Maurício Slaviero

'Precisamos de uma investigação profunda e que vá até às últimas consequências. E mesmo que nada se constate, os dois comissários não têm mais condição nenhuma de voltar'

Fernando Silva, de Curitiba &
Evelyn Guimarães, de Curitiba

Aos 46 anos, e desde 2013 à frente da Stock Car como diretor geral da Vicar, empresa que promove e organiza a principal categoria do automobilismo brasileiro, Maurício Slaviero tem seu maior desafio desde quando assumiu a condução dos seus rumos. O escândalo deflagrado pela polêmica conversa entre comissários de prova da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo) que atuavam na Stock Car, vazada de um grupo de WhatsApp e revelada pelo jornal ‘Folha de S.Paulo’, caiu como uma bomba no esporte a motor brasileiro. Por mais que deixe claro que os comissários envolvidos em supostas manipulações de resultados, prejudicando pilotos como Cacá Bueno e Thiago Camilo, sejam vinculados à CBA, Slaviero sabe que, por tabela, a imagem do campeonato que comanda foi abalada.

Ao GRANDE PREMIUM, Slaviero lamentou o terremoto causou às vésperas do início de um novo campeonato, ofuscando o noticiário sobre a Corrida de Duplas, uma das grandes atrações da categoria desde 2014. O dirigente não escondeu que está estarrecido e surpreso com o episódio em si – diferente dos pilotos envolvidos como vítimas –, mas vai na contramão do que pensam: “Se eu não confiasse na CBA, não existiria mais Vicar nem Stock Car...”

Contudo, o empresário defende uma investigação profunda dos fatos e defendeu o banimento dos comissários citados no episódio “mesmo que nada se constate”, já que acredita que o episódio pode ser o ponto de partida para uma nova fase do automobilismo brasileiro.

Ainda, Slaviero também falou sobre o que pretende para a Stock Car em 2016, envolvendo a redução de custos, grande desafio em termos de crise, revelou que quatro finais de semana da temporada vão ter atividades apenas no sábado e domingo e saiu pela tangente quando perguntado sobre a substituição da bolha da Chevrolet durante o campeonato.

Maurício Slaviero ainda confia na CBA depois do episódio que afetou a Stock Car neste fim de semana
Duda Bairros/Vicar | Arte: Grande Premium

GRANDE PREMIUM — Essa semana não começou da maneira que você imaginava para a estreia, não é?

Maurício Slaviero — Com certeza, está sendo uma semana bem diferente do que imaginava. A gente recebeu notícias muita ruins, com aquela reportagem da ‘Folha’. A matéria nos deixou, de cara, extremamente surpresos. E, com certeza, ficamos muito indignados.

A única coisa que a gente pode dizer é que e, de uma maneira muito clara, é que, pelo automobilismo brasileiro, não só pela Stock Car, mas também por todas as outras categorias, haja uma investigação profunda do que aconteceu. É uma exigência. Precisamos de uma investigação profunda e que vá até as últimas consequências. E que olhem todos os detalhes possíveis, para que a gente tenha tranquilidade de que, se houve alguma coisa, fiquemos sabendo que isso não vai mais se repetir. E se ficar provado que não houve nada, então a gente também vai ficar mais tranquilo quanto a isso. Mas é necessário que exista uma investigação absolutamente profunda agora. E mesmo que nada se constate, que a atitude que esses dois comissários tomaram foi absolutamente infeliz e que eles não têm mais condição nenhuma de voltar ao automobilismo. E nem eles vão se sentir à vontade. Mas independente de eles se sentirem à vontade ou não, infelizmente não há mais espaço para eles voltarem. Ninguém mais vai acreditar. Não haverá mais credibilidade, por mais que nada seja constatado.

GP* — A Stock Car acaba sendo manchada por uma ação da CBA. Como é que você, presidente da empresa que a organiza, vê essa questão? Existe algum jeito de tentar se 'dissociar' da entidade?

MS — Quem está no meio e envolvido com o automobilismo, quem conhece e sabe como funciona, consegue separar muito bem isso. Tenho certeza que não tem nenhum piloto aqui que ache que a Stock Car ou a Vicar seja responsável por qualquer uma dessas coisas. E isso vale para os demais, patrocinadores, equipes, pilotos e outros envolvidos. O grande problema é que o público em geral não consegue entender isso. Até porque, na maioria das vezes, isso não vem explicado de maneira clara. Então, quando sai uma notícia no jornal, é sempre a Stock Car isso ou aquilo... Aí fica muito difícil de explicar depois que não é a Stock Car. É a CBA, são os comissários... Eu não digo que mancha, mas que atrapalha o nosso trabalho, atrapalha. E algo como isso aí atrapalha muito mesmo.

GP* — Você conhece os dois comissários?

