O que você precisa saber sobre as 24 Horas de Le Mans de 2016

A 84ª edição das 24 Horas de Le Mans acontece neste fim de semana na França, e aqui vai um guia do que ficar de olho na prova mais dura do automobilismo

Renan do Couto, de São Paulo

Tem F1, mas o evento mais importante do automobilismo neste fim de semana, na verdade, acontece em Le Mans. A 84ª edição das 24 Horas terá largada às 10h do sábado e promete uma disputa equilibradíssima entre as três montadoras da classe LMP1: Audi, Porsche e Toyota.

Mas as histórias para se ficar de olho não param por aí. A Ford está de volta e começando bem: os trios da Ganassi asseguraram uma dobradinha no grid de largada. Seis brasileiros estão inscritos, e há ainda o projeto experimental que neste ano leva à pista o tetra-amputado Frederic Sausset.

Aqui vai um apanhado geral e uma pequena prévia do que esperar das 24 Horas de Le Mans de 2016.

Porsche

Em 26 de maio de 1923, 33 carros, cada um deles com dois pilotos, largaram, às 16h, para o Grand Prix de Endurance de 24 Horas. Uma chuva forte caía sobre a região de Sarthe naquela tarde, complicando a vida de todos. Depois de um dia e 2.209,536 km, os franceses André Lagache e René Leonard, com um Chenard & Walker, venceram. Foi o começo da história de uma prova que já é quase centenária. O objetivo era estimular as montadoras da época a construírem carros mais confiáveis e resistentes, não necessariamente os mais rápidos. Deu muito certo, e aqui estamos na expectativa por mais uma corrida.

NÚMEROS

A pista

_ Volta: 13,629 km, 67% usando estradas públicas
_ Curvas: 38
_ o circuito original tinha 17,3 km; e a reta Mulsanne, sem as chicanes, 8 km
_ Recorde de velocidade média na corrida: 225,228 km/h em 2010 (distância percorrida de 5410,71 km na prova)

Maiores vencedores

_ Tom Kristensen (nove vitórias)
_ Reino Unido e França têm 42 vitórias cada
_ A Porsche tem 17 vitórias; a Audi tem 13
_ Já venceram antes: Earl Bamber e Nick Tandy (2015); Marcel Fässler, André Lotterer e Benoît Tréluyer (2011, 2012 e 2014); Loïc Duval (2013); Timo Bernhard e Romain Dumas (2010)

Le Mans sempre foi mais forte do que qualquer campeonato. O Mundial, sim, é importante, mas Le Mans é mais. Para o ciclismo, o Tour de France é maior que um Mundial. Coisas assim. Uma corrida que é mais importante que o campeonato.
Tom Kristensen, nove vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans. Como o WEC foi recriado apenas em 2012, o dinamarquês tem só um título mundial no currículo

A BRIGA PELA VITÓRIA

 

Uma vez mais, duas marcas alemãs e uma japonesa vão disputar a vitória na classificação geral. A Nissan deixou o grid depois do fracasso de 2015, então ficaram Audi, Porsche e Toyota. E a tendência é uma batalha mais equilibrada neste ano.

A Porsche é a atual campeã mundial e usou o inverno para aprimorar o seu carro — evolução, não revolução. Foi atrás de desenvolver melhor a aerodinâmica e extrair mais performance do motor e dos sistemas de recuperação de energia; Aqui, teve dificuldades, e decidiu voltar a usar as baterias do ano passado. De qualquer maneira, a marca fez o seu “melhor teste de durabilidade”, segundo seus dirigentes, em Aragão, pouco após as 6 Horas de Spa. "Completaria as 24 horas sem nenhum problema."

A Audi tenta a volta por cima com uma mudança nos conceitos. Ela abandonou o ‘flywheel’ que usava desde 2012 e passou para um ERS-K à base de baterias de lítio. A parte aerodinâmica é nova e foi dado um novo passo com relação à tecnologia ‘lightweight’, visando reduzir o peso do protótipo. Pela primeira vez, o e-tron está na subclasse de 6 MJ (quantidade de energia recuperada usada por volta em Le Mans). Ainda é menos do que a Porsche e a Toyota, porém o motor TDI, fórmula usada pela primeira vez há dez anos, tende a compensar com uma eficiência maior no consumo de combustível.

