Fernando Alonso x Resto do Mundo

Piloto espanhol se despediu da F1 no último final de semana, no GP de Abu Dhabi, com dois títulos mundiais, 32 vitórias em 312 corridas, 1899 pontos e tendo vencido seus tantos companheiros de equipe em 67% das oportunidades ao longo de 17 temporadas

André Avelar, São Paulo

 

Metáforas futebolísticas nunca combinaram muito com o automobilismo. Mas o que dizer daqueles amistosos típicos da década de 1990 entre determinado time e o ‘resto do mundo’! Talvez os organizadores nem notassem o quão prepotente poderia soar a denominação da partida, o que faz o ‘Lado a Lado’ do Grande Premium lembrar do desempenho do espanhol Fernando Alonso contra seus companheiros de equipe, ao longo de 17 temporadas de F1.

Com uma McLaren que se arrestou pelas pistas de 2015 para cá, o piloto espanhol, evidentemente orgulhoso pelo seu bicampeonato mundial, deixou a categoria no último final de semana, no GP de Abu Dhabi. Foram 32 vitórias em 312 largadas, 1899 pontos — ainda que a contagem tenha sido alterada duas vezes enquanto correu — e muitos pilotos de mesmo macacão destroçados neste equivalente a ‘desafio contra o companheiro de equipe’, em linguagem própria dos videogames.

Na contagem garagem a garagem, levando em conta apenas o resultado de pista, Alonso levou a melhor em incríveis 67% das vezes, deixando os adversários com só 28% das vitórias e contando também 5% de quando nenhum dos dois pilotos terminou a corrida. Na pontuação total, que nem é propriamente o foco desta análise, o Príncipe das Asturias fez quase o dobro de pontos que a soma dos seus rivais na equipe. E os companheiros-rivais nem sempre foram quaisquer pilotos. Gente do gabarito de Jacques Villeneuve, Lewis Hamilton, Kimi Räikkönen e Jenson Button para citar só os também campeões mundiais.

Ao todo, contanto também os pilotos substitutos, o último #14 teve 20 duelos, contra 12 companheiros, nas quatro equipes que defendeu. Dos tempos de Minardi, passando por Renault duas vezes, McLaren duas vezes e Ferrari, se não se impôs como poucas vezes vista; ao menos endureceu a briga contra aquele que é o primeiro adversário. Desses embates todos, levou a melhor em 17 oportunidades, tendo empatado duas e perdido apenas uma briga para ver quem chegava na frente.

Alonso entrou na F1 em 2001, ainda pela extinta Minardi. Ali, já com título conquistado no automobilismo de base, imenso aporte financeiro e pinta de que seria um dos grandes da F1, o espanhol bateu o brasileiro Tarso Marques (6 a 4) e o malaio Alex Yoong (2 a 0). Depois do ano de testes, foi titular da Renault a partir de 2003, tendo vencido uma e perdido a outra para o italiano Jarno Trulli (9 a 6 e 6 a 8), que foi substituído ao final de 2004 pelo canadense Jacques Villeneuve, outra vítima de Alonso (2 a 0).

Nas gloriosas temporadas de 2005 e 2006, justamente as dos seus títulos mundiais, Alonso absolutamente reinou contra o italiano Giancarlo Fisichella (14 a 3 e 13 a 4 respectivamente). Por aí, com o talento e também todo o aparato da equipe a sua volta, estava justificado o rótulo de grande piloto, com potencial para ir muito mais longe na já vitoriosa carreira. Veio então a decisão de ir para a McLaren e a coisa começou a mudar de figura. Em 2007, o espanhol bateu o inglês Lewis Hamilton na pista (9 a 8), empatou nos pontos (ambos com 109), mas principalmente perdeu na preferência.

O melhor a fazer na temporada seguinte então era voltar para a Renault. O filho pródigo sentou novamente no cockpit francês e bateu Nelsinho Piquet no primeiro (13 a 3) e no segundo ano (8 a 2), quando o brasileiro foi substituído pelo francês Romain Grosjean (5 a 1) apesar do GP de Singapura do ano anterior, quando Nelsinho facilitou as coisas para Alonso. O tricampeonato parecia ainda distante e Alonso então tomou a decisão de migrar para a Ferrari em 2010. Por lá, de cara, encontrou um rival que prometia boa briga.

Lewis Hamilton e Fernando Alonso viveram 2007 tumultuado nos boxes da McLaren
AP

Felipe Massa dividiu a garagem da escuderia italiana com Alonso de 2010 a 2013. Apesar de algumas boas disputas na pista, ficou também a má impressão deixada via rádio logo no primeiro ano e uma clara mensagem que ditaria o rumo das próximas temporadas: “Felipe, Fernando está mais rápido que você. Você confirma que entendeu a mensagem?”, dita pelo engenheiro Rob Smedley, no GP da Alemanha. Alonso ganhou de Massa em todos os anos (14 a 5, 16 a 3, 18 a 2 e 17 a 2) em que estiveram juntos. A equipe era a mesma em 2014, mas o companheiro era Kimi Räikkönen, que também não foi páreo para o piloto (16 a 3) que insistia com mais um campeonato.

A partir de então, o espanhol se arrastou com a McLaren e, sem saber de início, se afastou de qualquer possibilidade de inclusive subir novamente no pódio. O padrão em suas garagens também mudou: o inglês Jenson Button (7 a 7) e o belga Stoffel Vandoorne (9 a 9) empataram as disputas de 2015 e de 2017. Ainda assim, perderam em 2016 (12 a 8) e deste ano (12 a 9), no adeus final.

Fernando Alonso também vitimou Felipe Massa em quatro temporadas na Ferrari
Divulgação/Ferrari