Quase sem testar

A F1 de 2020 tem menos da metade dos dias de pré-temporada da de 2010. Explicações como corte de custos fazem sentido, mas não mudam um fato: as equipes podem ficar em becos sem saída ao sinal do menor dos contratempos

Vitor Fazio, de Berlim

Os testes da Fórmula 1 já não são como eram antigamente. Essa afirmação é amplamente aceita, já que as atividades privadas viraram coisa do passado e as pré-temporadas minguaram. Só que mesmo num espaço de apenas dez anos o tempo de pista conseguiu minguar ainda mais: depois de começar os anos 2010 com atividades em três pistas diferentes e ao longo de um mês, os anos 2020 começam com apenas seis dias de pista liberada.

A situação atual tem algumas explicações. A questão financeira virou um drama ainda maior, com equipes tentando cortar custos de qualquer forma. No caso particular de 2020, vale citar também que não há necessidade de testar à exaustão carros que devem ser bem parecidos com os de 2019.

Mesmo assim, é um panorama que deixa equipes no fio da navalha. Não há tempo hábil para corrigir carros problemáticos. Dependendo de quanto tempo uma equipe perca, seja por atrasos ou quebras, talvez não haja tempo nem sequer para detecar tais problemas.

Para exemplificar a mudança drástica no perfil dos testes da F1 em anos recentes, o GRANDE PREMIUM compara o cronograma da pré-temporada em três anos diferentes dos últimos tempos.

 

F1 2010

Semanas de testes: 4
Dias de testes: 15
Pistas: 3

A temporada 2010 foi uma das últimas com uma verdadeira fartura de datas de testes disponíveis. As equipes tinham nada menos do que um mês inteiro, do começo ao fim de fevereiro para testar as novidades dos carros. Essas quatro semanas totalizavam 15 dias de pista liberada.

Os trabalhos foram abertos bem cedo, já em 1° de fevereiro, com três dias de atividades em Valência. Como havia muito tempo de pista pela frente, nem todo mundo se dignou a colocar carro na pista de imediato. Das 12 escuderias que formavam o grid, apenas sete testaram em Valência. Das cinco ausências, a mais interessante foi a da Red Bull, futura campeã. Fazia sentido, já que colocar o carro na pista implicava em menos tempo para desenvolver peças e fazer ajustes necessários na fábrica.

Mesmo ficando de fora da primeira semana, a Red Bull ainda teve mais tempo de pista em 2010 do que terá em 2020. A equipe austríaca, ao lado da Force India, apareceu nos boxes de Jerez para a segunda semana. Haveria ainda uma terceira bateria de testes na Andaluzia.

Mesmo para as equipes nanicas, Lotus e Virgin, houve tempo para testar os carros. As duas, sofrendo com atrasos e contratempos, chegaram a testar ainda em Jerez, nos dias finais. Deu ainda para partir para Barcelona, onde a quarta e derradeira semana de testes aconteceria. Só que nem esse montão de datas disponíveis serviu para resolver os problemas da Hispania, que só começaria a engatinhar no GP do Bahrein, primeiro do ano.

 

 

F1 2015

Semanas de testes: 3
Dias de testes: 12
Pistas: 2

Mesmo que fossem apenas cinco anos de distância, as temporadas 2010 e 2015 já tinham panoramas muito distintos na F1. A questão financeira começava a pesar muito mais, consequência da dura transição para a era híbrida, de motor V6 Turbo. Duas equipes, Hispania e Caterham, haviam falido e outras duas, Force India e Manor, precisavam catar cada moeda para viabilizar a temporada.

O controle de custos começava a afetar a pré-temporada em si. O total de quatro semanas de testes caiu para três; o total de três circuitos diferentes caiu para dois. Mesmo assim, eram ainda 12 dias de pista liberada, dando certa liberdade para o teste de novidades nos carros.

Depois de uma primeira semana de oito equipes em Jerez, a Force India conseguiu aparecer na seguinte, já em Barcelona. E, assim como a Red Bull em 2010, teve mais dias disponíveis do que terá em 2020, mesmo participando do começo ao fim.

A terceira semana, também em Barcelona, completou uma pré-temporada bastante produtiva, com a marca de 100 voltas por dia sendo superada frequentemente por equipes e pilotos. A necessidade de poupar dinheiro era algo presente no imaginário do paddock, mas não a ponto de estrangular o desenvolvimento dos novos carros.

 

 

F1 2020

Semanas de testes: 2
Dias de testes: 6
Pistas: 1

A nova temporada vai bater um recorde negativo. São apenas seis dias de pista liberada, e todos apenas na pista de Barcelona. Em outras palavras, um contratempo na confecção de peças tem potencial para causar um atraso muito custoso. Afinal, perder dois ou três dias de sessão já significa ir para Melbourne sem conhecer direito o novo carro.

Acontece que mesmo uma equipe que faça o dever de casa e tenha tudo disponível em Barcelona vai sair sem tanto conhecimento assim. Não há variedade de pistas, como por exemplo a ida para o traçado mais travado de Jerez. Não há mais dias de pista molhada artificialmente para estudar a performance com pneus de chuva, como acontecia até recentemente. Batidas mais sérias, como as de Pierre Gasly e Sebastian Vettel na pré-temporada de 2019, passam a ter dimensão muito maior quando o tempo de reação é minimizado.

Uma explicação aceitável para a temporada mais curta é a de que os carros não mudaram tanto assim de 2019 para 2020. O desenvolvimento não é tão veloz assim, ainda mais com equipes cada vez mais dedicadas aos projetos de 2021. Além disso, qualquer economia possível é boa notícia para as equipes, talvez ainda mais do que já era em 2015.