Lito Cavalcanti

Lito Cavalcanti tem mais de 50 anos de vivência no jornalismo e automobilismo. Já fez de um tudo e passou os últimos 24 anos nas telas do SporTV com as transmissões da F1. Uma das figuras mais conhecidas do esporte no Brasil, falou ao GRANDE PREMIUM

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro

Se você é um fã da F1 com 35 anos de idade ou menos, invariavelmente cresceu com a voz e a imagem de Lito Cavalcanti, que passou 24 seguidos nas transmissões do SporTV. Se você é um fã de automobilismo, qualquer coisa relacionada ao esporte, e tem 60 anos ou menos, cresceu e formou interesse com as colunas e matérias assinadas por Lito em jornais impressos, revistas e, claro, com as opiniões da TV. Não há quem desconheça Lito Cavalcanti no automobilismo brasileiro.

Ao GRANDE PREMIUM, o carioca da Zona Sul que adotou São Paulo como casa há 45 anos abriu sua história. O que o leitor vai acompanhar nesta página, nas linhas que vêm adiante, é mais que apenas a história de alguém. É um manifesto. Aqui, junto da obra de Lito Cavalcanti, estão outras histórias: a do jornalismo impresso carioca que ascendia na virada dos anos 1960 para 1970, dos primeiros dias de produção de programas de TV e suas mudanças desde as moviolas até o off-tube, do mercado de informações pré-internet e do automobilismo, nacional e internacional.

Boa leitura.

Lito Cavalcanti
Facebook/Lito Cavalcanti

Máquinas, motores e canetas

Apesar da carreira que construiu, Lito não tinha o jornalismo como primeira opção na hora de, ainda bastante jovem, definir o que faria da vida. Criado no bairro do Flamengo, o botafoguense carioca decidiu que seria engenheiro e iria trabalhar com a paixão arrebatadora que era correspondida desde os tempos de criança: carros de corrida. Mas a engenharia não teve o resultado esperado, dessas coisas que a vida tem, e Lito foi para o direito. O futuro não estava naquele feudo.

“Fiz dois anos de engenharia operacional, máquinas e motores. Gostava muito do tema, mas não gostava da escola em si, não estava contente. Decidi ir fazer direito, era aquela época da vida em que você não sabe o que quer fazer mas tem que fazer alguma coisa.”

“Por outro lado, tinha alguns amigos de rua, que são meus amigos até hoje, e formávamos um grupo chamado Street Racing Team - isso era comum no Rio na época. Um desses amigos era o Fernando Calmon, um dos grandes do jornalismo automotivo, talvez o maior atualmente. O Fernando já era bem ocupado com o jornalismo e área esportiva. Ele tinha um programa chamado 'Grand Prix' na TV Tupi, uma coluna na revista 'O Cruzeiro' e uma coluna diária no 'Jornal dos Sports'. Trabalho pra diabo! Um dia, com a gente conversando, ele me perguntou se eu sabia escrever bem. Eu sempre li muito, estudava, então disse que escrevia bem, sim. Perguntou, então, se eu queria trabalhar com ele jornal.”

A bem da verdade, antes de Fernando Calmon e do primeiro convite formal, Lito passara por um vestibular alguns anos antes. Uma rápida e importante preparação para quem ainda tinha pela frente um futuro do qual não tinha qualquer ideia.

“Em 1968, já tinha passado por uma experiência. Eu tinha um colega de faculdade que a família era dona de um jornal de Fortaleza, a ‘Gazeta do Ceará’. Na época eu era bandeirinha das corridas no Rio, no Fundão e na Barra, mas ia ter os 1000 km de Brasília, que era uma súper corrida. Ia tudo quanto era equipe, ia Emerson [Fittipaldi], Bird [Clemente], José Carlos Pace e muito mais gente. Eu sonhava assistir.”

“Perguntei a esse meu amigo se ele me arrumava uma carteira de jornalista e disse que eu fazia a matéria para eles. Ele concordou, mandou vir do jornal, e eu fiquei sem saber um pouco como ia fazer, já que eu nunca tinha sido repórter e tinha que fazer a matéria. Cheguei no centro de imprensa, que na verdade era só um espaço, e fui falar com o assessor, que ainda nem levava esse nome. Era um jornalista famoso na época, mas eu cheguei, mostrei a carteira e ele nem titubeou: deu a credencial. Saí de lá delirando de alegria.”

“Nem escrever a matéria direito eu consegui: como era muito ruim de máquina de escrever e minha caligrafia sempre foi monstruosa de ruim, ditei a matéria para a minha namorada - hoje minha esposa - escrever para mim. Com tudo manuscrito, mandamos por correios, olha como era. A matéria saiu publicada ipsis litteris, não mudaram nada. Achei legal e fiquei esperando o próximo capítulo, mas nunca houve. Até o Calmon me chamar para o Jornal dos Sports.”

A tradicional capa rosa do Jornal dos Sports. Nesse caso, em 1971
Reprodução

A chegada de Lito ao ‘Jornal dos Sports’ - então um gigante de cena carioca, especialmente pela linha editorial de vanguarda com relação ao movimento de contracultura que surgia na cidade, apoiada pelas direções de Mário Filho e Mário Júlio Rodrigues – foi num momento importante para o automobilismo brasileiro. O país preparava o terreno para receber a Fórmula 1 e começava a ver o destaque de Emerson Fittipaldi na categoria.

“Já era início dos anos 1970, o Brasil estava se preparando para receber a F1: tinha o Torneio BUA de F-Ford, que o Emerson correu no final de 1969. Ele tinha ido correr a F-Ford e, mesmo indo para a F3, foi campeão. Mas correu aqui também, teve torneio de F3, F2... Já estava no Jornal do Sports e comecei a cobrir, a ser enviado para São Paulo. Até que teve uma hora em que o Fernando saiu do jornal, e eu fiquei como o titular do automobilismo.”