Com cores novas, também adotando o vermelho, preto e branco de Porsche e Audi, a Toyota foi mais radical. No ano passado, ela nem teve chance na briga em Le Mans. Agora está de volta com um TS050 que abandonou o motor aspirado e passou para um biturbo V6 2.4. Na recuperação da energia, outra mudança, com os supercapacitores sendo trocados por baterias de lítio.

No grid…

…a ordem é clara, mas apenas uma das três sessões classificatórias aconteceu com pista seca. A Porsche sai na primeira fila, a Toyota na segunda e a Audi na terceira.

“Sabíamos que ia chover na quinta-feira, por isso que saímos logo de cara. Todos tivemos de assumir riscos no tráfego, e eu acho que me dei melhor nisso, ou ao menos perdi menos tempo que os outros”, disse Neel Jani, que garantiu a pole para o Porsche #2. O relato da classificação está aqui

A Porsche fez 1-2 no grid, comprovando o porquê de ser favorita a ganhar pela 18ª vez

A CRISE NA VOLKSWAGEN

 

O principal ponto negativo em Le Mans é o número reduzido de carros na LMP1 em 2016, apenas nove. Isso se dá pela saída da Nissan, pelo baixo número de equipes privadas — um novo regulamento deve tornar a classe mais atraente para elas em 2017 — e, claro, por Audi e Porsche terem somente dois carros.

A redução de três para dois carros passa pela crise que atingiu o Grupo Volkswagen no fim do ano passado, com a descoberta de que as suas companhias burlavam testes de emissão de carbono. Uma contenção de gastos geral foi determinada, atingindo também a operação esportiva.

O efeito colateral? Os vencedores da edição passada estão na ‘categoria errada’. Como  Porsche não tinha a menor intenção de mexer nos trios titulares do Mundial de Endurance, Nick Tandy e Earl Bamber andam na GTE Pro em 2016.

Di Grassi, vencedor das 6 Horas de Spa, tenta ser o 1º brasileiro a ganhar em Le Mans
Audi

OS BRASILEIROS

 

A comitiva brasileira para Le Mans é maior em 2016 do que havia sido nos últimos anos: serão seis representantes no grid. Acima de tudo, continua a briga pela primeira vitória na classificação geral.

Lucas Di Grassi, com a Audi, é quem mais uma vez vai brigar por esse feito inédito. Para ele, ganhar seria coroar uma temporada incrível — também briga pelo título da F-E. Foi Di Grassi o vencedor da última etapa do WEC, as 6 Horas de Spa, no início de maio.

"É o objetivo da Audi. É também o meu maior objetivo. Ser o primeiro brasileiro a vencer o geral das 24 Horas de Le Mans seria um feito fantástico”, falou Lucas. Ele tem Oliver Jarvis e Loïc Duval como parceiros.

Também na LMP1, Nelsinho Piquet forma um trio com Nicolas Prost e Nick Heidfeld. A equipe teve dois pódios neste ano, aproveitando falhas mecânicas das grandes, e sonhará com isso novamente em Le Mans.

Na LMP2, são três pilotos. O grande destaque tem de ir para Pipo Derani, da Extreme Speed. O jovem de 22 anos já ganhou as 24 Horas de Daytona e as 12 Horas de Sebring neste ano e está despontando como um dos grandes nomes do endurance mundial.

Bruno Senna triunfou na abertura do campeonato com a RGR, e o veteraníssimo Ozz Negri, que há anos compete no endurance dos Estados Unidos, participa da estreia da Michael Shank Racing em Sarthe. Seu carro é o melhor posicionado no grid: quinto no categoria, logo à frente de Pipo. Na GTE Pro, outro retorno: Fernando Rees, que corre em Le Mans pela segunda vez. E não se assustem: a Aston Martin não tem mais o carro com a tradicional pintura da Gulf.

