Guia FE 2018/19: Felipe Massa

Meses de preparação e anos de interesse depois, Felipe Massa enfim vai estrear pela Fórmula E neste fim de semana. Em entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM, falou sobre a transição para o campeonato e as escolhas que fez

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro &
Fernando Silva, de Sumaré

Mesmo durante a temporada 2016, que anunciou pela primeira vez a intenção de deixar a F1, Felipe Massa apontou para a direção que era queria encontrar na sequência: a Fórmula E. A vontade foi adiada mais um pouco por causa da permanência inesperada na Williams para 2017, mas era questão de tempo. A confirmação veio em maio, o que deu mais de seis meses para Massa se preparar. A hora do novo caminho chegou para valer.

Por uma Venturi que muda, investe, contrata e tenta de fato se tornar uma das equipes poderosas da Fórmula E, Massa tem altas expectativas sobre o crescimento. Como admite em entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM, até conversou com outros times interessados, mas a oportunidade de ficar em Mônaco, onde é a sede da equipe e Felipe mora, e confiar no projeto apresentado falaram mais alto.

Massa participou de quase todo o processo de desenvolvimento do carro da Venturi. Um bólido que avaliou como “totalmente diferente da F1” e especificou algumas dessas distâncias. Estão em todo lugar – força aerodinâmica, freios, aderência. Tudo.

E o piloto vice-campeão mundial da F1 em 2008 também vê a chegada como um marco para a categoria, que começa a mostrar como cresceu nos últimos quatro anos.

Acima de tudo, o que Massa quer fazer é ser competitivo e disputar vitórias num campeonato que desponta para o mundo como uma refrescante novidade e sem medo de percorrer caminhos distintos.

Felipe Massa durante teste de pré-temporada
FE

 

GRANDE PREMIUM: Como tem sido sua adaptação à FE, ao carro e tudo mais nesses últimos meses?

FELIPE MASSA: “A adaptação tem sido - eu acho e espero - boa, para falar a verdade, pelos testes que fiz até agora. O único problema é que a gente andou sempre com um carro só. Aí é difícil ter uma noção comparando com as outras equipes em geral. Só que, comparando com a minha equipe, tudo aquilo como comecei, como terminei, todos os testes que eu fiz, incluindo o de Valência, cara, eu pelo menos fiquei feliz com o tanto que aprendi, o tanto que evoluí e o tanto que eu consegui até fazer parte do desenvolvimento do carro, ideias para melhorar, acerto do carro em geral, entender como funciona o carro da Fórmula E, que é completamente diferente de um carro da F1, que eu estava acostumado.

Entender a bateria, entender o jeito de guiar em simulação de corrida, que você tem de salvar o máximo de bateria possível, usar o sistema para recarregar a bateria... Tem muitos detalhes aí que não são tão simples na Fórmula E comparando com aquilo que estava acostumado. Mas, cara, consegui evoluir bastante na comparação também com meus companheiros de equipes, até porque não é só um companheiro que eu tenho, todos os pilotos da Mercedes também, que é praticamente um trabalho em conjunto que temos com a Mercedes, com a HWA. Então, no final, consegui me adaptar. Pra falar a verdade, estou satisfeito com a adaptação. Lógico que agora é o que conta, a partir da primeira corrida é onde realmente vale, ali que a gente vai ter uma noção clara de como a gente tá comparando com as outras equipes, e como eu estou, também. Aí que você vai ter uma certeza clara.”

 

GP*: Quais as maiores diferenças que você notou do carro da FE para o que você estava acostumado, em termos de feeling e em termos técnicos? O que te chamou mais a atenção?

FM: “Na verdade, o carro da Fórmula E é completamente diferente de um carro da F1. Em primeiro lugar, falando do carro, do chassi, é um carro que não tem praticamente nada de carga aerodinâmica e a F1 tem praticamente tudo. O jeito de você sentir o carro, a aderência que você tem, é completamente diferente de um carro de F1. Fora isso, você anda com um pneu feito, que não é totalmente de rua, um pneu feito pela Michelin, desenvolvido para a Fórmula E, mas é um pneu não slick, então tem uma aderência muito inferior ao que você está acostumado na F1. Lógico que o jeito de guiar o carro, andando no limite, o jeito de frear, é muito fácil de frear a roda porque tem uma aderência muito baixa comparando com o que estava acostumado na F1... O jeito de frear, você não pode frear tão agressivamente assim como o carro da F1, até porque a F1, no começo da freada você tem uma carga aerodinâmica muito alta, é como se fosse um grip para ajudar a frear o carro. Então você freia muito mais forte, o pedal, na primeira parte, do que na FE. Na FE, se você frear muito forte, trava a roda de cara. O sistema de usar o freio é completamente diferente também.

