De peito aberto atrás do grande objetivo

O GRANDE PREMIUM conversou sobre absolutamente tudo com Thiago Camilo, da luta pelo primeiro título ao novo momento da vida como papai da Luísa

Gabriel Curty, de São Paulo

 

Thiago Camilo é um dos principais nomes do grid da Stock Car nas últimas duas décadas. Mais do que apenas um piloto bastante vitorioso e de tocada bem agressiva, o paulista tem algumas marcas muito próprias de personalidade, como o fato de não temer bater de frente com ninguém e sempre dizer o que pensa.
 
Dono de 27 vitórias na principal categoria do automobilismo brasileiro, Thiago vive uma fase diferente aos 35 anos. Quer dizer, se transformou ao virar pai da pequena Luísa, de apenas 8 meses, mas segue o mesmo quando o assunto é foco total na conquista do primeiro título.
 
Em mais uma edição da série Grandes Entrevistas, o GRANDE PREMIUM aproveita para conversar com o #21 da equipe Ipiranga A.Mattheis sobre tudo, bem ao seu estilo, do momento da Stock Car aos objetivos pessoais, passando, é claro, pela temporada dentro e fora das pistas.
 
Atualmente em terceiro no campeonato de 2019 e com ótimas chances de buscar a primeira taça da carreira na Stock Car, Thiago falou dos rivais, do próprio desempenho e até fez algumas projeções do que deve acontecer nas etapas restantes.
 

Poles, polêmicas e perspectivas

 
Basta olhar para a classificação do campeonato para saber que Camilo é um dos principais nomes da Stock Car em 2019. Indo além, considerando performance, rendimento nas corridas e nas classificações, mais ainda.
 
O paulistano tem sido o verdadeiro ‘Rei das Poles’ no campeonato. Em uma sintonia impressionante com a equipe, tem tido sempre um carro muito veloz e eficiente, levando-o ao limite. Não de graça, anotou cinco vezes seguidas a posição de honra do grid de largada, além de ter encaixado quatro vitórias para a conta.
 
“É uma temporada boa, constante. Depois de 2018, que foi ruim, mas serviu como alerta para a continuidade do projeto que vem desde 2009 comigo e a Ipiranga, a gente conseguiu recuperar performance. É diferente de 2017, quando eu briguei com o [Daniel] Serra pelo título, mas ali a gente dependia muito da estratégia para as duas corridas. Hoje, a gente tem um carro que consegue desempenhar de igual para igual, um carro para vencer, para brigar pelas poles... Vejo a equipe cada vez mais entrosada com um sistema novo de trabalho que tivemos de implementar para buscar a performance. Com certeza, evoluímos do começo do ano para cá, quando fiz cinco poles seguidas. As outras equipes também melhoraram, mas acho que estamos preparados para a reta final na disputa pelo título”, avalia Thiago.
Conhecido também pelo perfeccionismo e por ser bem detalhista, Camilo relembra a etapa que praticamente evitou que fosse líder no momento na Stock Car. O mais duro revés do ano até agora aconteceu em Santa Cruz do Sul, quando o #21 abandonou cedo a primeira corrida e nem voltou mais para a pista. Zero ponto, algo raríssimo na categoria para qualquer piloto, mais ainda para um candidato ao título.
 
“Só não está melhor pela infelicidade que tivemos em Santa Cruz do Sul. Acabamos com uma etapa a menos que todo mundo, já que meu motor quebrou na segunda volta e eu fiquei fora das duas corridas. Se pegar quem está disputando o título e até quem está mais para trás, quando alguém tem problema na primeira corrida, volta na segunda com mais botões de ultrapassagem, pneus melhores e aí consegue marcar, no mínimo, entre 15 e 20 pontos, até buscar a vitória. Em Santa Cruz, fiquei fora, não conseguimos trocar o motor, cheguei com 10 pontos de vantagem e saí de lá 30 atrás. De lá para cá, remada constante para chegarmos a Interlagos com chances de buscar meu primeiro título na categoria”, explica.
 