“Como eu estava mostrando um certo jeito para o negócio, em três meses passei a ser o subeditor de esporte amador junto com o Mário Paulo Nunes, que o pessoal da velha guarda do Rio vai lembrar bem, era um excelente jornalista. Essa turma do Jornal dos Sports, aliás, era muito boa. O editor era o Zé Trajano - que tinha sido meu colega de colégio no São Bento, estudamos juntos dois anos - tinha o João Máximo, Luiz Roberto Porto - o Robertão -, Vicente Senna, Paulo Murilo, caras espetaculares de texto, de apuração e com uma enorme generosidade. Ensinavam tintim por tintim, coisas que nunca foram vistas em outro lugar. A primeira vez que eu fui cobrir um GP da F1, na Argentina, o Robertão me chamou na casa dele, um sábado pela manhã, para dar dicas gerais, um passo a passo. Foi muito legal.”

Aquele começo de estrada no ‘Jornal dos Sports’ deu a Lito a oportunidade de sair apenas do campo do automobilismo e do esporte: agora jornalista, viu o mundo e, como jornalistas de verdade fazem, reportou o mundo.

Uma dessas passagem foi a primeira visita à África do Sul. Falar apenas de carros de corrida ali era pouco, havia algo maior que precisava ser narrado e descrito em tempos de escassas notícias.

“E, aí, começou a pintar cobertura de F1, e uma se destacou. GP da África do Sul de 1973, época do Apartheid. Naquela época, quando você pedia o visto de entrada para jornalistas, tinha que se comprometer a escrever apenas sobre as corridas. E a situação lá era negro de um lado, o ruim, branco de outro, o bom. Aquilo me chocou, porque eu tinha muitos amigos [negros]. Eu morava no Edifício dos Bancários, que até hoje corta a Marquês de Abrantes e a Senador Vergueiro [no bairro do Flamengo, Zona Sul do Rio de Janeiro]. Lá tinha uma quadra, então a molecada do Morro Azul - onde hoje é a entrada do metrô da Marques de Abrantes - descia e jogava com a gente. Era todo mundo amigo, convivia, jogava futebol junto. A cor não fazia a menor diferença.”

“Então, quando cheguei lá e vi ônibus com assentos em que estava escrito 'Europeans Only [Somente Europeus]', para os brancos, e para negros não tinha nada, nada, aquilo me deixou chocado. Fiz uma matéria sobre. Não sabia o que ia ser daquela matéria, mas mandei. E o pessoal do 'Jornal dos Sports' publicou. Era uma galera com preocupação social grande. Foi muito legal, o João Máximo publicou na coluna dele um elogio ao meu trabalho.”

Nelson Rodrigues e Mário Filho, irmãos que agigantaram o Jornal dos Sports
Arquivo Pessoal/Família Rodrigues

Mas os tempos estavam mudando. No Brasil da ditadura militar, instalada na década anterior, uma mudança nas diretrizes diretivas podia alterar por completo um veículo de uma hora para outra. Mário Filho morrera em 1966 e Mário Júlio, seu filho, dirigiu a redação de 1967 até 1972, quando também morreu. ‘Jornal dos Sports’ foi para as mãos da segunda esposa de Mário Júlio, Cacilda de Souza.

Em poucos meses, a nova diretora desmantelou o grupo que lá estava e colocou um militar para ser o novo chefe de redação: o coronel Geraldo Magalhães.

“Bom, depois o Trajano saiu, foi para o 'Diário de Notícias' e me convidou para ir também - e eu fui. Estávamos lá eu, Trajano, Luiz Antônio Nascimento - que foi diretor do 'Fantástico' por muitos anos -, mas murchou. O negócio estava entrando em crise. Eu me casei, já estava trabalhando no 'Última Hora', isso em 1974, como coeditor de esporte junto do Kalil Peixoto. Éramos pouquíssimos experientes, mas levávamos jeito e o pessoal da editoria central corrigia eventuais exageros e a coisa andava.”

“A situação começou a complicar em 'Última Hora', muito corte de pessoal, e eu vi que não ia dar certo e pedi demissão. E vim a São Paulo, onde tinha feitos alguns amigos na imprensa, especialmente o Cecílio Favoretto, que era chefe de esportes na Agência Folha. Ele gostava muito de automobilismo, mas não conhecia muitos aspectos ainda, e a gente trocava informação. Ajudava ele, e então vim a São Paulo fazer uma pesquisa de emprego.”

“Cheguei em Interlagos no meio de uma corrida, acho que de Campeonato Paulista, e contei que estava pensando em vir morar em São Paulo e perguntei se ele sabia de alguma coisa disponível. Disse que sim e que era para passar na Agência Folha no dia seguinte, porque tinha vaga. Mas que não era no esporte, era na editoria geral. Bom, desempregado, né? Fui lá e fiz um teste - era um teste mesmo - com uns três menos experientes que eu. O teste era primário: pegaram o texto e mandaram fazer um outro texto em cima daquele.”

A busca pelo emprego deu certo, e Lito fez mais uma mudança que seria enorme decisão em sua vida: deixou o Rio de Janeiro e rumou a São Paulo de mala e cuia.

“Fiz, fui aprovado e voltei para o Rio para pegar minhas coisas. Falei para minha mulher 'ó, tô indo pra São Paulo' - na época ela trabalhava na IBM, era o único salário da casa. Respondeu que tudo bem e que a gente ia ver o que aconteceria. E assim nós fizemos: eu ia visitar no Rio e ela vinha a São Paulo, mas ela sempre quis trabalhar em São Paulo. No ano seguinte, 1975, pediu transferência e nos estabelecemos na cidade.”

Favoretto não foi a única pessoa que Lito procurou: se o Rio de Janeiro era um deserto laboral, a capital paulista mostrava abundância.

“O Fernando Calmon também tinha se mudado para São Paulo nesse meio-tempo e estava fazendo o 'Grand Prix' - que eu já tinha feito com ele na TV Tupi do Rio, sem VT e com edição na moviola e roteiros em mimeógrafo. Eu era redator, produtor e editor de imagem, éramos só nós dois, eu cheguei até a apresentar.”

