Fabricação própria

Irmão do grande astro da MotoGP, Luca Marini chegou ao Mundial de Motovelocidade com pressão extra. Aos poucos, porém, o #10 vai construindo sua própria carreira e já ostenta até o rótulo de favorito ao título

Juliana Tesser, de São Paulo

Luca Marini desembarcou pela primeira vez no Mundial de Motovelocidade em 2013. Naquele meados de setembro, então com 16 anos recém completos, o italiano de Urbino esteve debaixo dos holofotes em Misano, mas não por algo que tenha feito nas classes menores, e sim por conta de seu DNA.

Filho de Massimo Marini e Stefania Palma, Luca é irmão de Valentino Rossi por parte de mãe. A ligação com o multicampeão foi o suficiente para que o #10 fosse o centro das atenções naquele GP de San Marino e da Riviera de Rimini e, isso, claro, trouxe consigo um sem número de comparações.

Depois daquele primeiro ― e único ― GP na Moto3, Marini voltou ao Mundial apenas em 2015, de novo em Misano, desta vez para correr como wild-card na Moto2 pela Forward. A titularidade veio no ano seguinte, quando Marini seguiu vestindo as cores do time de Giovanni Cuzari.

Membro da Academia de Pilotos VR46, Luca deu um novo passo na carreira no ano passado, quando passou vestir as cores da equipe que leva as iniciais de Valentino. E foi aí que as coisas mudaram.

Ao lado de Francesco Bagnaia ― que viria a ser coroado campeão no fim da temporada ―, Marini deu um salto de performance no time comandado por Pablo Nieto. A primeira grande mudança veio na classificação do GP da Holanda, quando o #10 estreou na primeira fila com um terceiro lugar. Na corrida seguinte, na Alemanha, Luca ganhou uma posição no grid e fez sua estreia no pódio com um terceiro lugar. Na sequência, em Brno, veio a primeira pole e mais um degrau no pódio.

A primeira vitória, no entanto, tardou um pouco mais, mas chegou para coroar um dia perfeito da VR46. Em 4 de novembro do ano passado, na Malásia, Luca cruzou a linha de chegada em Sepang puxando o pelotão, exatos 3s020 antes de Bagnaia, que chegou em terceiro para conquistar seu primeiro título Mundial ― o segundo da Academia de Tavullia, já que Franco Morbidelli tinha sido campeão no ano anterior. Só faltou mesmo uma vitória de Rossi, mas o #46 caiu quando liderava a corrida da MotoGP.

A evolução constante levou Luca a um novo patamar. Apesar de ter passado por uma cirurgia no ombro ― similar a de Marc Márquez ―, o italiano entrou na temporada carregando o rótulo de favorito ao título. Passadas as três primeiras etapas de 2019, Marini soma 27 pontos e ocupa a sexto posto colocação na classificação, 23 tentos atrás de Lorenzo Baldassarri, o líder do Mundial.

Luca Marino começou a temporada como um dos favoritos ao título
(Foto: VR46)

Às vésperas do GP da Espanha deste domingo (5), Marini conversou com o GRANDE PREMIUM, relembrou seu início no esporte e mostrou confiança em suas chances de brigar pelo título. Além disso, o piloto falou da relação com Rossi e com os demais integrantes da Academia de Pilotos VR46, que, além de Morbidelli, Bagnaia e Baldassari, tem nomes como Nicolò Bulega, Dennis Foggia e Andrea Migno, por exemplo.

Apesar de, na infância, Luca ter sido uma presença comum no paddock em corridas importantes de Rossi, o interesse pelas motos não nasceu em casa. 

“Tenho de ser honesto. Em Romanha, onde eu nasci e vivo, é bem comum andar de mini moto durante o fim de semana”, conta Luca. “Então, quando eu era criança, eu pedi aos meus pais para curtir este tipo de atividade com os meus amigos”, segue.

A opção pela carreira, no entanto, surgiu anos mais tarde. Aí sim por influência da VR46.

“Acho que quando eu era adolescente. Eu estava competindo no Campeonato Italiano ― CIV ― e depois no Espanhol ― CEV ― e eu entendi que esse era o meu caminho”, diz. “Além disso, acho que o apoio total da Academia de Pilotos VR46 me ajudou nesse passo crucial”, pondera.