Agora, já que 2018 foi tão duro e que 2017 só teve briga pelo título na base da estratégia, dá para dizer que a performance arrebatadora, especialmente nas classificações, é surpreendente? Thiago acha que não, ainda que pondere: qualquer piloto ou equipe que fizesse cinco poles seria algo estranho em um grid tão parelho.
“Sabia desde o começo do ano, por todo investimento e por todo trabalho que foi feito, que teria um carro competitivo. Lógico que cinco poles consecutivas na Stock Car não é algo normal, fazia muito tempo que isso não acontecia, ainda mais hoje em dia, com uma competitividade tão alta. A surpresa é só por conta disso, pelo nível da categoria, mas eu sempre acreditei muito no Andreas [Mattheis], em todos os engenheiros, tanto que optei por ficar aqui mesmo após um 2018 ruim, acreditei que ele me daria um pacote vencedor, e é isso que está acontecendo. Aí você vai evoluindo, ganhando confiança, e as poles foram acontecendo naturalmente. Não foi nada planejado antes, fomos desenvolvendo o carro, trabalhando nos finais de semana e, na hora, as poles vinham”, conta.
 
Acontece que a temporada 2019 da Stock Car está especialmente equilibrada. Parelha de maneira tão marcante que há nada menos que seis pilotos brigando pelo caneco com apenas três etapas pela frente: Serra, Ricardo Maurício, o próprio Camilo, Rubens Barrichello, Felipe Fraga e Júlio Campos, se bem que nem mesmo Gabriel Casagrande, em boa fase, possa ser descartado. O que falta para Camilo buscar, especialmente, os atuais líderes, Serrinha e Ricardinho? Desempenho é que não é, e as classificações e as corridas 1 provam isso.
 
“Acho que não tem faltado performance. Se formos ver as etapas em que eu venci a corrida 1, tirando no Velo Città, onde quebrei na 2, eu fui o maior pontuador, então não dá para dizer que é uma estratégia errada partir com tudo para vencer a primeira corrida. Em Campo Grande, que briguei com o Júlio Campos a corrida toda, terminei sem botão de ultrapassagem e pneu e, ainda assim, fui o maior pontuador”, diz.
 
“Talvez a gente pudesse administrar melhor isso outras vezes, mas é difícil abrir mão de uma vitória e aí ter uma quebra ou então largar no meio do pelotão e se envolver em um acidente de largada e perder tudo. É um jogo de perde e ganha, você precisa medir bem os riscos e acho que depende da situação de cada um. O Rubens [Barrichello], por exemplo, não tem performance nas classificações, então, o caso dele é bem diferente. Só resta para ele jogar com a estratégia, no top-3 é um pouco mais difícil pensar nas duas corridas, acho que às vezes nosso desempenho fica mascarado nas duas provas, mesmo assim, os resultados estão positivos”, pondera.
Thiago Camilo segue firme atrás do título
(Foto: Carsten Horst)

 

Thiago sempre foi um cara que confiou no próprio taco, sempre soube bem de seu potencial, mas 2019 tem sido um ano diferente. Não é só acreditar em seu potencial, mas saber que está em um grande time, com ótimas condições.
 
E é por isso que o paulista está tão confiante que finalmente virá o primeiro título da carreira na Stock Car. Respeitando os rivais e as equipes concorrentes, Camilo acha que o rendimento até aqui e a projeção das próximas provas são pontos bem animadores.
 
“Nunca estive tão confiante quanto hoje. E o que me faz ter tanta confiança é saber o carro que eu tenho. Cascavel, agora, se eu não tivesse o problema da queima de largada, tenho certeza absoluta que brigaria pela vitória por todos os fatores. Meu carro estava muito bom, estava administrando o começo de corrida, e segunda prova evidenciou isso, tínhamos muita performance. Foi, disparado, o melhor carro que eu tive na temporada, mesmo contando as corridas que a gente venceu. Dominei os treinos, perdi 0s1 na classificação na última curva que me tirou a pole, aquele detalhe da Stock Car”.
 
