As joias da coroa

Alexander Albon colocou a bandeira tailandesa no grid da F1 depois de um hiato de 65 anos. O jovem, que começa a brilhar com a Red Bull, é o segundo nome da monarquia asiática no topo do automobilismo, repetindo os passos do lendário Príncipe Bira

Fernando Silva, de Sumaré

Até o fim de 2018, a história da Tailândia na F1 se resumia a apenas um nome: Birabongse Bhanudej Bhanubandh, conhecido mundialmente também como Príncipe Bira. Nascido em 15 de julho de 1914 em Bangcoc, no antigo reino do Sião, era filho do irmão mais novo do Rei Chulalongkorn. Membro da família real, Birabongse tinha como avô o rei Mongkut. Bira cruzou o mundo, foi estudar na Inglaterra junto com o primo e tutor, o Príncipe Chula, tinha o sonho de ser escultor, mas se apaixonou pelas corridas.

O apreço pelo automobilismo, que vivia seu momento romântico na década de 1930, foi motivado justamente pelo primo, que tinha uma equipe de corridas. White Mouse Racing era o sugestivo nome. Foi o início de uma promissora carreira nas pistas, que teve como ponto alto a vitória na Copa do Príncipe Rainier, em Mônaco.

Só que a carreira do Príncipe Bira e o automobilismo como um todo foram interrompidos por conta da Segunda Guerra Mundial. O tailandês tirou licença de pilotos e fez parte da Royal Air Force do Reino Unido, participando do conflito como instrutor-chefe na estação aérea e naval de Saint Merryn. Em 1950, fez parte do primeiro grid do Mundial de F1 ao disputar o GP da Inglaterra com um carro da Maserati.

A carreira do Príncipe Bira na F1 durou até 1954. Amante dos esportes, Bira tornou-se atleta olímpico. Velejador, participou de quatro Jogos Olímpicos: 1956, em Melbourne; 1960, em Roma; 1964, em Tóquio; e em 1972, em Munique.

Em 23 de dezembro de 1985, Príncipe Bira foi encontrado morto na estação de metrô de Barons Court, na capital britânica, vítima de ataque cardíaco. O ex-piloto não foi reconhecido, já que não carregava qualquer tipo de identificação. A única evidência a respeito da sua origem era uma carta escrita à mão, que estava no seu casaco. O papel foi levado para ser traduzido na Universidade de Londres. A carta estava endereçada ao Príncipe Bira, que morreu sozinho e pobre.

Príncipe Bira se notabilizou por colocar a Tailândia no mapa da F1
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Demorou 65 anos para que a bandeira da Tailândia fizesse novamente parte do Mundial. Jovem de apenas 23 anos, filho de pai britânico e mãe tailandesa, Alexander Albon Ansusinha nasceu na mesma Londres que viu a morte do Príncipe Bira. O jovem, por decisão da família, passou a representar a nação da mãe, reza a lenda, para aumentar as chances de angariar bons patrocínios.

Em 2011, disputou o Mundial de Kart da classe KF1. A prova era realizada em etapas ao redor do mundo e teve Nyck de Vries como campeão. Albon foi o vice. Quem também fez parte da competição foi o agora saudoso Anthoine Hubert.

O talento do anglo-tailandês chamou a atenção da Red Bull, que o nomeou para seu cobiçado programa de pilotos, na crista da onda por conta do sucesso de Sebastian Vettel na F1. Mas Albon não teve um ano muito bom na sua primeira temporada nos monopostos, em 2012, quando correu na F-Renault. Sem paciência, a Red Bull resolveu dispensar Alex, que teve uma nova chance ao ser acolhido pelo programa de jovens da Lotus — hoje, Renault.

Albon começou a engrenar mesmo a partir de 2014, quando venceu uma prova da F-Renault Norte Europeia (NEC) e foi terceiro colocado na F-Renault Europeia. Novamente, De Vries, já badalado por ser membro do programa de desenvolvimento da McLaren, foi o campeão. Era o início de uma ascensão que, após boa passagem pela F3 Euro, teve mais um bom ano na GP3. Albon teve uma temporada notável, com três vitórias, um total de sete pódios e o vice-campeonato, ficando só atrás de Charles Leclerc.


Assim como Leclerc, Albon também subiu para a F2. Mas enquanto o monegasco explodiu de cara e foi campeão logo no primeiro ano, Alex mostrou mais uma vez que era preciso de um pouco mais de tempo para deslanchar no último degrau antes da F1.

Depois de um ano ok, com dois pódios e o oitavo lugar correndo pela ART Grand Prix em 2017, o anglo-tailandês assumiu o cockpit da forte equipe DAMS e foi um dos destaques da temporada seguinte: quatro vitórias, três poles e um total de oito pódios. Terceiro lugar em um grid dos melhores e que teve os prodígios britânicos George Russell e Lando Norris como campeão e vice, respectivamente.

A caminhada de Albon parecia estar destinada ao caminho elétrico da Fórmula E, já que o piloto tinha contrato assinado para correr pela Nissan a partir do último mês de dezembro. Só que aí apareceu novamente a Red Bull que o dispensou seis anos atrás. Sem alternativas como piloto para a Toro Rosso, já que Pierre Gasly havia sido promovido para ocupar a vaga deixada por Daniel Ricciardo, Helmut Marko e Christian Horner tiveram de negociar com a equipe franco-japonesa e garantiram o improvável: Alexander Albon era o novo piloto no grid da F1.

Alex tinha conhecimento de causa sobre a pressão incessante exercida pela cúpula da Red Bull: resultados ou rua. O piloto, fã de Valentino Rossi, fez um bom trabalho e não comprometeu nas 12 primeiras corridas do seu ano de estreia na F1. Pontuou quando o carro construído em Faenza ajudou e chamou a atenção pela maturidade. Em contrapartida, o não menos promissor Pierre Gasly decepcionava os exigentes Horner e Marko, que perderam a paciência com o francês na saída para as férias.

Gasly acabou sendo rebaixado e voltou para a Toro Rosso para ocupar o lugar de Albon, que ganhou a inesperada chance de defender a equipe tetracampeã do mundo com apenas 12 corridas no currículo. A estreia foi no GP da Bélgica do último domingo, com Alex sendo um dos grandes destaques da corrida ao largar em 17º, recuperar muitas posições, realizar belas ultrapassagens e terminar na quinta colocação. Foi o melhor resultado da ainda curta carreira do anglo-tailandês na F1.

No entanto, o top-5 em Spa-Francorchamps ainda não é o melhor resultado de um piloto do reino da Tailândia na F1. A seguir, confira os números das carreiras de Príncipe Bira e Alexander Albon na principal categoria do esporte a motor.
 

Birabongse Bhanudej Bhanubandh (Príncipe Bira)

Nascimento: Bangcoc, 15 de julho de 1914
Morte: Londres, 23 de dezembro de 1984 (71 anos)

Estreia na F1: GP da Inglaterra de 1950
Equipes na F1: Maserati, Connaught, Simca Gordini, Gordini
GPs disputados: 19
Melhor grid de largada: 5º (GP da Inglaterra de 1950)
Melhor resultado: 4º (GP da Suíça de 1950 e GP da França de 1954)

Alexander Albon
Nascimento: Londres, 23 de março de 1996 (23 anos)

Estreia na F1: GP da Austrália de 2019
Equipes: Toro Rosso e Red Bull
GPs disputados: 13
Melhor grid de largada: 9º (GP da Inglaterra)
Melhor resultado: 5º (GP da Bélgica)