O mundo das motos, no entanto, não era a única opção de Marini, que podia ter vestido o #10 em outra modalidade.

“Quando eu era criança, era bem bom no futebol”, revela ao GP*. “Eu me interesso bastante em todos os tipos de esportes. Desde o futebol ― sou torcedor da Roma e um enorme fã de Francesco Totti ― até o tênis, passando por F1, basquete e etc. Também amo vídeo games”, lista.

Vindo de uma família que conhece intimamente o mundo da motovelocidade, Luca teve apoio em sua opção profissional e mantém uma relação próxima com a mãe.

“Ela sempre apoiou a mim e ao meu irmão. Não apenas em nossas carreiras no motociclismo, mas em todas as atividades em que nos envolvemos”, declara. “Estou sempre em contato com ela pelo celular, por mensagem, chamadas de voz e etc. Ela me ajuda a analisar as situações, sempre tem tempo para me ouvir e me dá uma ajuda incrível e única”, exalta.

A influência de Valentino na carreira, porém, é notória. O próprio #46 já admitiu que pressionou para que o irmão fosse direto para a Moto2. O piloto da Yamaha considerava que o 1,84 metro de Luca fosse um empecilho para a classe menor.

A primeira vitória de Marini foi no GP da Malásia do ano passado
(Foto: VR46)

Questionado se sentiu falta da experiência da categoria de entrada do certamente, Luca respondeu: “Acho que correr na Moto3 teria sido útil no meu crescimento, mas, na época, em 2015, era impossível”. 

“Eu era realmente alto e essa talvez fosse a escolha errada”, reconhece. “Com certeza, no meu caminho no paddock da MotoGP, eu perdi a experiência das batalhas, típicas da Moto3”, sublinha.

Mas se faltou a experiência da batalha corpo a corpo, Luca tem a chance de compensar no trabalho feito dentro da Academia, onde se prepara para as corridas ao lado de pilotos das três classes. 

“Temos sorte por fazer parte disso, também tenho sorte por fazer parte da Sky Racing Team VR46. Tenho uma equipe incrível por trás de mim, pronta para me apoiar com grande profissionalismo, experiência e uma abordagem familiar”, admite Luca ao GRANDE PREMIUM. “Na Academia de Pilotos VR46 somos um grupo de jovens pilotos, compartilhamos todos os aspectos das nossas vidas, desde a academia até o Rancho [a pista privada de Rossi], até os fins de semana se corrida e as sessões de treino”, aponta.

“Com certeza, compartilhar todos os aspectos do seu treinamento é uma oportunidade única, porque o nível é sempre muito alto e isso nos faz melhorar a cada dia”, insiste.

Marini reconhece, também, que a convivência com Pecco no caminho ao titulo do ano passado na Moto2 foi um fator importante em seu processo de crescimento.

“Franco e Pecco fizeram um ótimo trabalho graças à Academia e o comprometimento deles. No ano passado, tive a incrível oportunidade de trabalhar ao lado de Pecco na mesma garagem na Sky Racing Team VR46. Graças a Pablo e a toda equipe, nós pudemos criar uma atmosfera única”, comenta. “O trabalho de equipe que fizemos juntos nos permitiu conquistar muitos pódios, ótimos resultados e um domingo incrível na Malásia, o dia da minha primeira vitória e do título de Pecco. Acho que eu, Pecco e todos os caras do time nunca vamos esquecer”, segue.

Vivendo em um mundo onde é normal rotular pilotos como rivais e ao invés de amigos, Luca entende que a proximidade com os outros integrantes da VR46 facilita a criação de laços.

“Nós vivemos juntos, compartilhamos as sessões de treinos, corridas e a mesma paixão incrível por motos. É bem normal criar essa relação forte com esses caras”, defende.

Questionado se a evolução dos resultados foi uma consequência da troca da Forward pela VR46, Marini respondeu: “Com certeza, tenho de agradecer a Sky e a time pelo grande passo à frente que pude dar no ano passado. Eles me deram um apoio enorme ― não só na pista ― e criaram uma equipe incrível por trás de mim com técnicos e mecânicos de primeira linha. Além disso, a presença de Pecco foi uma motivação extra para eu melhorar”.

