Uma pausa para equilíbrio, preparação e reflexão

Nas férias do segundo ano de F2, Sérgio Sette Câmara faz um balanço de uma temporada que, até aqui, é de altos e baixos e revela que vai usar a pausa da categoria para seguir se preparando e refletir o que precisa mudar para o tão sonhando top-3 chegar

Gabriel Curty, de São Paulo &
Evelyn Guimarães, de Hungaroring


Sérgio Sette Câmara é um piloto que vê a competição com os olhos da perfeição. Provavelmente o brasileiro mais perto da F1, o mineiro de apenas 20 anos chega quase a assustar com o tamanho da maturidade que apresenta e com o 'pé no chão' com que conduz sua ainda muito jovem carreira no esporte a motor. E antes de reclamar de equipe, das circunstâncias, da vida, está sempre se cobrando.

A ideia inicial do GRANDE PREMIUM era fazer um balanço da temporada 2018 de Sérgio antes das férias de verão na Europa e falar sobre os planos no recesso. No entanto, com seu jeito honesto, Sette Câmara já deixou claro de cara que férias não é um termo que deveria estar empregado em sua situação e que o campeonato da F2 está em sua cabeça o tempo todo o ano inteiro.

"Toda a preparação física e mental segue igual. Não podemos parar nunca e nada vai mudar do período de corrida. Eu vou voltar para casa agora, refletir também sobre tudo que houve nesta primeira parte de ano. Traçar uma estratégia e fazer o meu melhor. Sempre volto mais forte de casa", resume em conversa com o GP* logo depois da rodada dupla da Hungria.
 

Aliás, aqui vale um adendo: Sette Câmara não estava nada feliz com o resultado que obteve em Budapeste. O sétimo lugar na corrida 1 e o terceiro na segunda não foram suficientes para o que estava esperando, mas, principalmente, o que o incomodou foi o erro na primeira prova, quando bateu em Antonio Fuoco na última volta e acabou punido. A pole foi para lavar a alma do rapaz, é bem verdade, mas ele não se deixou levar pela conquista inédita da sexta-feira.

2018 também é uma temporada diferente para o mineiro pelo fato de finalmente estar em um time de ponta. Ele mesmo reconhece que na F3 Europeia até viveu um cenário um pouco parecido, mas, na F2, saltar de uma MP - que até para pontuar tem dificuldades - para uma Carlin é algo significativo.

"A gente se acostuma muito rápido à realidade que a gente vive. Estou em uma equipe de ponta agora, que é algo que nunca tive. Na F3, eu estive em um time muito bom, o Motopark, mas não era 'o' time. Por lá, sempre foi a Prema. Agora, eu estou em uma equipe de ponta, o que é ótimo, mas um monte de coisa aconteceu de errado. O carro quebrou várias vezes", diz o menino de semblante de veterano.

Os problemas de Sette Câmara realmente fugiram de seu controle na grande parte das vezes. Teve desclassificação em Baku, problemas em pit-stops, quebras... Mas o mineiro sabe também reconhecer as falhas e a da Hungria o incomodou bem mais que a batida em Mônaco, quando quebrou a mão e perdeu o final de semana todo.

"Na Hungria, foi a primeira vez que eu cometi os meus próprios erros, na minha opinião. É claro que eu errei em Mônaco também, mas uma coisa é bater e outra é quebrar o braço. Acredito que ali foi uma fatalidade. Enfim, as coisas não deram 100% certo. E isso é normal. Mas eu torço para que, nesta segunda parte da temporada, as coisas começam a se encaixar mesmo e que eu consiga crescer na classificação, e esse é o meu objetivo", continua.

O brasileiro fez um balanço da experiência que vem tendo na Carlin e tratou de dar fim - mais uma vez - a qualquer suspeita de teoria da conspiração envolvendo a equipe britânica e o parceiro 'da casa' Lando Norris, que disputa o título da temporada com George Russell e, talvez, Alexander Albon.

"Acho que, no fundo, o desempenho está sempre lá. A única questão são as quebras. O Lando (Norris) não quebrou até agora, ele deu sorte. Acredito que não seja nada relacionado à equipe, foi sorte mesmo. E ele está lá na frente do campeonato, onde era para eu estar também", avalia.


