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Análise

‘Kimi, nós vamos deixar você sozinho agora’

Campeão mundial (2007), recordista de corridas (353), finlandês com maior número de vitórias na F1 (21), Räikkönen parou de lutar contra o tempo e se aposentou, quando já se arrastava com a Alfa Romeo

Kimi Räikkönen, Alfa Romeo, GP de Abu Dhabi 2021,
O adeus de Räikkönen (Foto: Reprodução/Twitter/@alfaromeoracing)

Kimi Räikkönen é, sem dúvida alguma, um dos personagens mais interessantes da septuagenária história da Fórmula 1. Um piloto muito rápido nas pistas, um entrevistado um tanto blasé no paddock, um homem pra lá de carismático em festas. Esse complexo conjunto, de 42 anos, decidiu parar de lutar contra o tempo e se aposentar no último domingo (12), com o abandono no GP de Abu Dhabi. Como bem lembrou a equipe Alfa Romeo, agora poderá ter a paz que procurava para viver a sua vida.

Na despedida, tanto de Räikkönen, como também de Antonio Giovinazzi, preteridos por Valtteri Bottas e Guanyu Zhou, a Alfa Romeo estampou no próprio carro a icônica mensagem do piloto para a sua antiga equipe, a Lotus, na mesma corrida de Yas Marina, nove anos atrás. 

“Querido Kimi, nós vamos deixar você sozinho agora”, dizia a mensagem, em referência, ao “só me deixe em paz” daquela corrida crepuscular, a qual venceu, quando era avisado que tinha que manter os pneus aquecidos no período de safety-car. Para deixar a coisa equilibrada, a frase no carro de Giovinazzi era: “obrigado por tudo, Antonio”, em italiano. 

Räikkönen reclamou de problemas de freios, perdeu o controle do carro e chegou a bater a asa dianteira, na volta 29, quando estava só na penúltima colocação da prova. O piloto ainda tentou viver um pouco mais do seu “last dance”, mas era mesmo hora de parar.

Por mais que a Finlândia tivesse Mika Häkkinen, bicampeão mundial (1998 e 1999), não era de se esperar que outro piloto vindo do gelo fizesse sucesso na F1. O próprio Räikkönen, nascido na falta de recursos da gelada Espoo, revelou que não pensava em conquistar tanto. O garoto, que começou a brincar com o irmão no motocross, logo passou para o kart e teve a sua carreira no automobilismo interrompida pelo alistamento no exército, somou mais corridas (353), vitórias (21) e título mundial (em 2007) do que qualquer um poderia imaginar. 

Räikkönen teve problema de freios e abandonou na 30ª volta do GP de Abu Dhabi (Foto: Reprodução/F1)

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Kimi guiou um F1 pela primeira em um teste secreto da Sauber, ainda em 1999. Peter Sauber, dono da equipe, que anos mais tarde seria adquirida pela Alfa Romeo, não queria que os patrocinadores e a imprensa apressassem os passos do piloto. Em 2001, com 21 anos, veio a vaga de titular na equipe suíça, de cara com uma sexta colocação e ainda um quarto lugar naquele ano. Na temporada seguinte, o jovem estava a bordo da McLaren, por onde ficou até 2006, justamente na vaga de Häkkinen. As coisas não saíram como todos imaginavam e Homem de Gelo foi ser campeão pela Ferrari, em 2007.

Quando decidiu se aposentar pela primeira vez da F1, em 2009, se permitiu correr no WRC e se aventurar pelos ovais da Nascar. Talvez por isso, muita gente se pergunte qual prateleira colocar Kimi no rol dos grandes pilotos. Em uma das respostas mais longas do sempre monossilábico do piloto, em um verdadeiro depoimento de quase cinco minutos para as redes sociais da categoria, o finlandês ratificou o que todo mundo sabia: não se importa com o pensamento dos outros. 

“Assistia às corridas de F1 na TV, mas não estava certo que queria ser um piloto de corridas quando era jovem. Eu só gostava. O que eu queria fazer mesmo mudava de um segundo para o outro. Sinceramente, só fiz o que me deixava feliz”, começou Kimi. “As pessoas às vezes me perguntam se tenho algum arrependimento sobre a minha carreira. Não tenho arrependimentos. Sou feliz com o que conquistei e não me importo como serei lembrado ou se serei lembrado no futuro. Consegui fazer o que queria na F1 e não me importo o que ninguém mais pensa.” 

O quê de James Hunt, igualmente campeão do mundo, em 1976, ajudou a construir uma imagem de último romântico das pistas. Sempre rodeado de mulheres e bebidas, Kimi fazia o que os profissionais de recursos humanos menos recomendam nas festas corporativas. Das histórias censuradas em Madonna di Campiglio, na época da Ferrari, ao estado de embriaguez na festa da FIA de 2018, o finlandês aproveitou tudo sempre ao máximo. Ou alguém acha que um piloto baterá o seu carro no GP de Mônaco e ficará em um dos iates atracados ao longo do circuito no principado?

A volta à principal categoria do automobilismo mundial, exatamente por que sabia que poderia mais, se deu em 2012, no ano da vitória com a Lotus, assim como aconteceu também na abertura da temporada no ano seguinte. De 2014 a 2018, esteve novamente na Ferrari, mas a vitória veio só em suas últimas corridas com a equipe. Muito distante do que ele próprio imaginava.

Kimi Räikkönen, Alfa Romeo, GP de Abu Dhabi 2021,
O #7 utilizou um capacete azul em sua despedida, com o desenho parecido ao do começo da carreira na F1 (Foto: Reprodução/Twitter/@alfaromeoracing)

Não exatamente manchada, mas a carreira do #7, que se despediu com um desenho de capacete mais azul, como nos primeiros anos no grid, se arrastou nos últimos três anos. O isolado e melhor resultado foi um quarto lugar no caótico GP do Brasil de 2019. O contra-cheque certamente recompensou andar do pelotão intermediário para trás apesar de muito pouco para um campeão mundial.

O coração do Homem de Gelo estará mais quente ao lado da atual mulher, Minttu Virtanen, e dos filhos Robin e Rianna. Por tudo que diz, dificilmente aparecerá no paddock tão cedo.

“Agora é a hora. Estou me aposentando da F1. O que eu vou fazer depois? Eu não sei. Meus planos são não ter planos. Só quero passar mais tempo com a milha família”, disse Räikkönen.

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