André Negrão

Aos 26 anos, André Negrão se encontrou completamente na classe LMP2 do WEC. No auge da carreira, o paulista fala ao GRANDE PREMIUM sobre a atual temporada do Mundial de Endurance, a vitória nas 24 Horas de Le Mans e o futuro

Gabriel Curty, de São Paulo
Não é de hoje que André Negrão vem se provando um dos melhores pilotos brasileiros no automobilismo mundial. Dono de longa passagem pelas categorias de base europeias, o paulista de 26 anos se encontrou no Mundial de Endurance. E sua evolução foi gritante.
 
No último mês, o grande momento da carreira aconteceu. Aliás, um dos principais momentos do automobilismo brasileiro nos últimos anos: André se sagrou vencedor das 24 Horas de Le Mans na classe LMP2, a segunda principal do WEC. 
 
E para entender como tudo isso aconteceu com Negrão, é preciso voltar alguns anos. Foram temporadas batendo na porta da F1 e buscando uma chance, que nunca apareceu. Três temporadas de World Series e duas de GP2 mais tarde, o paulistano viu na Indy Lights uma chance de chegar a uma categoria de ponta - a Indy -, mas também não chegou lá.
 
Então, qual seria o caminho para brilhar? O WEC, é claro. E o sucesso foi praticamente instantâneo. André assinou com a Signatech Alpine Matmut para a temporada 2017 e teve cinco pódios, com direito a triunfo no Circuito das Américas e tudo. Para 2018, os parceiros franceses foram trocados: saíram Nelson Panciatici e Pierre Ragues e entraram Nicolas Lapierre e Pierre Thiriet. O resultado foi um dos melhores trios do campeonato.
 
E é essa combinação de fatores: fase técnica, parceiros, categoria certa, grande equipe e, sim, a experiência na base, que fazem André viver o momento seu melhor na carreira. E quem explica isso é o próprio piloto em entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM.
 
"Acho que sim [que é a melhor fase da carreira]. Vários fatores se juntaram, eu cresci muito, aprendi bastante coisa. Só que eu também tinha aprendido muita coisa na minha base de piloto, mesmo sem tantos grandes resultados. Esse foi o maior resultado da minha carreira, melhorei muito e sei que as pessoas estão me olhando com outros olhos agora. Mas a parte técnica eu já sabia, faltava me encaixar em um lugar em que eu pudesse mostrar quem eu realmente era. É a melhor fase da minha carreira, não tem muito o que falar".
André Negrão venceu as 24 Horas de Le Mans
FIA WEC

A grande vitória da carreira em Le Mans

 

Ainda que a boa fase não venha de agora, é inegável que a vitória numa das três principais corridas do mundo atraiu os holofotes de vez para cima de Negrão. Ao lado de Lapierre e Thiriet, o brasileiro teve uma prova muito segura, o tempo todo dando pinta de que estaria no pódio de sua classe.

A disputa parecia com o trio da TDS pela segunda colocação, já que a G-Drive - que não participa do campeonato todo - andava muito à frente. Acontece que André e seus parceiros, vencedores do duelo com a TDS, foram promovidos, já no dia seguinte, ao topo do pódio, com a descoberta de que a G-Drive burlou as regras nos boxes.
 
"Foi incrível, todo mundo quer ganhar um dia em Le Mans. É uma das corridas mais importantes do mundo, uma das três partes da coroa do automobilismo. Foi inacreditável. Recebi a notícia da desclassificação da G-Drive só na segunda-feira, então eu não tive a oportunidade de comemorar no pódio, mas a gente ganhou, isso que realmente importa e eu estou super feliz", diz.
 
E é claro que não ter a oportunidade de fazer a festa no degrau mais alto do pódio é algo que acaba marcando, mas o paulistano não ficou sentido com isso. André, aliás, mostrou-se bem resignado, já que foi uma situação absolutamente comum de Le Mans, conhecida por suas vistorias que viram a noite seguinte à corrida.
 
"Claro que é estranho, você quer subir no pódio na primeira posição, ainda mais em Le Mans. É o mais legal, o mais importante, mas não tem muito o que fazer, Le Mans funciona assim mesmo. São muitos carros, então eles começam a vistoriar no domingo e só terminam na segunda, aí acontece algo assim. Mas, falando sério, o que importa mesmo é vencer, mesmo sem ter comemorado no pódio", segue.

A 'Supertemporada' 2018/19

 
A ordem do início de campeonato para André é a dos pés fincados no chão. Tudo bem que o segundo lugar em Spa-Francorchamps e a vitória em Le Mans apontam a Signatech Alpine Matmut como forte candidata ao título, mas o paulista sabe que ainda não é hora para fazer qualquer tipo de previsão envolvendo o restante da temporada.
 
"É muito cedo para pensar em título. É um campeonato muito longo e estamos apenas na segunda corrida do ano. Está muito longe para falar em ganhar o campeonato. Acho que nosso trio está muito bem formado, a equipe está muito bem, melhoramos o carro em relação ao ano passado, então é um ótimo caminho, tudo para dar certo, mas longe para saber como vai ser, mesmo estando em primeiro no campeonato", explica.
 
Cedo também para apontar as principais características do carro da equipe, mas Negrão vê um Calcanhar de Aquiles claro nos primeiros metros da maratona que é a temporada de quase um ano e meio do WEC: o trabalho nos boxes.
 
"Eu acho que a história da exclusão da G-Drive, que não compete a temporada toda, acabou nos deixando um pouco na dúvida no momento. Não dá para gente saber se o que eles fizeram em Le Mans também aconteceu em Spa, o quanto essa andada deles para frente mudou as coisas. Da nossa parte, ainda precisamos acertar alguns fatores como o pit-stop, ainda estamos devendo um pouco para as outras equipes. O acerto ainda tem uns detalhes, não está 100%, mesmo que bem melhor que o do ano passado", fala.
 