“Diferentemente de 2017, hoje temos como brigar por poles e vitórias. E o que me deixa mais confiante é que as próximas corridas são em Goiânia e Velo Città, provas que eu venci este ano e, como eu disse, nós evoluímos desde então, temos um pacote bem mais competitivo que nas etapas 2 e 3. Os outros também melhoraram, precisamos saber ainda quanto, mas nosso carro está melhor e não teve grande mudança técnica, então, não tem motivo para imaginarmos que estaremos mais fracos em relação ao começo do ano”.
 
Bem ao seu estilo, como um piloto que procura coisas concretas, Thiago só poderia apontar dois nomes como os principais rivais em 2019: os dois que estão à sua frente com três etapas pela frente. 
 
“Sempre olho os que estão na minha frente. Então, os mais fortes são os dois pilotos que estão na minha frente agora: o Daniel e o Ricardo [Maurício]. Lógico que o cenário também está positivo para o Fraga, que venceu nas últimas duas etapas, tem o Rubens, que trabalha na estratégia, mas, para mim, os mais fortes são os que estão liderando, independente de momento”, fala.
 
A mesma linha de pensamento é adotada quando o assunto é o melhor do campeonato. Por mais que se veja como um dos mais fortes, prefere valorizar o trabalho de todos os concorrentes ao título, mas, especialmente, de quem está na frente, seja pelo motivo que for.
 
“É difícil pensar no melhor piloto porque tem uma diferença de momentos. Nós começamos o ano muito bem, com quatro vitórias, cinco poles. Aí, na Corrida do Milhão e na consistência, o Ricardo cresceu no campeonato. O Daniel vem na constância de sempre, o Rubens com a estratégia dele, o Júlio está ali próximo, foi recordista de pontos em fim de semana mesmo oscilando um pouco mais, o Fraga começou abaixo, mas cresceu muito. Sinceramente, acho que estou fazendo um belo campeonato, talvez seja o melhor da minha carreira, mas me escolher talvez fosse soar um pouco como arrogância. Acho difícil falar na primeira pessoa, prefiro dizer que todos os que estão disputando o título tiveram seus momentos especiais e merecem estar na briga. Mas acho que os dois que estão na frente são os melhores", avalia.
A última etapa, disputada em Cascavel, foi daquelas que vão ficar para sempre na memória de Camilo. Os motivos são vários, passando por um ritmo muito forte nos treinos livres, seguindo por uma pole que escapou no detalhe e culminando em duas corridas malucas. Na primeira, nova punição por queima de largada, como havia sido em Goiânia, só que desta vez a decisão veio rapidamente, com um drive-through que o jogou para o fundo do pelotão.
 
Na primeira prova, pouco deu para fazer, foi coisa de juntar um pontinho ou outro e tentar economizar equipamento para reagir na corrida 2. Fechou em 14º, precisou largar do meio do pelotão e, na segunda prova, acabou a segunda colocação, atrás apenas de Átila Abreu. Longe de ter sido um bom fim de semana, mas ainda somou 28 pontos e se manteve no páreo. Assim, a corrida paranaense é citada pelo piloto tanto na escolha da pior quanto na escolha da melhor do ano.
 
“Minha melhor corrida foi a 2 de Cascavel. Mesmo com todas as adversidades, superei tudo, controlei o psicológico e saí de 14º para segundo, recuperei o campeonato ali. Precisava ser agressivo para recuperar as posições, mas também corria risco de me envolver em confusões, se eu fico de fora da corrida ali, o campeonato ia por água abaixo. Até aquela largada, eu tinha 30 pontos a menos que o Daniel, com ele largando na terceira fila e eu em 14º. Se ele chegasse à minha frente iria aumentar e, sinceramente, com 40 pontos [atrás], ou mais, precisaria de muita sorte para voltar para o campeonato. 16 pontos é bem mais viável a recuperação”, diz.
 