Ainda que veja as quebras como determinantes para gerar a distância de pontos dentro da equipe - Lando tem 159 e Sérgio vem com 106 -, o mineiro sabe também que Norris tem seus méritos para estar onde está e, mais uma vez, voltou a fazer uma análise bem crítica do próprio desempenho.

"Ele cometeu alguns erros que eu não cometi em largadas, deixou o carro morrer bastante e eu não deixei, mas, em compensação, ele fez belas provas de recuperação, enquanto eu errei em alguns momentos. Era para a gente estar com mais ou menos a mesma quantidade de pontos. A diferença é que eu acabei não terminando muitas provas por conta de quebras. Mas em termos de ritmo, sempre estivemos lá", segue.

Lembra que lá no começo da entrevista Sette Câmara falava em voltar para a casa, refletir sobre o que deu errado e traçar estratégias para daqui para frente? Então, isso já podemos dizer que se encontra em um estágio avançado mesmo com tanto tempo até o GP da Bélgica.

"Não posso deixar de terminar corrida, especialmente a 1. Não posso bater ou deixar de pontuar, porque, caso contrário, não vou conseguir pontuar na segunda corrida ou, se conseguir pontuar, serão apenas migalhas. Quer dizer, a corrida 1, você precisa terminar e estar dentro do top-8. Não pode estar fora desse resultado, senão fica como aquela coisa do cassino. O cara começa a perder, aí tem de arriscar mais, mesma coisa. Quer dizer, aqui é exatamente isso. Se você puder, nesta situação, arriscar o mínimo possível, melhor", resume.
 

Tirando um pouco do peso das costas, Sérgio lembra que, quanto mais problemas você tiver com o carro, mais longe vai ficar dos ponteiros e, consequentemente, mais vezes terá de ir para a pista pensando somente em vencer a qualquer custo.

"Era a posição em que eu estava no começo do ano. O carro começou a quebrar e eu comecei a ficar em uma situação em que me pressiona, porque eu tenho de compensar isso. Continuou quebrando e agora eu estou em uma situação em que tenho de correr riscos. E aí, claro, a chance de erro é maior. Foi o que aconteceu na Hungria", explica.

Outro sinal de que Sette Câmara tem a cabeça bem no lugar apesar da pouca idade é seu pensamento em relação à F1. E aí vale uma comparação com Charles Leclerc, que sempre teve bastante paciência para chegar à principal categoria do mundo e, agora, demonstra a mesma calma em relação a ir para a Ferrari.

"Ainda não estou pensando na F1. Acho que muitos pilotos ficam mais de dois anos na F2, é uma coisa normal, especialmente quando você entra na F2 com 18 anos, como eu entrei. A gente se acostumou a ver pilotos jovens na F1, como o Max Verstappen ou o Lance Stroll, mas outros grandes entraram com 21 anos, como o próprio Lewis Hamilton. Quer dizer, não significa que entrar muito cedo na F1 seja muito importante. A questão é entrar bem na F1, para você entrar e ficar na F1", aponta.

No momento, é a F2 que importa. Sérgio insiste que o mais importante é terminar a temporada entre os três primeiros para ter os pontos necessários para obter a superlicença. Isso, realmente, não parece impossível, já que apenas 35 pontos o separam do tailandês Albon, que hoje fecha o top-3, com ainda quatro rodadas duplas pela frente.

"Não estou ainda no top-3 do campeonato, e esse é o meu objetivo. Quero remar muito para atingir isso, e aí poder pensar em subir. Mas quando eu falo que não penso na F1, não significa que eu não penso exatamente, é que estou focado no meu trabalho aqui na F2, mas eu tenho pessoas que estão se preocupando com isso agora.


Título neste ano é muito improvável, mas top-3, sim, pode acontecer. Acho que tudo depende dessa segunda parte de campeonato. Se for espetacular, se tudo der certo, acho que temos uma chance de top-3, mas não vai ser fácil. Mas o que quero é manter a mesma abordagem. Ou seja, tentar sempre classificar bem e ir para cima", encerra.

Muito centrado, focado e perfeccionista, Sette Câmara já chama bastante atenção no paddock. É uma pessoa exigente consigo mesmo, porque entende o quanto teve de fazer para chegar onde está. Mas também é um menino. Sabe que tem muito a aprender. E guarda, tal qual a música que tanto gosta de ouvir, uma esperança equilibrista no futuro. Conhece os riscos e sabe que cada passo dessa linha pode machucar. Só não desiste. E talvez esteja aí sua grande arma no esporte.