Os programas de base da F1

Enquanto a temporada não começa para valer, um dos atrativos da F1 é saber quem chega e quem sai nos programas de desenvolvimento de pilotos. Colocamos os cinco principais programas e seus respectivos talentos lado a lado

Vitor Fazio, de Berlim

Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Max Verstappen, Daniel Ricciardo e Charles Leclerc. Além do talento, o quinteto listado acima tem outro ponto em comum: o apoio desde a juventude de uma equipe de Fórmula 1. Os programas de desenvolvimento de pilotos já são uma realidade há anos, trazendo um novo panorama de formação que não dá qualquer pinta de perder o fôlego.

O formato de formação que antes parecia ser exclusividade da Red Bull logo se alastrou. Ferrari e Mercedes correram atrás e já conseguem encontrar pilotos tão bons quanto os dos taurinos. A Renault, voltando a caminhar com as próprias pernas na F1, tenta seguir o mesmo caminho.

2019 promete ser um ano particularmente importante para as ‘categorias de base’ da F1. Por motivos distintos: Red Bull e Ferrari colocam seu trabalho à prova, respectivamente com Pierre Gasly e Charles Lecerc. A Mercedes se vê com a decisão de renovar ou não com Valtteri Bottas, o que afeta diretamente o horizonte dos pupilos Esteban Ocon e George Russell no campeonato. Mas isso é só a superfície: na F2, na F3 e nos demais degraus da escada do automobilismo, a briga é de foice para ver qual companhia terá o melhor talento em seu estábulo.

Com isso em mente, o GRANDE PREMIUM coloca lado a lado os principais programas de desenvolvimento de pilotos da F1, assim como seus respectivos pilotos.

 

Ferrari

Fundada em 2010, a Academia de Pilotos da Ferrari virou uma força da F1 nos últimos anos. Após tempos em que só Jules Bianchi aparentava ser o único piloto bom o suficiente, o jogo começou a virar. Maranello virou referência por Charles Leclerc, agora na equipe principal, e Antonio Giovinazzi, às vésperas de assumir a titularidade na Sauber. Quem vem atrás dá pinta de ser capaz de tomar o mesmo rumo.

 

Giuliano Alesi, 19 anos – Quis o alfabeto que essa lista começasse justamente com um dos nomes mais questionáveis. Alesi está vinculado à Ferrari desde 2016, quando parecia ser simplesmente ruim. Passadas três temporadas na GP3, o filho de Jean parece ao menos ok. A temporada 2019 na F2 vai ser a hora do tudo ou nada em termos de aspirações na F1.

Enzo Fittipaldi, 17 anos – Talvez o mais talentoso da nova geração de Fittipaldis, Enzo assinou com Maranello no começo de 2018. A primeira impressão já foi muito boa: o brasileiro levou o título da F4 Italiana, sendo também terceiro na F4 Alemã. O neto de Emerson ainda é muito jovem e precisa remar bastante para ter chances reais de alcançar a F1, mas parece ser uma aposta das mais válidas da parte da Ferrari.

Callum Ilott, 20 anos – O britânico já é apontado como promessa há algum tempo. Ilott fez parte do programa de pilotos da Red Bull até 2015, quando um ano de estreia medíocre na F3 Europeia causou demissão. Curiosamente, Callum só melhorou depois disso: foram oito vitórias em dois anos no certame, seguidos de um terceiro lugar na GP3 em 2018. Já com o apoio da Ferrari, as portas da F2 se abriram, seguindo um futuro cada vez mais chamativo.

Gianluca Petecof, 16 anos – O brasileiro é o mais jovem do grupo. A falta de idade e experiência, todavia, não impediu aparições boas no ano de estreia em monopostos. A atuação na F4 Alemã, sendo décimo, acabou compensada pelo quarto lugar na F4 Italiana. Com mais experiência, Gianluca precisa aproveitar 2019 para dar mais indicativos sobre o verdadeiro nível de talento.

