Robert Kubica

Um dos mais velozes pilotos da década passada, Robert Kubica viu a chance de ascender na F1 se esvair depois de um terrível acidente. Mas a vontade de “aproveitar a sorte que teve” foi maior. De volta ao grid, o polonês quer mais

Evelyn Guimarães, de Curitiba

 

 

 

 


Talvez ele tenha uma das histórias mais espetaculares do esporte em termos de determinação e superação, mas também de um certo lamento, daquilo que poderia ter sido e não foi. De um início meteórico à certeza de que, mais cedo ou mais tarde, se tornaria campeão mundial de F1, ele viu sua trajetória ser perversamente interrompida, ironicamente em uma demonstração de coragem, velocidade e ousadia. Predicados que o definem muito bem. Ainda mais neste momento da carreira. Sim, nem mesmo o horrível acidente que sofreu naquele 6 de fevereiro de 2011 lhe tirou a coragem, ou a velocidade, ou a ousadia. E a prova maior é sua presença cada vez mais fortalecida no mais importante paddock do esporte a motor. Seu nome continua sendo reverenciado por rivais e fãs. Seu talento e carisma se traduzem nas muitas bandeiras vermelhas e brancas pelos autódromos do mundo. 
 

 

 

 

Aos 33 anos, Robert Józef Kubica não se deu por vencido depois que quase perdeu a vida na Itália, há sete anos. A recuperação foi longa, doída e dolorosa. Por vezes, “marcada pela raiva”, mas também pelo desejo de acelerar de novo. O polonês nunca tirou da cabeça que tinha de voltar. E voltou.

Simpático e de muito bom humor, Robert recebeu o GRANDE PREMIUM nas garagens da Williams, durante o GP dos EUA de F1, ainda no mês passado. O polonês chegou zombando do tempo ruim no Circuito das Américas e, em nenhum momento, tentou esconder ou disfarçar as marcas que ainda carrega da experiência que poderia ter colocado fim à sua carreira.

“É como na guerra”, diz, brincando.

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O ACIDENTE

Robert Kubica chegou à F1 com fama de piloto veloz e arrojado. A estreia aconteceu em 2006, quando praticamente aposentou o campeão Jacques Villeneuve, na então BMW Sauber. Naquela promissora temporada, o polonês obteve um pódio na Itália, apenas na sua terceira corrida da carreira. No ano seguinte, seguiu defendendo a equipe de Peter Sauber e foi por ela que venceu pela primeira vez, quando cruzou a linha de chegada na primeira colocação no GP do Canadá de 2008 - se tornando o único representante da Polônia a vencer na F1. Foi em Montreal também que sofreu o maior acidente que a F1 presenciou na década passada. Apesar da violência do impacto, Kubica saiu ileso - mas abriu a possibilidade da estreia de um tal Sebastian Vettel. As boas atuações de Robert com a equipe suíça que tinha uma interessante associação com a BMW renderam a ele um contrato com a Renault em 2010, que, mais tarde, se tornaria Lotus Renault. Mas o polonês não teve chance de defender essa rebatizada esquadra que se formou, ainda que tenha demonstrado força nos primeiros dias da pré-temporada da F1 em 2011.

Depois de liderar a primeira semana, Kubica decidiu ocupar seu tempo entre uma sessão e outra com o rali, outra paixão que sempre teve. Guiando um Skoda Fabia, o piloto se aventurou no Rali Ronde di Andorra, na Itália. Durante um trecho escorregadio, Robert perdeu o controle e atingiu um guard-rail, que o impediu de despencar em um penhasco. Acontece que uma parte desse mesmo guard-rail invadiu o carro, provocando graves fraturas no braço direito e no cotovelo. O risco de o piloto precisar amputá-lo foi grande.

Felizmente, os médicos conseguiram salvar não só o braço, como a mão, e impediram a perda dos movimentos. Kubica foi submetido a uma longa cirurgia e quase pôs fim à carreira
Reprodução

Kubica levou menos de dois anos para voltar a sentar em um carro de corrida. E foi justamente em uma competição de rali. A partir de 2013, o polonês passou a disputar regularmente o WRC e o Europeu de Rali. A presença de Robert se estendeu até 2016. Neste tempo, o piloto se envolveu em uma série de acidentes e obteve como melhor resultado uma vitória no campeonato europeu. O retorno aos autódromos se deu em 2016, cinco anos após o acidente na Itália. Na ocasião, o polonês andou nas 12 Horas de Mugello a bordo de uma Mercedes-Benz SLS GT3, também participou de corridas de GT, além de testes com um carro da LMP1. No ano seguinte, foi a Dubai para uma nova experiência no endurance e chegou a ensaiar uma estreia no WEC. Aí testou um GP3 e um Fórmula E – era a primeira vez que guiava um monoposto desde o acidente - e ficou claro que havia chegado a hora de tentar a categoria com qual sempre sonhou. “2017 foi um ano em que lutei muito para voltar à F1, depois de longo tempo longe do esporte. Eu queria muito”, diz Robert ao GRANDE PREMIUM.  

