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Por Fora dos Boxes

Piloto se cria em casa

As chegadas de Carlos Sainz e Max Verstappen à Toro Rosso em 2015 e a transição finalmente positiva de Daniil Kvyat para a Red Bull mostram como a fórmula para buscar (e preparar) talentos continua dando resultados. Em 2016, o programa conta com um brasileiro: Sérgio Sette Câmara

Passados quase 12 meses das estreias de Carlos Sainz Jr. e Max Verstappen no Mundial de F1, os olhares que recaem sobre os dois certamente são diferentes, nem um pouco desconfiados como eram após o anúncio de suas contratações para defender a Toro Rosso.

Um era um garoto de nem 17 anos que fizera apenas um ano nos monopostos — sem sequer ser campeão de sua categoria — que ganharia a chance de correr na F1. Outro era o campeão da World Series. Mas, em ambos os casos, o principal cartão de visitas eram os sobrenomes.

O desempenho no ano de estreia, entretanto, satisfez — ao público, à equipe e a eles mesmos.

“A meta era mostrar que dois novatos eram capazes de ajudar um time a fazer progresso, melhorar um carro, ter uma temporada positiva, e acho que nós dois atingimos essa meta”, afirma Sainz em entrevista ao GRANDE PREMIUM

É por aí mesmo. O espanhol sofreu bastante com falhas mecânicas. Foram sete abandonos, todos motivados por problemas no carro, além das muitas punições recebidas aos sábados com a perda de posições no grid de largada. Terminou o ano com 18 pontos e um sétimo lugar em Austin como melhor resultado.

Já Verstappen conseguiu ter mais momentos de destaque. 49 pontos, melhor marca entre os três estreantes da temporada, e quartos lugares na Hungria e nos Estados Unidos. 

“Tem que perguntar para os outros pilotos [se a gente hoje é respeitado dentro da F1]”, diz Verstappen ao GP*. “Para nós, é difícil responder, mas acho que nós dois estamos contentes. Não cometemos muitos erros, fomos rápidos, e então acho que a idade é irrelevante.”

A comparação feita com base nos números, contudo, não lhes interessa. “Sabemos o que aconteceu nos bastidores. Tivemos muitos problemas com abandonos e falhas técnicas”, reconhece Max, endossando o que seu colega dissera instantes antes: “Fomos muito punidos por causa dos motores, então não é justo olhar para as posições de largada e os pontos. Não olhamos tanto para para os números”.

OS GRANDES MOMENTOS EM 2015

Sainz: “A melhor sensação foi quando eu estava em sexto ou sétimo depois do acidente na Rússia. Eu estava me sentindo bem naquela corrida, mesmo que com problemas de freio depois da batida, era uma das minhas melhores provas na temporada. Depois, em Austin, foi uma boa recuperação.”

Verstappen: “Tive alguns. No começo da temporada, já na Malásia e na China, algumas boas ultrapassagens, eu estava curtindo aquilo. Depois, é claro, o mais especial no começo foi na Hungria, terminei em quarto. Depois, Austin, quarto de novo, também foi incrível. Foi mais “completo”, acho que realmente merecíamos aquele resultado. E a outra foi Spa, curti bastante. Então tive alguns bons momentos…”
(Carlos Sainz (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio))

Verstappen quebrou um recorde na segunda corrida da carreira, em Sepang, ao chegar em sétimo e se tornar o mais jovem a pontuar na história da F1. Também chamou a atenção por ultrapassagens arriscadas — inclusive em circuitos travados como Mônaco e Hungaroring. Antes, na estreia, Sainz terminou em nono depois de andar em quinto no início da prova.

O bom começo foi fruto de uma preparação extensa antes da estreia. Mais de 5,5 mil km percorridos nos testes, menos apenas que as duplas da Mercedes e da Sauber, além dos trabalhos feitos nos simuladores e com os engenheiros da Toro Rosso e da Red Bull.

Dá para dizer que o ano de 2015 serviu para consolidar o trabalho do Red Bull Junior Team. O programa de formação de pilotos da empresa austríaca conseguiu mostrar de vez que Sebastian Vettel não foi uma exceção. Só ele foi campeão, mas, depois dele, o pesado investimento já colocou na F1 vários pilotos capazes de fazer parte do grid.

Verstappen e Sainz já foram citados nesta reportagem; Daniel Ricciardo venceu três corridas em 2014 e bateu Vettel no confronto interno; e Daniil Kvyat subiu da Toro Rosso para a Red Bull depois de somente um ano e, apesar de uma adaptação complicada, terminou o ano com mais pontos que Ricciardo. Dá para citar, também, Sébastien Buemi e Jean-Éric Vergne.

O ápice foi o GP da Hungria, no fim de julho: Vettel venceu com Kvyat e Ricciardo completando o pódio, e Verstappen foi o quarto colocado.

Vettel e Kvyat juntos no pódio do GP da Hungria (Vettel e Kvyat no pódio do GP da Hungria (Foto: AP))

Kvyat entra nessa linha de raciocínio como sendo um marco para o programa porque foi o segundo ‘pós-Vettel’ a fazer com sucesso a transição de Faenza para Milton Keynes. Quando Mark Webber se aposentou no fim de 2013, houve certa dúvida sobre quem seria seu substituto.

