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‘Schumacher’: 12 polêmicas e surpresas do novo filme da Netflix

O novo documentário do streaming traz a vida e a carreira de Michael Schumacher, mas o filme exagera na defesa do piloto, revela que a Ferrari cogitou demitir o alemão e ignora a existência de Rubens Barrichello

Nesta quarta, 15, estreia na Netflix o novo documentário ‘Schumacher‘, que, em quase duas horas de duração, relembra a carreira e faz uma grande homenagem ao heptacampeão da Fórmula 1, Michael Schumacher. O GRANDE PREMIUM já teve a oportunidade de assistir ao filme – e adianta: alguns dos temas abordados na produção vão, certamente, despertar muita polêmica entre os fãs de automobilismo, principalmente os brasileiros. Ou, no mínimo, causar surpresa

Antecipando a estreia do documental para o público, trazemos aqui quais são esses fatos marcantes que vão movimentar as discussões nas redes sociais nos próximos dias (ou, quem sabe, semanas).

Senna x Schumacher

‘Schumacher’, em sua primeira metade, aborda a chegada do futuro heptacampeão à F1 – e como ele encontrou um grid formado por grandes pilotos dos anos 1980 e começo dos anos 1990.

A disputa com o brasileiro Ayrton Senna recebe bastante atenção do documentário. Bernie Ecclestone, ex-chefão da categoria, define o tricampeão como o melhor piloto da época – e que o alemão chega para desafiá-lo, algo que ganha contornos mais profundos com a discussão dos dois após a batida que deixou o brasileiro de fora do GP da França de 1993.

“Senna percebeu que o cara [Schumacher] era alguém. Quando você é leão, todos os leões percebem quando o jovem leão chega e você quer marcar território”, define Flavio Briatore, na época diretor esportivo da equipe de Schumi.

O filme também abre espaço para uma antiga entrevista de Michael Schumacher, na qual ele revela como a morte de Senna em Ímola, em 1994, o afetou.

Omissão das suspensões e suspeitas de ilegalidade em 1994

O título mundial de 1994, o primeiro de Schumacher, é ápice da primeira parte documentário, que reconstrói aquele ano com muitos detalhes.

A grande polêmica aqui é que o filme não cita as suspeitas de ilegalidade do Benetton B194, o carro que levou o alemão àquela conquista. Na época, acreditava-se que a equipe ítalo-inglesa tinha controles de largada e de tração, artimanhas proibidas naquele ano – mas a FIA nunca conseguiu provar essas acusações.

Michael Schumacher em sua Benetton B194, carro que lhe deu o título de 1994 (Crédito: divulgação / Netflix)

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O longa-metragem também omite que o alemão foi desqualificado do GP da Inglaterra por atitude antidesportiva, fato que depois ainda lhe renderia duas corridas de suspensão. Outro fato ignorado é a punição, no GP da Bélgica, pelo excesso de desgaste no assoalho de madeira do carro – introduzido após a morte de Senna justamente para manter os carros mais altos em relação ao solo.

Por isso, soa até estranho ver como o filme pinta com cores fortes o domínio de Schumi no começo daquele ano, para depois afirmar que o pendulo de forças se alternava entre o alemão e Damon Hill.

Schumacher teve culpa na batida com Hill?

Esse é o ápice das polêmicas de ‘Schumacher’. Como você deve ter lido em algum lugar – ou, se for mais velho, acompanhou na época -, o alemão chegou à última prova do ano, em Adelaide, um ponto à frente de Damon Hill, da Williams.

Na volta 35 daquele GP da Austrália, Schumacher saiu da pista, danificando o carro. Na volta, quando seria ultrapassado por Hill, os dois carros colidiram e ambos abandonaram a prova – e Michael conquistou o seu primeiro título ali.

Se nunca viu ou quer rever o que aconteceu, é só clicar aqui.

Na visão do próprio Schumacher, em entrevista de arquivo, o acidente foi culpa de Hill. “Eu estava balançando o carro para checar tudo e limpar os pneus”, afirma Schumi. “Foi o Damon que me acertou primeiro, no sidepod”, continua.

Hill tem espaço para contar o seu ponto de vista, em que a culpa é do adversário. Porém, só de ter o alemão ali defendendo a manobra vai render muita discussão.