Na primeira vez que você chega lá é assustador. Na segunda vez, é assustador. E na terceira vez é assustador. É uma corrida em que você tem que usar muito a cabeça. Ser constante o tempo todo, a fadiga pessoal, a fadiga do material, ao mesmo tempo em que você tem que ser rápido sempre, tem que ter um preparo físico para aguentar.
Raul Boesel, campeão mundial de endurance em 1987

OS FAMOSOS

 

O grid de 60 carros e 180 pilotos reúne muitos nomes famosos dentro e fora do esporte a motor. Para começar dentro do automobilismo, podemos mencionar gente que passou pela F1, como Mark Webber, Sebastien Buemi, Kamui Kobayashi, Nick Heidfeld, Sébastien Bourdais, Giancarlo Fisichella, Giedo van der Garde, Vitaly Petrov, Roberto Merhi, Pedro Lamy e os já destacados Piquet e Di Grassi.

Citando outras categorias, há Scott Dixon, o tetracampeão da Indy, e Laurens Vanthoor, que tem dominado nas provas de GT na Europa nos últimos anos. Sobrenomes famosos ficam por conta de Nicolas Prost e Mathias Lauda. 

Mas também há aqueles nomes inesperados, como Fabien Barthez, goleiro francês nas Copas de 1998, 2002 e 2006 — o carequinha que trombou com o Ronaldo. Desta vez, no entanto, Patrick Dempsey está fora, apenas enviando sua equipe para a prova. O ator de ‘Grey’s Anatomy’ foi ao pódio no ano passado.

 

GARAGE 56

 

Uma das mais belas histórias desta edição das 24 Horas de Le Mans é a de Frederic SaussetTodo ano, o Automóvel Clube do Oeste (ACO) destina uma vaga para um projeto experimental. Neste ano, permite que Sausset realize um sonho. Há quatro anos, o francês teve antebraços e pernas amputados devido a uma infecção bacteriana. Ele andará em um Morgan adaptado. “Eu precisava de um objetivo na minha vida, e os protótipos são minha paixão”, afirmou. O conjunto sai na penúltima posição da LMP2, mas, convenhamos, simplesmente chegar ao final valerá como uma vitória.

 

O RETORNO DA FORD

 

A Ford tem quatro vitórias em Le Mans na classificação geral, e a primeira delas foi conquistada há 50 anos com uma histórica trifeta do Ford GT40. Na ocasião, os pilotos vencedores foram os neozelandeses Bruce McLaren e Chris Amon. Denny Hulme e Ken Miles ficaram com o segundo lugar e Ronnie Bucknum e Dick Hutcherson acabaram na terceira posição.

A volta se dá sem chances de vitória na classificação geral, mas com um fortíssimo time na GTE. Tão forte que já fez uma dobradinha no grid. A disputa será intensa com a Ferrari.

A operação fica por conta de uma equipe enorme nos Estados Unidos e que começa a desbravar Le Mans: a Ganassi. São quatro carros, sendo que os principais têm Joey Hand, Dirk Müller e Sébastien Bourdais (o #68, que sai na pole), e Ryan Briscoe, Richard Westbrook e Scott Dixon (o #69, que completa a primeira fila).

O CHOQUE DE DATAS COM A F1

 

Não é coincidência que a F1 esteja acontecendo no mesmo fim de semana das 24 Horas de Le Mans. Bernie Ecclestone não gostou do aumento de popularidade que Le Mans teve nos últimos anos. No ano passado, Nico Hülkenberg venceu com a Porsche, e Fernando Alonso só não correu porque não foi liberado pela McLaren Honda.

Fazer as equipes darem meia volta ao mundo em três dias para saírem de Montreal e chegarem à capital do Azerbaijão deixa bem claro quais foram as intenções de Bernie. E a FIA, que havia prometido 'exclusividade' a Le Mans', não se impôs para impedir que um evento que suscita curiosidade por ser tão diferente, no Azerbaijão, dividisse as atenções com as 24 Horas.

No sábado, a classificação do GP da Europa começa na hora da largada em Le Mans. No domingo, a largada da F1 será simultânea à bandeirada na França, às 10h.

AS IMAGENS…

 

…são sempre lindas. Aqui vão só algumas dos treinos livres, e as imagens da corrida você vai poder conferir na galeria do GRANDE PRÊMIO. O GP também acompanhará a prova AO VIVO e em TEMPO REAL.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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