“Mas tinha ficado ruim na Tupi do Rio, os caras começaram a pagar a gente com vale de supermercado. O Fernando veio para São Paulo porque a Tupi daqui era independente da Tupi do Rio. Ele transferiu o 'Grand Prix' para cá. Liguei para o hotel em que ele estava, descobri o quarto e bati lá, o Fernando nem sabia que eu estava em São Paulo. 'Ué, o que você tá fazendo aqui?', ele me perguntou. Quando eu disse que tinha ido trabalhar, ele 'ótimo, então você vai fazer o Grand Prix comigo'. No fim do ano, eu tinha um emprego na 'Folha', um na Tupi e o Mauro Forjaz, que era o editor-chefe da revista 'Auto Esporte', precisava de alguém em São Paulo. Tinha três empregos! Pensei 'pô, nunca mais saio daqui'. No Rio de Janeiro não tinha nem freelance, quando muito a [revista] 'Placar' queria alguma coisa, mas era uma vez a cada dois meses.”

O 'Grand Prix', com Fernando Calmon, que Lito Cavalcanti punha no ar
Arquivo/Fernando Calmon

A construção do comentarista

O jornalismo permite e obriga variações do trabalho em algumas situações. Lito passou o último ¼ de século nas telas da mesma TV e está nas telinhas há mais tempo que isso, mas grande parte da história do profissional Lito, descrita até agora, foi trabalhando as chamadas notícias factuais e matérias especiais. É uma função bastante diferente de fazer comentários e análises imediatas em resposta ao que acaba de acontecer.

A dificuldade para virar a chave seria natural, mas Lito garante: os caminhos pelos quais a carreira o levou foram preparatórios e garantiram que não houvesse dificuldade na mudança.

“Não, não tinha [dificuldade]. Durante muito tempo eu trabalhei fora do automobilismo. Por exemplo, teve uma época que eu saí da 'Folha', era muito trabalho. Comecei a fazer freelancer para 'O Globo', isso já por 1978. O Celso Itiberê, que era o editor de esportes no Rio, indicou e eu comecei a fazer freelancer de automobilismo para 'O Globo'. Tinha me dado bem, e logo fui chamado para chefiar o esporte.”

“Enquanto eu chefiava, chegou uma revista chamada 'Tênis Esporte', que era de um cara louco por tênis e que resolveu fazer um revistaço. Ele contratou o Trajano, que me chamou e eu comecei a trabalhar em revista mensal como repórter especial. É totalmente diferente de jornal, uma coisa mais comentada, que já foi parte do meu aprendizado para comentários e ir além do hard news. Depois saí da 'Tênis Esporte' e fui trabalhar na 'Isto É', uma revista semanal que era mais comentada ainda. Naquela época, a 'Isto É' era a anti-'Veja'. Foi um aprendizado maravilhoso também. Então eu já estava acostumado com matérias de mais projeção e comentário, ao passo que eu fazia coisas também para a rádio 'Eldorado'. Não tive maiores problemas.”

Jornais, revistas semanais e mensais, agências, rádio e TV – sobretudo atrás das precárias câmeras da Tupi – Lito fez de um tudo. Passar para a frente das novas câmeras de TV era um passo natural e que veio por meio da também já finada Manchete.

“Comecei na TV, na verdade, em 1989. Era uma corrida de F3 Sul-Americana, eu tinha ido ver um amigo daquela turma de rua, o Ricardo Cosac, que estava correndo no Brasileiro de Marcas - que corria junto da F3. A corrida era em Curitiba, ele me chamou, saiu do Rio, passou por aqui e me buscou. Quando chego lá, a corrida da F3 ia rolar e tinha transmissão da TV Manchete.”

A chamada da TV Manchete para a F-Ford
Reprodução

“O Toninho de Souza, meu velho amigo dos tempos da 'Auto Esporte', era o promotor da categoria e me chamou para comentar a corrida na televisão. Eu, metido que era, aceitei. A última vez que eu tinha trabalhado em televisão já fazia alguns anos e eu tinha sido redator. Comentarista, nunca. Mas era o mais preparado ali. Éramos Luiz Carlos Largo e eu. Claro que me dei o trabalho de estudar a F3 antes - era a primeira corrida da categoria que eu assistia pessoalmente, mas conhecia alguns nomes. Cheguei lá e, assim que o Largo me chamou, falei, falei e falei, quase que não devolvo [a transmissão]. E deu certo. Quando terminou, resolveram que era eu o cara e tinha que segurar.”

A modernidade daquelas cercanias da década de 1990 salvou o emprego de Lito, que não podia viajar até a prova seguinte. No fim da semana da primeira eleição direta para a presidência da República após a ditadura militar, a Argentina era a sede. E, aí, o agora comentarista Lito aprendeu um termo novo.

“O Toninho perguntou se eu queria fazer a próxima, em Buenos Aires, mas era dia de eleição. Ele ofereceu de fazer off-tube [do estúdio, sem deslocamento até o evento], eu nem sabia o que era esse termo ainda. Falar sobre aquele assunto era fácil. Fiquei na Manchete e comecei a fazer F3, Brasileiro de Marcas, F-Ford e foi indo até que o Dácio Campos, antigo comentarista de tênis, indicou para o Manduca Nogueira, que era o chefe do SporTV ainda começando.”

“Eu estava no Rio um dia e fui lá - a gente se conhecia dos torneios de tênis que o pai dele, o Armando Nogueira, jogava, mas sem um contato maior. Começamos a conversar, e ele disse que ainda não tinha alguns contatos do automobilismo. Na hora eu liguei, passei o telefone, e o Manduca viu que eu tinha alguma penetração no meio e me chamou para comentar a F1.”