E, fora isso, o motor também, o motor é à bateria, um carro elétrico comparando com um motor normal que a gente está acostumado, um motor a combustão, no caso da F1. No final, é uma diferença muito grande. Agora, para mim, a diferença maior de guiar o carro não é nem tanto o virar rápido, virar rápido, tentar fazer o melhor, frear o mais tarde possível, fazer a curva o melhor possível... Isso daí é meio que você tem que só entender o carro e é meio que normal, comparando com outras categorias, tentar tirar o limite do carro é meio que normal, através do limite que o carro tem comparando com outras categorias. O mais difícil na Fórmula E é você entender a simulação de corrida, o jeito de usar a bateria, o jeito de salvar a bateria, o jeito de carregar a bateria, trazer energia de volta para a bateria, o máximo possível. Isso é o detalhe maior que o aprendizado é um pouco mais complicado comparando com outras categorias.”

GP*: Você chegou a guiar um pouquinho o carro antigo da FE. Você notou uma grande diferença?

FM: “Guiei muito pouco. Primeiro que já faz um tempo grande, segundo que é uma pista completamente das pistas que andei com o carro novo. Terceiro que não era o carro do ano passado, mas do ano retrasado, o que andei. Senti o carro de agora muito mais bem feito do que era antigamente. O freio, com esse brake by wire, sistema mais inteligente, do que você tem de ficar mexendo na alavanca de freio, passando o freio pra frente e pra trás o tempo todo, é bem mais inteligente; o carro tem mais potência; o pneu é melhor. Então senti, sem dúvida, um carro melhor do que o que tinha sentido. Mas é bem difícil fazer a comparação certinha porque eram bem diferentes as pistas e o carro no geral.”

GP*: Você acha que, entrando agora no grid junto com o carro novo, acha que a coisa fica mais nivelada. Ficaria mais difícil competir com pilotos que já estão na categoria há mais tempo com carros que eles estão mais acostumados?

FM: “Acho que ajuda. Acho que a hora sempre de você entrar, mudar e entrar numa categoria nova, bem diferente pelo aprendizado, é melhor entrar no momento em que tem uma mudança. E esse ano tem uma mudança não pequena, até porque são carros novos, muita coisa muda no regulamento da categoria, o jeito que eles vão fazer as corridas, não tem mais troca do carro... Tem muita coisa nova que eu acredito que ajuda. Então, sem dúvida, na minha opinião é melhor estar entrando neste ano do que no ano passado.”

GP*: A FE tem um grid que é obviamente muito forte, pilotos mais veteranos com outros mais jovens e tal, muito forte. Mas não tem ninguém com a sua história na F1. Você acha que a sua chegada na categoria muda o grid de patamar de alguma forma?

FM: “Eu acho que sim, cara. Acho que é um começo, na verdade, para você começar a mostrar onde a Fórmula E está chegando. Na verdade, acompanho a categoria há muito tempo e me interessei já há alguns anos, como você sabe, quando encerrei minha carreira pela primeira vez na F1 meu foco já começou a se voltar para a FE. Mas aí teve toda essa possibilidade de voltar e fazer mais um ano na F1, então passei para frente. Mas já vinha analisando a FE há algum tempo. E acho que, nos últimos dois anos, o quanto cresceu a categoria mostra que a FE já está estabilizada e continua crescendo. É a categoria que mais cresce comparando com todas as outras, incluindo a F1. E acho que isso é um começo.

Um piloto com tanta experiência, que passou por tantos anos e teve também bons resultados na F1, como eu tive, acho que isso é só o começo para outros seguirem o mesmo caminho. Tenho certeza que, em pouco tempo, teremos outros nomes importantes, talvez até mais importantes que o meu, na FE.”