“E a pior corrida eu coloco a corrida 1 também de Cascavel por conta da punição, foi um desastre o que aconteceu. Eu tinha um carro para vencer e não concretizei o resultado. Acabei somando poucos pontos pelo equipamento que a gente tinha”, complementa.
Thiago Camilo vive grande fase
Foto: Carsten Horst)

 

A coragem de bater de frente

 
Os pilotos de muitos anos na Stock acabam adquirindo algumas características muito próprias. Camilo, por exemplo, é famoso por não guardar para si o que está sentindo, ser desprovido de vergonha ao se emocionar, reclamar do que acha errado e de falar abertamente sobre tudo. 
 
E o tema do momento com ele precisa ser punições e regras da Stock Car. Em Goiânia, no início do campeonato, venceu uma prova em que acabou horas depois de ter sofrido 20s de penalização por queima de largada, algo nada comum em categoria nenhuma, já que é uma infração que geralmente é notada e julgada nas primeiras voltas.
 
Os recursos devolveram o triunfo para Camilo semanas mais tarde, mas o tema voltou à pauta na última etapa, em Cascavel. Largando de terceiro, o paulista tocou a linha branca que separava os dois lados do grid e tomou um drive-through que comprometeu o final de semana todo.
 
Analisando as imagens, é fato que Thiago realmente passa por cima da linha, mas o lance se torna polêmico por alguns fatores. Para começar, a linha estava pintada de forma completamente torta, o que não permitia que os pilotos todos ocupassem o mesmo traçado, bem como impedia um julgamento das ações de quem estivesse mais para trás do grid. O segundo ponto é que, principalmente na corrida 2, muitos pilotos acabaram se mexendo para o lado antes da partida. A maior queixa de Thiago com a sanção sofrida está aí.
 
“Dentro da regra de hoje foi uma punição correta. Realmente encostei na linha branca e mereci a punição, mas isso não significa que eu concorde com ela. É uma punição extremamente dura para um piloto que está disputando o título, foi algo que não me trouxe benefício nenhum, não ganhei nada ali, aliás, perdi a corrida, tudo porque mexi, sei lá, 1 metro para o lado, um movimento muito sutil. Sinceramente, não acho que a gente precise disso na largada na Stock Car, é um mecanismo muito mais para deixar o grid compacto do que para outra coisa. Tecnicamente não se ganha nada com as linhas pintadas no chão para o piloto seguir. Se o piloto de Stock Car não sabe largar sem linha de direcionamento, quem vai saber? É até uma ironia. Mas, enfim, já foi, já aconteceu”, comenta.
 
“Hoje fui eu, amanhã pode ser outro piloto que cometa esse tipo de infração. Se olharem a câmera on-board do meu carro vão ver que o movimento que eu faço no volante é imperceptível para tocar a linha. Foi muito prejudicial, acabou com a minha corrida, eu poderia ter somado bons pontos, ter vencido aquela corrida e estar em outra situação no campeonato. E foi até um questionamento de vários pilotos em Cascavel essa linha, ela estava pintada bem torta, não estava reta, falei bastante disso lá, mas não foi feito nada a respeito. Agora, também não vou dizer que eu só queimei a largada porque a linha estava torta. Se eu fui o único a pisar na linha, alguma coisa errada tinha, eu cometi um erro de tocar, mas um erro que nem percebi. Outra coisa que pode ter atrapalhado foi a posição em que eu larguei. Talvez, se fosse o quinto e fizesse o mesmo movimento, os comissários não conseguiriam ver nas imagens, mas, como estava mais para frente, ficou muito evidente. Mas eu tenho certeza, analisando as imagens da largada da corrida 2, que vários carros tocam na linha, mas não dá para ver direito, então, é o que eu falo, se você não tem como analisar todos, não faz sentido punir. Ou pune todo mundo, ou não pune ninguém”, segue.
 
