As voltas por cima e as zicas

O GP da Austrália trouxe uma série de estatísticas, e nem todas para o bem. Valtteri Bottas e o motor Honda acabaram com piadas ao conseguir resultados acima da média, enquanto Lewis Hamilton e Daniel Ricciardo voltaram a ter dificuldades no Albert Park

Vitor Fazio, de Berlim

A espera chegou ao fim: após quatro meses de espera, a Fórmula 1 voltou à ativa com o GP da Austrália do último fim de semana. A corrida, apesar de não ser um show de emoção, trouxe um panorama interessante: Lewis Hamilton foi superado por um repaginado Valtteri Bottas, enquanto a Ferrari viu desmoronar o castelinho de esperanças construído na pré-temporada.

Além da briga por vitórias, equipes que vinham atrás também tiveram resultados que chamaram atenção. A Red Bull, apesar de não conseguir acompanhar Bottas, conseguiu um belo terceiro lugar com Max Verstappen, dando um importante pódio para a Honda. A Haas foi a melhor do pelotão intermediário, enquanto a Renault teve um dia mediano, marcado pelo incidente evitável de Daniel Ricciardo na largada.

Tudo isso rendeu números e estatísticas. E o GRANDE PREMIUM resgata os principais no GPstats desta semana.

 

A volta da Finlândia

A Finlândia nunca deixou de ser importante na F1. Mesmo sem um campeão desde 2007, o país sempre teve Kimi Räikkönen e, em anos recentes, Valtteri Bottas. Vitórias e pódios vieram, mas restava uma seca incômoda: antes da vitória do piloto da Mercedes neste domingo, foram exatos seis anos sem um finlandês na liderança do Mundial de Pilotos. A última vez foi após o GP da Austrália de 2013, que teve vitória de Kimi Räikkönen. Como tratava-se da primeira corrida do ano, a liderança não era das mais sólidas – da Malásia em diante, Sebastian Vettel tomou a ponta, que logo se transformaria no tetra da F1.

Entre Kimi e Valtteri, se percebe semelhanças e diferenças. Nos dois casos, as vitórias tiveram um tom de surpresa, vindas de pilotos que não largaram como favoritos naturais. A diferença é ainda mais evidente: Räikkönen venceu em 2013 ao apostar na mesma receita de 2012, quando a Lotus já conseguia ser altamente competitiva; Bottas precisou se reinventar durante as férias. No último ano do contrato vigente, o piloto da Mercedes mostra nova postura – a passividade deu espaço ao sonho de desafiar Lewis Hamilton por um título mundial.

Com o pé direito

A Mercedes não poderia ter um melhor começo de ano, nem mesmo se quisesse. Teve dobradinha na classificação e na corrida, indicando que o W10 é difícil de ser batido independente da situação. Esses são os motivos racionais para acreditar que a equipe alemã vai ter um novo ano de sucesso, mas não são os únicos. Quem gosta de números vai gostar de ver que nunca aconteceu de uma escuderia fazer dobradinha no GP da Austrália e perder os mundiais de Pilotos e Construtores.

Já aconteceu sete vezes de a temporada começar com dobradinha em Melbourne – duas vezes com Mercedes (2015 e 2016), duas com Ferrari (2000 e 2004), uma com Brawn GP (2009), uma com McLaren (1998) e uma com Williams (1996). O ponto em comum entre cada acontecimento: carros verdadeiramente poderosos, proporcionando resultados poderosos na primeira oportunidade. Em nenhum caso – nem o da Mercedes em 2019 – um carro conseguiu se destacar tanto assim somente por golpe de sorte ou de estratégia. Os atuais campeões também parecem capazes de trazer os resultados necessários por conta própria.

 

A zica down under

‘You better run, you better take cover’ é um trecho da letra de Down Under, hit do Men at Work em 1980. Décadas depois, segue sendo apropriado para o GP da Austrália, onde os pilotos locais precisam fazer de tudo para tentar escapar e se esconder de problemas que aparecem aos montes – e, até aqui, sem sucesso. Daniel Ricciardo quebrou a asa dianteira segundos após a largada e, voltas depois, viria a abandonar.

O abandono de Ricciardo significa que, pelo 29º ano seguido, nenhum australiano foi sequer ao pódio no GP da Austrália. O melhor resultado alcançado por pilotos da casa foi o quarto lugar – duas vezes com Daniel, uma vez com Mark Webber.

Mesmo assim, verdade seja dita, não havia muito como cobrar de Ricciardo um resultado desse nível. A Renault ainda parece ter dificuldades contra rivais do pelotão intermediário, tanto que Nico Hülkenberg não foi além do sétimo lugar em Melbourne. Mesmo assim, era de se esperar que Daniel evitasse um papelão como perder a asa dianteira ao achar que a grama era perfeitamente plana na beira da pista.

Poles e mais poles, mas vitórias...

Ninguém há de questionar o talento de Lewis Hamilton, que vive fase particularmente abençoada em temporadas recentes. Mesmo assim, é preciso dizer que o britânico não anda fazendo o melhor dos trabalhos em Melbourne. Ao largar mal na Austrália, Hamilton perdeu a liderança para não mais recuperar. Era o começo de uma história que já é repetitiva – das oito poles de Lewis no Albert Park, só duas foram convertidas em vitórias, em 2008 e 2015.

Os motivos para os reveses são variados. 2012, 2016 e 2019 foram corridas perdidas por largadas ruins. Em 2017 e 2018, por estratégias que não funcionaram. Em 2014, por um problema mecânico ainda na primeira volta.

É um retrospecto ruim, mas que tem mais ares de coincidência do que qualquer outra coisa. Apesar da largada não ser o ponto mais forte de todos para Hamilton, o ritmo de corrida costuma ser mais do que suficiente para reverter problemas que venham a aparecer. Não ajuda também o fato de que Albert Park não é exatamente o melhor lugar para ultrapassar – mesmo que Lewis pressionasse Valtteri, é possível que a corrida estivesse perdida de qualquer jeito.

 

Uma década depois, o champanhe

Foram necessários quatro anos na base do sofrimento e das piadas, mas a Honda finalmente teve um dia realmente digno de aplausos na Fórmula 1. O motor japonês permitiu um GP bastante competitivo para a Red Bull, que levou vantagem sobre a Ferrari e colocou pressão na Mercedes de Lewis Hamilton. Mesmo sem ultrapassar o atual campeão, veio o pódio com Max Verstappen. Ninguém pensou muito nisso na hora, mas era a primeira vez que o motor Honda foi ao pódio da F1 desde a temporada 2008, quando Rubens Barrichello foi terceiro no GP da Inglaterra pela equipe de fábrica.

Mas é importante contextualizar as diferenças entre dois resultados que, apesar de iguais no papel, mostram duas realidades distintas. A equipe Honda era uma das piores do grid em 2008 e conseguiu o resultado em Silverstone ao apostar em uma estratégia ousada sob chuva. Com os pneus certos, Barrichello virou monstro e chegou a passar Fernando Alonso por fora. 11 anos depois, Max Verstappen não precisou de nada disso. Mais do que ir ao pódio na primeira oportunidade, deixou a impressão de que a vitória é questão de tempo.