“Eu vim de um procedimento complexo, passei por muitas coisas nesses anos. Consegui voltar a disputar provas de rali, depois do acidente, mas ainda estava longe da F1. Depois de um tempo, decidi que era hora de voltar aos circuitos e queria ser capaz de correr na mais alta categoria possível. Então comecei a testar diversos carros e a disputar categorias de diferentes níveis. Isso foi até a chance de guiar o carro da Renault”, explica.

Robert teve a primeira chance de guiar um F1 em junho de 2016. A bordo de um modelo 2012 ainda da Lotus, o piloto foi à pista de Valência, na Espanha, para participar de um teste privado. Naquele dia, ele completou 115 voltas.

O primeiro teste com um carro de F1 após o acidente aconteceu em Valência
Renault F1 Sport

O hoje reserva da Williams revelou que a antiga equipe foi também quem primeiro comprou a ideia de uma avaliação, entendendo rapidamente o potencial de um eventual retorno à F1. “E esse dia foi muito importante”, conta. “Foi crucial para a decisão de tentar voltar mesmo à F1. Porque mostrou que, apesar de todas as minhas limitações, ainda era capaz de pilotar o carro”, completa.

Kubica não possui a rotação do punho e do antebraço do lado direito, o que pede um ajuste dos cockpits.  

“Daí em diante todo o processo de voltar começou muito rápido. Eu fiz um segundo teste com a Renault e tentamos ter uma chance, mas acabou não funcionando. Então, tive a chance de testar com a Williams. A cada dia e a cada teste, eu fui ficando cada vez mais confiante de que realmente havia um jeito de voltar a correr. Aí cheguei à conclusão de que, se tivesse uma chance, uma oportunidade, eu teria condições, sim, de voltar a disputar uma temporada na F1.”

A primeira chance de andar com um F1 atual também foi dada pela Renault. O teste aconteceu na Hungria, junto com os treinos coletivos. É bem verdade que o desempenho deixou dúvidas, mas já havia no ar a clara sensação de que o retorno seria apenas uma questão de tempo.

A equipe francesa, no entanto, não pode abrigar o polonês naquele momento. Poucas semanas depois, a esquadra se viu em um acordão que envolveu McLaren, Red Bull e Toro Rosso, quando o time de Woking decidiu deixar a Honda. Foi um banho de água fria, mas coube à Williams abrir as portas ao polonês.

O desempenho nas atividades húngaras havia impressionado, e a equipe inglesa estudava um substituto para Felipe Massa. Assim sendo, o piloto foi convidado a fazer novos treinos. Agora com um modelo híbrido, de 2014, mas que simulava as novas regras, Robert andou em Silverstone e em Hungaroring, além dos testes em Abu Dhabi, após o fim da temporada passada.

“A Williams veio atrás de mim no fim do ano passado. Eles me ligaram pouco depois dos testes”, conta Kubica ao ser questionado sobre quem foi atrás de quem.

“Então, sentamos todos juntos e tivemos uma reunião. Após isso, eles organizaram algumas sessões de testes com um carro de 2014. Que era, com certeza, um carro muito diferente dos atuais, tinha outros pneus e tudo mais. Mas eu guiei o carro na Inglaterra e, depois, na Hungria. E aí fiz um teste final em Abu Dhabi.”

Neste tempo, Massa já havia anunciado a segunda aposentadoria da F1 e parecia certo que a Williams, de fato, daria a chance a Kubica. E, de fato, deu. Na época, o parceiro do GRANDE PRÊMIO, Americo Teixeira, do ‘DIÁRIO MOTORSPORT’, revelou que o contrato com o polonês havia sido selado. Robert, além da experiência e de toda a mídia que atrairia pelo retorno, ainda havia fechado um razoável apoio financeiro. Só que a equipe inglesa mudou de ideia quando Sergey Sirotkin surgiu trazendo um aporte ainda maior. Assim, o time de Grove decidiu pelo russo. E encontrou no cargo de reserva e desenvolvimento um lugar para Kubica. Perguntado sobre os bastidores das conversas com os ingleses, Robert não quis entrar em detalhes, apenas respondeu: “Não houve uma negociação. Eles tinham algo na cabeça e decidiram colocar Sergey no carro e ofereceram a mim essa oportunidade.”