No entanto, por mais que aponte problemas na consistência das punições, Thiago reconhece também que a categoria e a CBA evoluíram no tema em relação a anos que foram bastante delicados. Em 2015, por exemplo, um esquema para prejudicar específicos pilotos foi descoberto. Muito precisou mudar desde então.
Thiago Camilo sempre foi um cara que fala o que pensa
Foto: Divulgação
Para Camilo, o sistema de revezamento de comissários é algo positivo e, por mais que seja um dos pilotos envolvidos nas polêmicas recentes de punições, o #21 garante que não vê uma perseguição, ou melhor, prefere nem perder tempo imaginando algo parecido e perdendo o foco.
 
“Aquele tipo de problema de 2015 eu acho que não temos mais, prefiro acreditar que exista boa vontade por parte dos comissários. O [Alfredo] Tambucci, que está na organização disso, tem feito um trabalho para profissionalizar a função, os procedimentos, a maneira de avaliar os casos, conseguimos evoluir muito nesse sentido. A situação de 2015, um pouco antes, um pouco depois, ali, sim, era precária, conseguimos sair disso, tivemos grandes mudanças. Teve a troca dos comissários, agora um rodízio, com alguns acompanhando a temporada e outros rotativos, o que não gera nenhum desconforto pelos pilotos. Acontece aquilo tipo futebol, de alguns clubes acharem que certos árbitros os prejudicam sempre, rolaria isso aqui, então, o rodízio é uma boa medida, a troca de comissários também”, explica.
 
“Sinceramente, não posso acreditar que exista algo pessoal contra mim ou contra qualquer outro piloto. Se ficar pensando nisso, vou tirar o foco real do que é o nosso objetivo e me preocupar com o que eu não devo me preocupar. De qualquer forma, ainda não é o nível de profissionalismo que se tem em outras áreas da categoria, mas, sem dúvidas, evoluiu de uns anos para cá”, pondera.
 
E a fama de falar sempre o que pensa? Pesa? Thiago acha que até pode ter algum efeito na hora de uma decisão mais complicada, mas garante que não vai mexer no jeito de ser que mostrou nas últimas décadas.
 
“Acho que isso tem um peso, falar tudo o que você pensa, afinal, do outro lado também estão seres humanos. Não posso falar por eles, mas eu acredito que isso tenha seu peso. Não temo ser prejudicado pelo meu jeito, se eu achar que devo falar, vou continuar falando, mas, de repente, em uma situação duvidosa comigo, acho que pode, sim, acabar indo para o lado da punição, de vez em quando, tenho a sensação de que eles me punem sem pensar duas vezes em lances assim. Agora, se isso acontece com todo mundo, não posso dizer, não estou na cabeça das pessoas, estou falando pela minha sensação, meu feeling”, avalia.

O ambiente na Stock Car

 
Muito se fala de como é difícil criar vínculos no automobilismo, um ambiente de tanta competitividade. Thiago acredita bastante nisso, mas também deixa claro que não tem inimizade com ninguém na Stock Car. O paulista tenta ter relacionamentos neutros, por mais que queira bem e fique feliz por alguns colegas.
 
“Tenho pessoas que me relaciono bem ali, mas amigo é uma palavra meio forte. Acho que amigo é aquele cara que você sai durante o fim de semana, conhece sua família, viaja junto e eu não tenho nenhum piloto na Stock Car que eu faça isso. É difícil, naquele ambiente competitivo, que um quer ganhar do outro, ter um amigo. Mas a convivência boa, querer bem o cara, torcer por ele, acho que isso tem, sim, mas não são muitos. É um ambiente bem complicado, não é bom para grandes amizades, vira e mexe você está na pista disputando posição, cada um defende o seu e, mesmo que seja de forma leal, alguma coisa pode sair do roteiro.  Mas também não tenho inimigos. Respeito todo mundo como piloto, de igual para igual, não tenho inimizades na Stock Car, pelo menos da minha parte”, assegura.
 