“Passada de pano” na batida com Villeneuve

Dois anos após o incidente com Hill e já na Ferrari, Michael Schumacher passou por uma situação parecida com Jacques Villeneuve, da Williams, no GP da Europa de 1997.

Em Jerez, o alemão liderava o campeonato um ponto à frente do canadense. Na volta 48 da prova, o filho de Gilles foi ultrapassar o adversário – que o acertou com o seu F310B. Schumacher abandonou a prova logo em seguida, mas Villeneuve seguiu e foi campeão mundial. Depois, a manobra do alemão seria vista como irregular e o piloto foi excluído do campeonato, perdendo todos os pontos.

Nesse momento o filme faz questão de se posicionar – a batida é reprisada em câmera-lenta. No entanto, logo em seguida, a produção “passa o pano” para a atitude do protagonista.

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“Na cabeça dele, Jacques Villeneuve tinha batido nele. Na cabeça dele, foi o que aconteceu.”, afirma Ross Brawn, então diretor-técnico do time italiano, em entrevista ao documentário. “[…] Não foi um ato consciente, não foi um ato premeditado”, defende o inglês.

“E aí mostramos a ele o vídeo, e então ele percebeu que não era o caso [da culpa ser do Villeneuve]. É um daqueles momentos, e ele teve uns dois ou três na carreira, em que sua competição e a sua dedicação foram muito longe. É muito difícil para nós julgar, mas acho que ele passou dos limites naquele dia”, contemporiza Brawn.

O ex-piloto Mark Webber e Bernie Ecclestone são outros que surgem defendendo o futuro heptacampeão – não por estar certo no acidente, mas na postura de não aceitar as críticas. Já Willi Webber, ex-empresário de Schumi, bota a culpa nas estrelas: “Um capricorniano nunca se desculpa, ele não consegue, ele nunca erra.”

Diferentemente do caso com Hill, ‘Schumacher’ não traz o ponto de vista de Jacques Villeneuve.

Falta de adversários

Uma das grandes críticas a Michael Schumacher – e que se repete com Lewis Hamilton, diga-se – é que o alemão não teria enfrentado grandes pilotos na briga por títulos no decorrer de sua carreira na F1.

Ao tentar mitificar a figura do alemão, ‘Schumacher’ acaba reforçando essa visão, em alguns momentos. Na já citadas disputas com Hill e Villeneuve, o filme pouco ressalta as capacidades dos adversários.

Porém, na luta contra Mika Häkkinen (entre 1998 e 2000) essa é uma característica ainda mais exacerbada: é destacado como o carro da McLaren era muito melhor que o da Ferrari, mas não o mérito do time inglês ou do piloto finlandês.

Esquece-se, nesse momento, que qualquer herói é tão grande quanto seus maiores adversários.

A revelação mais surpreendente

Se nada até aqui parece muita surpresa para quem acompanhou a carreira de Schumacher, há um ponto que, sim, causa espanto. Jean Todt, chefe da Ferrari nos anos 1990 e 2000, revela que chegou a cogitar substituir Michael Schumacher após os insucessos na luta pelo título.

“Então ele chega em 96, depois 97, 98, 99. E, em dado momento, nos perguntávamos se Michael era o piloto para nós ou se deveríamos ter alguém como Häkkinen”, afirma o francês. “Questionávamos as qualidades de toda a equipe, e de Michael também.”

Michael Schumacher chegou na Ferrari com a missão de tirar o time da fila, mas teve os seus percalços (Crédito: divulgação Netflix / Getty Images)

“Ele sabia que era um vencedor, que era um campeão. Tínhamos certeza de que estávamos perto, mas não ganhávamos o campeonato e, quando isso acontece, sempre há dúvidas”, diz Piero Ferrari, vice-presidente da Ferrari e herdeiro do fundador.

Como sabemos, Schumacher finalmente venceu as McLaren em 2000, conquistando o seu terceiro mundial e encerrando uma fila da Ferrari que vinha desde 1979. Agora, e se o desfecho tivesse sido outro? Qual teria sido o destino do piloto e do time italiano?

Barrichello ignorado

De modo geral, ‘Schumacher’ pouco se debruça sobre os companheiros de equipe do italiano na Fórmula 1. Apenas um é citado – e dá entrevista ao filme: Eddie Irvine, que pilotou para a Ferrari entre 1996 e 1999.