Cogitou-se seriamente contratar Kimi Räikkönen, e até Fernando Alonso entrou nos rumores antes de que a opção por Daniel Ricciardo. O êxito do australiano e, mais recentemente, do russo, faz com que as opções caseiras tenham muito mais credibilidade para o futuro.

“Todos nós tivemos carreiras diferentes, mas, de certa forma, sim. A Red Bull provou que consegue nos deixar extremamente prontos e em excelente forma para sermos competitivos o bastante na F1. Ela tem sido fantástica para a minha carreira, e eu não estaria na F1 sem ela”, analisa ao ser perguntado pelo GP*.

O primeiro pódio da carreira de Kvyat foi no GP da Hungria (Daniil Kvyat recebe o troféu no pódio do GP da Hungria (Foto: AP))

Sainz, que tivera experiências prévias na F1 nos testes de jovens pilotos, sentiu-se já de cara confortável na categoria. “Eu tive a confiança das outras temporadas, então desde a primeira volta já me senti confiante para passar à equipe um feedback do carro. E eles também me davam feedback de volta sobre o que eu tinha que fazer para melhorar. Foi bem mútuo”, diz.

Max, mais jovem, demorou um pouco mais — mas não muito. “Da minha parte, falei bastante com o meu pai. Ele tem a experiência dele, eu o vi muitas vezes andando em outras categorias, e você aprende algo, claro. Mas quando você entra no kart e depois passa para os carros, os dados de telemetria são cada vez mais completos. Você aprende o básico e, quando passa para a F1, é outro passo, e você vai aos poucos se acostumando. Leva algum tempo para se acostumar ao carro e a todos os sistemas até se sentir preparado para a primeira corrida. Mesmo depois, você ainda está aprendendo, mas já sabe mais como explicar as coisas e como trabalhar."

Ao longo do ano, ainda houve outro fator: a colaboração entre ambos. Um não chega para o outro e avisa: “Aqui, você está freando muito cedo, tem que frear mais dentro. Aí já seria como se fôssemos namorados”, ri Sainz. “É, segurar na mão do outro, falar que ‘está tudo bem, amor’”, continua Verstappen. Mas, segundo a dupla, toda a telemetria é compartilhada entre os pilotos e os times de engenheiros.

BONS NA CHUVA

Tanto Verstappen quanto Sainz tiveram bons momentos no molhado em 2015. Verstappen em segundo em um treino em Mônaco, ambos nos pontos em Austin, fora outras sessões em que eles apareceram no top-10… O segredo estava no carro ou na tocada?

Sainz: “Pessoalmente, gosto bastante da chuva. É mais improviso. No seco, você tem um ponto de frenagem, um ponto para fazer a curva, e é quase o mesmo para todos. Na chuva, dá para experimentar mais as linhas, improvisar. É mais natural. A combinação de ter um bom carro, que nos dá confiança, mais andar na chuva.”

Verstappen: “Não podemos contar o segredo. É uma combinação de fatores. Claro, precisa do carro para ser capaz de fazer um bom trabalho. Mas no final, na chuva, a diferença é menor entre os carros. No seco, especialmente com relação à potência, as longas retas são mais neutralizadas. Perdemos nas retas ainda, mas tem também o feeling do piloto de saber para onde vai."
(No primeiro treino que fez na F1 em Mônaco, Verstappen ficou em segundo (Foto: AP))

Sainz foi muito afetado por problemas mecânicos em 2015 (Carlos Sainz (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio))

QUANTIDADE x QUALIDADE

 

Os programas de formação de pilotos que surgiram nos últimos anos foram variados. A McLaren, por exemplo, prezou por pinçar talentos aqui e ali. Apostou em Lewis Hamilton, Kevin Magnussen e tem Stoffel Vandoorne como o próximo da fila. A Ferrari, idem. Sergio Pérez e Jules Bianchi chegaram à F1 pela porta de outros parceiros.

O caso da Red Bull é diferente. Mais de 30 pilotos passaram pelo programa sem chegar à F1, muitos dispensados após apenas uma temporada por resultados considerados insuficientes dentro do alto padrão de cobrança de Helmut Marko. Um caso famoso é o do brasileiro Pedro Bianchini, relatado em reportagem especial nesta edição da REVISTA WARM UP.

Por outro lado, 11 chegaram a correr ou pela Toro Rosso, ou pela Red Bull na F1. E, uma vez dentro da F1, houve ainda uma outra questão: os que não avançaram devido à falta de espaço dentro da empresa. Buemi e Alguersuari estiveram no lugar certo, na hora errada, e Vergne foi preterido nos confrontos contra Ricciardo e Kvyat.

Graduados:
os pilotos que chegaram à F1 pelo Red Bull Junior Team

Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo, Daniil Kvyat, Carlos Sainz, Max Verstappen, Jean-Éric Vergne, Sébastien Buemi, Jaime Alguersuari, Christian Klien, Scott Speed, Vitantonio Liuzzi e Patrick Friesacher.