Luca elogiou a mudança no equipamento da Moto2
(Foto: VR46)

Embora saiba apontar exatamente o que motivou sua melhora, Marini sente a falta de palavras para explicar a sensação de vencer pela primeira vez no Mundial.

“É impossível descrever em algumas palavras”, afirma ao GP*. “Foi especial para mim e para todo o time. Eu venci minha primeira corrida, Pecco conquistou o título mundial no mesmo dia e meu irmão estava esperando por nós durante a volta de honra”, relata. 

“É difícil encontrar as palavras certas para explicar a nossa sensação. Acho que nem um livro todo seria o bastante”, avalia.

Entrando em seu quarto ano consecutivo como titular da Moto2, Luca entende que é hoje um piloto bastante diferente daquele que fez uma única corrida na Moto3.

“Sou um piloto mais experiente, posso sentir melhor a moto, dar informações mais completas à equipe e aos técnicos, controlar melhor algumas situações de estresse”, pontua. “Mas meu caminho de crescimento ainda não acabou”, avisa.

2019, porém, começou um pouco mais difícil, já que o companheiro de equipe de Nicolò Bulega teve de passar por uma operação para resolver um problema no ombro.

“No fim do ano passado, decidi passar por uma cirurgia no ombro para estar 100% em forma para a temporada 2019. Eu sabia que seria difícil no início, mas estou bem 100%”, comenta. “Também estou feliz, porque eu consegui chegar ao top-10 nas primeiras corridas. Um bom resultado considerando a dor”, pondera.

Apesar se já ter algum atraso na classificação do Mundial, Luca acredita que o sonho do título ainda não está perdido. 

“O campeonato ainda está aberto”, garante. “Nós temos muitos pilotos competitivos com motos diferentes e isso é legal para os fãs e todo o mundo do motociclismo. A disputa ainda está aberta”, frisa. 

“A temporada é longa e nós podemos reduzir a distância para os caras mais fortes”, assegura.

O abraço dos irmãos após a vitória de Marini na Malásia em 2018
(Foto: Divulgação/MotoGP)

2019, aliás, é um ano importante para a Moto2, já que saíram de cena os motores Honda de 600cc, dando lugar aos Triumph três cilindros de 765cc.

“Estou realmente feliz com esta nova moto e o motor. Nós temos mais potência à disposição e isso é ótimo”, elogia. “Isso faz com que você tenha de mudar um pouco seu estilo de pilotagem, mas você também tem mais freio motor e pode frear mais forte. Considerando que tem só três cilindros, a moto é menor. O câmbio é singular e nós temos mais eletrônica à disposição. Você pode brincar um pouco mais em comparação com o ano passado”, constata.

Ganhando mais e mais experiência na Moto2, o passo natural é pensar na MotoGP, mas Luca não quer apressar as coisas. Mesmo reconhecendo que, assim como muitos de seus colegas, sonha em correr ao lado de Valentino na divisão principal.

“Correr na MotoGP é o sonho de todos os jovens pilotos nas classes menores. Correr na MotoGP com Valentino Rossi é um sonho para todos”, fala. “Então também é o meu sonho, mas não quero me apressar. Quero fazer as coisas certas, no momento certo e chegar lá bem preparado”, explica.

Aos 20 anos, Luca tem consciência de que seus laços familiares o colocam em sob um holofote diferente, mas também já nota diferenças no tratamento que recebe das pessoas. E sem perder a admiração que tem pelo irmão mais velho.

“Tenho muito orgulho de ser irmão dele”, declara. Não só porque ele é um piloto incrível, mas porque ele é uma pessoa incrível”, exalta. 

“No início, muitas pessoas olhavam para mim só porque sou irmão dele, mas agora, graças aos resultados, graças ao que consegui mostrar na moto, elas começaram a falar sobre mim”, relata. “Até o ano passado, 70% das perguntas em uma entrevista eram sobre ele e não sobre mim. Agora é um pouco melhor”, revela.

Por fim, ao ser perguntado sobre como descreveria o irmão, Luca exalta não apenas a qualidade na pista, mas o lado humano e o trabalho com jovens pilotos.

“Ele é, com certeza, um ótimo piloto, mas, ao mesmo tempo, uma ótima pessoa”, responde. “O que ele está fazendo por nós na Academia é algo único”, conclui.