Outro tema recorrente em relação ao que rola na Stock Car tem a ver com as disputas de pistas e de como elas, algumas vezes, acabam sendo sujas. O piloto da Ipiranga concorda que elas existem, mas vê a maioria dos toques como coisa de corrida, principalmente de turismo.

 

“Acho que alguns pilotos não agem lealmente, alguns não pensam na hora de disputar posição e jogam o carro em cima mesmo de um cara que esteja disputando o título e não está nem aí, mas também vemos alguns toques que são inevitáveis e não só na Stock Car, mas em qualquer categoria de turismo. Acontece, um erro, às vezes um toque a mais, isso acontece também em uma categoria tão competitiva. No geral, acho que a maioria do grid é leal, muito mais do que os que vão para o tudo ou nada, que jogam o carro em cima mesmo para se beneficiarem de alguma situação”, diz.
 
Se o ambiente com os rivais não é dos mais puros, com a equipe segue tudo bem, tudo ótimo. Thiago valoriza bastante a sintonia que tem com o pessoal da equipe chefiada por Andreas Mattheis, uma relação que não começou outro dia.
 
“A relação é 100% positiva, todo mundo trabalha 100% sincronizado. Assim como acho que estou no meu melhor momento profissional, acho que o Andreas também está. Vejo ele como um cara feliz por seguir trabalhando em alto nível na Stock Car, ter recuperado a performance em 2019 e os mecânicos também muito bem, acho que não tem ambiente melhor. Tudo é consequência de estarmos em um ambiente muito legal e dos resultados estarem vindo, tudo tem fluído de maneira bastante natural por causa de tanta energia positiva e da forma de trabalhar que colocamos neste ano na Stock Car”, destaca.
 
Dentro da categoria, Thiago tem metas muito bem detalhadas. Além de ser campeão, quer seguir no time que está se dando tão bem, mas agora em vínculo mais longo, talvez até um que fosse o último de sua carreira, mas que livrasse qualquer tipo de preocupação com contrato pelos próximos anos.
 
“Quero o título de 2019 e tenho na minha cabeça que quero assinar um contrato um pouco mais longo para, quem sabe, no fim de um novo contrato, já que estou com 35 anos, procurar um novo cargo na categoria, no automobilismo, algo assim. É cedo para pensar em me aposentar, mas preciso de um contrato longo para poder pensar bem, ver o que vai acontecer, se ainda vou ter performance. Não conseguiria seguir na Stock Car sem performance, sempre fui um cara que briguei por vitórias, se eu parasse de desempenhar, não iria conseguir seguir. Você olha para o Rubens [Barrichello], é um cara extremamente competitivo até hoje, mas ele respira automobilismo, é um caso muito diferente de todos os outros. Então, eu pretendo avaliar o Thiago daqui cinco anos para ver como vou estar, se vou seguir na Stock Car ou se deverei pensar em outra alternativa dentro do automobilismo brasileiro”, fala.
 

A carreira

 
Se Camilo não esconde de ninguém que sente o fato de ainda não ter um caneco da Stock Car, também sabe valorizar bem o que já tem. Afinal, estamos falando de alguém que é top-5 da história da categoria em vitórias, que triunfou três vezes na Corrida do Milhão e que já disputou uma série de campeonatos até o final. 
 
