Guia FE 2018/19: Lucas Di Grassi

Um dos cinco pilotos que segue em 100% das corridas da história da Fórmula E, Lucas Di Grassi vê as novidades da categoria com entusiasmo e espera uma luta pelo título empolgante em 2018/19

Pedro Henrique Marum, do Rio de Janeiro,
Nathalia De Vivo, de Interlagos &
Felipe Noronha, de Interlagos

A temporada 2017/18 de Lucas Di Grassi foi uma das mais estranhas de qualquer piloto da Fórmula E na história da categoria. Sem pontuar nas quatro primeiras corridas – todos os titulares já haviam saído do zero naquele momento -, Di Grassi se recuperou e terminou a temporada com uma sequência jamais vista antes no campeonato: sete pódios, todos com primeiro ou segundo lugares. A chave para o sucesso na nova temporada? Repetir a parte final.

Em entrevista exclusiva concedida ao GRANDE PREMIUM, Di Grassi fez uma avaliação extremamente positiva do novo carro – “melhor em tudo” – e reforçou que haverá pouco dos últimos anos para carregar 2019 em diante.

O que Di Grassi vê pela frente, sim, é mais um ano com competição brutal pelo título. O grid agora é maior e conta com mais uma fábrica de peso para competir: a BMW.

Di Grassi participou dos testes em Valência
FE

GRANDE PREMIUM: Como tem sido sua adaptação à FE, ao carro e tudo mais nesses últimos meses?

Lucas Di Grassi: Na verdade, só podemos desenvolver o trem de força e o programa de software, o carro já vem desenvolvido para nós, não podemos mudar nada. Com a Audi fizemos praticamente 30 dias de testes, desde abril até agora, vimos a confiabilidade, que tivemos problemas ano passado, software, corrida, classificação, pneu que é novo, várias coisas. Fizemos um bom trabalho, mas nosso trabalho só vai ser suficientemente bom se ficarmos na frente dos outros.

Tem muita gente forte esse ano, é muito competitivo, de novo vai ser nos detalhes e constância. O carro é diferente, é mais moderno, tem outras funções. Melhoraram no carro praticamente em tudo, tem mais potência, acelera mais rápido. Mas, de uma forma geral, pilotar o carro é mais ou menos igual, aderência é mais ou menos igual, corrida é mais ou menos igual.

GP*: Quais as maiores diferenças que você notou do carro da FE para o que você estava acostumado, em termos de feeling e em termos técnicos? O que te chamou mais a atenção?

DG: Valência não é uma pista relevante, não corremos em pista como Valência. Então, o setup do carro não dá para saber, o que dá para saber era o trem de força, se estava confiável ou não, mas o nosso estava bom. Então acho que vamos estar competitivos.

GP*: Você acha que o fato de ter novos carros diminui distâncias e nivelar a competição?

DG: Acho que vai ser muito competitivo não por causa do carro, mas porque todas as montadoras estão investindo pesado em seu trem de força. Então devem ter três ou quatro equipes com chances de ganhar corridas. 

 

GP*: A FE tem um grid que é obviamente muito forte, mas a chegada do Massa, um vice-campeão mundial de F1, na categoria muda o grid de patamar de alguma forma?

DG: Não, acho que não. Na FE tivemos o [Takuma] Sato, [Jarno] Trulli, o [Jacques] Villeneuve, que foi campeão. O Felipe tem que criar o espaço dentro da FE pelo trabalho que vai fazer na categoria, não pelo passado dele, quem vive de passado é museu. Piloto vive de presente, de futuro. O Felipe tem total capacidade no nível que está pilotando, deveria continuar na F1, os dois pilotos da Williams do ano passado eram muito piores, ele deveria ter continuado. Ele é excelente piloto de nível mundial, tem muita experiência e vai andar bem na FE. Mas ele tem que conquistar o espaço dele na FE e não viver do que ele fez na F1. Mas, de qualquer jeito, para o Brasil vai dar uma expandida para a FE, uma expandida especial, porque o pessoal conhece bastante o Felipe e isso vai ajudar o pessoal entender que a FE é a segunda maior categoria mundial e vai crescer cada vez mais.

GP*: O ano passado começou com dificuldades para a Audi, mas terminou de forma brilhante. Como fazer para não começar com problemas?

DG: O principal é a confiabilidade e trabalho em equipe. No início, a equipe estava muito desorganizada, eram muitas pessoas novas. Agora, vamos tentar manter esse ritmo que terminamos o ano para começar o ano.

GP*: O que dá para levar daquilo que a Audi fez de bom nos últimos anos para a próxima temporada, com tantas mudanças?

DG: Acho que não tem muita coisa, vai mudar o formato da corrida, vai mudar uma série de coisas. Todo mundo vai começar mais ou menos do zero, podemos trabalhar melhor o simulador que fizemos no passado, podemos preparar melhor. Quem entender melhor e mais rápido esse novo formato da corrida vai levar vantagem.

 

Di Grassi é um dos favoritos ao título
FE

GP*: A temporada começa na Arábia Saudita, um acordo enorme que a FE fez com eles. Mas a Arábia Saudita está envolvida numa guerra muito polêmica, que causa a maior crise humanitária do mundo, teve a questão do assassinato do jornalista, que a CIA chegou à conclusão que foi a mando do príncipe... Isso é conversa dentro do meio esportivo? Incomoda de alguma forma ou, simplesmente, se acredita que o bem que a FE pode fazer lá, de inclusão ou questões sociais, são maiores que se meter nesse tipo de coisa?

DG: Não que eu saiba. Obviamente, estou ciente das discussões políticas, porém, é uma decisão da categoria e dos meus chefes. Do ponto de vista estratégico, para a Arábia Saudita, tirando essa parte polêmica, a parte de estratégia, um país que vive do petróleo receber uma corrida de carros elétricos mostra que o mundo inteiro está caminhando nessa direção.  Acho que isso é o mais relevante para a categoria nesse momento atual.

GP*: Vê alguma mudança nas chances de ter uma corrida da FE no Brasil?

Olha, já desenhei uma pista muito legal em São Paulo, estamos estudando essa possibilidade. Eu diria que temos 50% de chance de ter uma corrida, não é tão fácil organizar uma corrida aqui, mas acho que tem uma prospecção boa. O Brasil precisa entender que a mobilidade elétrica é o futuro para ajudar, e se conseguirmos organizar uma corrida aqui em São Paulo, no Brasil, seria incrível.