Mick Schumacher, 19 anos – Dispensa comentários. Filho da lenda, Mick passou de medíocre para novo nome do futuro em questão de meses. A temporada decepcionante na F3 Europeia em 2017 foi seguida de uma fenomenal em 2018, incluindo a raríssima sequência de cinco vitórias seguidas. Mais do que suficiente para convencer a Ferrari a oferecer um contrato, começando a pavimentar um caminho dos mais sólidos rumo ao grid da F1.

Outros: Marcus Armstrong, Robert Shwartzman

 

Red Bull

Formar jovens pilotos foi, por muito tempo, sinônimo de Red Bull. O Red Bull Junior Team começou no distante ano de 2001, muito antes da equipe de F1 sequer nascer. O programa teve seu auge com Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo e Max Verstappen, mas hoje passa por dificuldades. Com duas equipes e quatro vagas, os taurinos nem sempre têm pupilos em quantidade e qualidade para a F1.

 

Lucas Auer, 24 anos – O austríaco é um veterano nessa lista, além de ser uma surpresa como um todo. O sobrinho de Gerhard Berger fez temporadas medianas na F3 Europeia antes de subir para o DTM em 2015, tomando um rumo estranho para um piloto de monopostos. Quatro temporadas de altos e baixos depois, o austríaco surpreendeu ao aparecer com um acordo com a Red Bull a partir de 2019, ano em que faz transição para a Super Formula em parceria com a Honda no Japão. Seria a F1 um sonho ainda possível?

Daniel Ticktum, 19 anos – Com a chegada de Pierre Gasly ao grid da F1, Ticktum virou a nova grande aposta da Red Bull na base – o que talvez diga mais sobre o estado do programa do que sobre a qualidade do piloto. A carreira do britânico é controversa: em 2015, Ticktum ultrapassou nada menos do que dez carros em período de safety-car apenas para bater de propósito no rival Ricky Collard em etapa da F4 Britânica. O resultado foi uma suspensão de um ano no automobilismo. Ticktum voltou a correr em tempo integral em 2017, quando venceu o primeiro de dois GPs de Macau. O ponto baixo, por sua vez, veio em 2018: uma segunda metade de temporada fraca na F3 Europeia custou um título que parecia encaminhado contra Mick Schumacher. Ou seja, quem disser que sabe o que esperar de Ticktum no futuro está provavelmente mentindo.

Jüri Vips, 18 anos – Pilotos estonianos não surgem com frequência, mas Vips parece capaz de representar bem a pátria. O título na F4 Alemã em 2017 foi o cartão de visitas do piloto, que convenceu a Red Bull a oferecer um contrato de jovem piloto para 2018. A subida para a F3 Europeia rendeu um quarto lugar com quatro vitórias. Ficou decidido em 2019 que Vips passaria para a FIA F3, antiga GP3, onde já chega como possível candidato ao título.

Outros: Neil Verhagen, Jack Doohan, Dennis Hauger, Jonny Edgar, Harry Thompson, Yuki Tsunoda

 

Renault

Assim como a Red Bull, a Renault é uma das pioneiras na formação de pilotos. O Renault Sport Academy tem suas raízes no ano de 2002, quando a encarnação passada da equipe de F1 dava seus primeiros passos. O programa nunca fechou as portas, mas voltou a ganhar fôlego com o retorno dos franceses ao grid em 2016.

 

Caio Collet, 16 anos – A novidade do ano no projeto. Collet chega após um ano dos mais convincentes na F4 Francesa, vencendo sete das 21 corridas. O brilho no país europeu foi suficiente para chamar atenção da francesa Renault, que agora tem o brasileiro como nova aposta para o futuro. O próximo passo da carreira é a Renault Eurocup, onde Caio começa a lidar com pressão maior.