O irlandês foi substituído em 2000 por Rubens Barrichello, uma peça importante na consolidação do time e no heptacampeonato seguido de pilotos e construtores, entre 2000 e 2004. No entanto, nem isso garante uma ponta no filme para o brasileiro. Não há uma citação sequer, é como se Rubinho não existisse.

Tal escolha claramente causará burburinho entre os fãs brasileiros.

Sem Alonso, também

A partir de 2001, ‘Schumacher’ vira praticamente um borrão, ignorando quatro títulos do piloto. A produção passa por cima da disputa com Fernando Alonso, o piloto que conseguiu colocar um fim na fase de ouro da Ferrari.

O espanhol não está entre os entrevistados pelos documentaristas, mas Flavio Briatore, ex-chefe da Benetton e daquela Renault de Alonso, poderia ter contribuído com a visão de quem conseguiu derrotar Schumacher.

O mistério do estado de saúde de Schumacher

Desde o acidente que sofreu em 2013, enquanto esquiava em Méribel, na França, pouco se sabe do estado de saúde do heptacampeão. O que se sabemos é que o piloto bateu a cabeça e, por consequência dos ferimentos, está preso a uma cama desde então.

Em declaração que já correu o mundo, Corinna, esposa de Schumacher, deu uma raríssima declaração sobre o que aconteceu e como está o marido.

“Foi muita falta de sorte”, diz Corinna com lágrimas nos olhos. “Todos sentem falta do Michael, mas o Michael está aqui. Diferente, mas está, e isso nos dá força, eu acho. Estamos juntos. Moramos juntos em casa. Fazemos terapia. Fazemos todo o possível para que Michael melhore e para garantir que fique confortável.”

Michael e Corinna no paddock da F1 ainda nos anos 1990 (Crédito: divulgação / Netflix)

Sobre o fato de não divulgar mais informações sobre o marido, Corinna explica: “Estamos tentando continuar como uma família do jeito que Michael gostava. E ainda gosta. Estamos seguindo com nossas vidas, ‘Privado é privado’, é o que ele sempre dizia. […] Michael sempre nos protegeu, e agora estamos protegendo Michael.”

A saudade de Mick

Um dos momentos mais tocantes do filme é quando Mick Schumacher, o filho do heptacampeão e atual piloto da Haas na F1, abre o coração sobre a relação com o pai.

“Desde o acidente, esses momentos que acredito que muitos têm com seus pais, não acontecem mais, nem em menor grau”, explica Mick. “Acho que meu pai e eu nos entenderíamos de maneira diferente agora, simplesmente porque [hoje] falamos uma linguagem parecida, a linguagem do automobilismo. Teríamos muito mais do que conversar. É onde está minha cabeça na maior parte do tempo, pensando que seria legal se isso acontecesse”.

“Eu abriria mão de tudo por isso”, termina o herdeiro do clã Schumacher enquanto claramente segura as lágrimas.

Uma história contada com coração e velocidade

Independente da forma como escolheu contar os fatos ou das entrevistas selecionadas para narrá-los, uma coisa é certa sobre ‘Schumacher’: é um ótimo filme, enquanto arte. Tem ritmo e, principalmente, nos envolve com a sua emoção.

A produção ajuda a desmistificar a figura do heptacampeão, com muitas imagens de arquivo e fotos reconstruindo a vida privada de Schumacher, a relação com os amigos e a família, bem como os primeiros (e difíceis) passos no kart.

Em estrutura de roteiro e em narrativa, lembra justamente um outro documentário sobre um campeão da F1: ‘Senna’.

Mérito dos diretores Hanns-Bruno Kammertöns, Vanessa Nöcker e Michael Wech, que também assinam o roteiro do documentário.

O ronco dos motores e a nostalgia

Se nada disso até aqui movimentar as acaloradas discussões sobre ‘Schumacher’, certamente este último ponto irá: a nostalgia.

Para quem acompanhou a Fórmula 1 dos anos 1990, ver tantas imagens de arquivo com lindos carros e disputas históricas certamente é algo que irá despertar a nostalgia – e aquela velha discussão de “antigamente era melhor”.

Mais do que isso, até: ‘Schumacher’ tem um ótimo trabalho de mixagem de som, ressaltando o belo ronco dos motores aspirados V10 de antigamente. Quem não gosta dos atuais V6 híbridos poderá ver e rever o filme quantas vezes quiser…

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