós estamos entregando”, destacou Vitor.

Vitor e Felipe Baptista: dois irmãos brilhando na Porsche Carrera Cup em 2019
(Foto: Luca Bassani)

A grande chance
 

A inscrição para o primeiro Junior Program brasileiro, em 2018, representou um grande acerto para a carreira e abriu as portas de um novo mundo para Baptista. Era a chance de ouro para garantir um subsídio importante, de 70% sobre os custos de uma temporada, e assim conseguir manter sua carreira nas pistas.

Hoje, Vitor abre um enorme sorriso de satisfação ao recordar a decisão que mudou sua carreira e pode ajudá-lo a retomar o caminho das pistas também na Europa.

“Acabei ganhando e até hoje, pelo segundo ano, sou piloto do Junior Program. Então tenho a oportunidade de participar do Shootout mundial da Porsche. Dois pilotos já participaram, o Rodrigo e o Bruno Baptista, e dessa vez seria a primeira que um piloto passaria das fases, que seria o Junior Program no Brasil, conquistou essa vaga, participou do ano e aí é elencado para representar o Brasil lá. Por enquanto, sou o piloto do Brasil para essa vaga, mas isso vai ser confirmado após a próxima etapa da Porsche”, afirma o piloto, que se mostra pés no chão sobre o que está por vir.

“Os dois pilotos aptos a participar são eu e o Marcel Coletta, por conta da idade. Então a próxima etapa vai ser uma responsabilidade, mas é manter a calma e fazer nosso trabalho. Tive a experiência na Europa, a experiência no ano passado com a Porsche e hoje estou mostrando que tenho a experiência de participar de um programa como é o Junior Program no Brasil. Vai ser uma honra participar desse programa, se for escolhido. Vão ser quatro dias de testes, no mesmo formato do Brasil. Estou bem ansioso. Vou ver como isso se desenrola e, se minha participação for confirmada, vou estar pronto para isso”, enfatiza.


Uma oportunidade inesperada
 

Às vezes o automobilismo é capaz de proporcionar oportunidades inesperadas e das formas mais cruéis. Impossível não mencionar a chance recebida por Helio Castroneves, que assinou com a Penske para correr pela mais tradicional das equipes da Indy em 2000. A vaga, contudo, estava destinada ao canadense Greg Moore, que morreu vítima de trágico acidente nas 500 Milhas de Fontana, última etapa da temporada 1999. Moore tinha contrato assinado pela Penske. O brasileiro virou um dos grandes nomes da Indy 500 e conquistou três vitórias na mais icônica das corridas.

A inesperada chance recebida por Vitor Baptista neste ano não teve contornos tão trágicos, mas igualmente envolveu um acidente sério. Durante a classificação para a etapa de abertura da temporada 2019 da Stock Car, no Velopark, Átila Abreu enfrentou um problema com a suspensão do seu carro e, com o asfalto escorregadio por conta da chuva, perdeu o controle e acabou por bater no muro. O sorocabano sofreu uma fissura na vértebra e ficou fora de combate também da etapa do Velo Città, a segunda do ano.

A presença de Átila na rodada dupla em Mogi Guaçu permaneceu como dúvida até os dias que antecederam a etapa. Mas antes da confirmação da ausência do piloto, a Academia Shell Racing chamou Vitor Baptista para substituir o #51 caso fosse necessário. Assim, o campeão da Porsche Cup 3.8 teve sua primeira chance na Stock Car. Vitor, inclusive, contou com grande prestígio do próprio Átila, que emprestou seu capacete. O jovem correu com macacão usando todos os patrocinadores pessoais de Abreu, o que denota o apreço do veterano pelo seu trabalho.

 “Foi um grande privilégio e uma grande responsabilidade”, lembra. “Foi tudo meio em cima da hora e, como costumo dizer, não foi a oportunidade que eu queria ter de correr na Stock Car, substituindo um piloto que é da Academia da Shell, que é um piloto rápido, experiente, e aproveitar isso no momento que ele se machucou. Mas estava lá e fui escolhido por ser o piloto com mais experiência — dentro da Academia — para poder substituí-lo”, diz Vitor, que se mostrou muito grato a Átila pela forma como foi recebido e por todo o apoio que recebeu mesmo antes da estreia na Stock Car, mas também ao longo do fim de semana em Mogi Guaçu.

Na visão do jovem, o maior mérito era o fato de estar preparado para assumir o carro da Stock Car, que jamais antes havia sido guiado pelo piloto, e lidar da melhor forma com situações do tipo. “A gente se prepara justamente para estar apto em situações como essa, e a Stock Car, sem dúvida, é uma categoria que eu almejo um dia ter a oportunidade de correr o ano inteiro e mostrar minha capacidade como piloto”, conta o jovem.

Vitor destaca também a sua quilometragem e o bom desempenho correndo pela Stock Light como fator que serviu para a Academia Shell Racing optar pelo seu nome para substituir Átila.

“No começo do ano fiz uma etapa na Stock Light com a SG Racing. E tive uma experiência com a Shell no Brasileiro de Turismo, corri metade do ano com a Academia Shell quando voltei da Europa, em 2017. Ganhei corrida, fui ao pódio em quase todas as etapas, tive muito aprendizado. Aí migrei para a Porsche e, no começo do ano, tive a oportunidade de correr na Stock Light pela SG Racing. Foi o que foi. Ganhei a corrida, foi bem legal, bem interessante, consegui desenvolver um carro bem legal para a entrada dos outros pilotos”, relembra.

“E na corrida seguinte tive a chance de correr no lugar do Átila. Foi uma experiência muito, muito boa, com uma equipe de ponta da Stock Car, que é a TMG, representando a Shell e o Átila. Foi uma experiência muito boa para mim, para minha carreira, e para mostrar que estou ali na porta e disposto a entrar a qualquer momento, de prontidão para participar de uma categoria tão forte como é a Stock Car”, complementa.
 

Esforço, dedicação e crescimento constante
 

Além da ampla experiência nas pistas para um piloto tão jovem, Vitor Baptista destaca também o conhecimento técnico. Com grande apreço pela engenharia, o jovem entende que o esforço ao estudar cada detalhe é fundamental e faz toda a diferença para que sua pilotagem e seu entendimento de cada carro de guia sejam melhores a cada saída da pista.

“Todas essas categorias, todos esses anos são experiências que me proporcionaram o aprendizado que tenho hoje, o piloto que sou hoje. São pistas diferentes, categorias diferentes, carros diferentes. Não é simplesmente sentar e acelerar, mas também entender cada carro, cada freada, cada aceleração, o por quê daquilo”, conta.

“Então muitas vezes não chego só para treinar, mas fico até tarde com o engenheiro para estudar aquele vídeo, aquele on-board... já fiz cursos com engenheiros, e acho que essa experiência me ajuda a ser quem sou hoje, a entender esse carro antes de simplesmente dar uma volta”, acrescenta Vitor, feliz e grato por chegar a essa altura da carreira com uma bagagem já considerável e com perspectiva de viver dias ainda melhores.

“Essa é a experiência que eu tenho, esse é meu currículo e só posso agradecer por todas as oportunidades. Acho que tudo o que a gente almeja e corre atrás uma hora volta para nós. Sou muito grato por ter a Porsche e a Shell por trás me apoiando”, finaliza Vitor Baptista.