Transformação constante

Em 18 meses, Gianluca Petecof ultrapassou a marca de 50 corridas na F4 e coleciona vitórias. Contudo, muito mais que sua evolução notável nas pistas, o piloto da Academia Shell Racing e da Academia da Ferrari destaca o crescimento na vida como um todo

Fernando Silva, de Sumaré

Há cerca de um ano e meio, Gianluca Petecof, com seus 15 anos recém-completados, se preparava para a primeira temporada da carreira na F4. Era chegada a hora de completar a transição do kartismo — onde o paulistano nascido em 14 de novembro trilhou carreira vitoriosa e repleta de títulos — para os monopostos. A complexa mudança é um desafio por si só, mas Petecof teve ao seu lado o suporte da Academia Shell Racing, com o jovem desde o início do projeto, em 2015, e também a Academia de Pilotos da Ferrari a partir do fim de 2017.

Com uma sólida estrutura, Petecof teve tranquilidade para vivenciar o aprendizado, os momentos bons e difíceis, erros e acertos do início da sua trajetória nos monopostos, pôde acumular milhares de quilômetros em testes com sua equipe na F4 Alemã e Italiana, a excepcional Prema Powerteam, e adicionar vários troféus à sua já vasta coleção.

Neste momento de mudança do primeiro para o segundo semestre de 2019, Petecof ultrapassou uma marca significativa: 50 corridas na F4. Hoje com 16 e a caminho dos 17 anos, Gianluca completou 52 largadas e marcou seis vitórias — sendo cinco apenas neste ano. As provas sempre acontecem com grids cheios, com média de 30 carros por corrida e pilotos de diversas nacionalidades. O brasileiro lidera com sobras o campeonato da F4 Italiana e está a 22 pontos do melhor colocado na F4 Alemã.

Entre as etapas de Hungaroring e do Red Bull Ring da F4 Italiana, Petecof fala ao GRANDE PREMIUM sobre o quanto evoluiu e se transformou não apenas como piloto, mas como ser humano ao longo deste um ano e meio. O brasileiro mora em Maranello, sede da Ferrari, onde não apenas convive com outros pilotos da Academia, mas também é submetido a treinos físicos, mentais e desenvolve a vida longe da família.

Gianluca Petecof estreou na F4 Italiana com 15 anos recém-completados
Ferrari

Ao olhar para trás e ver o que já fez em um espaço de tempo relativamente pequeno, mas bastante intenso, Petecof fala com satisfação sobre o crescimento obtido em todos os sentidos da vida. “O tempo passa tão rápido, principalmente durante a temporada, e você acaba nem percebendo. E de fato, já são 50 corridas de carro... Acho que mudei muito”, conta.

“O mundo do kart para os carros de fórmula é muito diferente. Os dois mundos têm suas particularidades, mas o mundo dos carros de corrida é muito mais complexo não só na parte técnica, mas na parte esportiva também. No geral, pude aprender uma grande parte sobre como operar o carro da forma certa, as particularidades, as características de uma corrida, onde não só a corrida em si é diferente, mas como você tem de gerir o carro, o que também é diferente”, explica.

Petecof ressalta sobretudo a grande importância do suporte fundamental que recebe para pavimentar sua carreira nas pistas. “Pude aprender principalmente fazendo parte de uma das melhores equipes de base do mundo, que é a Prema, mas também com todo o apoio da Academia da Ferrari e da Shell Racing, que me proporcionaram tudo isso. Evoluí muito e não poderia estar numa equipe melhor e com pessoas melhores ao meu redor para me dar a oportunidade de aprender”.

Um ano e meio depois, Petecof ressalta o quanto cresceu como piloto e pessoa
Prema Powerteam

“Desde a época em que entrei na Academia Shell Racing, no comecinho de 2015, depois a entrada na Academia da Ferrari, no fim de 2017, quando também comecei a trabalhar com a Prema, e até agora, mudou totalmente meu conhecimento, meu ponto de vista sobre várias situações, para melhor, com certeza. Pude crescer muito, dentro e fora da pista, e estando aqui todos os dias fazendo parte de uma marca que é conhecida no mundo todo, como a Ferrari, e também, há tanto tempo, no meu quinto ano, fazendo parte da Academia de uma das marcas mais tradicionais do automobilismo mundial, que é a Shell, líder de diversos setores, não só nas corridas, me transformaram em tudo o que sou hoje e em tudo o que pude conquistar. É motivo de felicidade e de uma grande honra”, destaca Gianluca.