“Na época, a Globo tinha os direitos e deixava que a gente passasse o VT em horário alternativo, aquela velha história. E, aí, olha como era arriscada a coisa e curta a grana do SporTV: eu saía daqui de São Paulo de manhã no domingo, pegava o voo das 7h, corria para lá e fazia a corrida com o Luiz Carlos Júnior, que era o principal e quase o único narrador da época. E foi indo e deu no que deu.”

Mas não foi apenas a TV que se apresentou como um passo natural para Lito. Ainda no fim daqueles anos 1970, as seguidas viagens mundo afora estreitaram relações entre ele e jornalistas estrangeiros. As páginas do planeta se abriram, então.

“Ao mesmo tempo, em 1978, fui fazer uma corrida de F2 na Argentina e entrei em contato com a imprensa estrangeira - meu inglês na época era pouco praticado, mais lido que falado, e eu não entendi 90% do que falaram para mim nos dias em que eu estive lá. Mas fizemos amizade, especialmente com o Jeff Hutchinson, que era o editor de F1 da [revista] 'Autosport' na época. Ele pediu para eu cobrir o primeiro teste do Jody Scheckter pela Ferrari, aqui no Brasil, em fevereiro de 1979 - o Scheckter seria campeão mundial naquele ano. Fui lá, fiz a cobertura para ele e para uma revista francesa. E virei correspondente da 'Autosport'. Olha, 1979, quanto tempo eu sou correspondente deles. Não sou funcionário, mas meu nome está no expediente deles tem 40 anos.”

Engenheiro, preparador e até piloto

Toda essa história acima descrita nas páginas de jornais e revistas, ondas radiofônicas e imagem na TV, aconteceu por vários motivos, claro, mas um deles é o principal, o pilar de como Lito se desenvolveu como pessoa: o automobilismo.

A paixão vem praticamente de berço, ainda como uma criança impressionada com o rugido dos motores que singravam a cidade e passavam pela janela da casa, Lito sabia que queria mexer com aquilo e, dentro desse mundo, fez bastante coisa antes das cabines.

“Desde que eu me entendo por gente [é apaixonado]. Às vezes o carro com descarga aberta passava na minha rua, e eu ficava maluco, queria saber o que era aquilo. Meu pai falava que era carro de corrida. Depois, já com 15 ou 16 anos, ia muito para Itaipava [distrito de Petrópolis, região Serrana do Rio] e tinha tios de amigos que ensinavam a gente o que era uma derrapagem controlada - que hoje chamam drift e era uma estratégia muito usada quando você fazia curva com carro que saía de traseira. Sempre gostei muito de mecânica, física, então sempre tive uma paixão.”

“Entrei no curso de engenharia, máquinas e motores, e foi uma grande decepção. Os colegas eram um deserto, tanto pelo lado cultural quanto pelo interesse, que não era exatamente a mecânica, mas o que iam fazer no fim de semana. Mas tinha um colega que era mais parecido comigo, o Antenor. Éramos muito amigos, e ele foi trabalhar como estagiário na oficina de Vemag do Norman Casari, que chamava Cota. E lá ele conheceu um mecânico, um dos principais, que queria sair e montar uma oficina própria. Veio falar comigo, e, aí, criamos uma sociedade e abrimos a oficina.”

“Como éramos os três apaixonados por corridas, acabamos entrando no ramo: fomos campeões cariocas na categoria 851 a 1300cc, em que só corria Vemag, mas tinha muito Vemag, a DKW estava popular na época. Fomos campeões com o Renato Malcotti, que nunca pagou as despesas. O resultado é que a oficina fechou as portas, falida. Foi aí que veio aquele começo da história, o Fernando Calmon e tal. Até lá eu ia ser mecânico e preparador de carros de corrida, era o que eu queria fazer, mas me deixei seduzir pela ideia de ser jornalista, conversar com os pilotos, entrar nos boxes, ir para as corridas. Quando o Fernando me chamou, foi um sonho se realizando.”

Depois de enveredar pelos caminhos da notícia, Lito ainda teve uma incursão na pista atrás do volante. E, mesmo sem nunca tratar como algo sério, teve algum sucesso entre outros pilotos amadores.

"Participei de duas corridas em Interlagos e venci as duas. Era no curso de pilotagem do Expedito Marazzi, que trabalhava com a gente na 'Auto Esporte'. Ele chamava a mim e ao Zampa [Marcus Zamponi] para participar das corridas que ele organizava lá, mesmo que nós não fossemos alunos do curso. O Expedito era genial, um apaixonado por corridas, engenheiro e jornalista. A gente foi, o Zampa com um Passat 1.500cc standard que ele tinha e eu com um outro Passat, que era uma cavalice. Era um modelo TS, que tinha motor 1.600cc, e o meu foi um dos primeiros a ser vendido. Passei na oficina do Vinícius Losacco, de quem eu era e ainda sou grande amigo, e ele estava atrás de um motor do TS. Só que não encontrava."

"Aí, propôs uma troca: eu dava meu motor para ele correr em Tarumã e ele fazia para mim um 1.800cc com comando Berta de rali, dois carburadores Webber duplos e tudo que tinha direito. O carro era um foguete, naquela época se acelerava muito nas ruas, principalmente nas marginais, eu nunca tomei pau com aquele carro. E nas corridas foi a mesma coisa. O grid era por sorteio, o Zampa alinhou na pole e eu em sétimo. Era o circuito antigo de Interlagos. O Zampa espremeu dois caras na entrada da curva 1 e deixou, propositalmente, a porta aberta para mim. Quando entramos na reta eu já era o primeiro, com um Opala também brabo bufando atrás de mim. Mas não deu para ele, tinha cinco voltas e ele chegou a me dar duas porradas por trás na saída do Bico de Pato, mas ganhei a primeira e a segunda, do mesmo jeito."

A batida no Bico de Pato do antigo traçado de Interlagos foi o suficiente para ver que aquela não era uma alternativa de verdade nem no caso de resolver mudar o ofício.