MS — Conhecia, sim. Aliás, todo mundo envolvido com esse negócio conhecia... O Clóvis já trabalha há muito tempo aqui. E vou te dizer: o Clóvis é uma pessoa que todo mundo aí respeitava. É uma pena. E eu confio nos comissários, tenho de confiar. Se não houver confiança, não tem como estar aqui. Eu não tinha absolutamente nada contra que abonasse nenhum dos dois. O Clóvis era o comissário e o Ygor era mais um assistente da área técnica.

GP* — Que avaliação faz da reação da CBA diante das denúncias?

MS — Não é que eles vieram pedir a minha opinião. Eles me avisaram da decisão antes de torná-la pública, me explicaram o que iam fazer e tudo mais. Mas foi uma iniciativa positiva e mostrou que eles querem que as coisas sejam investigadas e não querem esconder nada. A presença dos pilotos lá ajuda. Vou te dizer que até concordo com algumas das colocações que o Cacá fez em algumas conversas que eu tive com alguns pilotos. Que, talvez, a associação tivesse de indicar mais alguém junto, mas alguém que conheça de automobilismo. Não vai adiantar nada ser um auditor de uma área financeira. Tem ser alguém que tenha um embasamento mais profundo. Seria prudente que a associação dos pilotos tivesse alguém assim, até para não ficar só os pilotos investigando. E isso foi uma coisa que eu pedi ao presidente da CBA: queremos que tudo seja feito da maneira mais detalhada possível. E ele me afirmou que vai ser feito dessa forma.

GP* — E uma investigação independente, concorda?

MS — Acho que o formato que está aí sugerido por eles é bom, mas acho que deve ter alguém dentro dessa comissão, indicado pelos pilotos, que seja independente. Acho que não é o caso de envolver Ministério Público, isso ou aquilo. Isso eu não sei. Mas eu concordo que deve haver alguém independente. Eu também conversei com a CBA sobre isso, e eles concordaram também.

GP* — Como você acha que os pilotos vão reagir neste fim de semana caso sejam punidos?

MS — Antes de tudo, a gente precisa separar as coisas. O formato que existe é claro: existe um regulamento técnico, que é muito detalhado e complexo. E existe um profundo conhecimento das equipes sobre ele. O regulamento técnico é absolutamente objetivo, até porque as equipes participam da elaboração desse regulamento. Para explicar: a Stock Car propõe um regulamento técnico e esportivo à CBA. A parte técnica é discutida com as equipes, e eles fazem sugestões. Neste ano, a maioria das sugestões foi acatada. Aí a CBA homologa as regras, então tudo passa a ser seguido. Quer dizer, na questão técnica não tem subjetividade.

GP* — Você confia na CBA?

MS — Se eu não confiasse na CBA, não existiria mais Vicar, Stock Car...

GP* — Você não pensa em uma liga?

MS — A Vicar nunca estudou nada sobre isso.

GP* — Cacá e Thiago chegaram a conversar com Carlos Col [ex-diretor e presidente da Vicar]. Como você acha que ele pode colaborar?

MS — O envolvimento do Col hoje é com as equipes, em questões de ajudar a buscar redução de custos, e, obviamente, em função disso, está trabalhando diretamente com a Vicar e comigo. Acho ótimo, ele tem muita experiência e pode trazer coisas boas para nós.

GP* — Ele é um nome que poderia dar um jeito na CBA?

MS — Aí eu acho que é uma pergunta que tem que ser feita muito mais para ele do que para mim.

GP* — Você apoiaria?

MS — Se ele um dia se candidatasse à presidência da CBA, eu, Maurício, apoiaria, sim. Por que não? Tenho só coisas positivas para falar dele, como que não vou apoiar? Mas só ele pode falar sobre isso. Eu posso falar que jamais vou me candidatar e jamais gostaria de ser presidente da CBA. Absolutamente nenhuma hipótese. Meu plano de vida é completamente diferente desse.

GP* — Esse pode ser um divisor de águas para o automobilismo brasileiro?

MS — Pode ser, mesmo. Mas vai depender do trabalho todo que vai ser feito por nós, promotores, pelos próprios pilotos e pela CBA a partir de agora. Mas eu concordo que pode ser um divisor de águas.

GP* — E a reação das equipes, pilotos, até patrocinadores, com relação à Vicar? Chegaram a falar com você, esperam que a Vicar faça isso?

MS — Com alguns pilotos, sim, a gente teve esse tipo de conversa. Tive a conversa com um ou outro patrocinador, mas todos eles estão apoiando a Vicar incondicionalmente e sabem que existe uma diferença entre Vicar e CBA. Mas também querem entender o que aconteceu e ver se houve alguma coisa ou não.