“É uma carreira de grandes batalhas. Uma luta grande pelo meu objetivo principal, que é ser campeão da Stock Car. Já bati na trave algumas vezes, acho que profissionalmente estou vivendo meu melhor momento. De certa forma, é um pouco frustrante ser o segundo piloto mais vitorioso do grid e não ter ainda um título, ter o dobro de vitórias que pilotos campeões, até bicampeões e eu não ter ainda meu título com quase 30 vitórias. Não tem tanta coerência esses números, um campeonato, pelo menos, eu já deveria ter conquistado, mas não consegui ainda, por diversas situações, mas, no geral, acho que venho fazendo um bom trabalho na Stock Car, consegui escrever uma história na categoria, venci três vezes a Corrida do Milhão, mais ninguém tem isso, mas, de fato, acho que ainda falta um título para essa carreira, tenho consciência disso e trabalhei e trabalho ainda muito para alcançar esse objetivo de carreira. Mas, até aqui, avalio como uma carreira sólida, uma carreira de boas conquistas e grandes feitos, mas sem o principal deles, o título”, comenta.
 
Mas até que ponto vai o sonho de ser campeão? Não chega, por exemplo, a fazer Thiago escolher trocar suas três vitórias no Milhão. E é fácil entender o motivo, afinal, cada triunfo teve seu enredo especial.
 
“Não trocaria, não trocaria. São coisas diferentes, não sei nem o que vale mais ou menos, as vitórias no Milhão foram tão significativas para mim que eu não deixaria de vencer para ganhar um título. Correria e corro atrás do título da mesma forma, mas sem abrir mão disso, foram vitórias muito especiais, me trouxeram grandes coisas, grandes conquistas na minha vida, não só dinheiro, mas também status na categoria”, recorda.
Thiago Camilo é o recordista do Milhão
(Foto: Carsten Horst/Hyset)

Uma coisa que é bastante comum no grid da Stock Car é o sonho dos pilotos de correrem em categorias no exterior. DTM, Mundial de GT, WEC e Nascar são algumas que toda hora acabam sendo citadas pelas estrelas do campeonato. Thiago acha que já passou dessa fase e conta que refletiu bastante depois que foi para os EUA ver a Nascar de perto e as possibilidades que teria por lá.

“Já tive bem mais vontade de fazer outras coisas, de correr pela Nascar, por exemplo. Mas eu fiz uns testes no passado e perdi o tesão quando conheci a categoria mais de perto, por ver os obstáculos que eu teria de enfrentar, não que fosse impossível, mas seria outra história. Deixaria a posição de piloto com bom status, com um grande patrocinador, além de deixar a categoria sem o título, que é o principal, para começar uma carreira do zero lá, passando pelas categorias de base e sem ter a certeza de que daria certo, isso me tirou a vontade. Hoje, sinceramente, não tenho mais um sonho de correr fora do Brasil, de fazer alguma categoria ou corrida, o que tenho na cabeça é só concretizar meu objetivo de ser campeão e aí aproveitar as oportunidades que surgirem. Agora também tenho minha família, sou pai, não que seja impossível conciliar, mas acaba pesando num momento de escolha em que estou bem consolidado aqui no Brasil e na Stock Car”, justifica.

 

A mudança de vida do papai Thiago

 
Apesar de manter algumas características, Thiago se transformou de 2003 – ano de sua estreia – para cá. O paulista virou pai recentemente da pequena Luísa, que está prestes a completar 9 meses de idade. Isso, é claro, também faz parte de um processo de amadurecimento. Como homem, Camilo acha que cresceu com a convivência com algumas pessoas especiais.
 
“Mudou muita coisa. Acho que foi um amadurecimento geral, não só pessoal, mas também profissional. Brinco que eu gostaria de ter a idade de quando eu comecei com a experiência que eu tenho hoje. Acho que eu evoluí em todos os aspectos com a convivência, com o aprendizado, com tanta gente que conhece. Sou uma pessoa muito melhor do que quando eu comecei”, conta.
 
Profissionalmente, as mudanças também não foram poucas. Thiago segue como um dos mais arrojados do grid, mas mede melhor as disputas em que se mete.
 