"Ali eu vi que não dava para ser piloto. Morri de medo de me estatelar num guard-rail e chegar em casa dizendo para minha mulher que nosso carro não existia mais. Mas fiz várias incursões nos cursos de pilotagem dos amigos, andei com F-Vê, com carros de turismo no curso do Manzini, fui recordista da imprensa no velho Interlagos, 2min29s. Era diversão, mas acima de tudo paixão. Só que quem ganhou aquelas corridas foi o motorzão que o Vinícus fez para mim... Até hoje o 1.600cc está no Passat com que ele fez algumas corridas de Históricos. E ele ganhou a corrida de Tarumã com esse motor."

A paixão, fora do jornalismo, sempre foi mesmo preparar carros. “Eu tive também um carro de F-Ford, fui dono de equipe - de um carro só, mas fui. Meu carro quebrou recorde em Interlagos - o F-Ford antigo - na mão do Marcos Troncon. Élvio Divani guiou o carro também. Esse carro foi do Xandy Negrão, mas não funcionava bem. O Xandy disputava com o Carlos Abdalla correndo com um Avallone. O Abdalla pensava mais o carro, tinha a mentalidade mais virada para a mecânica, queria um carro rápido sem ser difícil, não era aquela coisa de tirar no braço. Então o carro do Xandy não andava de jeito nenhum.”

“O Toninho de Souza ofereceu um Avallone para o Xandy, que topou. Os dois foram trabalhar juntos, e eu fiquei com o outro carro. Assim que peguei, levei para o Manoelão - Manoel de Jesus -, que fazia a parte do chassi, e o Anésio, que fazia a parte do motor. E o carro quebrou recorde de Interlagos nas últimas duas etapas. Era um carro perfeito, ótimo, ótimo, ótimo. No fim do ano, o Zuzinha - Mario Covas Neto - levou carro, equipe, tudo. O carro era muito bom realmente.”

O jornal Correio da Manhã de setembro de 1967 que mostra o feito do carro de Lito Cavalcanti, guiado por Renato Malcotti
Arquivo/Correio da Manhã
Não me faltou absolutamente nada.
Lito Cavalcanti

Pelo olho mágico

Ao longo das décadas, Lito esteve em muitos eventos importantes do esporte a motor. A reportagem do GP* perguntou a ele, então, o que gostaria de ter visto ao vivo que não conseguiu. A resposta está noutra das grandes paixões: a base.

“Acredito que as primeiras corridas do Emerson na F-Ford Inglesa, em 1969. Foram os primeiros passos, né? Eu sempre tive uma paixão muito grande pela base: sei tudo o que acontece no kart, sei tudo o que acontece na F4... Dizer que sei tudo é uma pretensão, né? Não sei tudo, é uma maneira errada de falar. Eu acompanho avidamente. Quando posso, vou ver corridas, vou ver o Mundial de Kart, fui ver o Gastão Fráguas ser campeão - Gastão hoje é um grande amigo. Vi muitas coisas, vi as primeiras corridas brasileiros no Mundial, lá no Estoril.”

“Vi caras fantásticos, como o Jorge Freitas, que foi chefe de muito sucesso na Stock Car, mas antes disso foi um grande piloto, guiava qualquer coisa, pegou Eddie Cheever, Riccardo Patrese e o Esquadrão Italiano pela frente e atropelou todos. Essas coisas da base são as que mais me emocionam, porque é um mundo mais puro, menos político e onde o dinheiro interfere menos. Nunca pensei muito nisso, mas a primeira vitória do Emerson na F1 eu também gostaria de ter visto. Bastante coisa, não é uma pergunta de uma resposta só. Essas eu gostaria muito de ter visto, muito mesmo.”

E entre aquilo que viu e viveu, falando especificamente daqueles nomes que chegaram à maior das categorias, Lito tem uma seleta lista dos pilotos com quem mais se empolgou na pista.

“Ronnie Peterson era espetacular. José Carlos Pace, o Moco - aí entra muita simpatia pessoal, mas ele era espetacular. Tinha um outro que não deu em nada, era um cabeça de vento, mas era espetacular também - vai cair o queixo quando eu falar -, que era o Enrique Bernoldi. Não à toa ele foi o primeiro piloto escolhido pelo Helmut Marko para o programa da Red Bull. Ele matava o Helinho Castroneves [no kart]. Os dois se matavam na pista e os pais quase se matavam nos boxes. O Bernoldi era realmente muito bom.”

“Tem muita gente brilhante, mas o Ronnie Peterson foi o que mais me empolgou, guiava uma barbaridade. E o estilo dele era espetacular, porque era uma época em que os carros podiam andar em derrapagem, de lado, porque os pneus eram duros, você nem pensava em trocar pneus. Era fantástico de guiar aqueles carros. Outro também era o Keke Rosberg, impressionante. Andava sempre de lado, o controle de carro que ele tinha era incrível. Esses empolgavam, guiavam para o público.”

Alguns minutos após o fim da entrevista, Lito mandou uma nova mensagem para a reportagem do GRANDE PREMIUM. Fez questão de destacar que tinha esquecido um piloto entre os seus favoritos: Gilles Villeneuve.

Já no trato pessoal, os que impressionaram foram outros. “O Nelson Piquet, até pela irreverência, o conhecimento técnico, impressionou muito - e é um cara legal, engraçado. O Alex Dias Ribeiro também, gente muito boa. Dos gringos, Niki Lauda, espetacular, gente boa; James Hunt tinha uma conversa muito legal, nunca te negava uma resposta. Não parava para falar, mas se você andasse junto ele ia conversando e não interessava se você era brasileiro, francês, americano, inglês. As coisas eram muito abertas.”

“O Emerson era fácil de lidar, pelo Wilsinho eu tenho uma admiração especial, por tudo que fez no automobilismo. Ele e o Ricardo Divila, o que esses caras fizeram, inovaram muito na aerodinâmica - o primeiro chassi de honeycomb, por exemplo, foi deles. Aquele esquema das duas folhas de colmeia [material que pode ser produzido com aramida ou polipropileno] com duas folhas de alumínio ensanduichadas, foi o primeiro chassi feito disso. Foram buscar essa inspiração na Embraer, que era como se fazia chassi de avião. É um cara pelo qual eu tenho muita admiração.”