GP*: Nas primeiras quatro temporadas, a Venturi teve resultados mesclados: em algumas temporadas um carro foi um pouco mais forte, em outras o carro foi um pouco mais fraco. Mas em nenhum momento ainda brigaram por vitórias constantemente e por título. O que te convenceu a acertar com eles?

FM: “Eu vinha conversando com algumas equipes, inclusive importantes, mas que já tinham pilotos assinados para essa temporada. Tinha equipes mais importantes que a Venturi. Mas, olhando para o que vem acontecendo com a Venturi, a preparação deles para a temporada de agora e para o futuro, na minha opinião, acho que a Venturi é a equipe que me proporcionou algo mais interessante. Não estou dizendo do lado financeiro, mas do lado do desenvolvimento da equipe.

Sem dúvida, essa parceria com a Mercedes é algo muito importante, na minha opinião. Se o carro já vai ser tão competitivo esse ano, não sei, é difícil dizer, porque é um começo de desenvolvimento geral, até com a HWA, que tem um acordo direto com a Venturi, tudo aquilo que a gente usa eles usam também, o desenvolvimento está sendo conjunto. Então acho que, fora isso, todo o trabalho, o investimento que a Venturi vem fazendo para contratar novos engenheiros - não só engenheiros, mas eu, um piloto, a Susie Wolff entrando como sócia da equipe, toda essa mudança que a equipe vem fazendo, lógico que foi o que eles mostraram antes de assinar. Acho que tudo isso fez um efeito maior do que as equipes que estavam me mostrando. Sem dúvida, essa foi a parte principal para eu resolver aceitar e assinar com a Venturi.

E, lógico, olhando para tudo isso que eles me ofereceram, fora ainda eles serem de Mônaco, como eu sou, acho que tudo isso calhou muito bem, e tomara que a gente tenha o sucesso que eu gostaria. Mas, sem dúvida, comparando com todas as equipes que eu conversei, a Venturi foi a equipe que me ofereceu coisas mais importantes e interessantes e comparando com as outras, e foi a minha decisão.”

Massa na chegada à Venturi
Venturi

GP*:  Você falou da Susie, e ela está listada como team principal. Ela era piloto até outro dia, ela ainda é bastante jovem. É uma relação diferente entre piloto e chefe de equipe quando é alguém tão próximo da pista, que estava ali até pouco tempo? A dinâmica muda de alguma forma?

FM: “Acho que sim, cara. Primeiro lugar que a Susie entrar mostra que é um trabalho novo para ela. Era uma piloto que resolveu virar chefe de equipe. Então é uma mudança grande para ela também, um aprendizado novo para ela também, que ela tem muito que entender, aprender, crescer nesse lado, porque não é uma mudança tão simples ser piloto e virar chefe de equipe. Mas vejo que ela está muito motivada, está fazendo um trabalho bem interessante no desenvolvimento da equipe, no trabalho para continuar fazendo a equipe crescer, mudar esse patamar da Venturi, que vem até agora, nesse momento. Mas eu acho interessante, tem muita coisa que a gente conversa no desenvolvimento, jeito de falar do carro e da equipe em geral, e ela entende muito bem. Eu vejo nela uma vontade muito grande de ser uma peça importantíssima dentro da equipe.”

GP*: Depois que a Venturi te confirmou, demorou um tempo, fizeram um suspense para confirmar o Mortara como segundo piloto. É importante ter junto com você alguém que já tem um ano na categoria, já tem alguma vivência ali, ou, de novo, a mudança do carro diminui essa importância?

FM: “Acho que é importante para tudo, não só para mim, ter um cara que já tem uma noção da categoria. Ele é um piloto muito rápido, pra falar a verdade, e quase ganhou corrida no ano passado. Ele quase não ganhou a corrida, que foi a primeira do ano passado, porque ele acabou rodando, ele estava em primeiro faltando poucas voltas para o final. Mas, sem dúvida, ele é um cara que demonstrou ser muito rápido, tem uma velocidade muito boa. É um piloto não só rápido na FE, mas muito rápido também no DTM, já ganhou algumas corridas, tem experiência. Acho que é importante para o desenvolvimento, não é um piloto que está chegando, que não tem experiência... E ele tem uma experiência muito boa. Acredito que para ajudar no desenvolvimento da equipe e também no meu desenvolvimento acho que isso é bem importante. Acredito que a gente se entendeu bem nos treinos e acho que o trabalho em conjunto está sendo muito importante para evoluir a equipe.”