Jubilados:
aqueles que deixaram o programa antes da F1

Dean Stoneman, Callum Ilott, Alex Lynn, Beitske Visser, Tom Blomqvist, Callan O'Feeffe, António Félix da Costa, Lewis Williamson, Stefan Wackerbauer, Alex Albon, Brendon Hartley, Robert Wickens, Mirko Bortolotti, Mikhail Aleshin, Mika Mäki, Daniel Juncadella, John Edwards, Karun Chandhok, Tom Dillmann, Stefano Coletti, Jean-Karl Vernay, Pedro Bianchini, Kevin Mirocha, Oliver Oakes, Michael Ammermüller, Filipe Albuquerque, Edoardo Piscopo, Adrian Zaugg, Neel Jani, Niall Quinn, Yoshitaka Kuroda, Nathan Antunes, Philipp Eng, Martin Ragginger, Colin Fleming, Sergei Afanasiev, Matías Milla, Jim Ka To, Teemu Nyman, Guillhermo Rojas, Atte Mustonen, Narain Karthikeyan, Matt Jaskol, Dominique Claessens, Norbert Siedler, Reinhard Kofler, Mathias Lauda, Christopher Wassermann, Bernhard Auinger, Joel Nelson, Grant Maiman, Paul Edwards e Ricardo Maurício.

A lista também inclui pilotos que correram nas categorias de base pela equipe comandada por Helmut Marko, um dia conhecida como RSM Marko, mas rebatizada como Red Bull Junior Team para as temporadas 1999 a 2003.

Os indianos Karum Chandhok e Narain Karthikeyan são os únicos que aparecem na lista de jubilados que chegaram à F1, seguindo por outros caminhos.

O brasileiro Sérgio Sette Câmara debutou as cores da Red Bull no último fim de semana, nos testes de pré-temporada em Vallelunga. Ele ficou com o 2º melhor tempo, atrás de Callum Ilott, jubilado no fim de 2015 pela Red Bull, e logo à frente do compatriota Pedro Piquet (Sérgio Sette Câmara na pré-temporada da F3 Euro 2016 (Foto: Dirk Pommert/Quick Comunicação))
O Brasil de volta ao programa

 

O percentual de pilotos que deixa o programa após pouco tempo sugere que a cobrança e a pressão de Helmut Marko sobre os garotos é enorme. Bem, nem todo mundo pensa assim. Pelo menos esse não é o pensamento do mineiro Sérgio Sette Câmara, escolhido no fim do ano passado para integrar o Red Bull Junior Team em 2016.

“A pressão de não estar dentro de um programa desse é que é muito maior. Você está usando mais dinheiro da sua família e sabe que, no fundo, tem menos chances”, fala Câmara ao GRANDE PREMIUM. “Mas está fazendo de tudo para conseguir o seu sonho, está colocando muito em jogo, e as oportunidades não aparecem… Quando uma oportunidade dessa aparece, na verdade, é uma tranquilidade que te dá, porque significa que você investiu certo. Então é o contrário, isso tira muito peso do ombro”, completa.

Sette Câmara chamou a atenção do Dr. Marko, como o dirigente é conhecido lá dentro, correndo na F3 Europeia em 2015. Pela equipe Motopark, o brasileiro evoluiu bastante na segunda parte da temporada, chegando a subir ao pódio em Spa-Francorchamps e no Red Bull Ring, em terceiro em ambas as ocasiões. Na tabela de pontuação, fechou em 14º lugar.

O contato foi feito através da própria Motopark — a Red Bull procurou Timo Rumpfkeil, o chefe da equipe, que então avisou o piloto. “O Timo me ligou e disse que o Dr. Marko tinha pedido o número do meu empresário. ‘Ele pode ligar em dez minutos, pode não ligar, pode ligar em seis meses, só estou te informando’. Acabou que ele ligou em dez minutos e chamou a gente para fazer uma reunião na Áustria”, conta Câmara.

“A proposta era boa, lógico, mas a gente não assinou na mesma hora. Não tem que ser afobado, e ele mesmo fala que não tem que assinar na mesma hora. Foi tranquilo, não tem mistério”, comenta.

Na temporada 2016, Sette Câmara vai continuar na F3 Europeia com a equipe Motopark. Ele acredita ter amadurecido bastante ao longo de sua primeira temporada nos monopostos na Europa e estar em um time com o qual pode brigar pelo título. “Eu me sinto bem mais preparado, bem mais maduro”, garante. “O resultado que vai ser satisfatório para mim, que vai me deixar contente, é brigar pelo título até a última rodada. Quero ser competitivo e rápido no campeonato inteiro.”

Em 2016, a F3 Euro terá dez rodadas triplas. A abertura será entre os dias 1 e 3 de abril em Paul Ricard, na França.

Neste ano, também farão parte do Red Bull Junior Team o francês Pierre Gasly, o finlandês Niko Kari e o australiano Luis Leeds.
(Sérgio Sette Câmara na pré-temporada da F3 Euro 2016 (Foto: Dirk Pommert/Quick Comunicação))

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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