“Caras que deram a volta por cima, como o Raul Boesel. Saiu da F1 rejeitado, tinha acabado o dinheiro. O Raul veio da F3 Inglesa para a F2, mas não conseguia fazer dinheiro para entrar, só conseguia para entrar na F1 e foi. Entrou em equipes erradas, a Ligier, a March. Depois se mudou para os Estados Unidos, e lá o Tom Walkinshaw foi encontrá-lo e levou para a Jaguar, onde ele foi campeão mundial de protótipos, ainda fez pole em Indianápolis.”

Jornalismo atual e o assunto F1 no Rio

Depois de compartilhar redações e espaço de televisão com tanta gente importante, Lito naturalmente tem uma opinião sobre a nova geração do jornalismo no campo de automobilismo. Numa era com tão fácil acesso à informação, enxerga os novos de forma elogiosa, ainda que com ressalvas.

“Tem muita gente interessada, muita gente que corre atrás. Há algum tempo tinha muito pouca gente que conhecia mesmo - e tem muita gente que não sabe diferenciar a porca do parafuso. Tem gente com nível de conhecimento legal e que pode continuar se aprofundando no lado técnico. Fruto também dos tempos.”

“Na época pré-internet, eu assinava a 'Autosport' - na verdade eu recebia, porque era correspondente. Recebia a 'Autosprint' [italiana] também - que eu era correspondente desde a F3 Sul-Americana. Então tinha acesso a um nível de informação que era bem legal, mas não via muita gente procurando isso. Quase nenhum dos meus contemporâneos. E tinha gente muito boa, mas que foi se afastando por causa da idade ou migrou para a área industrial, porque chegou uma hora em que quase ninguém cobria automobilismo. Foi antes dos anos 1990: era uma época em que o Emerson saiu da F1, o Piquet ainda não tinha pegado no tranco. Houve uma beira do precipício ali. Não havia muito acesso à informação. Hoje, não. Na minha época, em redação de jornal, um a cada dez ou 15 falava inglês - falavam italiano porque é São Paulo, né? Hoje, a molecada chega falando inglês e preparada para se informar. E está se informando bem.”

“O outro lado da moeda é que o jornalista de hoje em dia sai pouco para a rua. No lado da apuração, da reportagem, acho que boa parte do pessoal tem que se aprimorar mais. Mas acho que tem evolução, sim. Evolução grande de conhecimento, a preparação profissional é muito melhor, falam várias línguas. Agora, tem gente aí falando do que não sabe. Isso, tem. Tem horas que você ouve uns petardos que cai da cadeira, mas é aquela história, né? É o chefe que não vê por não saber também.”

Para os que tratam do esporte a motor, jornalistas de ontem e de hoje, o assunto do momento no Brasil é a pauta Fórmula 1 no Rio. Lito encara a situação com o espanto de quem percebe algo totalmente fora do prumo em curso.

“Olha, eu estou estupefato com isso. Não consigo entender. Basicamente o que acontece é o seguinte: o Chase Carey tem problemas com o Tamas Rohonyi, porque o Tamas tem um contrato até 2020 nos termos em que o Bernie [Ecclestone] concedeu. Acho até que o Bernie concedeu em consideração aos serviços muito bons que o Tamas prestou para a FOCA, a FOTA, para a ampliação das fronteiras da F1 - foi quem organizou os primeiros GPs da Hungria, em Portugal. E quando o Bernie pegou, há três ou quatro anos, a crise de frente, assinou o contrato desobrigando a hosting fee [taxa paga pelas cidades-sede]. Não sei como está agora, mas há poucos anos estava em US$ 30 milhões, que eram pagos à CVC, então a dona dos direitos comerciais, para hospedar a F1.”

“O Bernie fez o contrato isentando disso, isentando de dar um número de credenciais tão grande para a CVC. O Bernie não precisava dessas coisas, então, por contrato, o Tamas não precisa mudar para o Liberty. E o Carey não aceita de jeito nenhum, porque o Tamas tem o contrato e diz que é assim que vai funcionar.”

“O Carey, aí, vai ao Rio se encontrar com aquela turma dos exterminadores do futuro e propõe fazer a corrida no Rio de Janeiro em 2021. Ele não pode fazer antes de 2021, mas pega o outro lá, meio precipitado, tá ok?, que chega no microfone, tá ok?, e diz que vai trazer a F1 para o Rio de Janeiro amanhã, tá ok?. Mas como amanhã? Não, porque ‘vai ser no Rio ou não vai ser, porque é o Brasil’. Mas, não, não funciona assim. Eu fico vendo essas coisas que estão acontecendo e pensando 'para onde vai?' Porque isso é só no aspecto F1. Olho para isso da mesma forma que olho para tudo que vem de lá: não é nem com ceticismo, é com espanto.”

“Não tem condição de fazer em 2020. 'Então vamos fazer em 2021. E não vai entrar verba pública'. Tá bom, então não vai entrar verba pública. A Petrobras quer adquirir os naming rights, isso é marketing. A Petrobras é economia mista, não é verba pública. Nem existe verba pública, amigo. Existe o dinheiro do contribuinte, o governo não produz nada. É o nosso dinheiro. Eu já nem sei mais o que dizer, porque eu nem sei mais o que vai acontecer. Vai acontecer [a F1 mudar para o Rio]? Acho difícil.”

No fim, ele crê, a queda de braço entre Rio e São Paulo pela F1 tem fundo eleitoral de olho em 2022. Nesse cenário, a capital paulista é favorita para manter o evento.