“Quando eu entrei, era muito mais agressivo, ia mais para o tudo ou nada. Hoje em dia, sei administrar melhor uma disputa por campeonato, por exemplo. Talvez eu já tenha até perdido campeonatos por isso, porque já tive outros carros bons em situações diferentes. Talvez, com a experiência que tenho hoje, com o lado técnico mais desenvolvido e se pudesse voltar no tempo, talvez já pudesse ter sido campeão da Stock Car, mas, enfim, acho que as coisas acontecem como devem acontecer e da forma que devem acontecer. Precisa respeitar esse tempo, não adianta chorar o leite derramado, é correr atrás para concretizar os objetivos que se tem e é isso que eu tenho feito”, explica.
 
A vida como pai ainda é nova para o #21, mas ele garante que os efeitos já são dos maiores possíveis. Sabe aquela coisa do filho transformar os pais? Então, para Thiago é bem assim que tem acontecido, não só dentro de casa com Luísa e a esposa Mariana Sampaio.
 
“Está sendo muito bom. Sinceramente, não esperava nunca que um filho pudesse trazer tantas mudanças positivas para um ser humano. Hoje, enxergo muita coisa de maneira diferente, dou valor a coisas que não dava, não dou valor tanto a outras coisas que eu dava antes, procuro levar a vida bem mais leve, selecionar mais as pessoas que quero por perto, a energia delas. Procuro me envolver menos em conversas que não agregam em nada, que não te levam para frente, o ambiente dos boxes da Stock Car tem muita falação, muito leva e traz, então, hoje, procuro ir para o autódromo e só fazer meu trabalho, correr atrás do meu objetivo, isso tem muito a ver com a chegada da Luísa e da minha evolução enquanto ser humano. A Luísa me trouxe uma mudança radical em tudo, na maneira de pensar sobre a vida, sobre tudo”, detalha.
 
Além de curtir todos os momentos possíveis da pequena, Camilo gosta também de esportes, sempre esportes. O piloto é fanático pelo Flamengo, esteve na semifinal da Libertadores diante do Grêmio, mas gosta também de praticar outras modalidades além do automobilismo, como o próprio futebol.
 
“Sou um cara muito do esporte, 100% do esporte. Além de gostar muito de curtir com a minha família e de viajar, sempre procuro estar fazendo algum esporte. Gosto muito de jogar futevôlei, andar de wakeboard, jogar futebol, de assistir aos jogos do Flamengo, de ir a estádio. Minha vida é bem agitada, gosto bastante de treinar, de preparação física, de superar desafios em relação a performance, uma vida movimentada, sempre procuro coisas novas, não ficar parado e evoluir de alguma forma”, conta.
Thiago Camilo e a filha Luísa
(Foto: Arquivo Pessoal)

 

E quando chegar a hora de parar de correr? Bom, Thiago ainda não pensa nisso e garante que tem bastante lenha para queimar, como tem mostrado. Mas, nem por isso, o paulista deixa de lado o futuro e tem seus planos, ainda que não sejam definitivos. 
 
“No momento, não passa pela minha cabeça a aposentadoria. Obviamente, todo mundo vai se aposentar um dia, sei que vai chegar a hora de parar. Já pensei em algumas coisas para depois, penso em ter um cargo no automobilismo, seja ele qual for, de repente um chefe de equipe, diretor-técnico, até ter uma equipe em alguma categoria, depende do cenário dos próximos anos. Mas, com certeza, não quero me desligar do que eu faço hoje, eu amo isso, faço por prazer, acordo todo dia com tesão por ser piloto, por saber que tenho corrida, que disputo um campeonato da Stock Car, que tenho um grande patrocinador e isso eu sei que vai continuar pelo resto da minha vida”, completa.
 
O que se sabe é que Thiago Camilo vai seguir nas pistas ainda por um bom tempo e que vai continuar obstinado pela primeira taça da Stock Car. Se virá em 2019, ainda não é possível precisar. A única certeza que o piloto vai sempre ter sua personalidade forte e marcante.