Anthoine Hubert, 22 anos – Foram anos e anos sem ser particularmente atrativo, mas Hubert conseguiu se destacar um pouco mais em 2018. Passagens medianas por Eurocup e F3 Europeia foram sucedidas por evolução das mais dignas na GP3. Hubert foi quarto na temporada de estreia, em 2017, e foi campeão em 2018. O francês surge como principal aposta da Renault na atualidade, mas tudo depende do nível de atuação na F2 em 2019.

Christian Lundgaard, 17 anos – O dinamarquês ainda não tem idade para ser considerado uma aposta forte para a F1, mas os sinais são ótimos. A Renault assinou com um rapaz que foi campeão da F4 Espanhola e da F4 SMP – campeonato russo – no mesmo ano. Em 2018, o feito foi o segundo lugar na Eurocup. Na nova FIA F3 em 2019, Lundgaard já é, sem exageros, nome forte para o título.

Outros: Max Fewtrell, Victor Martins, Guanyu Zhou

 

Mercedes

A habilidade da Mercedes em vencer títulos da F1 não se traduz necessariamente em habilidade com jovens. O Programa de Jovens Pilotos da Mercedes tem um total de três pilotos, sendo que um é kartista. Os outros dois, todavia, são de qualidade: George Russell e Esteban Ocon estão de prontidão para o dia em que uma vaga na equipe principal se abrir, apesar da clara dificuldade dos alemães em encontrar espaço em equipes secundárias.

 

Esteban Ocon, 22 anos – Pode parecer estranho ter alguém com duas temporadas e meia de F1 no currículo aparecer como júnior, mas é assim que a Mercedes classifica Ocon. O francês dispensa apresentações: campeão da F3 e da GP3, Ocon se consolidou como nome a ser acompanhado com duas temporadas das mais sólidas na Force India. A transição para Racing Point resultou na perda de vaga para Lance Stroll, mas Ocon parece estar na pole-position na briga por vaga na Mercedes caso Valtteri Bottas não renove.

George Russell, 20 anos – Outro que subiu para a F1, mas segue sendo chamado de júnior em Brackley. Russell teve anos normais na F3 Europeia e não aparentou ser talentoso a ponto de chegar ao ápice do automobilismo. 2017, ano de estreia na GP3, começou a mudar o panorama: o título veio, assim como viria também na F2 em 2018. Parecia que Russell ia ficar sem espaço na F1, mas o vínculo com a Mercedes rendeu vaga na Williams.

Outro: Andrea Kimi Antonelli

 

McLaren

Marcado para sempre por tirar Lewis Hamilton do interior da Inglaterra, o McLaren Driver Development Programme sempre teve uma boa mão para selecionar talentos. Além do exemplo óbvio de Lewis, o programa também foi responsável por levar Kevin Magnussen e Stoffel Vandoorne ao mais alto nível do automobilismo. Lando Norris, recém-saído dos ‘juniores’, soma-se à lista. Para uma escuderia que não anda acertando tanto nas pistas, é certamente um alento.

 

Nyck de Vries, 23 anos – O belga já chegou a parecer nome certo na F1. Assinado desde 2010, quando os britânicos ainda eram capazes de vencer corridas, o futuro de Nyck parecia dos melhores. Boas atuações na Eurocup e na World Series reafirmaram tal status. Mas os últimos anos não foram tão bondosos assim: De Vries não encantou na GP3 ou na F2 e acabou sendo ultrapassado por Lando Norris na escola. Nyck ainda não pode ser descartado do baralho da F1, mas talvez estejamos acompanhando o nascer de um novo Gary Paffett.

Sérgio Sette Câmara, 20 anos – Poucos são aqueles que recebem duas chances no automobilismo. Sette Câmara é um deles: dois anos depois de passagem apagada pelo programa da Red Bull, o brasileiro foi aproveitado pela McLaren após um 2018 convincente na F2. Sérgio chega a Woking ainda sem títulos, mas com resultados cada vez melhores. E que bom, porque o terceiro ano na porta de entrada da F1 pode ser a última chance real de dar o tão sonhado salto adiante.