O brasileiro trabalha numa equipe basicamente toda francesa. Mas garante que isso não é nenhum problema na relação com os colegas. Aliás, André contou que está aprendendo a língua com o passar do tempo de casa. E afirmou que está muito satisfeito com o time. 
 
"Nossa relação é muito boa desde sempre. Claro, eles são franceses numa equipe francesa, então se entendem bem melhor, eu mesmo comecei a entender melhor o francês agora. Mas sou super bem tratado, somos super amigos lá dentro, não temos nenhuma rivalidade ali. Desde o começo nos encaixamos bem dentro e fora das pistas, passamos bons feedbacks, sempre parecidos e isso é o ideal para os engenheiros. Então, temos uma equipe que trabalha ainda melhor com as nossas informações. Não tenho nada para reclamar dali, estou achando tudo muito bom esse ano. Já venho nela desde o ano passado, o mesmo pessoal, mas esse ano realmente tenho achado tudo maravilhoso", diz.

 
Considerando que a G-Drive, que mostrou muita força na Bélgica e na França, não compete na temporada toda, a Signatech Alpine Matmut precisa olhar para as demais rivais. E André vê uma disputa bastante embolada, apesar da força que o time tem mostrado até aqui.
 
Para o paulista, a saída da Rebellion para a LMP1 deixa as coisas mais equiparadas com a TDS e com a Jackie Chan, que teve um 2017 bastante interessante e possui grande investimento.
 
"No começo, achávamos que a Jackie Chan viria muito forte, agora que a Rebellion foi para a LMP1. Só que eles não começaram tão bem e, mesmo com um temor do que eles poderiam fazer em Le Mans, já que ganharam ano passado, não foram tão bem assim. Mas acho que é a nossa maior rival, depois vem a TDS, que também tem um pacote muito legal", analisa.
 
André sabe que seria mais interessante para o Mundial de Endurance se realmente existisse uma briga na classe principal, a LMP1, mas também vê o lado da Toyota ao falar das vantagens e privilégios que os japoneses têm em cima dos times não-híbridos.
 
"Não me incomodo [com o fato da Toyota disputar quase sozinha], mas é óbvio que eu preferia que tivessem mais carros brigando. Ano passado mesmo foi bem mais competitivo, hoje a Toyota está sozinha entre os híbridos. Agora, ela está aí, quer fazer o campeonato e tem seu direito e seus méritos por isso".

A melhor fase da carreira

 
André deixa bastante claro que nunca vai esquecer dos tempos de base na Europa, onde se formou como piloto. Mas isso não quer dizer que não haja mais margem para evolução e é exatamente isso que acontece no WEC.
 
"Sim, sim, estou bem feliz por aqui. Evoluí bastante, mas eu realmente tinha aprendido já muito na base, especialmente na GP2, coisas que uso até hoje por aqui. Mas eu até falei com meu engenheiro, agradeci por tudo que aprendi", diz.
 
Questionado se pensa em uma mudança para a LMP1, o paulista explica que não tem muito como prever se isso será possível, já que o WEC passa por um delicado momento de transição após perder, em pouco tempo, a Porsche e a Audi, duas das três grandes montadoras da classe principal do Mundial.
 
"Sinceramente, minha carreira está bem aberta. Óbvio que tenho meus planos na mente, mas tudo depende. Parece que o próprio WEC vai acabar voltando a ser mais de GT, então é uma fase complicada, de novidades a cada etapa que a gente passa, ou seja, está aberto. Mas por enquanto é seguir no WEC, fazer o melhor trabalho possível, ter um campeonato excelente e poder começar 2019 ainda melhor. Por enquanto, é seguir fazendo o melhor trabalho possível", continua.
André Negrão passou pela Indy Lights antes do WEC
Indy Lights

O futuro em aberto

 
Ainda que esteja feliz no WEC, pelo futuro incerto da categoria, é natural que André pense em outras coisas. Aliás, que imagine até outros campeonatos para somar ao atual. E essa segunda opção é bem mais plausível, segundo ele.
 
"F1 eu acho que não, acho que já passei dessa fase, teria que acontecer algo de extraordinário para alguém me chamar, mas acho muito difícil. A Indy eu teria de voltar aos EUA, também é um caminho a ser considerado, mas seria uma volta aos monopostos, é outro tipo de campeonato, ainda que eu já tenha passado por lá. O WEC está com calendário bem espaçado, então dá para pensar em fazer outro campeonato em paralelo. Mas ainda está aberto, tem muita coisa aberta acontecendo na minha vida agora", lembra.
 
Uma volta ao Brasil para colocar a Stock Car como segunda categoria - como fazem os pilotos da FE Nelsinho Piquet e Lucas Di Grassi - ainda não está em pauta para Negrão, que vê no ELMS e no IMSA, classes bem próximas ao WEC, suas maiores probabilidades.
 
"Ainda não seria uma Stock Car. Acho que eu pensaria entre o ELMS, aproveitando que minha equipe é daqui e pensa em fazer no ano que vem ou então o IMSA, que são os mesmos carros nos EUA. Nunca tinha parado para pensar na Stock, nunca conversei com ninguém de lá sobre o assunto, mesmo com minha família tendo bastante história por lá. Mas ainda precisaria sentar e conversar bem com alguém de lá".
 
Os próximos passos de Negrão seguem sendo uma dúvida, mas algumas coisas estão claras: o brasileiro tem grande chance de repetir o feito do compatriota Bruno Senna e ser campeão na LMP2 e, principalmente, certamente abriu novas portas para oportunidades futuras na carreira.