Antiga Ferrari x Nova Ferrari

Depois de um primeiro terço de campeonato decepcionante para a Ferrari, o segundo foi de renascimento. A performance de Charles Leclerc disparou, enquanto Sebastian Vettel reencontrou a vitória. Os números mostram uma equipe que já anima para 2020

Vitor Fazio, de Berlim

Tivemos apenas 15 das 21 etapas da temporada 2019 da Fórmula 1 até aqui, com seis restando para determinar a ordem final de equipes e pilotos no Mundial. Só que, mesmo sem esperar o fim do campeonato, uma coisa já ficou clara: o divisor de águas que existe no ano da Ferrari.

A equipe italiana viveu um primeiro terço de campeonato em que tudo deu errado, mas agora atravessa um segundo de esperança. Corridas de decepção pura, como as da Austrália e Espanha, foram substituídas por umas de empolgação, vide vitórias na Itália e em Singapura, mostrando tanto velocidade quanto poderio estratégico.

É verdade que o sonho do título é algo distante já há tempos, com Lewis Hamilton precisando apesar fazer o básico para assegurar um novo caneco de campeão mundial. O mesmo vale para a Mercedes e a briga entre construtores. Entretanto, seria uma análise superficial demais dizer que deixar o título escapar transforma a reação ferrarista em algo irrelevante. A possibilidade de ter os italianos ganhando ainda mais terreno para virar uma grande força em 2020 não pode ser ignorada.

Antes de pensar no que vai acontecer no futuro, é hora de olhar para o passado. No LADO A LADO desta semana, comparamos o primeiro terço de temporada com o segundo, constatando números já melhores para a esquadra de Maranello.

GP da Austrália - GP da França (8 GPs)

Vitórias: 0
Pódios: 7
Pontos: 198 (2ª melhor equipe)

Sebastian Vettel: 111 pontos (3º melhor piloto)
Charles Leclerc: 87 pontos (5º melhor piloto)

Já parece coisa de um passado remoto, mas a Ferrari foi para a Austrália como certo ar de favoritismo na F1 2019. A equipe conseguiu o melhor tempo da pré-temporada e parecia capaz de, na pior das hipóteses, brigar com a Mercedes de igual para igual.

Só que a pior das hipóteses foi bem pior do que isso. O SF90 ficou milhas distante da vitória na Austrália, por exemplo. No Bahrein, quando o carro ganhou vida, o que se viu foi uma falha mecânica que fez Charles Leclerc cair de primeiro para terceiro nas voltas finais. A próxima grande chance de vitória só veio no Canadá, quando uma punição polêmica aplicada a Sebastian Vettel fez Lewis Hamilton ir ao alto do pódio.

O problema é que perder vitórias que pareciam encaminhadas não foi a única foram de se decepcionar. Enquanto a Mercedes já começava a encaminhar o título, a Ferrari sofria para superar até mesmo a Red Bull, como visto nos GPs da Espanha e da França, quando não houve sequer pódio. Já estava claro que o SF90 tinha defeitos e ainda não se sabia como os corrigir.

GP da Áustria - GP de Singapura (7 GPs)

Vitórias: 3
Pódios: 8
Pontos: 196 (melhor equipe)

Charles Leclerc: 113 pontos (melhor piloto)
Sebastian Vettel: 83 pontos (4º melhor piloto)

Na passagem do GP da França para o GP da Áustria, divisor de águas nessa análise, a performance da Ferrari ainda estava errática. O Red Bull Ring trazia uma nova oportunidade para a equipe, com Charles Leclerc, só que a vitória foi tirada das mãos do monegasco graças a uma manobra ousada de Max Verstappen.

Foi uma pena para a Ferrari, porque as três pistas seguintes – Silverstone, Hockenheim e Hungaroring não eram exatamente ótimas para um carro que claramente sofria em curvas. Mesmo que a Alemanha tenha contado com doses de loucura, sonhar com vitória era somente isso – sonhar.

E aí veio o GP da Bélgica, após as férias de agosto. A Ferrari finalmente venceu, aproveitando uma performance sólida de Leclerc em Spa. Entretanto, ainda não tinha sido aquela atuação para encher os olhos e confirmar o renascimento da Ferrari – afinal, a Mercedes chegou perto demais. O mesmo valeu para Monza, apesar de que a emoção da vitória tenha deixado análises mais frias sobre o carro vermelho contra o prateado em segundo plano.

Foi só em Singapura, 15ª corrida do ano, que a maré virou. O carro que se imaginava só ser bom em pistas de alta velocidade mandou bem em um dos mais travados. E justo antes de uma sequência de pistas mais travadas, como Suzuka, Austin e Interlagos. E com uma temporada cheia de novas possibilidades pintando em 2020.