A chance de poder representar duas marcas icônicas e de muita história no esporte a motor faz o jovem brasileiro sorrir e demonstrar gratidão. “Desde pequeno, um dos sonhos de todo piloto é poder representar uma grande marca, e poder ter essa oportunidade desde cedo com a Shell e, pouco tempo depois, fazer parte da marca mais tradicional do automobilismo, que é a Ferrari, e ainda por cima ter a Ferrari e a Shell, que têm uma colaboração de tantos anos na F1, fico sem palavras. O tamanho disso é enorme. Aprendi tudo o que sei até hoje no mundo dos carros de corrida com eles”.


Ser um piloto capaz de reunir no macacão marcas tão importantes traz orgulho, mas também compreende uma boa dose de responsabilidade. Gianluca sabe, desde o início da carreira no kart, que só os bons resultados sustentam e pavimentam o caminho de quem um dia almeja chegar ao topo, na F1. A pressão pelo alto do pódio é inerente ao papel que desempenha. As vitórias nem sempre vêm, mas é neste momento em que o aprendizado se faz mais presente na vida de um piloto de alto nível.

“Com certeza, a experiência, naturalmente, te ensina muitas coisas, no lado bom e no lado ruim, também. Certamente, você aprende muito mais nas derrotas, são nas derrotas que você quer se transformar, se tornar um piloto melhor. Durante todo esse período, sempre busquei trabalhar em todos os aspectos, todas as áreas onde pude melhorar”, comenta o dono do carro #5 da Prema Powerteam.

Para Gianluca, a evolução definitivamente é constante, mas 2018 foi de natural aprendizado pelo fato de tudo ter sido uma novidade na sua carreira. “Ano passado foi o mais difícil, primeiro ano nos carros de fórmula. O que me ajudou muito foi ter a Shell e a Ferrari comigo me dando todo o suporte possível. Tudo o que aprendi naquele ano foi extremamente importante para conseguir começar o ano da maneira que comecei. Certamente, é menos complicado começar o ano na mesma categoria que você correu no ano anterior, você pode corrigir os erros que cometeu lá atrás. Isso foi crucial para esse começo de temporada que pude ter”.
 

E 2019, depois de um ano de muito aprendizado, vem trazendo muitas conquistas. Mais maduro e com maior conhecimento das pistas e do carro nesta segunda temporada na F4, Petecof vem encaixando grandes exibições nas pistas da Europa. Os resultados lhe servem como impulso para sempre buscar algo a mais.

“Como piloto, procuro ter a mesma motivação, a mesma vontade de melhorar que tinha quando comecei a correr de F4 é a que tenho agora. Só olho para o futuro, para a próxima corrida, como eu posso chegar mais preparado e em totais condições de brigar pela vitória de novo”, enfatiza.

Gianluca Petecof faz parte da Academia Shell Racing, chefiada por Vicente Sfeir
Prema Powerteam

50 corridas em cinco: Gianluca Petecof elege as melhores atuações na F4
 

Ao longo dos últimos 18 meses, Petecof se consolidou como um dos pilotos mais promissores em atuação na Europa, além de se destacar por ser um brasileiro que coleciona vitórias e grandes momentos no coração do esporte a motor.

Alguns destes grandes momentos já têm um lugar especial reservado no coração de Gianluca. A seguir, o piloto ressalta a evolução obtida com um top-5 das melhores corridas da sua carreira até agora na F4.

5- Adria, corrida 2, 2018, F4 Italiana: A história do primeiro pódio
 

“Era meu segundo fim de semana na F4, primeira etapa da F4 Italiana, um dos grids mais fortes do mundo, com 32 pilotos. Foi meu primeiro pódio na F4, e a gente nunca esquece. Larguei em terceiro, fiz ótima largada... Subi para segundo, e enquanto tentava buscar o primeiro lugar, tinha de segurar meu companheiro de equipe [Enzo Fittipaldi], que estava bem perto a corrida inteira. Cheguei em segundo e foi especial por ter sido o primeiro pódio e por ter vindo tão cedo na temporada. Deu uma baita confiança para o resto da temporada.”

 


4- Misano, corrida 1, 2019, F4 Italiana: Triunfo no limite
 

“Foi muito difícil em alguns fatores e, com certeza, a vitória teve um gosto especial. Estava chovendo, logo que teve a largada parou de chover. Todo mundo largou com pneus de chuva. Parti da pole-position. Como a largada foi com o safety-car, pude manter a primeira posição. Durante várias voltas, tive meu companheiro de equipe atrás, muito perto, e tentei imprimir um ritmo na frente. Ele tentou uma ultrapassagem e me acertou, quase que tira nós dois da corrida, mas consegui me segurar e me manter à frente. Com isso, o terceiro colocado o passou e ficou bem perto de mim. Tive de defender minha posição algumas vezes, sobretudo nas últimas cinco voltas, com os pneus de chuva já bem desgastados e com a pista praticamente seca. Consegui segurar a pressão, me manter na frente e vencer. Nunca tive uma corrida em que fiquei com tanta concentração, 100% de foco e prestando tanta atenção a todos os detalhes como nessa corrida por conta de ter as condições mudando o tempo inteiro e por ter um cara sempre ali perto, então qualquer pequeno erro custaria a vitória.”