GP*:  A temporada começa na Arábia Saudita, um acordo enorme que a FE fez com eles. Mas a Arábia Saudita está envolvida numa guerra muito polêmica, que causa a maior crise humanitária do mundo, teve a questão do assassinato do jornalista, que a CIA chegou à conclusão que foi a mando do príncipe... Isso é conversa dentro do meio esportivo? Incomoda de alguma forma ou, simplesmente, acreditam que o bem que a FE pode fazer lá, de inclusão ou questões sociais, são maiores que se meter nesse tipo de coisa?

FM: “Bom, cara, a gente não pode se esquecer que houve problemas em outras categorias, como na F1, teve o problema no Bahrein e a gente acabou correndo lá do mesmo jeito, acabamos não correndo num ano... Então teve outros problemas no meio, mas não problemas ligados a gente e sim ligado a outras coisas, ou religião ou outras coisas em geral. Na verdade, cara, acredito que o esporte sempre pode trazer algo positivo para um país, independente dos problemas que o país tem. Sou sempre muito a favor do esporte, acho que o esporte é sempre importante, não só o nosso, como o futebol e em geral, acho que isso pode trazer muita coisa boa para o país, independente dos problemas que o país tenha. Agora, levando para o outro lado, da ONU, da segurança, do outro lado em geral, a gente tem a FIA, que é quem toma conta de tudo isso. Ninguém quer ir para um país que a gente sabe que não vai ter a segurança que deveria. Agora, quanto a isso, não consigo te responder. Confio na FIA e confio que qualquer tipo de problema que tivermos, os pilotos e a categoria em geral, é importante analisar como um todo. Mas sempre fui e continuo sendo muito a favor do esporte para qualquer tipo de problema que um país tenha.”

 

GP*:  Outro dia, a gente falou com o Cacá Bueno sobre a entrada dele na eTrophy, e ele falou em uma coisa que achei interessante. Ele falou que, além da questão esportiva, claro que o grid vai ser forte, é uma coisa que ele quer na biografia dele, um pouco de legado, saber que como o elétrico é o futuro da indústria automotiva, saber que um pouquinho daquilo ali foi você que ajudou a desenvolver. Isso também é uma questão pra você?

FM: “Acho que sim, cara. O Cacá foi muito inteligente na resposta que ele deu, e concordo 100%. Acho que o futuro é muito ligado ao lado elétrico, não só no automobilismo, mas nos carros, no nosso futuro, bicicleta, moto, caminhão, ônibus, que a gente deve ter, já já, um sistema completamente diferente do que tem hoje. Então acho que isso é bacana, fazer parte desta mudança, e logo no começo. Sem dúvida, o Cacá foi muito inteligente e respondeu algo que tem muito a ver com toda essa mudança que a gente está tendo no nosso mundo em geral. E eu também faço parte disso e é um prazer. Poderia estar correndo em outras categorias, mas acho que o que a Fórmula E está proporcionando em todas as áreas que estou dizendo, áreas do desenvolvimento do carro, do desenvolvimento do carro elétrico em geral, acho que, para a saúde das pessoas, para o meio ambiente, para tudo isso é algo muito importante.

E o tanto que a FE vem crescendo comparando com todas as outras categorias, incluindo a F1, é algo que pode, sem dúvida, vai continuar crescendo, na minha opinião, e pode até passar, como o Nico Rosberg disse, pode vir até a passar a F1 quem sabe um dia. É muito difícil dizer quando, como e se isso vai acontecer, mas o que é claro é que não é impossível que aconteça.

Então é bacana estar dentro de um esporte com toda essa mudança, toda essa mentalidade que a FE, sem dúvida, está proporcionando. Outra: tanto do lado financeiro, se você olhar quantos patrocínios o campeonato está assinando, as equipes vêm assinando. Até, por exemplo, estou acertando mais patrocínio correndo de FE do que quando estava na Williams. No final, cara, mostra que tem uma mudança gigante e uma vontade das empresas de fazer parte de um campeonato, de uma mentalidade diferente, que é o que a FE vem trazendo.”