O GRANDE PREMIUM insiste se havia chegado a um entendimento para ser titular, e Robert diz: “Talvez sim", entre risos. "Eu estive muito perto de conseguir o lugar de titular. Mas não funcionou muito bem. Não quero falar sobre razões e decisões. Eu aceitei e respeito as decisões que foram tomadas. Do contrário, eu não estaria aqui. Com certeza, eu esperei muito tempo por uma chance e, no ano passado, isso foi possível. Então, neste ano, quero fazer de tudo para garantir que seguirei aqui no próximo ano.”

2018, então, acompanhou o caminho de volta do piloto. Ainda que não na posição que almejava, Robert teve a oportunidade de trabalhar no desenvolvimento da Williams. Foi a todas as corridas e seguiu ajudando não só o time, mas a dupla de pilotos. “Eu consegui me colocar novamente no paddock. Claro que teria sido muito melhor se eu tivesse voltado como piloto titular, mas não deu certo, então ainda fui capaz de assegurar um posto como piloto reserva e de desenvolvimento aqui na Williams, o que me permitiu voltar a viver dentro da F1”, diz.

“É claro que é uma posição muito diferente, com uma perspectiva muito diferente. Porém, ainda assim, me permite viver a minha paixão. Certamente, esse não é o melhor ano da Williams. Vem sendo um ano bem difícil. Então, definitivamente, vem sendo mais complicado do que o esperado. Mas ainda tenho a chance de trabalhar com a equipe e entender mais a F1 de agora. Afinal, a F1 mudou muito, muito nesse tempo em que fiquei afastado, especialmente no que diz respeito aos regulamentos. Também tive a oportunidade de guiar o carro esse ano, o que foi muito importante para mim. Sendo assim, posso dizer que vem sendo um ano de muito trabalho, com diferentes coisas para fazer também dentro da equipe. Apesar de tudo, estou realmente gostando do que venho fazendo esse ano.”

E foi assim que Robert Kubica se viu na F1 novamente
Robrigo Berton/Grande Prêmio

 


A WILLIAMS

Robert Kubica assumiu um posto importante na Williams, ainda que não no cargo que tanto desejava. Como piloto reserva e de desenvolvimento, o polonês acabou fazendo mais. Isso porque a equipe inglesa se viu às voltas com um carro problemático e sem performance, além de uma dupla inexperiente. Coube a Kubica, então, auxiliar não só na evolução da equipe, mas também dos pilotos – Lance Stroll, em seu segundo ano de F1, bem como Sergey Sirotkin, então estreante. Não tem sido um ano fácil, de fato. Mas proporcionou uma “nova visão da F1” ao veterano, além da chance de guiar o carro em testes e treinos livres.

“Tenho um bom relacionamento com os pilotos. Claro que, no início do ano, eu tive um peso maior e os ajudei mais. Nós trabalhamos muito juntos durante os testes da pré-temporada. Nós tentamos entender os problemas e solucioná-los. Ajudamos ambos no trabalho de conhecer bem o carro e entender as dificuldades. Eu tentei ajudá-los por meio da minha experiência e das sensações que tive ao guiar o carro também. Só que, obviamente, com o passar da temporada, os pilotos também começaram a trabalhar mais com seus engenheiros e também foram obtendo maior experiência de diversas situações. Então, diante disso, a minha ajuda ficou mais limitada. É claro que, sempre que precisam de conselhos e tudo mais, troca de experiência, estou aqui para ajudá-los. É como eu disse, no fim das contas, temos uma boa relação, e isso é o mais importante”, conta.

“A F1 é muito complexa e é um esporte também muito complicado. E é realmente muito difícil sair de um período de dificuldades, especialmente em uma temporada em que há muitas corridas, porque, claro, você precisa dedicar um longo tempo às provas, mas também ao trabalho de tentar solucionar os problemas. E essa não é uma tarefa muito fácil. Eu preciso trabalhar duro, ajudar a equipe e os pilotos, e ainda tentar fazer o time crescer dentro dessa adversidade”, completa.
 

 


Por conta do carro errático e do fraco desempenho, a Williams vai fechar 2018 na última colocação do Mundial, com apenas sete pontos somados sendo quatro deles em Baku com Stroll. E Kubica dá as razões: “Nós estamos enfrentando diferentes problemas neste ano. O principal é que o carro não tem uma performance suficientemente boa, competitiva. Acho que grande parte disso vem da parte aerodinâmica. Mas não é só isso. Nós começamos o ano em uma posição difícil. E para se recuperar disso é algo muito complexo. Nós temos sofrido com muitos problemas técnicos também. O pessoal na fábrica tem trabalhado muito duro para resolver as falhas. Mas a performance não vem”.