3- Hungria, corrida 3, 2019, F4 Italiana: Um duelo de cinema
 

“Tendo sido lá, é uma das razões por ter sido tão especial. Tirando Interlagos, Hungaroring é a minha pista preferida no calendário da F1. Desde pequeno, no videogame, sempre a escolhia para jogar, antes de qualquer outra. Poder correr lá, só por esse fato, foi muito especial. O fim de semana começou difícil, com a gente tirando o máximo pude conquistar um segundo lugar na primeira corrida. Mas sabia que o primeiro [Dennis Hauger] estava muito rápido e não seria fácil vencer a prova. Deixei o carro morrer na primeira largada, e ali pensei que tivessem acabado todas as chances. Na segunda volta, quando estava tentando fazer o máximo possível de ultrapassagens diante daquela situação, deu uma bandeira vermelha, e eles fizeram a relargada preservando a posição original.

Na segunda largada, pude assumir a primeira posição. Mas a corrida inteira teve muito vento, extremamente forte, não sabia se ia chover ou não, estava muito nublado. E o vento fazia com que, na reta, o efeito do vácuo fosse cinco vezes maior. O segundo colocado vinha muito perto, tive de defender a posição algumas vezes. Qualquer erro, qualquer travada de pneu poderia me tirar facilmente a vitória. Na última volta, quando estava esperando controlar bem, que ele não estava tão perto, começou a chover. Perdi um pouco de tempo me adaptando, ele colou em mim logo depois da primeira curva, e a volta inteira a gente ficou muito perto, quase tocando roda. No fim, pude defender bem a posição para vencer a corrida. Foi muito emocionante, foi muito especial.”


2- Mugello, corrida 1, 2018, F4 Italiana: A inesquecível primeira vitória
 

“Foi uma corrida com alguns altos e baixos, com algumas dificuldades... Larguei em segundo e assumi a ponta antes da primeira curva, pude abrir alguma diferença, mas tinha logo atrás o Enzo e o Leonardo Lorandi, que estavam disputando o campeonato naquela etapa. Durante mais de metade da corrida eles estavam perto, e sabia que tinha de dar meu máximo para não deixar a diferença cair, por conta da reta grande, do vácuo. Precisava me manter 100% com o ritmo mais forte possível.

Quando faltavam 15 minutos para terminar a corrida, eles bateram, e aí tive uma diferença muito grande para o segundo. Mas aí veio o vento, um vento incrível, que não conseguia manter minha cabeça parada na reta. Fazia muita diferença no equilíbrio do carro, tive algumas saídas de traseira inesperadas por conta das rajadas. Mas pude segurar até o fim, vencer... Foi minha primeira vitória na F4. Foi muito especial, também por ter sido em uma das pistas mais difíceis do calendário. Muito difícil, mas as vitórias mais difíceis é que são as mais especiais.”
 

1- Red Bull Ring, corrida 2, 2019, F4 Alemã: A escalada que prova a maturidade
 

“Não é uma corrida que venci ou que fui ao pódio, mas foi muito especial por conta de outras razões. Na primeira classificação, sofri um acidente, escapei e bati nos pneus quando estava lutando pela pole. Minha volta foi o suficiente para largar em 12º na primeira corrida, mas larguei em último na segunda por não ter tido volta para a segunda classificação. E foi justamente na segunda corrida, largando em 23º, quase último no grid, em uma pista bastante difícil de seguir o carro da frente por conta da perda aerodinâmica em curvas de alta velocidade.

Foi justamente nessa corrida em que tive de trabalhar mais por estar o tempo inteiro fazendo diversas ultrapassagens, algumas relargadas sob safety-car. Tive de brigar mais pelas posições, escalei o pelotão inteiro e chegar na quarta posição. Fazer quase 20 ultrapassagens durante a corrida, com um ritmo muito forte... essa escalada foi uma das mais especiais. Quando terminou, lembro que nem mesmo nas corridas em que venci me senti tão feliz com a performance e com o que conquistei naquela corrida.

Depois de um início muito difícil, achei que tinha sido o fim do fim de semana pra gente. Não sabíamos se poderíamos correr por conta de ter de trocar o chassi, trocar o carro inteiro, remonta-lo da sexta para o sábado... E poder conquistar este resultado diante de todas as dificuldades foi incrível.”