“Por outro lado, temos o João Doria aqui em São Paulo, que não está na minha lista de heróis, mas é um empresário, sabe negociar. Tanto sabe que olha a fortuna que ele amealhou. De um lado você tem esse pessoal engraçado, de outro o Doria, que não quer perder essa briga, porque está se defrontando com o cara que provavelmente vai ser o adversário dele na próxima eleição para a presidência - não digo isso com a menor alegria, mas é o que tudo indica. Enfim, acho que se ficar no Brasil, fica em São Paulo. Mas é só achismo e por isso: ele [Doria] tem orgulho e projeção política em não perder a F1 para o Rio de Janeiro.”

Outro campo de briga entre governantes federais e de São Paulo está na Fórmula E. É fato que diferentes cidades querem o campeonato no Brasil, mas a incerteza ainda paira sobre todas as candidatas – de um lado São Paulo mesmo, do outro um trio de possibilidades marcado por Rio, Brasília e Belo Horizonte.

São muitas cidades grandes atrás da categoria novata, que também conta com a participação de mais fábricas que a F1. Em junho passado, após o GP da França, Lito dissera que a F1 estava morrendo no atual modelo. Com o crescimento da Fórmula E e a queda da F1, seria a jovem série a apontar o futuro do esporte? O jornalista está longe de se comover pelos monopostos elétricos.

“Não sou exatamente um admirador da Fórmula E. Não quero ser cruel, mas é um cemitério de elefantes. Você olha lá, os carros têm a potência de um F3. Nos circuitos, um carro não consegue passar o outro. E já começa a haver rejeição de algumas cidades, tem cidade que não quer paralisar o centro da cidade o sábado inteiro. Tem um monte de cidade do mundo que está reagindo contra turistas, ainda mais numa situação dessas. Em Berna teve uma vandalização da pista.”

A reportagem lembrou da força que os conselhos de moradores europeus estão fazendo para evitar as corridas. “Com razão, né? A grana é deles, são eles que moram lá. Aqui não tem essas coisas, mas eu não sei. A Fórmula E no Brasil é meio mula-sem-cabeça, eu nunca vi. Precisa ver para saber que existe mesmo. O que você tem? Tem o Lucas Di Grassi empenhado nisso, agora o Nelsinho Piquet. O Nelsinho teve um encontro com o Bolsonaro há alguns dias para falar de Fórmula E. Será que vai ser promotor? Mas, enfim, a categoria não me seduz. Peço desculpas para os pilotos que estão lá, estão ganhando a vida deles, é um direito que todo mundo tem, mas não me atrai. Eu vejo por dever de ofício, acompanho, mas não desce.”

Lewis Hamilton: um dos grandes?
Mercedes

Os dias atuais na F1

Fora da TV, mas em incursão na internet, Lito ainda faz da Fórmula 1 o seu ofício. E, claro, os dias atuais do Mundial eram assunto obrigatório. A primeira pergunta foi sobre qual o lugar de Lewis Hamilton entre os maiores de todos os tempos.

“É um deles. Acho que está tendo o mesmo benefício do [Michael] Schumacher, os dois são grandes, mas não grandes entre os grandes. Não são como Piquet, Senna, Lauda, Prost... Esses foram campeões batendo outros grandes.”

Lito aproveitou para se aprofundar na questão Schumacher e até em Juan Pablo Montoya, a quem considera ter feito menos do que o talento permitia. “O Schumacher até tomou seus paus. Para o [Mika] Häkkinen, por exemplo, que se mostrou um piloto pelo menos à altura dele - na F3 era mais eficiente. Na F3 o Schumacher já mostrava sua tendência a fazer os fins justificarem os meios. Tomou do Montoya também, que era outro que me empolgava muito. Mas faltava um pouco de disciplina. Montoya não foi vítima do próprio talento porque ainda é um piloto de ponta onde guia, mas podia ter ido muito mais longe - e também não aturava o Ron Dennis, que era um tirano, tratava os pilotos de um jeito meio difícil, que se não fossem gênios acabavam sendo meio que móveis e utensílios.”

A pergunta seguinte foi sobre Sebastian Vettel: um gênio em má fase ou um bom piloto que teve fase espetacular anos atrás? O entendimento é de que a história dele ainda está sendo escrita e que a força para sair da zica atual vai dizer muito sobre o que é o alemão de verdade. Lito tende, porém, a concordar com o que falou Max Verstappen há alguns meses: Vettel não é um daqueles pilotos mágicos.

“Acho que essa história ainda está sendo escrita, estamos agora num momento crucial. Vai precisar ser gênio para sair dessa baixa que ele teve na parte psicológica. Vettel tem um temperamento bem diferente, parece desanimar um pouco quando as coisas não vão bem. Que ele detesta esses carros com unidade de força híbrida, já sabemos; que esse carro não foi feito para o estilo dele de guiar, já sabemos. Então eu tendo a, no momento, concordar com o que o Verstappen diz.”

“Vettel é excelente, sim, quando num carro excelente para ele, quando tudo funciona bem. Mas não é um street fighter, como Hamilton e Verstappen. Eu acho, né. Foi campeão muito bem sido, com um carro muito bom e sempre andando na frente dos companheiros de equipe. Agora, quem eram os companheiros de equipe fortes dele? Mark Webber era bom, bem bonzinho, mas só isso. A grande qualidade do Webber sempre foi ser brigão. Esse era mais street fighter que piloto: arruinou o [Antônio] Pizzonia na Williams, vi correr desde a F-Ford. Sempre foi da escola Alan Jones, chegava no autódromo de armadura e espada na mão.”

A terceira e última pergunta sobre o grid atual foi sobre a nova geração de pilotos. Com Max Verstappen, Charles Leclerc, Esteban Ocon e cia., a F1 vê o surgimento de uma geração diferente? Lito citou outros nomes até à frente do francês e concluiu que, sim, o futuro em termos de pilotagem é brilhante.  

