Alonso x Vettel na Ferrari

Duas e quatro vezes campeões da Fórmula 1, os pilotos se despediram da escuderia italiana com a sensação de que poderiam conquistar mais com o macacão vermelho. Tifosi sequer tiveram lapso de memória da Era Schumacher com os seus cinco títulos mundiais

André Avelar, São Paulo

Nem Fernando Alonso e, desde a última terça-feira (12), nem Sebastian Vettel. Individualmente, os dois pilotos falharam na missão de reconduzir a Ferrari no caminho dos títulos e deixaram uma estranha sensação na Fórmula 1. A menos que erga o improvável troféu ao final da ainda mais improvável temporada, a sensação é que o alemão, assim como o espanhol, poderiam conquistar mais com o macacão vermelho.

Mas na frieza (e, em geral, ‘crueldade’) dos números, quem foi melhor na escuderia italiana: Alonso ou Vettel? Embora nenhum dos dois tenha feito os tifosi sequer ter um lapso de memória dos dourados anos 2000, com os cinco títulos da Era Schumacher, as temporadas e os números de corridas similares merecem a comparação do ‘Lado a Lado’ do GRANDE PREMIUM. O bicampeão mundial chegou à Ferrari em 2010 e ficou até 2014, sendo sucedido no ano seguinte justamente pelo tetracampeão, que anunciou que deixará o time ao final deste ano.

Michael Schumacher, é bom que se diga, não está no mesmo nível de comparação numérica com qualquer outro piloto da Ferrari. Os dez anos na equipe, nos tempos da moderna F1, tendo conquistado 72 das suas 91 vitórias e enfileirado cinco dos seus sete títulos mundiais (de 2000 a 2004) o distanciam até mesmo de nomes como Niki Lauda, campeão ‘só’ duas vezes com o time (1975 e 1977, conquistou o troféu de 1984 já pela McLaren).

FERNANDO ALONSO NA FERRARI

Idade: dos 28 aos 33 anos
Temporadas: de 2010 a 2014

Corridas: 96 (314 na carreira)

Vitórias: 11 (32)
Pódios: 44 (97)

Porcentagem de vitórias na Ferrari: 11,46%

Campeonatos: três vices (2010, 2012 e 2013)


SEBASTIAN VETTEL NA FERRARI

Idade
: dos 27 aos 32 anos*
Temporadas: de 2015 a 2020*

Corridas: 102 (241 na carreira)

Vitórias: 14 (53)

Pódios: 44 (120)

Porcentagem de vitórias na Ferrari: 13,73%

Campeonatos: dois vices (2017 e 2018)



*números de maio de 2020

Kimi Räikkönen havia quebrado o jejum de títulos em 2007, Felipe Massa havia batido na trave em 2008, e Maranello exigia um nome de peso para de novo multiplicar sua galeria de conquistas ao final do ano seguinte. Foi sob esse ambiente e com enormes pretensões que Alonso chegou. O espanhol, primeiro do país a sentar no cockpit da equipe e primeiro campeão a ser contratado depois de Schumacher, comprou rapidamente a ideia. O clima não era mais hostil como na McLaren, tampouco andaria para trás como Renault.

Alonso chegou na Ferrari com 28 anos e dois campeonatos de F1 (2004 e 2005), esses de sua primeira passagem na então poderosa Renault. Ao todo foram 96 corridas e 11 vitórias, tendo ido ao pódio em 44 oportunidades no total. Foram três vices-campeonatos, em 2010, 2012 e 2013, e aqueles marcantes olhos parados de quem não acreditava no que estava acontecendo. Se no primeiro ano com a equipe foram logo cinco vitórias, no último não foi ao lugar mais alto do pódio uma vez sequer.

Para piorar as coisas, uma mudança no comando da equipe deixou a relação política, algo que Alonso tanto tinha trauma, mais difíceis para o piloto. Luca di Montezemolo foi afastado das operações da F1 e Sergio Marchione passou a ser o novo diretor-executivo. Pronto. Alonso, que chegou com juras de amor em italiano, já buscava outro carro para o ano seguinte e lá foi para a McLaren reclamar do motor Honda e andar do meio para o fim do grid.

Sebastian Vettel ainda não anunciou o que fará depois da temporada 2020 de Fórmula 1
Divulgação/Ferrari

A porta então foi escancarada para Vettel. Esse, que se despede falando não mais que ‘grazie ragazzi’, havia dominado a categoria com a Red Bull e sucessivos quatro títulos mundiais (2010, 2011, 2012 e 2013) não suportou uma temporada ruim sequer e lá foi para a Ferrari em 2015. Assim como seu compatriota Schumacher, de cara não se importou em falar italiano fluente. As credenciais já apresentadas e, mais do que isso, a expectativa por novas conquistas, permitiam tal luxo. Mas a jornada encontrou pela frente Mercedes pra lá de dominantes na maior parte do tempo com Lewis Hamilton, mas também com Nico Rosberg.

Diferentemente de Alonso, os melhores anos de Vettel na Ferrari estiveram no final de sua passagem, com um carro mais bem desenvolvido e, por vezes, até naturalmente mais rápido que a Mercedes. Ele ficou com os vice-campeonatos de 2017 e 2018 tendo liderado boa parte deles até se perder em erros da equipe e individuais que jogaram o campeonato por água abaixo. Em 2019, uma briga destemperada com o jovem Charles Leclerc o fez perder o controle e, quem sabe, o amor pela F1. Ao todo, foram 102 corridas, com 14 vitórias e 54 pódios com a Ferrari.

Se a F1 não sabe o que fazer em 2020, com a rasa perspectiva de começar a temporada do asterisco em 7 de junho, com o GP da Áustria, sem a presença do público, Vettel também não anunciou o seu futuro para o ano que vem.

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