Tenho certeza que não tem nenhum piloto aqui que ache que a Stock Car ou a Vicar seja responsável por qualquer uma dessas coisas. O grande problema é que o público em geral não consegue entender isso.
Maurício Slaviero

GP* — O que você espera das novas regras para este ano?

MS — A gente sempre busca uma evolução constante. Quando a gente mudou o regulamento de 2013 para 2014, o que a gente buscava era isso: evolução, crescimento para a categoria, aumento de visibilidade, de disputa, de competitividade. E a gente conseguiu tudo isso. Nosso público no autódromo aumentou ano a ano, nosso tempo de televisão cresceu absurdamente, a gente tem muito mais pilotos vencendo, equipes novas finalmente ganhando corridas e campeonato também. Não só piloto como equipes novas, o que foi muito legal, e eu acho que a regra mostrou que o formato funcionou muito bem e foi uma evolução. Mas sempre você tem pequenas coisas que pode melhorar mais ainda. Por isso que a gente não quis mudar o regulamento de 2014 para 2015, para ter uma base realmente forte.

Não adianta todo ano mudar. Tem que ter um tempo para assimilar o que funcionou e não funcionou, ou o que pode ficar melhor ainda. Foi o que a gente fez neste ano. A gente entendeu que precisava ter uma primeira corrida sem estratégia, de velocidade. O piloto mais rápido vai ganhar e ponto final. Nenhuma obrigação; é uma corrida limpa do início ao fim. E a segunda corrida, aí, sim, uma corrida de estratégia. Aí a gente pode ter surpresas, coisas inusitadas acontecendo, pilotos que foram mal na primeira prova se recuperarem e ganharem a corrida. Apesar do pit-stop não ser obrigatório, ele é absolutamente necessário. A não ser que tenha uma corrida com dez safety-car e o piloto termine as duas sem abastecer. Fora isso, vai ter que abastecer, vai ser necessário um pit-stop na segunda corrida. Grid invertido, pit-stop e variação de combustível, a gente tem certeza que vai ser uma corrida com muitas novidades.


GP* — Na F1, há uma discussão sobre facilitar a vida de quem está assistindo e evitar regras muito complicadas. Vocês levaram isso em consideração?

MS — Com certeza. É muito simples agora a regra. Largou, correu, chegou, na primeira e na segunda. Tem coisas ali que vão acontecer, mas não é mais regra, é escolha do piloto. A única coisa é que inverte o grid da primeira da segunda. O resto, o piloto que se vire. E a gente aumentou a pontuação da primeira exatamente para valorizá-la ainda mais e ser uma corrida que, para o campeonato seja muito mais importante que a segunda. Dificilmente o piloto que for mal na primeira corrida, por mais que ganhe na segunda, vai brigar por título no final por uma questão matemática.

GP* — Como que tem sido lidar com o desafio de reduzir os custos, patrocinador saindo, a própria crise do país?

MS — É um trabalho que se faz 24 horas por dia. O momento que se passa no país é súper complexo – olha hoje as notícias loucas que a gente teve [a entrevista foi feita na sexta-feira, dia em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi conduzido coercitivamente pela Polícia Federal]. É um trabalho árduo que a gente teve. E a gente só vai conseguir tudo isso trabalhando todos em conjunto: Vicar, equipes, fornecedores e até mesmo a CBA em alguns aspectos. Essas quatro partes, se não trabalharem juntos, não vão chegar a lugar nenhum. Tem coisas que você não consegue fazer de hoje para amanhã. Mas a gente já conseguiu muita coisa. A gente vai ter neste ano quatro finais de semana só com dois dias, isso traz economia para a própria Vicar e as próprias equipes, mudou a quantidade de pneus do ano passado e para este, e ao mesmo tempo gera uma questão estratégia bacana no campeonato, porque a equipe tem que lidar com menos pneus. Se gastar demais no começo do ano, tem que lidar com menos pneus. Disputando o título, vai ficar mal. Tem um pouquinho de questão estratégia. É um trabalho constante, a gente sempre trabalhou nisso, mas, agora, com muito mais atenção do que antes.

GP* — Quais serão as quatro etapas mais enxutas?

MS — Velopark, Santa Cruz do Sul, Tarumã e Londrina. No Velopark, na sexta ainda vai ter treino de outras categorias. Nessas quatro é que são só dois dias de programação.

GP* — Até pegando carona nisso, a Peugeot vai sair do campeonato?

MS — Não. Nada disso. Eles estão satisfeitos, até porque ganharam o campeonato. Fizemos muita coisa, sorteamos carro no fim do ano, foi uma ação em que eles deram um carro para o sorteio. É um acordo que acaba no fim do ano, depois não se sabe.

GP* — E a bolha da Chevrolet vai ser a do novo Cruze?

MS — Existe uma possibilidade [risos].

GP* — Ainda em 2016?

MS — Existe uma possibilidade... [risos]