“Acredito que sim. Antes do Ocon, colocaria [Alexander] Albon, [George] Russell, [Lando] Norris - se bem que o Norris é o [Lance] Stroll que deu certo. O pai fez a mesma escolha, financiou bastante a participação na F3 e deu um GP2 antigo para ele testar, quando subiu de categoria já tinha rodagem, já tinha rodagem também quando chegou à F1, o Zak Brown é empresário pessoal dele. Mas, com tudo isso, sentou para rodar e está rodando. Tudo isso foi feito em cima de um cara com talento e disposição. Todos esses são pilotos que eu colocaria, no momento, à frente do Ocon. Por que o Ocon tá parado? Por que não tem lugar? Porque tem gente melhor do que ele. Não está nem no carro da Renault. É a tal história, admito que posso perfeitamente estar enganado. Mas olho para isso e penso no motivo, será que o Toto Wolff não entende nada de corrida? Opa...”

“Acho que é uma geração fortíssima pela frente e que a F1 vai viver um 2020 maravilhoso. Em 2021 tem que ver como serão os carros. Em relação aos pilotos, é uma geração fortíssima: Leclerc, Verstappen, acho que vai chegar mais gente aí se tiver equipamento. Tem talento de sobra.”

Lito no SporTV
Reprodução

A questão Globo 

A estadia nas Organizações Globo durou 24 anos ininterruptos. De 1995 até 2018, Lito Cavalcanti esteve em incontáveis transmissões de Fórmula 1, Stock Car e do que mais aparecesse. Segundo ele, um paraíso por quase a totalidade do período. Mas até os paraísos chegam ao final. Após a temporada 2018 ser encerrada, Lito foi avisado que estava sendo demitido da empresa. Reforçando o que dissera ao GRANDE PRÊMIO meses atrás, não há mágoa com o SporTV. Há, sim, a certeza de que as coisas deveriam ter sido levadas de outra maneira.

“Não foi bem encaminhado pela Globo. A maneira como foi colocado, num dia posterior à corrida da Stock que ia ser meu último dia de atividade [em 2018], ligaram e perguntaram se eu podia ir à redação no dia seguinte. Quis saber se seria demitido, disseram que era melhor ir até lá, mas tinha ficado claro. Falaram que eu não tinha feito nada errado, era questão da idade. Idade? Mas tudo bem, não tem mágoa alguma na relação. Fiquei 24 anos lá dentro, os 23 primeiros foram um paraíso. No 24º, com esse takeover da Globo, o ambiente estava mudando. Nós vimos que isso estava se formando, a gente sabia que ia haver uma mudança dos cargos. Já tinha acontecido na 'Folha', no 'Estadão', e isso sempre dá em corte, é o mercado se estreitando.”

“Estava vendo minha geração ser mais encostada, apesar de ter gente de competência acima de qualquer dúvida. Até o Raul Costa, que foi o cara que colocou o SporTV nas páginas de 'The New York Times', foi mandado embora. Mário Jorge Guimarães, gerente de eventos, todos os eventos, que colocava no ar mais de 2.500 eventos por ano, tudo funcionando redondo. Enfim, se acharam que deu pra mim, deu pra mim. Mas sabe de uma coisa? Está sendo ótimo.”

Fora da TV, sobra tempo para uma vida mais regrada. Agora septuagenário, Lito está reaprendendo como é viver normalmente. E é gostoso, ele está descobrindo.

“Aquele horário era massacrante. As transmissões eram feitas no Rio, 21 corridas, mais 12 de Stock. Tirando o que era em São Paulo, dava mais de 30 viagens por ano. Poder retomar o ritmo de vida normal: eu gosto de nadar, estou podendo ir aos meus horários da natação. Uma vida com certa regularidade de horários eu não tinha há quase 25 anos, então está sendo legal, eu estou gostando.

Antes de deixar o assunto Globo/SporTV, Lito ainda falou sobre a parceria que deu certo durante muito tempo nas transmissões, ao lado do narrador Sérgio Maurício. Amigos de gostos parecidos, sempre tiveram uma tabelinha que funcionava naturalmente.

“É uma questão de empatia pessoal. Basicamente isso. O Sérgio gosta de corrida, eu gosto de corrida; ele é botafoguense, eu sou botafoguense. É empatia, viramos amigos, não tem bem uma fórmula. Agora estamos um pouco mais afastados, porque ele continua nessa roda viva [de horários atribulados] e eu estou mais parado aqui, mas é isso. Sempre nos demos bem, desde o começo.” 

Faltou alguma coisa?

“Eu olho para trás e gosto do que vejo. Não acho que falte alguma coisa. Estou agora começando nessas novas plataformas, a resposta está sendo muito legal, eu estou maravilhado com esse lado da informática. Você faz podcast e [canal do] YouTube a custo zero, põe lá e tem uma resposta muito positiva. É legal você ter o afeto das pessoas, sabe? Claro que às vezes aparece alguém com uma patada ou outra, mas é 1 em 1.000 - e tudo bem, também, deixa rolar.”

“Não acho que falta nada, não. Pelo contrário: eu olho para trás e acho muito legal tudo o que aconteceu. Acho que ajudei muita gente que entrou no jornalismo: o Marcus Zamponi entrou pelas minhas mãos, por exemplo. Ajudei muita gente nova, também uma retribuição a ajuda que eu recebi quando cheguei às redações. Gosto disso, acho muito importante, eu lembro como era para mim quando os veteranos me davam apoio e alguns toques em texto e outras coisas, para fazer assim ou assado. Isso me ajudou muito, e eu quero retribuir, sabe?”

“Não me faltou absolutamente nada.”

Lito atualmente assina uma coluna no portal UOL, alimenta o canal do YouTube que leva seu nome e comanda o podcast ‘Rádio Paddock’. Para alguém que já desbravou tantos mares bravos durante a carreira, algumas novas tecnologias são tiradas de letra.  

*O GP* agradece as fotos retiradas do Facebook de Nivaldo Nottoli, Marcelo Abreu, João Farkas, Felipe Luiz Mendes Lopardi e do próprio Lito Cavalcanti.