“O que nós precisamos fazer é tentar dar sempre três passos à frente, quando os demais dão apenas um. Mas isso é algo muito difícil, porque temos de focar em diferentes áreas do carro. As equipes de ponta estão sempre trabalhando muito forte, mas você vê equipes menores, como a Sauber e a Toro Rosso, que também conseguem trazer atualizações que funcionam. É isso que precisamos. Mas a F1 é um esporte de alto nível, então quando você começa atrás é muito difícil de pegar esses caras.”
 

 


O FUTURO

Novamente, Kubica tem seu nome ligado ao um posto de titular para 2019. Com a iminente saída de Lance Stroll da equipe britânica para a Force India, novo time de seu pai, há uma vaga em aberto. Há semanas, Claire Williams afirmou que o nome do piloto estava em uma lista curta e que o time ainda estava em um processo de avaliação, mas que “Robert seria um maravilhoso companheiro de equipe para George Russell”. O jovem Russell já foi confirmado como titular.  “Há algumas conversas com eles [Williams], sim”, confirma Robert.

“Não há muitas oportunidades para um posto de titular no grid para 2019. A prioridade, no entanto, é estar no grid no ano que vem. É claro que se isso não acontecer, terei de pensar em outras coisas. Acho que há algumas opções de seguir fazendo aquilo que gosto. E se não estiver correndo na F1, então acho terei de procurar algo legal e interessante para fazer”, emenda.

Recentemente, a imprensa internacional relatou que há também uma oferta da Ferrari, mas para o posto que ocupa atualmente. Ou seja, a reserva. Ao falar sobre a possibilidade de seguir como piloto reserva, o polonês não mostrou-se agradado, mas também não descartou totalmente. “Depende”, diz. “Há diferentes fatores nisso. Como eu disse, o objetivo principal, em que estou colocando o maior esforço, é tentar uma chance de ser titular, de estar no grid. Se não acontecer, então terei de pensar em algumas alternativas. Mas acho que uma decisão não vai demorar.”

E se o cargo de titular já não mais surgir ou uma reserva interessante, Kubica tem seu plano B. “Sempre é preciso levar em conta algumas de minhas limitações. Não quero tentar algo que não saiba 100% que sou capaz de disputar. Eu esperei muito tempo e em dediquei durante muitos anos para voltar à F1. Então, quando se está tão perto, é preciso tentar de tudo. Mas se não funcionar, não vou ficar desesperado, nem nada disso, porque sei que fiz tudo que era possível, trabalhei duro e tentei o que pude para voltar”, garante.
 

 


Neste tempo todo em que trabalhou para voltar ao Mundial, Robert foi deixando de pensar no acidente que sofreu e em suas consequências. O polonês não vê motivo para arrependimentos e apenas procura aceitar seu destino. “Já faz sete anos desse acidente e o tempo passa muito rápido. Realmente, não penso no acidente. Foi há muito tempo.”

“Não sei se muda alguma coisa se eu sinto algum arrependimento ou não. A vida é uma só. Definitivamente, eu paguei um preço muito alto por um pequeno erro. Mas é assim que as coisas são. Eu poderia ter tido menos sorte e poderia ter sido ainda pior ou poderia ter tido mais sorte e nada tivesse acontecido”, afirma o piloto.

Se tivesse tido mais sorte, Robert teria vestido o macacão vermelho da Ferrari em 2012 – Kubica confirmou que tinha mesmo um contrato assinado com Maranello. Não aconteceu. A ideia traz sentimentos mistos ao piloto. “De um lado, eu fico muito orgulhoso de ter tido essa chance, esse contrato. Mas, de outro, me sinto um pouco triste e chateado por isso, porque, no fim das contas, eu acabei não correndo lá. Acho que, na F1, todo o piloto tem dois objetivos, ao menos. Um deles é se torna um campeão mundial. E outro é correr pela Ferrari. Eu tive essa oportunidade, mas infelizmente a perdi antes mesmo de pilotar o carro.”

Kubica entende a razão pela qual atrai tanta atenção. E não esconde a vontade de ser de novo titular de uma equipe de F1, “já que chegou tão longe”. O piloto carrega, sim, certa amargura pelo que lhe aconteceu, mas não perdeu a ternura.  A felicidade está por vir nos próximos dias, quando é esperado o tão sonhado anúncio de seu retorno ao grid em 2019.